O “golpe baixo” de “Garapa”: mosca na cara das crianças
Comentei sobre “Garapa” com um importante e respeitado nome do cinema brasileiro. Ele não havia visto o filme ainda, quando conversamos, e começou a me fazer perguntas. Eu disse que não gostei da forma como José Padilha apresenta o problema central – a fome no sertão do Ceará e na periferia de Fortaleza. O cineasta quer obrigar o espectador a se sensibilizar com o drama – é preciso sentir a fome, acredita ele, para entendê-la.
Para isso, Padilha acompanha a rotina de três famílias miseráveis, sem dinheiro nem comida, cujas mães alimentam suas crianças com um composto de água e açúcar (a “garapa”), enquanto os pais, sem trabalho, passam o dia a toa. Padilha, contei, mostra esta rotina em detalhes, com a câmera em close e imagens em preto e branco, num esforço de chocar o espectador.
Foi nessa hora que o meu interlocutor perguntou: “Aparece mosca na cara das crianças?”. E eu: “O tempo todo. Moscas e mosquitos não saem dos rostos das crianças filmadas”. E ele: “Então não dá. Esse é golpe mais baixo que existe”.
Na visão de alguns críticos, os recursos que Padilha mobiliza para expor a fome são “polêmicos”. Acho mais que isso: vejo um problema ético envolvido nesta produção. A certa altura do filme, Padilha oferece uma aspirina para um personagem que está com dor de dente. Ele informa que o analgésico não vai resolver o problema, apenas atenuar a dor. Podemos falar a mesma coisa do seu filme.
O texto que escrevi em março, sob o impacto da sessão que assisti, foi publicado no Último Segundo e está aqui. “Garapa” estréia nesta sexta-feira em grande circuito.
Em tempo (atualizado às 16h50): Meu amigo Ricardo Kotscho, cujo blog é vizinho ao meu aqui no iG, me informa: “O Padilha me disse – e eu escrevi na reportagem que sairá na próxima edição da revista ‘Brasileiros’ - que toda a arrecadação gerada pelo filme será doada às famílias que nele aparecem.”
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: Garapa, José Padilha



Mosca é o que mais tem nas QUENTES cidades do Nordeste, seja numa comunidade pobre seja numa fazenda rica.
será que o Padilha teve a luz de tentar conscientizar essas pessoas sobre a necessidade e as virtudes de um controle de natalidade ? a fim de que , daqui prá frente, esses pobres atores coitados , não procriem em tanta quantidade ?
se nao gostou do filme,
vai la e descobre uma maneria de mobilizar todos nós, insensiveis q estamos, a resolver o problema entao.
criticou a vtd.
mas kd a solução?
O “golpe abaixo da linha da cintura” de Maurício Stycer.
Gostei da forma como o cineasta José Padilha mostra o que é passar fome em uma pequena parte do nordeste brasileiro. Ele não mostra o drama da fome, como muitos dizem por aí. Repito: ele mostra o que é passar fome. Drama quem faz somos nós quando assistimos ao filme ( ou documentário). Aquilo é uma tragédia anunciada – que vem de longas décadas, um crime contra a humanidade, uma luta pela sede de viver e muitas coisas além da nossa pequena imaginação sobre o que é passar fome, e que decorre de uma série de fatores que no momento não tenho a mínima vontade de debater neste espaço. Digo uma luta pela sede de viver já que naquele local aonde foi rodado o filme ( ou documentário) não se tem registro de suicídio por parte dos moradores daquela região. Em momento algum me senti obrigado pelo cineasta a sensibilizar-me com a situação de miséria absoluta em que vivem aquelas seres humanos. Tive, sim, inúmeras sensações, emoções, comoções, dor, raiva, constragimento por não fazer nada para minimizar aquilo e uma PEQUENINA COMPREENSÃO do que é a FOME. Confesso que não fiquei chocado, pois já vi coisas parecidas. E o que é pior, na vida real. Para entender a fome, é preciso senti-la. Acredita Padilha. Eu também acredito. Mas, sentir a fome através das “Artes” – no caso aí, o cinema – é suficiente para entendê-la? Acredito que não. Quem sente a fome através das “Artes” é quem faz “drama”. Padilha não fez “drama”. Sentir a fome é ficar sem comer. Tente, um dia, passar da hora de sua refeição habitual! Ah! Vai sentir a fome, mas “sabes que vai passar pois tens o que comer”. Lá é diferente!! O esforço do diretor Padilha é justamente este.
Pelo que sei, documentário – e acho a fita de Padilha, “Garapa”, um documentário – é feito, inclusive, de cenas reais. No tempo e no espaço, se assim quiserem. Como ignorar cenas interessantes e importantes em documentários sobre o Holocausto, Guerras Mundiais, Tráfico de Drogas e Pessoas, Máfias, Prostituição e tantos outros temas que afligem os seres humanos?
“Aparece mosca na cara das crianças?”. E eu: “O tempo todo. Moscas e mosquitos não saem dos rostos das crianças filmadas”. E ele: “Então não dá. Esse é golpe mais baixo que existe”. “Golpe baixo” seria – e olhe lá se seria – se o diretor Padilha filmasse atores interpretando esta cena. ” Golpe baixo” – do Estado e da sociedade – são as moscas e mosquitos que não saem dos rostos das crianças. “É muito mais que um problema ético”.
Para alguns, ou muitos ( não sei bem), é muito mais fácil gostar de documentários de entretenimento: Animais da África, Amazônia etc etc etc. Para outros, no entanto, é muito mais fácil polemizar com os SUPOSTOS recursos utilizados pelo documentarista Padilha do que entrar firme e objetivo na discussão sobre a fome no Brasil e no mundo. Os que gostam de entretenimento e os que gostam de polemizar com recursos cinematográficos caem fora da dicussão séria sobre a fome, pois, para eles, o debate é como… uma aspirina, um analgésico; não vai resolver nada mesmo…
De saco cheio da ‘estética da fome’ e de artistas cabeças que só sabem ficar mostrando desgraça, miséria, gente pobre, faminta, drogada, suja. Desde Glauber que já se esgotou os assuntos ‘fome e miséria no nordeste’ e ‘favelândias no sudeste’. Saudade de Fellini que mesmo sem orçamento mostrava coisas muito mais belas e engraçadas. Cineastas, teatro e cinema brasileiro é tudo uma merda, mambembe, pobre, feio, falido, mal feito. sempre foi.
Eu concordo com os comentários enviados por :
29/05/2009 – 16:19
Enviado por: Nivaldo
e
29/05/2009 – 17:41
Enviado por: Antonio Mazeto
E quanto ao texto >É um documentário oportunista e obviamente não assistirei a um filme desse estilo. É ridiculo explorar a miséria humana para autopromoção
Nós sabemos que muitas pessoas encontram o seu alimento em meio a dejetos de outro ou alguém ainda tem dúvida disso?
Nóssssssss vemos em cada esquina as pessoas se alimentando de objetos estragados, comidas sujasssssss e não precisamos de um documentário para isso
A verdade esta ai…DIARIAMENTE..nas esquinas e só não vê quem não quer.
Analgésicos quando a dor é crônica? Ah me poupe
Por isso a comédia ” Se eu fosse você” bateu record de audiência nas salas de cinema. Os brasileiros já estão cansados do modelo fome, pobreza e miséria nas telonas- tá na hora do cinema brasileiro se desprender desse conceito.
Estou cansado de críticas de cinéfilos que sustentam um falso conhecimento sobre a arte. Se a arte é a representação da realidade, segundo a mímeses de Aristóteles, o documentário de Padilha foi fiel a este conceito. Existem sim crianças pobres em todo o Brasil e no mundo, mas o documentário brasileiro provoca um “soco no estômago” dos falsos críticos de arte e dos pequenos burgueses da sociedade brasileira. Infelizmente, o brasileiro gosta é de historinhas com final feliz, de filmes como (Quero ser um milionário) que glamoriza a miséria e apresenta uma falsa estética da pobreza. O documentário de Padilha tem sim o seu valor como arte e alerta sobre o fato de que não precisamos de compaixão e sim de ação e vontade política. O que necessitamos é de parar de assistir as novelinhas com final feliz e se rebelar contra a inércia do estado e da elite que nunca saiu do poder neste país.
“..fazer chorar a classe média é fácil.”Realmente, principalmente se esta classe média, que se diz (de)formadora de opinião, tem sua opinião moldada/formada pelas novelas da globo, onde só é mostrado o politicamente correto. Vide esta “Caminho das Indias”, onde a miséria do País passa longe, e só vemos as maravilhas do consumo desta mesma classe!.
Quanto ao filme, ainda não o ví, mas o Padilha sem dúvida, pela sinopse que lí, deve ter pretendido mostrar as entranhas daquela região do Brasil, que muitas vezes é ingnorada pela mídia de massa. Mostrar a Belíngia que choca a nossa classe média, não agrada a todos! Aos nossos olhos, é muito melhor ver o sudeste com a Barra da Tijuca e seus neons em inglês, e os Shopping Centers, ou então as praias do nordeste e os hotéis de luxo para os turistas estrageiros, que à visão de uma família brasileira que bebe “Garapa” para sobreviver.
Dos inúmeros comentários contra e a favor da película, só posso lamentar que ainda estamos muito longe da realidade.
Enquanto não nos tornarmos mais críticos e participantes com relação as políticas públicas implementadas pelos governantes, ainda veremos em nosso País muito do que foi mostrado neste filme nas períferias das grandes cidades.
Pensem nisto.
Mauricio,
Ainda não assisti o filme (omissão da preposição é de propósito), mas pelo o que deu pra entender do seu texto é que o Padilha se esqueceu de que a arte tem que ser maior que a realidade. Obras de grandes artistas tem esta qualidade: Feios, sujos e malvados do Scolla, The lonesome death of Hattie Carrol do Dylan, só pra ficar em dois exemplos no cinema e na música, falam da tragédia sem deixarem de fora a poesia, a magia, a beleza, enfim. Tá certo que tal comparação é covardia com o diretor brasileiro, mas pelo jeito ele tá meio fora do caminho, nenão? Volto ao seu blog depois de assistir o filme (de novo sem a preposicao chata).
O Nosso Blogueiro e toda classe média brasileira gosta mesmo é de viajar pelo nordeste nesses pacotes turísticos em que eles escondem até AS MOSCAS do feliz turista.
O que diria o blogueiro “Mauricinho” Stycer sobre as obras de Francis Bacon!!!! Ah, acho que diria: Amo! Maravilhosas! Rss esses bloguiros, sei não, viu!