A leitora desconstrói “Quem Quer Ser um Milionário?” e relata sua viagem pela Índia em meio a bombas
Em busca de um olhar mais crítico sobre “Quem Quer Ser um Milionário?”, a geógrafa Renata Neder acabou parando aqui no blog – imagino que graças a um texto que escrevi recentemente, falando mal do filme, o grande vencedor do Oscar 2009. O comentário de Renata é bem mais profundo e bem escrito que o meu breve texto, motivo pelo qual resolvi reproduzi-lo abaixo. Eis o que ela escreveu:
Fui assistir “Quem Quer Ser um Milionário?” ontem e saí do cinema pasma… O filme é sofrível. Um duplo desrespeito: à Índia e ao espectador, que ele visivelmente subestima. Não ligo nem um pouco para as premiações do Oscar e nem acho que isso é parâmetro para a qualidade de um filme, mas ver um filme desses ser premiado e aclamado pelo público é mesmo lamentável.
O filme consegue tocar as grandes questões problemáticas da tão complexa sociedade indiana de maneira caricata e estereotipada. O filme é simplista ao extremo. O filme retrata a pobreza, exploração infantil, violência contra a mulher, conflitos entre hindus e muçulmanos, dentre outras coisas, de maneira tão rasteira que chega a ser uma ofensa.
Uma das pérolas é a frase de Jamal sobre a morte da mãe em um conflito de cunho religioso (aliás também retratado de maneira inacreditavelmente estúpida…): “Se não existisse Rama e nem Alá, a minha mãe ainda estaria aqui”. Não sou uma grande conhecedora da história indiana, mas estava trabalhando com um grupo muçulmano paquistanês na Índia quando ocorreram os atentados em Mumbai (em novembro de 2008) e tive a oportunidade de ver de perto o quão mais complexa é essa questão do que nossos olhos ocidentais podem supor…
O pior de tudo é que o filme pretende ser um filme sério, sensível. Quer emocionar a platéia. E a platéia se deixa envolver por um filme tecnicamente muito bom, fotografia linda, trilha sonora perfeita e, acima de tudo, pelo suposto retrato da realidade de um lugar exótico para eles, e se emociona. Além da superficialidade, do maniqueísmo, das simplificações e das estereotipias, o que sobra ali? Nada…
Parte da platéia chegou a aplaudir na sessão de cinema… Chego a me perguntar o que está havendo com as pessoas. Que platéia é essa que aplaude um filme desses? Eu disse antes que o filme subestimava os espectadores, mas o pior é pensar que eu ingenuamente superestimei os espectadores de hoje em dia.
E já que estamos falando em Índia, por que não falar do show de absurdos em doses diárias que é “Caminho das Índias”?
Sabe o que me lembrei agora? Do grande alvoroço que um episódio dos
“Simpsons” provocou pelo Brasil que retratou. E olha que era apenas um episódio dos “Simpsons” – que, vale dizer, tem uma proposta bem diferente tanto do filme quanto da novela. Aposto que as mesmas pessoas que criticaram o Brasil dos “Simpsons” são as que hoje aplaudem “Slumdog Millionaire”.
Os bons jornalistas e formadores de opinião devem ser os primeiros a ficar em alerta com essa falta de massa crítica e estupidificação dos espectadores. É claro que, nesse quesito, haveria muitos outros grandes exemplos para dar (inclusive o programa que você hoje assiste diariamente para fazer a crônica no site), mas esse filme não dá pra deixar passar em branco. E a novela também não.
Enviei um e-mail a Renata pedindo autorização para publicar o texto acima e solicitando que ela explicasse melhor o que foi fazer na Índia. Fiquei curioso e imaginei que os leitores do blog poderiam também se interessar. O que começou como uma discussão sobre cinema acabou se transformando numa aula sobre Índia, Paquistão e a relação entre habitantes destes dois países rivais. Compartilho com os leitores o segundo texto enviado por Renata:
Trabalho em uma ONG internacional da área de direitos humanos na equipe de Direito à Alimentação. Trabalhamos com alguns projetos de desenvolvimento rural, um deles é um projeto de troca de experiências entre agricultores. O objetivo desse projeto é disseminar tecnologias sociais (práticas e técnicas agrícolas desenvolvidas pelos próprios agricultores) de baixo custo.
Fazemos um diagnóstico dos problemas enfrentados por agricultores em uma determinada área e levamos agricultores de outra área, ou país, que tenham desenvolvido práticas que ajudem a enfrentar problemas semelhantes. Por exemplo, levamos agricultores do semi árido brasileiro que desenvolveram excelentes técnicas de captação de água e manejo para uma região de seca em Moçambique. O processo em si é muito interessante, chamamos de aprendizagem horizontal: ao invés de você levar um agrônomo, você leva agricultores para trocarem experiências com agricultores.
Desculpa a looonga explicação, mas isso era para explicar o que eu fazia na Índia… Estávamos levando agricultores paquistaneses para o campo em Vidharva (perto de Nagpur, a maior cidade do estado de Maharashtra depois de Mumbai). Vidharva é uma região de alto índice de suicídio de agricultores que se endividaram ao plantar algodão transgênico. Os agricultores no Paquistão usam algodão não-transgênico e por isso fizemos essa troca de experiências.
Infelizmente, estávamos saindo de Delhi para Nagpur quando os atentados aconteceram e não fomos autorizados pela polícia em Nagpur sequer a deixar o hotel, muito menos fazer o trabalho de campo. Você certamente está familiarizado com a delicadeza da questão entre Paquistão e Índia, e pode imaginar a situação complicada que é estar com sete paquistaneses muçulmanos na Índia quando um atentado daqueles ocorreu. O Estado de Maharashtra estava em alerta vermelho máximo e diante disso tudo ficou muito complicado.
Fomos todos interrogados pela polícia e infelizmente não fomos autorizados a fazer o trabalho de campo como planejado. Isso é uma longa história, mas é interessante dizer uma coisa. A primeira vista pode parecer loucura uma troca de experiências entre paquistaneses e indianos, certo? A primeira vez que me propuseram isso no trabalho, com minha ainda limitada visão, apesar de minhas andanças pelo mundo, eu pensei: “O que haveria para trocar? Afinal, eles não se odeiam?”
E foi incrível ter a experiência de estar durante todo aquele tempo com os paquistaneses por Delhi e Nagpur. Porque existe uma identidade muito maior, ou, se não maior, pelo menos diferente, dessa dada pelo estado nacional. Um agricultor da região de Punjab no Paquistão se identifica diretamente com um punjabi indiano: falam o mesmo dialeto, conhecem a mesma territorialidade, cantam as mesmas músicas.
Quando vi os agricultores indianos e paquistaneses sentados juntos conversando sobre plantio de algodão, acesso a mercado, rentabilidade, adubo… percebi que apesar dos maniqueísmos hindu x muçulmano, indiano x paquistanês, várias trocas são possíveis porque afinal o ser humano é muito mais do que qualquer dessas dicotomias. Percebi mesmo que a gente de longe olha para aquele mundo aparentemente exótico (no sentido de que nos é desconhecido) e simplifica questões muito mais complexas para que elas se encaixem no que conseguimos compreender.
Bom, Maurício, acho que já te aluguei demais né? Só queria contextualizar um pouco a ida à India e o meu trabalho.
Obrigado, Renata, pelas informações e pela oportunidade de dividir essa sua “lição” humanista com outros leitores – algo que a internet, de fato, facilita muito.




Discordo da géografa Renata Néder, que entende bem de geografia, mas pouco de cinema.
Esse filme não é um filme político e apesar de mostrar ataques na cidade, a preocupação do diretor não foi mostrar a atual situação política da Índia, mas uma história universal que poderia começar em qualquer favela do planeta.
Ao assistir ao filme, eu só conseguia enxergar as favelas do Rio. Nossos “milionários favelados” aparecem na tela da Globo,no Sílvio Santos, no BBB. Eles não respondem a perguntas, tiram as roupas. Têm pouco senso crítico e são vítimas do destino, assim como o menino do filme. A Índia foi utilizada apenas como pano de funo e não por acaso. A geógrafa deveria saber que a cultura indiana tem um particular gosto por fazer cinema, o que deu origem à Bollywood, uma prolífica indústria de filmes feita por um povo que adora se ver nas telonas.
Sabe o que te falta? Abertura para ir além, para se permitir sentir, se emocionar e perceber o belo poético… Que pena…
A vida também ensina e um filme assim pode – para quem quer ou consegue – ser um tremendo aprendizado. Se permita ver além da realidade que você conhece – ou julga conhecer porque é construída a partir de seus próprios mapas.
Eis a minha opinião sobre o filme:
Quem quer ser um privilégiado assista o filme. Distante da beleza estética com cenários paradisíaos e romances calientes, o filme nos coloca diante do belo poético em um exercício imaginário constante, que surpreende – e encanta – a cada cena.
Jamal, Latika, Salim vão se misturando com a esperança, a injustiça, e a possibilidade de mudar o imutável numa história em que cada passagem dolorosa é transformada em ponte para o impossível – até então.
A vida de Jamil foi sua escola. A dor, sua grande professora e o amor seu agente transformador, sua mola propulsora sua coragem para tentar conseguir o que nunca ousou sonhar.
Fántástico!!!!
Vim parar aqui por procurar uma matéria sobre o gari Sorriso. Dos vários posts pelos quais passei até achar a matéria, abri esse e outro sobre o filme pois havia assistido ao mesmo no Domingo passado.
Não leio o blog nem pretendo ler futuramente.
Parabéns ao colunista por entrar em contato com a leitora e permitir relatar a sua experiência real.
Parabéns a leitora pelo seu texto e pelas informações prestadas.
O que acho que as pessoas confundem é que em momento algum o filme foi apresentado como DOCUMENTÁRIO.
Toda essa discussão me remete a filmes de James Bond, “eu não gosto pois é a maior mentirada, etc”.
Como diz o slogan, “Cinema é a maior diversão.”
E como foi dito por alguns leitores, fotografia impecável, trilha sonora adequada, uma história bem contada, etc são itens que formam um pacote para se ganhar um oscar ou não.
Para mim foi um filme com uma história bem contada, com doses bem medidas de humor, indignação, espanto e suspense (dentre outros sentimentos) que faz você querer saber o que vai acontecer. Como qualquer história bem contada que te envolve.
A proposta do filme não é levantar questões políticas, econômicas e/ou sociais e sim entreter o espectador.
Pra mim cumpriu o papel. Final previsível. Não vi os outros filmes concorrentes.
É o meu 2º comentário, pois ontem fui ver o filme no cinema.
Com mais razão agora, continuo achando que houve exagero nas críticas. Achei o filme uma ótima introdução sobre o tema ‘Índia’. O início, então, é fantástico e de tirar o fôlego – a comparação com ‘Cidade de Deus’ é mais do que válida, o qual deve ter servido de inspiração. Mas, diferentemente do filme citado, o final do filme atual decepcionou um pouco, pois esperava mais de um filme que começou tão bem, e o final… bem, o final é realmente simplista, talvez arrumado para ter o ‘happy end’ que leva ao Oscar.
Não importa. O filme é bom. Pode não ser um ‘Cidade de Deus’, um ‘Eles não usam black-tie’, mas aguça a curiosidade, mostra uma realidade complicada e violenta e com poucas saídas. Algumas delas, só por sorte.
Antes de fechar: adorei o comentário do ‘Está Escrito’ (que aparece no final do filme). Foi preciso e certeiro.
Abraços
Em tempo,
Minha esposa notou a incrível semelhança da trama da delegacia com a narrativa principal da ‘Mil e Uma Noites’: o contador de histórias transforma o ‘imperador’ (delegado) louco e devolve-lhe a sanidade através de suas histórias. Sherazade não faria melhor. E, para quem não sabe, o sultão louco que matava suas esposas para não ser traído era imperador… da Índia.
Eu ver o filme ontem achei maravilhos, eu nao entender nada de criticas e de cinemas, mas gostei do filme .ele retrata a realidade da India poderia ser de qualquer País …. mostra a pobresa e riquesas da india afinal a india nao ter somente TAH MAJAL..
eu ter varios amigos na India e Pakistan ele me dissse que ser a realidade mas mostram somente a pobresa
ele disee: :
madan: in tv they show just poor side of the country xuuuuuuuuuuuuuuuu
madan: marin drive
madan: there is marin drive beach my love
e tambem india mais que Tah mahaj… eu penso
mas graças a Allah Deus or seja ainda podemos ser livre em pensamentos …..
Boa sorte para nos todos
nossa se todos fossemos ao cinema armados ate os dentes ,metidos a criticos e levassemos tudo a ferro e fogo…. socorro…….. tem tanto filme por aí incitando a violencia,as drogas, pedofilia, e essa babaca vem fazer esse AUE pq o filme nao se deu ao luxo de informar a cultura indiana tal qual ela gostaria q fosse?tal qual ela acha que é ? fui ao cinema esperando ver um filme,se quisesse ver um documentario entao faria pesquisas na net,ou veria um jornal.As informaçoes sobre o pais nao sao de todo equivocadas, so depende dos olhos de quem vê .Minha visao sobre o Brasil COM CEREZA DEVE SER BEM DIFERENTE,daqui dom meu sossegado interior de sao paulo, comparada a uma mae que perdeu seu filho pras drogas ou pro trafico nas FAVELAS DO RIO por ex.Se é pra ser metida a pacificadora entao seria be mais valido dar a sua cara pra bater de verdade por algum ideal que valha a pena como exploraçao sexual de menores ,entre tantos outros problemas sociais q o MUNDO nao so a India enfrenta a começar pelo Brasil…RENATA….Mai uma das hipocrisias do nosso mundo.
renata, vc falou falou falou, mas não falou nada. de que adianta querer expôr opinião sem argumentar?
Intelectuais inúteis!
adoram fazer análises do tudo …
e o que, realmente, depois de tantos estudos oferecem para a sociedade?
adoram ficar de bla bla bla pelos corredores da Universidade, elaboram teses, mestrado, Doutorado …
e aí?
livros e mais livros…
e a atitude?
e a prática?
O filme é esteriotipado! sim óbvio;
Mas é uma obra de ficção, baseada em outra obra de ficção,
a Índia(como foi mencionado varias vezes) é apenas pano de fundo, o diretor poderia ter se utilizado de qualquer outra cultura, pego seus pontos negativos e apressentala de um modo caricato.
Outro ponto:
Me apresentem a Índia como um país lindo, sem conflitos, que istantaneamente eu vou pensar “eles não precisam de ajuda, vou voltar meus olhos para quem realmente prescisa”, e acho que é nesse ponto que Renata, integrante de uma ONG de Direitos humanos peca.
Viva sua vida,
Desenvolva bem seu trabalho, e por favor
Aprenda a analisar uma obra.
Ai q artigo + sofrivel. qta hipocrisia………
Nao é possivel q em meio a tantos generos d filmes persuasivos
e destrutivos alguem perca seu tempo ( que só PD star sobrando)
p fazer tamanho aue por um filme como esse alegando algo tao estupido!
RENATA, ja q vc adora se aparecer ou ñ tem o q fazer entao pq vc ñ entra na luta ao combate as drogas , a pedofilia, exploraçao sexual, trafico d mulheres ou ate lave uma louça…..
seria muito + util q bancar a do contra e “pampeirar” por algo tão futil, é só um filme……q vc ñ gostou mas muitos sim………
se fosse p/ se criar um pais imaginario como vc diz cada vez q um filme ñ fosse fiel e bla bla bla so teriamos filmes na terra do nunca com PETER PAN.
Deixe de ser mal amada e que as pessoas sejam felizes,
apaludam o q quiserem ou gostarem, afinal, nao estamos falando do filme jogos mortais nem nd parecido.
Quem ñ quer ser um milionario?
Respeito a opinião postada no blog, mas sinceramente quer verdade assista somente os canais de notícias. Acredito que a intenção do autor do filme tenha sido aquela reconhecida pela maioria…. uma história de amor, dentro de um cenário de cultura, da possibilidade de um menino pobre ganhar dinheiro, com sua experiência de vida aos 18 anos….
Se isso é possível? Bem provável que não? Aquilo é tudo da India? Certo que não.
É uma ficção, tão emocionante quanto o filme “Em busca da felicidade” (americano)…
Acho que os responsáveis pelo filme merecem aplausos simplesmente por terem a chance de colocar um filme tão diferente dos padrões americanos em destaque.