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29/04/2009 - 11:44

Crônica: O taxista e o cliente bêbado discutem no 4º DP

O famoso 4º DP, próximo à rua Augusta, centro de São Paulo, está lotado. Quase meia-noite de terça-feira. À porta, jornalistas e cinegrafistas aguardam o cantor-vereador Agnaldo Timóteo, que está lá dentro registrando um Boletim de Ocorrência, sobre o roubo de seu apartamento, ocorrido horas antes.

Na fila, esperando atendimento, vítimas variadas. Um casal, acompanhado de dois amigos, espera para fazer o BO de um furto de automóvel, que deu-se dentro de um estacionamento pago. Duas moças chegam, acompanhadas de um policial militar, para registrar o assalto que foram vítimas ali perto.

Sou recebido com cordialidade por um plantonista. Explico meu problema (furto de automóvel), ele faz algumas perguntas, observa que “todo dia tem um” na região e me orienta a aguardar. Sou o quarto na fila.

O quarto? É, havia mais um caso – um desentendimento, aparentemente, entre dois homens, que prosseguia dentro da delegacia. Um dos homens, vamos chamá-lo de Pedro, está nitidamente bêbado; o outro, Paulo, não consegue esconder a sua irritação. Paulo pede: “Me dá o telefone da sua mulher ou de alguém da sua família”. Pedro, bêbado, balbucia um número. Paulo liga e não consegue falar com ninguém. Um PM observa a cena sem dizer nada.

Um policial civil se aproxima e pede um documento a Pedro. Sem reclamar, o homem entrega a sua carteira de identidade. Nisso, chega uma mulher, policial, e tenta intervir. Finalmente, entendo qual é o problema. Ela: “Qual foi o valor da corrida?” Paulo: “R$ 40. Mas o taxímetro ainda está correndo”. Ela, dirigindo-se a Pedro: “ E o senhor não vai pagar?”. Pedro: “Eu falei pra ele que amanhã eu pago.” Paulo: “Eu não conheço ele, não sei onde ele mora e a cada hora ele fala uma coisa diferente pra mim”.

O plantonista da delegacia entra na discussão e diz a Pedro: “Como o senhor está bêbado, se não pagar, vamos ter que esperar até amanhã de manhã para resolver esse problema.” E Pedro, repetindo o seu mantra: “Amanhã eu vou pagar”.

Para demonstrar como Pedro não é confiável, Paulo diz: “Onde está a sua mulher?” E Pedro: “Não importa. Amanhã eu lhe pago, já disse.” “Viu?”, diz Paulo, dirigindo-se aos dois policiais. “Ele não quer me dizer onde está a mulher dele.”

Pedro reconhece que tem a dívida e admite que está bêbado, mas o grande momento da noite é seu. Ele vira-se para o taxista e pergunta: “Onde está a sua mulher?” Desconcertado com a pergunta, Paulo diz: “Não te interessa.” E Pedro arremata: “Viu? Também não te interessa onde está a minha mulher.”

Estava, confesso, me divertindo com a desgraça alheia – afinal, o taxista foi lesado e estava em busca de seus direitos. Por mim, passaria a noite inteira ali aguardando o desfecho do caso, mas o plantonista do 4º DP, sempre muito educado, voltou a se aproximar de mim, ouviu novamente qual era o meu problema e recomendou que eu fosse tentar registrar o meu BO em outro delegacia, ou pela Internet. O que eu fiz.

Apesar da chateação que tive, a discussão no 4º DP não deixou que a minha noite fosse um completo desastre.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Crônica Tags: ,

18 comentários para “Crônica: O taxista e o cliente bêbado discutem no 4º DP”

  1. EDSONNASCIMENTO disse:

    ” DIGA-ME COM QUEM TU ANDAS, E EU TE DIREI QUEM TU ÉS ”
    AGNALDO TIMÓTEO AFIRMOU QUEM ASSALTOU SEU APARTAMENTO JÁ CONHECIA O AMBIENTE, OU SEJA, ALGUM CONHECIDO SEU. PORTANTO, ESTA FRASE DEFINI BEM OS TIPOS QUE LA FREQUENTAM.

  2. Vando disse:

    Trabalho em um órgão público no período noturno, e é comum pelo menos duas vezes por semana ir até esse DP durante a madrugada. já presenciei cadas istórias que parece mais divertida que uma comédia teatral.
    Ex.: um “homem” foi registrar o furto de seu veículo, mas enquanto aguardava atendimento, chega o acusado do furto. Ambos do sexo “masculino” porém, o acusado disse que só devolveria o veículo após o pagamento do servíço prestado, o outro disse: não pago porque você não usou camisinha como combinamos…. ísso é apenas a introdução da história.
    concordo com você, é muito engraçado.

  3. fabricio de melo marques disse:

    muito boa a sua reportagem, principalmente pelo senço de humor. o nosso cotidiano esta se transformando em uma grande piada a cada dia que passa um dia são as passagens dos deputados sabidos no outro o bebado que não quer pagar a corrida de taxi, onde iremos parrar, depende do amigo deputado e quantas passagens ele irá liberar para …

  4. Rapaz, quando fui obrigado a ir (poucas vezes) a uma DP, já ficava receioso de ser questionado por que eu deixei acontecer tal coisa. Se eu respondesse que o meu cérebro não estava acostumado a me transmitir coisas do porvir (premonição), o atendente me diria o seguinte: ” Não chateia com esse palavrão, senão vou fazer com que o teu cérebro acorde mais tarde e te diga aonde achar o dito cujo que te fez isso. Isso o que?, pergunto. …”O olho rôxo que te conduzirá para o teu barraco”… O que fazer? O que me restaria seria respeitar o nosso empregado e ir para o barraco. E os politicos, hein?……
    RF

  5. joao santos disse:

    ladrao que rouba ladrao, tem cem anos de perdao

  6. Ricardão disse:

    Uma “istória” sem muito “senço” de humor, afinal “herrar é umano”, não é mesmo? E se o c. do bêbado não tem dono, pelo menos a mulher dele tem.

  7. tine disse:

    Excelente crônica do cotidiano!
    Hilário e lamentável – o episódio narrado e os erros crassos de português de quem comenta então – dá pena.

  8. Alicinha disse:

    Ricardão, perfeito o seu comentário.
    E com as palavras entre aspas…
    Sensacional!

  9. para ricardao disse:

    Nao sei, as vezes eu fico meio “receioso”, isso “defini” bem o que vc quer dizer…E não é “istória” e sim “cadas istórias”,

  10. Roberto Fonseca disse:

    Espero que seja uma brincadeira, embora de mal gosto, esses erros crassos de Português. Caso sejam reais, limparei os meus olhos de coruja colorida e pedirei ao Rui Barbosa que se levante donde se encontra e dê um chute nas “almofadas” desses caras, para fazê-los entender que devem comprar um dicionário de Português. Se não souberem ler o mesmo, peçam a alguém letrado que os oriente. Desse jeito vou “drumi”. Assim não dá!!!(lembram-se dessa frase pronunciada por um “sociólogo?).

    RF

  11. MARCELO disse:

    COMO É QUE SE JULGA TODA UMA CATEGORIA DESSA MANEIRA?!! CLASSIFICANDO TODOS COMO LADRÃO!!! PRIMEIRO,SE ESTA BESTA HUMANA ( JOÃO SANTOS ) NÃO LEU DIREITO,O CARA NÃO ERA LADRÃO ESTAVA BÊBADO.MUITO MENOS O TAXISTA,QUE ESTAVA TRABALHANDO HONESTAMENTE.FICA A PERGUNTA: QUAL A PROFISSÃO DESSE BOSTA?! DEVE SER UM TAXISTA LADRÃO!

  12. Mamão disse:

    Quem seria “o mesmo” , Roberto Fonseca ?

    As pessoas adoram corrigir, mas para tal, precisam saber do que estão falando.

    “O mesmo” não existe. Tente substituir simplismente por “ele” ou sinônimos.

    Está dada a dica

  13. Valterzão disse:

    Para o Ricardão.
    Cara, vc teve uma tirada ótima.. ri mais c/ seu comentário do que com a própria história.

  14. Paulo V disse:

    Que tipo de crônica e essa,como isso termina,ele pagou a corrida,e onde estava a mulher dele.
    Qual a finalidade de um texto como esse?

  15. Rafael disse:

    O “mal gosto” de alguns e o preconceito de outros tantos…
    O dicionário de alguns talvez não contenha a distinção entre bem e bom, mau e mal.

    Bom, mas como gosto e outras coisas, cada um tem o seu…..menos o bêbado!

  16. BuBa disse:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    Excelenteeeeeeeeee crônica
    É a vidaaaaaaaaaa

  17. bianca disse:

    levaram seu carro, rapaz? caramba! e vai registrar o roubo bem no dia em que o seu agnaldo é assaltado… afe… bela história, bêbado é sempre MUITO engraçado, noves fora, claro, o prejuízo do taxista, coitado… e nem dá pra argumentar, né, com quem bebe…

  18. Maria Souza disse:

    Que bom que temos cronistas que mostram a vida cotidiana bem detalhada a partir de uma simples observação. Adorei a crônica do taxicista, pois apesar de ser polêmica é bem irônica e até engraçada.

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