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03/04/2009 - 13:54

Entrevista é arte? Ou técnica? Ou sorte?

Essa é para os jornalistas, profissionais e estudantes, que eventualmente passam por aqui. A entrevista é uma arte? Ou uma técnica? Ou uma combinação dos dois? Há vários aspectos em jogo numa entrevista e não será aqui que você ouvirá uma aula sobre o assunto. Mas, ao comentar duas entrevistas que fiz esta semana, gostaria de refletir um pouco sobre questões ligadas a este ofício.

Primeiro, quero fazer uma defesa da entrevista por e-mail. Técnica relativamente nova, usada há não mais que 15 anos, a entrevista por e-mail não substitui, evidentemente, a entrevista cara a cara, mas pode ser muito útil. Primeiro, em situações nas quais o entrevistado mostra-se reticente em conversar com o jornalista. Para quebrar o gelo, eventualmente, aceito enviar as minhas perguntas por e-mail, desde que eu tenha o direito de fazer novas perguntas depois que as respostas forem enviadas.

Também recorro a entrevistas por e-mail quando o tema central é uma discussão de ideias, o que ocorre, com frequência, na área cultural. A entrevista por e-mail deixa o entrevistado à vontade para pensar com calma antes de responder e, normalmente, produz reflexões ricas – eventualmente mais ricas do que na situação cara a cara. Perde-se o contato com a fonte, importante fonte de informações, mas ganha-se em densidade.

É o que eu acho que ocorreu na entrevista com o jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, a propósito de seu novo livro, o romance “Elza, a Garota”, no qual ele relata a história da jovem militante do PCB, na década de 30, morta a mando do partido por suspeita de traição.

Qualquer estudante de primeiro ano sabe que, independente do formato da entrevista (pessoal, por telefone, por e-mail), é obrigatório ter uma espécie de roteiro em mãos, com as perguntas (ou temas, ao menos) a serem colocadas.  Mas, tão importante quanto, é estar preparado para as situações que fogem ao previsto. E aí, não há muito o que ensinar – é preciso jogo de cintura, sagacidade, conhecimento e sorte.

Na última terça-feira entrevistei o cineasta Eduardo Coutinho. O tema da entrevista era o seu mais recente filme, “Moscou”, no qual ele documenta o trabalho do grupo Galpão, durante três semanas, ensaiando a peça “As Três Irmãs”, de Tchecov, sob a direção de Enrique Diaz. O meu dever de casa consistiu em assistir o filme três dias antes, reler a peça e pesquisar informações sobre o trabalho do Galpão e de Diaz.
 
Diante de Coutinho, antes de fazer a primeira pergunta que preparei, observei em voz alta, logo depois de anotar no meu caderninho, que estávamos no dia 31 de março, 45º aniversário do golpe militar de 1964. Coutinho olhou para mim e disse: “E também 25 anos da primeira sessão de ‘Cabra Marcado para Morrer’”. Eu reagi com um “ah, é?”, dando início a uma longa conversa sobre a história de seu filme mais importante, ao longo da qual Coutinho me contou alguns episódios inéditos e também bastidores do programa “Globo Repórter”, onde ele trabalhava na ocasião.

Para minha sorte, eu havia assistido à primeira sessão oficial de “Cabra”, em novembro de 1984, no FestRio. Também conhecia, por acompanhar a área, a maioria dos personagens e eventos citados por Coutinho, de maneira que consegui acompanhar o seu relato e, eventualmente, interrompê-lo com perguntas e pedidos de esclarecimento. Enfim, resultou, na minha opinião, numa entrevista que guardarei com orgulho.

Depois de quase meia hora (eu tinha direito a 40 minutos), interrompi Coutinho e disse que devíamos falar sobre “Moscou”. Começamos então o que poderia chamar de uma nova entrevista, sobre o seu mais recente filme. Ao cabo de 50 minutos de conversa, eu tinha duas entrevistas no meu gravador – motivo pelo qual optei em simplesmente editá-las assim, em duas partes.    
 
O resultado da entrevista sobre “Moscou” pode ser lido aqui  e a conversa sobre “Cabra Marcado para Morrer” está aqui.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura, jornalismo Tags: , , , , , , ,

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7 comentários para “Entrevista é arte? Ou técnica? Ou sorte?”

  1. josé paulo kupfer disse:

    Mauricio,

    Eu tendo a achar (atenção, não acho, apenas acho que acho) que a entrevista é mesmo um misto de arte, técnica e sorte, Tendo a achar também que, além disso, entra na mistura uma noção de que a transcrição e a edição de uma entrevista se alinham num gênero entre a língua falada e a escrita – nem uma, nem a outra.

    Tudo somado, eu tendo a achar que a entrevista pra valer mesmo é a cara a cara, Aqui entra o ambiente, as mensagens não verbais e, acima de tudo, a possibilidade de o entrevistador não se convencer da resposta, retrucar, insistir.

    No email, não dá pra insistir. Concordo que serve para alguns propósitos, mas o gênero jornalístico da entrevista pede mais do que respostas calmamente refletidas. Pode ser bom, útil, mas será sempre meio burocrático. Imagina se a entrevista com o Eduardo Coutinho fosse por email: ele escreveria, no fim de alguma resposta sobre Moscou, que agora era o 25o. ano de “Cabra marcado”. E toda a riqueza que você mesmo transformou em entrevista continuaria ali quietinha…

    Eu tendo a achar mesmo que, pelo menos melhor do que o email é o telefone. E agora, com o skype, pode até ter um pouco de “presença”, caso se conte com uma webcam nas duas pontas ou, pelo menos, na ponta do entrevistado.

    Ainda não será como no cara a cara, mas chegará mais perto e será melhor do que o email.

    De todo modo, na minha opinião – e aí é uma convicção minha – o entrevistador tem de anunciar qual a modalidade de entrevista que fez.

    Abrs.

    Resposta do Mauricio:
    Zé Paulo, obrigado pelo seu generoso comentário. Muito boa a lembrança do Skype. É realmente uma ótima alternativa. Reconheço que a questão da entrevista por e-mail é polêmica, motivo pelo qual escrevi essa nota. E, claro, concordo com vc que é obrigatório mencionar a modalidade em que foi feita a entrevista.

  2. Mauricio,

    Gostei da sua colocação sobre a entrevista via e-mail, porque isso remete à credibilidade do que se faz via internet.

    Infelizmente, ainda tem muita gente que ainda pensa que as coisas só são válidas quando feitas “cara a cara”, e eu penso que nos dias de hoje não podemos mais ignorar as possibilidades abertas pela tecnologia.

    Como também trabalho para um site de notícias, ouço muito das pessoas: “Ah, mas você (também) é jornalista?”, como se a internet não demandasse recursos do jornalismo para existir.

    Enfim, por mim, dá para fazer bom jornalismo em entrevista via e-mail, presencial, skype, telefone….vamos abrir possibilidades…

  3. João disse:

    Cara, concordo contigo em relação a entrevistas por e-mail feitas na seara do jornalismo cultural.

    Mas tenho enormes restrições quando elas são feitas em jornalismo político, ou em situações de denúncia em geral.

    Primeiro, pelo o que você mesmo já colocou _não conhecer pessoalmente o entrevistado, não poder arrancar dele frases impensadas etc. Mas principalmente porque quando você faz a entrevista por e-mail, não pode ter certeza absoluta que quem está respondendo é de fato a pessoa.

    Pode parecer precaução excessiva, mas a lei ainda não diz expressamente que o e-mail é um documento, assim como os provedores não têm ainda um cadastro legal para seus endereços. Daí para um processo, basta um pouco de esperteza
    e sacanagem.

  4. Bianca disse:

    mas muuuuito mais interessante, não???

  5. Buba disse:

    Ola Mauricio.
    A entrevista é mesmo um misto de arte, técnica e sorte.
    Eu acho perigosa a entrevista por email.
    Quem garante que é a pessoa?
    massssssss* existe o skype que pode ser usado com a webcam .
    Eu não sou estudante ou jornalista mas gosto do teu blog .

  6. Bruno Prada disse:

    E???

  7. Felipe Gladiador disse:

    Maurício, sou um grande fã do seu blog. Você tem uma incrível facilidade pra me fazer ligar o computador e achar o endereço do blog HAHAHAHAHA
    Sou estudante de jornalismo e a entrevista (pra mim) é sim resultado de certa preparação, mas é também saber se deixar envolver, não se limitar (se o tempo permitir, claro) a seguir um roteiro pré estabelecido. Meu professor da faculdade, Celso Unzelte, diz que ‘não adianta usar uma viseira que limite seu olhar quando você sai pra fazer uma matéria’.
    Parabéns pelo seu trabalho^^

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