Jornalista de múltiplos talentos, boa de texto e de edição, Micheline Alves é também mãe da Luiza, uma menina de 12 anos, tão inteligente quanto bonita (ela vai morrer de vergonha quando ler isso, mas é verdade). Há alguns meses, Chele me contou o seu “drama”: Luiza queria porque queria ir ao show dos Jonas Brothers, programado para este domingo, 24 de maio. Esqueci do assunto até que, há uma semana, ela me deu a boa notícia – a Lu (nessa idade, todas as meninas se conhecem pela primeira sílaba do nome) desistiu do show. Pedi para Chele contar como isso aconteceu. É o que você vai ler no saborosíssimo texto abaixo:
DOMINGO SEM JONAS BROTHERS
Micheline Alves
“Mas mãe, eu amo o Nick”. Eu, àquela altura, não fazia a mais vaga ideia de quem era o Nick. Hoje eu sei que ele é o caçula do trio que qualquer pessoa que tenha televisão, radio FM, Internet ou simplesmente um adolescente em casa já ouviu: o Jonas Brothers. Há cerca de um ano eu convivo relativamente bem com isso – a história de amor entre Nick Jonas, 17 anos, e minha única filha, de 12. Vi quando ela vibrou ao conseguir ingressos para a pré-estréia de “Camp Rock”, o seriado do Disney Channel estrelado por eles, os três Jonas. Colaborei com a inscrição no concurso que levaria uma felizarda a Vermont para conhecê-los pessoalmente (a sorteada foi outra).
Vi o dinheiro do lanche ser transformado algumas vezes em revistas-pôster. Vi os pôsteres serem grudados na parede do quarto. Respirei aliviada ao constatar que Nick era o irmão que usava os cabelos cacheados, ao natural, e não aquele que os mantém lisíssimos com a ajuda de uma chapinha (esse é o Joe. Ufa). Não dei importância ao fato de eles serem republicanos, eleitores de Bush, de família religiosa e usarem um “anel de pureza” que garante que se manterão virgens até o casamento. Cheguei a decorar versos como “I find my paradise/ When you look me in the eyes”. Mais do que isso, cheguei a cantá-los com gosto no trajeto entre nossa casa e a escola.
E então veio a notícia: os Jonas viriam ao Brasil. O show em São Paulo seria no Morumbi. Domingo, 24 de maio. Ingressos entre 200 e inacreditáveis 600 reais. A campanha foi pesada. “Mãe, a gente teeeeem que ir!”. Afinal, eles são o máximo. Afinal, o Nick é lindo. Afinal, a Li, a Ma, a Ca e mais uma dúzia de amigas com nomes de sílabas iriam também. “Mãe, pelo amor de Deus!”.
Pelo amor de Deus digo eu. Me fazer ir a um estádio de futebol para ficar na ponta dos pés tentando enxergar um pedaço de telão a quilômetros de distância (do alto de meu 1,62m, ver o palco tem se provado um sonho difícil de realizar em megashows), acho que nem o Stevie Wonder conseguiria. Hmmm, ok, pode ser que o Stevie consiga. Mas aqui entramos em uma seara óbvia para mim, mas absolutamente sem sentido para minha filha: qualidade musical. Quem se importa com isso?
Para minha filha tanto faz se o som é bom, se eles conhecem mais de três acordes na guitarra, se desafinam, se estão dublando. Aliás, tanto faz se vai ser possível enxergar alguma coisa – o que importa, ela me disse, é estar no mesmo ambiente em que o Nick está. Mesmo que o ambiente tenha mais algumas dezenas de milhares de garotas à beira de um ataque de nervos.
Então me lembrei de uns 25 anos atrás, quando um certo quinteto porto-riquenho chamado Menudo esteve no Brasil para se apresentar no mesmíssimo Morumbi e eu tive de amargar a decisão peremptória, irrevogável da minha mãe: nem pensar. Era caro demais, era perigoso – “morre gente pisoteada nesse tipo de show, você sabia?”.
Não cheguei tão longe na minha argumentação, mas gostei de lembrar do episódio. Principalmente, de lembrar que a vida seguiu normal e feliz apesar da desfeita, algo que os pais de hoje parecem nunca lembrar. A impressão que se tem é a de que se receberem um não como resposta, as crianças ficarão eternamente traumatizadas. Será possível sobreviver a tamanha desilusão? Give me a break, como diria o pai do Nick.
Resolvi ir adiante e levantei a questão do dinheiro. “Filha, pense em quanta coisa dá pra fazer nas férias com esses 300 reais (os 200 do meu ingresso mais os 100 da meia entrada dela, isso se a gente ficasse no pior lugar do show)?”. Ótima surpresa: ela ponderou. De fato, é uma grana legal para gastar nas férias.
A sorte deu mais um empurrãozinho quando surgiu o convite para a festa de uma grande amiga no mesmo dia do show. E então, nesta semana, veio o sinal definitivo de que o reinado dos irmãos Jonas pode estar com os dias contados – pelo menos nas paredes lá de casa. Diante do programa de videoclipes, eu e ela deitadas no sofá em frente à TV, ouvi a frase redentora: “Acho que estou gostando mais do McFly. Quer saber? Eu já nem amo o Nick tanto assim”. Então pronto: quando o Stevie voltar ao Brasil, a gente vai junto.