Palco de alguns debates acalorados, este blog vem tentando, por meio das provocações lançadas aqui, discutir algumas idéias e fugir do lugar comum. Na semana que passou, este espaço encontrou uma finalidade ainda mais nobre – acolheu uma polêmica entre dois jornalistas qualificados, sobre um tema que rende muito bate-boca em mesa de bar, mas pouco debate sério: futebol.
Tudo começou com uma resenha que escrevi no iG Esporte sobre “Os 11 Maiores Técnicos do Futebol Brasileiro”, de Maurício Noriega. No livro, o comentarista do SporTV apresenta e defende a sua seleção, formada por Oswaldo Brandão, Bela Gutman, Vicente Feola, Lula, Zagallo, Minelli, Ênio Andrade, Telê Santana, Luxemburgo, Felipão e Muricy.
Noriega definiu o ano de 1958 como marco inicial do que ele chama de “futebol brasileiro moderno e maior de idade”. Também adotou como critério na escolha dos onze “o número de conquistas, o impacto no futebol de sua época, as inovações criadas”.
Como muitos outros leitores, o jornalista José Paulo Kupfer, chefe de redação do Departamento de Jornalismo da TV Gazeta e colega de blog aqui no iG, não gostou da lista de Noriega e postou um comentário crítico, mas também ácido, no meu blog. Segundo Kupfer, Noriega “dá a impressão que viu pouco futebol e leu muito menos sobre o assunto”.
Além de Elba de Pádua Lima, o Tim, muito citado pelos leitores como uma ausência notável no livro, Kupfer também lamentou a não inclusão de Zezé Moreira, Gentil Cardoso e Flavio Costa. Criticou, ainda, o critério temporal adotado: “Passar uma linha antes de 1958 é mais do que arbitrário. O futebol brasileiro não começou ali. Por óbvio, chegou ao cume ali. Como chegou lá?”, perguntou. Por esse motivo, Kupfer chegou a escrever que a lista de Noriega presta um “desserviço” aos jovens que possam se interessar pela história do futebol brasileiro.
Noriega entrou no blog para responder a estas críticas. Observou que, ao longo de sua carreira leu muito sobre futebol e também teve a oportunidade de aprender in loco, assistindo “treinos do Brandão, do Telê, do Luxemburgo no Bragantino, do Felipão no Grêmio, o Muricy treinando o Expressinho”, entre outras experiências acumuladas.
Noriega observou ainda que não pretendeu fazer um livro de história do futebol, mas “um livro de opinião baseado em pesquisa e, aí sim, em muita entrevista com gente que jogou com e ou foi comandada pelos 11 perfilados”
Naturalmente, o jornalista ofendeu-se com a crítica que o livro presta “um desserviço”: “Goste-se ou não do livro é um direito, agora chamar de desserviço é outra história.” E ironizou: “Desde que com respeito e argumento, aceito toda crítica. Pode achar a lista fraca, ruim, um lixo. Mas talvez seja aquele velho ranço, ele de novo. Essa molecada pensa que é quem? No meu tempo é que era bom, que o futebol era bem jogado, hoje é tudo um lixo, uma porcaria. Bom era fulano, esses de hoje não jogam nada, os técnicos não sabem nada.”
Kupfer voltou ao blog, primeiro, para se desculpar com Noriega pelas duas críticas mais pesadas que fez ao autor de “Os 11 Maiores Técnicos do Futebol Brasileiro”. Elegante, observou: “O Mauricio Noriega tem razão de ficar magoado com o meu comentário. (…) Assim, por seu intermédio, peço desculpas. E espero que ele entenda que o pedido é público e sincero.”
Depois de limpar a área, e fazer alguns esclarecimentos sobre a maneira como enxerga o jornalismo esportivo, Kupfer, porém, voltou ao debate sobre o livro. “A lista do Noriega é muito paulista e muito focada em técnicos em atuação no momento”, escreveu. “Pensando bem, talvez o que esteja pegando não seja a lista, mas o título dela. ‘Os 11 maiores técnicos do futebol brasileiro’ é uma coisa. ‘Os 11 maiores técnicos que passaram pelo futebol paulista nos últimos anos, com algumas exceções de outros tempos’ é outra”, ironizou.
Num outro comentário, Kupfer aproveita para relembrar os seus tempos de jornalista esportivo, na equipe comandada por João Máximo no “Correio da Manhã”, no final da década de 60, ao lado de outros jovens talentos, como José Trajano, Fernando Calazans e Marcio Guedes. Também se recorda de seus tempos em “O Globo”, onde conviveu com Nelson Rodrigues, “que ocupava uma mesa vizinha à minha, e de quem bebia as histórias e as frases maravilhosas, com o bônus de celebrar as vitórias e chorar as derrotas do nosso Fluminense.”
Noriega voltou, então, ao blog para um último comentário. Também pediu desculpas a Kupfer pelos exageros que cometeu em sua resposta e para o fato de ter chamado o seu oponente de “economista”. Sem entrar no mérito das críticas de Kupfer, Noriega apenas falou do seu respeito pelos jornalistas da geração passada. “Como sou filho de um grande jornalista da geração do Orlando Duarte, Luiz Noriega, que com o Orlando comandou uma equipe fantástica na TV Cultura, jamais desrespeitaria alguém do passado, porque eles pavimentaram o caminho que hoje eu trilho, e o fizeram de maneira brilhante”.
Quem quiser ler a polêmica na íntegra, basta acessar o post onde o debate foi travado e ir à área de comentários .