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Arquivo de março, 2009

31/03/2009 - 12:56

BBB9 – Globo se recusa a esclarecer dúvida sobre votação

Pela segunda vez neste BBB, os resultados das enquetes realizadas por diferentes sites, inclusive o iG, foram muito diferentes do placar final de um paredão. A primeira vez que isso ocorreu, na disputa entre Ana e Ralf, as enquetes apontavam uma disputa apertadíssima (com vitória de um ou de outro, dependendo do site), mas o placar oficial, anunciado pela Globo, mostrou uma vitória tranqüila de Ana.

O mesmo fenômeno repetiu-se neste domingo. Enquanto as enquetes sugeriam que a disputa estava acirrada entre Ana e Josy, o resultado final indicou novamente uma vitória folgada de Ana.

Embora as enquetes de Internet não tenham valor científico, porque indicam a preferência apenas daqueles que querem votar, e não do conjunto da população, elas têm sido um indicador confiável dos humores do público que assiste o BBB.

Por esse motivo, os dois paredões vencidos por Ana provocaram tantas reclamações, tanto nos comentários dos leitores aqui no iG e em outros sites, quanto diretamente junto à Rede Globo. A emissora, em notícia publicada nesta terça-feira pela Agência JB, não comenta os resultados das enquetes. Apenas esclarece que os votos são recebidos por três plataformas diferentes: telefone, SMS (o popular torpedo) e Internet.

Segundo a Globo, cada plataforma tem um peso diferente na contabilização dos votos, mas não revela qual é o peso de cada uma. “A ponderação dos votos é usada para garantir a representatividade estatística das três diferentes plataformas de votação”, disse a assessoria de comunicação da emissora à Agência JB. É exatamente, sem tirar nem por, a mesma resposta que a Globo deu ao site especial do iG em 17 de fevereiro.

Repito a minha opinião, que expressei na ocasião da polêmica sobre a eliminação de Ralf: “Em nome da transparência e da credibilidade do programa, seria interessante o público ser informado. Do contrário, restará a suspeita (não a primeira, diga-se) de que os resultados do BBB são manipulados.”

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): televisão Tags: , , , , , , , ,
31/03/2009 - 10:33

EUA entram na disputa para sede da Copa de 2018 ou 2022

Está menos longe do que parece. As candidaturas dos países que desejam abrigar as Copas do Mundo de 2018 e 2022 devem ser apresentadas ainda este ano e a decisão da FIFA será anunciada conjuntamente no ano que vem. Como a Copa de 2010 será na África do Sul e a de 2014 está programada para o Brasil, presume-se que o torneio de 2018 será disputado no Hemisfério Norte, mais precisamente na Europa.

A Inglaterra é uma candidata já declarada a sediar a Copa de 2018. Holanda e Bélgica, que planejavam propor uma candidatura em conjunto, assim como Espanha e Portugal, não contam com a simpatia do presidente da FIFA, Joseph Blatter, que já disse preferir que a Copa seja realizada em um único país.

Se, tudo indica, a Copa de 2018 será mesmo disputada na Europa, as apostas seguem abertas para a Copa de 2022. A candidatura mais conhecida, até o momento, é da Austrália. A favor do país, com pouquíssima tradição futebolística, pesa o fato de a Oceania jamais ter sido sede do evento. Também já se mencionou o interesse do Qatar, Indonésia e Japão em abrigarem a Copa.

Nesta semana, os Estados Unidos confirmaram o seu interesse e entraram abertamente na disputa. O ex-secretário de Estado (equivalente ao cargo de ministro das Relações Exteriores) Henry Kissinger assumiu o posto de “embaixador” da candidatura numa entrevista à imprensa americana. Kissinger terá 99 anos em 2022 e, por isso, bem-humorado, disse que terá “obrigação moral” de estar vivo até lá. 

A candidatura americana tem peso, naturalmente, em função do poder econômico do país, do esforço que vêm fazendo para popularizar o esporte e do sucesso que o futebol encontrou entre as mulheres. Por outro lado, os EUA abrigaram a Copa há relativamente pouco tempo, em 1994 – e foi um evento que despertou muito pouco interesse dentro do próprio país. O futebol ainda está longe de ser um esporte popular nos EUA. 

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte Tags: , , , , , , , , , ,
30/03/2009 - 11:55

Música nova de Bob Dylan na rede. Oficial e grátis

Para quem gosta de Bob Dylan, o site do músico é uma maravilha – um dos mais completos que conheço, com 52 álbuns disponíveis para audição, ao lado da transcrição, mediante um clique, das (complicadas) letras de cada canção.

Mais importante, talvez, conta com uma incrível ferramenta que permite pesquisar por meio de palavras-chave no conjunto da obra do compositor. Coloque, por exemplo, a palavra “hurricane” na busca e o site informará que ela aparece não apenas na genial canção “Hurricane”, mas também em “Jokerman”, “Man in the Long Black Coat” e “When the Ship Comes In”.

De uns anos para cá, Bob Dylan passou a usar a Internet, também, como ferramenta de marketing. Às vésperas do lançamento de um novo CD, “Togheter Through Life”, previsto para 28 de abril, o músico colocou o primeiro single do disco à disposição dos fãs para download grátis. Ao longo desta segunda-feira, é possível baixar, direto do site, a canção “Beyond Here Lies Nothin”. Entre na home e clique. Aproveite a visita e, se não conhece, navegue pelo site. Vale a pena.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , ,
30/03/2009 - 11:07

Sobre títulos de revista: “Serrote” ou “Maranhão”?

Revista nova na praça, “Serrote” tem nome inspirado na obra do poeta Murilo Mendes, autor de um livro de memórias intitulado “A Idade do Serrote” e de um divertido poema chamado “Serrote” (incluído em “Poliedro”), no qual a ferramenta é descrita de forma terrível – só menos ameaçadora que a bomba atômica.

A escolha de “Serrote” foi meio aleatória, orientada mais pelo estranhamento que causa o título do que por algum sentido que possa sugerir. Antes de se decidir por “Serrote”, conta Matinas Suzuki Jr., os editores da revista se divertiam dizendo que ela se chamaria “Maranhão”. Uma brincadeira do jornalista Marcos Augusto Gonçalves com o título (tão aleatório quanto) da revista “Piauí”, cujo editor, João Moreira Salles, é um dos diretores do Instituto Moreira Salles, onde “Serrote” nasceu.

Abaixo, reproduzo o poema “Serrote”, de Murilo Mendes (1901-1975). Uma reportagem sobre a revista “Serrote” foi publicada nesta segunda-feira no Último Segundo, o jornal do iG, e pode ser lida aqui  .

Serrote
Tremo quando examino o serrote.
Acho angustiante a música dentada do serrote, rangendo, pai de Antonin Artaud, cuja mãe é
uma das Górgones.
Para libertar-me do serrote compus um drama mínimo sobre.
DRAMATIS PERSONAE:
O SERROTE;
EU PRÓPRIO, DE BINÓCULO E LUVAS PRETAS.
CENÁRIO: UM QUALQUER.
TEMPO DE AÇÃO: 1910 – 1965
ESPAÇO DA AÇÃO: JUIZ DE FORA – RIO – ROMA.
Aproximo-me bastante do serrote, calço as luvas, entrego-lhe o texto menor do mundo:
AI!
Fora o serrote. Ainda assim prefiro-o à bomba atômica. Se bem que terrível não ameaça nem
troveja. Além disto não há serrotes “limpos” ou “sujos”, americanos, russos ou chineses.
Todos são internacionais.
(Acabarei elogiando o serrote)
Serrote, caixinha de música dos nazistas.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): jornalismo Tags: , , , , ,
28/03/2009 - 16:55

Anatomia de Glauber Rocha e de “A Idade da Terra”

Último filme que realizou, “A Idade da Terra” é um épico que sintetiza bem as ambições estéticas e políticas de Glauber Rocha (1939-1981), bem como ajuda a compreender a sua derrocada pessoal.

Não à toa, o documentário “Anabazys”, de Joel Pizzini e Paloma Rocha (filha do cineasta), em cartaz em São Paulo, busca reconstituir a história por trás do filme – começando pela luta de Glauber por financiamento, detendo-se nas caóticas filmagens ao longo de dois anos (1978-80) e concluindo com a polêmica exibição de “A Idade da Terra” no Festival de Veneza, em agosto de 1980.

Depois de ouvir críticas pesadas da imprensa italiana ao filme e, enfurecido, ver “Atlantic City”, de Louis Malle, faturar o Leão de Ouro em Veneza, Glauber foi para Paris, onde morou por alguns meses. Seguiu, então, para Portugal, onde residiu até a véspera de sua morte. Hospitalizado em Sintra, em seguida em Lisboa, o cineasta foi transferido para o Rio de Janeiro em 20 de agosto de 1981, um ano após a exibição de seu filme no festival. Chegou à clínica Bambina no dia seguinte e morreu na madrugada no dia 22 em conseqüência de uma infecção pulmonar. Tinha 42 anos.

“Anabazys” não vai além do fiasco em Veneza – a quem se interessar por esse período posterior, recomendo a biografia “Glauber Rocha, esse vulcão”, de João Carlos Teixeira Gomes, e o documentário “Glauber Rocha, o Filme – Labirinto do Brasil” (2003), de Silvio Tendler.

Mas “Anabazys” é iluminador, em vários aspectos. Com ajuda de sobras de filmes não utilizados em “A Idade da Terra”, o documentário expõe o método genial – e muitas vezes caótico – de Glauber Rocha. Nas ordens que dá aos atores, nas suas discussões com figuras que mal conhecia, nas intermináveis entrevistas e discursos, vamos compondo uma imagem mais nítida, e nem sempre favorável, de Glauber.

Os depoimentos de técnicos envolvidos nas diferentes fases da produção dão novas pistas a quem busca entender melhor a lógica (ou sua ausência) no processo de montagem e edição do filme. Glauber sonhava que os rolos do filme não fossem numerados, de maneira que cada projecionista mostrasse “A Idade da Terra” em uma ordem – o filme poderia ser compreendido independente da ordem dos rolos, defendia.

Numa explícita homenagem ao cineasta, Paloma Rocha e Joel Pizzini fizeram um filme “glauberiano”, altamente poético, sem preocupação com didatismo ou cronologia, o que não compromete em nada o seu entendimento. Apenas o título pode deixar o espectador à deriva. “Anabazys” é o título que Glauber pensou, inicialmente, para “A Idade da Terra”.

A palavra é uma referência a uma obra do historiador grego Xenofonte, que relata a expedição de Ciro, o Jovem (424 a.C.-420 a.C.), contra seu irmão Ataxerxes II e a retirada de dez mil soldados após a batalha de Cunaxa, em que Ciro foi morto. O “Houaiss” define “anábase” como “período de progressão ou acentuação de uma doença”, o “progresso de um mal”, o “declínio do sol”.

Com essas informações, creio, o espectador está pronto para uma leitura completa deste belo documentário. “Anabazys” merece ser visto, mas recomendo aos interessados que corram ao cinema. O filme não deve ficar muito tempo em cartaz – na noite de sexta-feira, em São Paulo, havia quatro espectadores na sessão das 20hs.

Você pode assistir um trailer do filme aqui.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Cultura Tags: , , , , , , , ,
28/03/2009 - 12:44

“Por que creemos que sabemos hablar portugues?”

Brasileiro, de um modo geral, tem tendência a achar que sabe falar espanhol. Inventamos até uma língua própria, o portunhol, como resultado desse nosso esforço, voluntarista, de falar um idioma aparentemente muito semelhante ao nosso. Quem conhece o espanhol de verdade ri dos erros ridículos que cometemos, nessa transposição de uma língua para a outra.

Fico feliz ao descobrir que os argentinos enfrentam esse mesmo problema. Uma campanha publicitária de uma operadora de telefones, disponível no You Tube, ri dessa mesma mania. “Por que achamos que sabemos falar português?” é o tema da campanha. Divirta-se aqui.

Agradeço ao amigo Mauricio Savarese pela indicação.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Crônica Tags: ,
27/03/2009 - 15:35

E se Rogério tivesse ido à Copa de 70?

Nas minhas lembranças futebolísticas da infância, o primeiro dos muitos dramas que me recordo diz respeito a Rogério. O ponta-direita integrou uma linha de frente dos sonhos, certamente responsável por toda uma geração escolher o Botafogo como time do coração. Era formada (na ordem em que aparecem na foto) por Rogério, Gerson, Roberto, Jairzinho e Paulo Cesar. Com esses cinco, o Botafogo foi bi-bi, ou seja, bi-campeão da Taça Guanabara e do Campeonato Carioca, que eram disputados separadamente, em 1967 e 1968.

Em 1970, o camisa 8 (Gerson) já estava no São Paulo, mas os camisas 7 (Rogério), 9 (Roberto), 10 (Jairzinho) e 11 (Paulo Cesar) continuavam no Botafogo e eram presença constante nas convocações da seleção brasileira. Um pouco antes da Copa, porém, Rogério se machucou. Eu tinha 9 anos, recém-completados, mas me lembro bem de acompanhar a dramática novela sobre a capacidade, ou não, do ponta se recuperar a tempo de ir para o México.

Não deu, mas Rogério era tão próximo do grupo, que foi levado à Copa na condição de “espião” de Zagallo. Acompanhou vários jogos e transmitiu informações importantes sobre o desempenho dos adversários do Brasil ao técnico da seleção.

Com Rogério cortado, Zagallo fixou Jairzinho na ponta-direita. E, bem, o resto vocês já sabem. O camisa 10 do Botafogo transformou-se no Furacão da Copa, marcando gols em todos os seis jogos do torneio.

Sempre me perguntei: e se Rogério tivesse ido à Copa de 70? Esta semana tive uma oportunidade de ouro para fazer esta pergunta a quem entende do assunto. Convidado do programa “Loucos por Futebol”, exibido quinzenalmente na ESPN Brasil, tive a chance de conversar sobre este assunto com Marcelo Duarte, Paulo Vinicius Coelho e Celso Unzelte.

Um dos temas do programa foi justamente uma reportagem com Rogério – onde anda o ex-jogador? Ele é hoje pastor de uma igreja messiânica em São Paulo e guarda, com o maior carinho, as planilhas que preencheu com observações sobre os adversários do Brasil na Copa.

Perguntei a PVC, meu colega na primeira redação do “Lance!”, o que ele achava: e se Rogério tivesse ido à Copa? Paulo Vinicius me chamou a atenção para o fato de que, no primeiro semestre de 1970, a seleção brasileira disputou cinco amistosos – em três, Jairzinho foi escalado na ponta-direita e Rogério ocupou a posição em dois. Ou seja, Zagallo já tinha em mente esta opção tática – colocar o camisa 10 do Botafogo com a 7. Afinal, Jair jogava muito, mas a camisa 10 da seleção tinha dono, né?

Em tempo: o Loucos por Futebol será exibido na ESPN Brasil à 0h30 deste domingo. Vi no quadro de programação que estão previstas algumas reprises: segunda-feira, dia 30, às 9h e às 16h, terça, 31, às 20h, e quinta, 2 de abril, às 20h45.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte Tags: , , , , , , , , , , , , ,
26/03/2009 - 10:43

Mães, filhos e guerras: São Petersburgo é em qualquer lugar

“Não pode haver guerra sem mães”, diz Marina Bóndareva, uma das personagens-chave de “O Filho da Mãe”, o mais recente e comovente romance de Bernardo Carvalho. Marina milita no Comitê das Mães dos Soldados de São Petersburgo, uma organização humanitária, destinada a auxiliar, como diz o nome, mulheres russas em busca de seus filhos – presos, perdidos, desaparecidos ou mortos.

Um romance sobre mães e filhos na Rússia? O tema não causa espanto a quem acompanha a trajetória de Carvalho. O deslocamento territorial é um elemento essencial em sua prosa – uma espécie mesmo de bandeira, acredito, contra a literatura que se orgulha do seu caráter nacional, arraigada a brasileirismos ou regionalismos.   

Os narradores dos livros de Carvalho vêem-se, com frequência, diante de territórios desconhecidos, às vezes irreais, outras vezes fantasiados, sempre estranhos, surpreendentes, a descobrir. A novidade, em “O Filho da Mãe” (Companhia das Letras, 206 págs., R$ 39), é que, diferentemente dos livros anteriores, o narrador não é um dos personagens do romance, mas uma voz em terceira pessoa.

Dois são os protagonistas desta quase ópera, ambientada numa temível São Petersburgo, no momento (2003) em que a Rússia volta a sufocar a república separatista da Tchetchênia: de um lado, o tchetcheno Ruslan, enviado pela avó à cidade com a intenção de salvá-lo da guerra; de outro, Andrei, filho de uma russa com um exilado político brasileiro, criado em Vladivostok, sete fusos horários à frente.

Não vou aqui descer a detalhes do entrecho, costurado com grande habilidade e algum suspense. Cabe dizer que Ruslan e Andrei vão protagonizar uma história de amor, subterrânea, claro, em meio às ruínas – “quando não há mais nada, há ainda o sexo e a guerra”, diz o narrador.

Ruslan e Andrei vão, também, cada um à sua maneira, acertar as contas com o passado, em particular, com suas mães. São histórias devastadoras, mas conduzidas com habilidade pelo narrador, sem cair na pieguice.

Ao mesmo tempo, Bernardo Carvalho eleva o tom ao descrever o novo estado policial russo, vigente desde o colapso do regime comunista. Ainda que sem ceder à tentação do “discurso” ou perder o domínio sobre o fluxo narrativo, essa “politização” do romance soa, para mim, como outra novidade em sua obra. 

Não deixa de ser irônico que este romance de peso tenha sido escrito a pedido de terceiros – uma encomenda, do projeto Amores Expressos, que implicava na obrigação de escrever uma história de amor ambientada em São Petersburgo. Carvalho, como tentei demonstrar, fez isso e muito mais, nesta história sobre mães, filhos e guerras. São Petersburgo é aqui, é em qualquer lugar, posso dizer, sem estragar em nada o prazer da leitura.
 
Em tempo: É sempre complicado escrever sobre o trabalho de um amigo, mas acabei de usar este blog para fazer isso. Em nome da objetividade, jornalistas devem evitar misturar razão e emoção no trabalho – motivo pelo qual não se recomenda que escrevam sobre pessoas próximas. Por outro lado, o blog é, por natureza, o espaço das manifestações subjetivas, pessoais. Um jornalista no comando de um blog, portanto, tem a faca e o queijo na mão – para o bem e para o mal. Espero ter conseguido falar, com justiça, do trabalho de Bernardo.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , ,
25/03/2009 - 11:05

BBB9 – Como no estádio, cada espectador vê um jogo diferente

Dia seguinte de paredão é sempre parecido. Dentro da casa, aquela ressaca. Aqui fora, os torcedores saem da toca para manifestar as suas preferências, comemorar e reclamar. Já estou me acostumando.

Na caixa de e-mails, às quartas-feiras, começam a pipocar mensagens de leitores que acompanham o programa pelo “pay per view”, 24 horas por dia, com “denúncias” variadas sobre o que os personagens fazem dentro da casa, mas a edição do programa não mostra. Também são comuns as mensagens me alertando para o fato de que a direção do programa está “conspirando” a favor deste ou contra aquele candidato. Recebo, ainda, “denúncias” sobre “fatos escandalosos” que os pais, parentes e amigos dos confinados fazem fora da casa para ajudar os “brothers”.

Outro termômetro é a caixa de comentários das críticas que escrevo. Nesta terça-feira, escrevi sobre a piada que o programa fez com Ana, exibindo um monstrinho de desenho animado correndo atrás da loirinha, que se diz “perseguida” pelos outros candidatos. O texto foi publicado por volta da uma da manhã desta quarta. Ao religar o computador, às 9h30, já havia 200 comentários – muitos me agradecendo por ter “desmascarado a farsa” que é Ana, outros felizes por eu ter “denunciado” o que a edição do programa e Bial fizeram com a candidata.

Um pouco como no jornalismo esportivo, acho, não importa o que você escreve quando está mexendo com os sentimentos de torcedores apaixonados. Cada um lê como quer e aproveita a oportunidade para mandar a sua mensagem – ou o seu petardo.

Em tempo: O meu texto, Bial faz piada com a “perseguida” e expõe “Lado Ana” ao ridículo, está publicado, como sempre, no site especial do iG dedicado ao programa.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): televisão Tags: , , , , , ,
24/03/2009 - 11:32

A foto de Obama é uma obra de arte? Ou um mero registro?

Duzentas cópias de uma fotografia de Barack Obama, feita por Mannie Garcia, estão à venda em uma galeria no Chelsea, em Nova York. Cada cópia desta edição limitada custa R$ 1.200. Trata-se da imagem que serviu de base para o famoso trabalho do artista Shepard Fairey, usado como símbolo da campanha de Obama à Presidência dos Estados Unidos.

Garcia conta, em reportagem publicada nesta terça-feira no “New York Times” (“Viewing Journalism as a Work of Art”), que a fotografia foi feita no dia 27 de abril de 2006. Fotógrafo free-lancer, a serviço da Associated Press, ele estava encarregado naquele dia de fotografar o ator George Clooney, que havia regressado de uma visita ao campo de refugiados de Darfur, no Sudão. Obama, na qualidade de senador por Illinois, acompanhou Clooney na entrevista concedida à imprensa no National Press Club, em Washington. Durante a entrevista, Garcia fez uma ou outra foto de Obama.

Mais de um ano depois, procurando uma imagem de Obama no Google, Fairey encontrou a foto de Garcia e a transformou. Segundo o jornal americano, o artista dizia que não fazia idéia de qual foto usou – a identificação da foto de Garcia ocorreu graças ao interesse de curiosos, que perceberam a semelhança entre as duas imagens pesquisando na internet.

O próprio Garcia conta que, ao ver o cartaz da campanha de Obama, não se deu conta que fora realizado tendo como base uma fotografia sua. Disse ele: “Como fotógrafo free-lancer, naquele dia eu devo ter feito umas mil imagens. Nesse tipo de trabalho, normalmente, nós fazemos muitas fotografias ao longo de um ano. Eu não lembro de cada foto que eu fiz.”

O “New York Times” recorre então ao crítico Luc Sante para explicar como uma fotografia tão trivial se transformou num ícone do início do século XXI. Sua declaração pode causar algum incômodo aos fotógrafos: Na sua visão, neste caso, há um fator “sorte” envolvido, entre a intenção da foto e o seu resultado final. “É inteiramente concebível que aquela foto tenha sido tirada por uma criança, um robô ou um macaco”.

Apesar de sua foto estar agora numa galeria de arte – e uma das cópias já ter sido adquirida por um museu –, Garcia não se vê como um artista, mas como um repórter-fotográfico. “Digo há anos: ‘Eu não tiro fotos; eu faço fotos’, usando as ferramentas necessárias. Eu tenho câmaras bem caras. Eu poderia programar o equipamento no automático – isso seria ‘tirar uma foto’. Eu controlo tudo”, explica.

O jornal americano cita ainda Anne Wilkes Tucker, curadora de fotografia do Museu de Arte de Houston, que adquiriu uma cópia da foto de Garcia. Ela se pergunta: “Nós teríamos comprado a foto de Mannie sozinha, sem o pôster de Fairey? Eu não sei.” Ao mesmo tempo ela não concorda que se diga que o sucesso da foto de Garcia possa ser atribuído à sorte. Ele estava no lugar certo, na hora certa, diz a curadora. “Repórteres-fotográficos são como atletas, neste sentido”, diz ela.

Com a palavra os repórteres-fotográficos.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): jornalismo Tags: , ,
23/03/2009 - 15:18

Radiohead: leitores descrevem show de horrores

Escrevi hoje de manhã um comentário sobre a falta de estrutura e a desorganização do show do Radiohead. Deixei claro que gostei do ótimo show, mas mesmo assim temia que fosse ouvir desaforos dos fãs da banda. Que nada!!! A caixa de comentários do blog lotou com depoimentos de leitores descrevendo um show de horrores ainda pior do que eu vi. Fiz uma atualização no post, às 11h30, chamando a atenção para problemas que eu não tinha percebido, mas resolvi escrever um novo texto, agora à tarde, para dar mais destaque à voz dos leitores.

Um dos maiores dramas, que não enfrentei, porque fui e voltei de táxi, foi vivido por aqueles que deixaram o carro no estacionamento oficial. Há relatos de pessoas que, duas horas depois do fim do show, ainda não tinham conseguido sair do local. Como Ana M., que definiu a sua experiência como uma “bad trip”:

Ninguém lembrou de comentar que na 1h30 de espera não havia nenhuma alma penada para organizar o trânsito dentro do estacionamento? (se tinha, eu não vi) Ficamos todo o tempo sem saber o que estava acontecendo num terreno praticamente baldio com trechos escuros e escorregadios. Certamente essa “bad trip” vai fazer muita gente pensar muitas vezes antes de ir a um show num lugar isolado como a chácara. Santa desorganização!

O depoimento de Victor Ramos também dá a dimensão do horror. Ele optou por um estacionamento “não oficial” e se deu tão mal quanto:

Show dos extremos: extrema qualidade musical, extrema ridicularização e humilhação dos que foram agraciados com a boa música. A saída foi um dos piores momentos que já vivenciei numa multidão: 30 mil pessoas afuniladas, ao mesmo tempo, numa única e pequena saída!!! Por que não abriram as saídas de emergência no fim do show? Pra dar risada daquele monte de formiga se espremendo e passando mal? Tive que pagar 50 reais num estacionamento com chão de barro/lama pra não ter que ficar preso 1h30 no “estacionamento oficial”. Um falta de respeito que só se vê no Brasil.

Mais de um leitor falou de carros arrombados e furtados nas imediações da Chácara do Jockey. Thiago Pellegrini escreveu:

Passei mais de uma hora e meia para ir do Eldorado até o show e perdi o Los Hermanos. Total falta de apoio dos organizadores e da CET. E ainda teve muitas pessoas no estacionamento em que parei que tiveram seus carros arrombados pelos flanelinhas. É duro, mas 200 paus vale pelo show, que foi ótimo, mas o preço da desordem é muito maior.

Ricardo descreveu situação semelhante:

Acho que você teve sorte de não ir de carro. Mas tem uma coisa que precisa ser apurada corretamente. Cerca de 50 carros foram arrombados no estacionamento do show. Levaram de estepes a gasolina. Nem precisa falar que quebraram vidros e tal. A polícia foi chamada, inclusive, mas pouco fez e o roubo continuou noite adentro.

A saída, para quem foi de táxi e ficou até o último bis, foi igualmente complicada. Conta Eduardo Nasi, que também reclama da péssima qualidade do serviço de bar do evento:

De táxi também não foi fácil. Na saída, levamos duas horas e meia para conseguir um. E a “praça de alimentação”. Depois de pagar oito reais por um XIS e esperar por mais de meia hora, minha namorada recebeu um CACHORRO-QUENTE. Porque o XIS, vejam só, tinha acabado.A pizza, outra opção, estava com a massa crua e era montada porcamente.

Daniela aponta um outro problema de logística, não pensado pela organização:

Não havia banheiros químicos do lado de fora do lugar, quem se aventurou a ir em um banheiro teve que recorrer aos postos de gasolina que ficavam perto, no fim do show apenas UMA saída para 30 mil pessoas, um absurdo!!

Nara Alves relata que sofreu um desmaio e foi acudida pelos amigos. Não viu nenhuma equipe de socorro por perto:

Antes do início do show do Radiohead eu tentei chegar mais perto do palco. Não consegui ficar mais de 20 minutos porque estava tão abafado que eu desmaiei no meio da multidão. Apaguei (e não estava bêbada e tinha almoçado super bem!) pela primeira vez na vida. A sorte é que caí em cima do meu amigo, que me segurou. As pessoas em volta deram algum espaço para jogarem água no meu pulso e darem uns tapas no meu rosto. Fiquei um minuto desacordada, sem socorro médico, contando só com a galera em volta. Depois, acordei e fui curtir o show lá de trás… Adorei! Radiohead é demais! Mas fica o registro sobre a falta de atendimento por parte da organização…
.
Por fim, uma moradora da região onde ocorreu o show, também se manifestou sobre o caos e o barulho nas imediações. Eis o que escreveu Rosa:

Pena tanto sofrimento para ver um show. Moro perto do local, nosso bairro é bastante populoso e não sei como eles obtém licença para esses tipos de evento num lugar como este, tivemos que ficar ouvindo música altíssima o dia inteiro, terminou perto de meia noite e os apitos de pessoas que tentavam ajudar na saída do evento só terminaram perto de duas horas da madrugada. Depois de tudo isso saber que pessoas gastaram tanto para poder ver seus grupos de música e não ficarem felizes é muito triste

O blog, evidentemente, está aberto às explicações dos produtores do show e das autoridades municipais (Contru, CET) e estaduais (polícia) que poderiam acrescentar algo sobre esse caos, que manchou um dos grandes eventos musicais ocorridos em São Paulo nos últimos tempos.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura, São Paulo Tags: , , , ,
23/03/2009 - 13:09

Ronaldo em 21 lances no Twitter

O iG Esportes publicou na manhã desta segunda-feira um texto que escrevi sobre a participação do Fenômeno no clássico de domingo (Ronaldo leva a primeira vaia. Da torcida do Santos). Não foi um bom jogo – e, para piorar, Ronaldo jogou mal à beça. A novidade, para mim, foi a forma como trabalhei no Pacaembu.

Como havia avisado aqui no blog, passei a partida enviando informações em forma de drops, de até 140 caracteres cada, para o Twitter. Foram 21 informes breves, nos quais tentei escrever sobre fatos que poderiam complementar a visão de quem estava assistindo a partida pela televisão, à medida que o jogo corria. De qualquer forma, olhando o resultado hoje, vejo que o trabalho pode ser lido também, na sequência, como um relato paralelo do jogo. Para quem se interessar, bastar acessar a minha página no Twitter.  

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog Tags: ,
23/03/2009 - 09:50

Radiohead: lama, caos, fila e desorganização

Não vou escrever aqui sobre o ótimo show do Radiohead em São Paulo – o que o meu colega Carlos Augusto Gomes já fez, com a precisão de sempre. Vou escrever sobre os inúmeros problemas de infra-estrutura e organização que vi – deficiências graves, a meu ver, para um espetáculo deste porte, com ingressos a R$ 200.

Sempre haverá quem diga que show de rock bom é assim mesmo – desorganizado, com lama e caos. Não concordo. Acho que não é necessário sofrer para se divertir num bom show – ainda mais com os preços cobrados no Brasil.

Em primeiro lugar, o local do evento. A Chácara do Jockey fica na zona sul de São Paulo, numa área não servida por metrô e cujo acesso se dá por uma única avenida – em obras. Não há estacionamentos decentes no local – os carros iam parando pelo caminho, sob assédio de flanelinhas, tumultuando o acesso (dezenas foram multados depois que o show começou).

Peguei um táxi, na região central da cidade, às 18h30 e cheguei ao local do show, 12 quilômetros depois, às 19h40. Havia placas, pelo caminho, indicando a Chácara do Jockey, mas não vi nenhuma sinalização decente para a entrada no espaço do show.

Na entrada, nenhum controle de carteirinhas de estudantes. Quem adquiriu os ingressos pela internet não precisou comprovar os dados que forneceu. Quem pagou inteira, sentiu-se lesado. Apesar de proibido para menores de 16 anos, vi algumas crianças no local.

A Chácara do Jockey é um enorme descampado, de terra e grama. Vários trechos estavam encharcados por causa das chuvas dos últimos dias. No escuro, não poucos espectadores enfiaram o pé na lama. Dependendo da direção do vento, um cheirinho de coco de cavalo ocupava o ambiente.

Para comprar uma cerveja era preciso permanecer 20 minutos numa fila longa. Para chegar no balcão do bar, imundo e encharcado, era necessário superar um mar de lama. Na saída do show, outro caos – filas, congestionamento, confusão geral. Houve gente (leia nos comentários abaixo) que esperou uma hora e meia para conseguir sair com o carro do estacionamento “oficial” (tarifa: R$ 35).

Do ponto de vista da organização, é preciso reconhecer um ponto altamente elogiável: todos os shows começaram no horário previsto. A pontualidade amenizou a falta de estrutura. E todo mundo foi dormir feliz com a qualidade dos espetáculos: Los Hermanos, que não consegui ver, Kraftwerk e Radiohead.

Atualizado às 11h35 com informações fornecidas pelos leitores na área de comentários.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , ,
22/03/2009 - 13:57

Ronaldo x Neymar: “passado, presente e futuro juntos”

Tostão, um dos maiores craques em atividade hoje no jornalismo esportivo, resume com rara sabedoria o principal atrativo do clássico deste domingo, entre Corinthians e Santos, no Pacaembu. Escreve ele em sua coluna na “Folha”:

Passado, presente e futuro
Hoje, veremos, de um lado, Ronaldo, tentando se reencontrar com a leveza, com a alegria e com os sonhos que tinha aos 17 anos. Só não dá para ter o mesmo corpo. Do outro lado, o franzino Neymar, 17 anos, ainda uma promessa, tentando encontrar o segredo para se tornar um craque como Ronaldo. Passado, presente e futuro juntos. Encontros e reencontros. Todo encontro é um reencontro com algo vivido e/ou imaginado.”

Vou acompanhar a partida do estádio, enviando comentários pelo Twitter. Se você quiser entrar no Twitter, acesse o site e, se quiser me seguir, adicione o meu endereço ou, então, clique no atalho colocado na barra lateral direita do blog.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte Tags: , ,
21/03/2009 - 18:23

Gran Torino: Clint Eastwood põe o dedo em quatro feridas

São muitos os temas de “Gran Torino”, o mais recente filme de Clint Eastwood. O primeiro, e mais evidente, como observaram alguns críticos, é o retrato da América pintado nas telas. Walt Kowalski, o personagem de Clint, ex-operário da Ford, residente numa área deteriorada de Detroit, ocupada por imigrantes e gangues, evoca um tempo, superado, de glórias – a da pujança da indústria automobilística e do próprio país.

O magnífico modelo Gran Torino 1972, que Kowalski cuida com zelo, como se fosse um filho, é a imagem explícita dessa América que não existe mais. Para não deixar dúvidas do que quer dizer, Clint ainda apresenta o filho de Kowalski como um bem-sucedido vendedor de carros… japoneses.

Outro tema importante em “Gran Torino” é o da conversão do próprio Clint Eastwood. Como também já apontaram outros críticos, o filme é uma espécie de revisão da fase truculenta do ator e cineasta, cujo ápice foram os filmes da série “Dirty Harry”, em que protagonizou um justiceiro implacável. Kowalski herdou de Harry a truculência, o jeitão racista e grosseiro, mas agora está em busca de redenção, paz e descanso.

Um terceiro tema, já tratado em “Cartas de Iwo Jima” (2006), é o da difícil relação da cultura americana com o mundo estrangeiro. Tanto no filme construído a partir das cartas de soldados japoneses, quanto neste, cujo núcleo central é formado por um grupo de imigrantes orientais, Clint parece se esforçar em amainar o provincianismo dominante na América.

Por fim, um quarto tema de “Gran Torino”, que me interessou especialmente, é o da velhice. Clint já afirmou que este é o último filme em que participará como ator – o que dá ao trabalho um tom de comovente despedida.

Alquebrado, mas sem perder a lucidez, o personagem Kowalski olha com desdém para os jovens de sua família, e enxerga neles apenas pessoas sem modos e sem afeto, além de gananciosas, de olho em seus poucos bens. É uma visão amarga, por um lado, mas compensada pela capacidade que o velho mostrará ao longo da história de abrir o seu coração para o que não conhece. Mesmo que soe piegas, é um grande lição do filme. Impossível não se emocionar.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , ,
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