O falso poema de Drummond que circula na Internet
Em meio à discussão sobre o BBB9, quinta-feira, aqui no blog, um leitor que assina Valdeir postou, a título de comentário, um longo texto em forma de poesia, intitulado “Recomeçar”, assinado por Carlos Drummond de Andrade. O texto começa assim: “Não importa onde você parou… em que momento da vida você cansou… Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo…”. Em outra passagem, lê-se: “Um novo curso… ou aquele velho desejo de aprender a pintar… desenhar… dominar o computador… ou qualquer outra coisa… Olha quanto desafio… quanta coisa nova nesse mundão de meu Deus te esperando”.
Algumas horas depois, ainda pegando fogo a discussão sobre o BBB, o leitor que assina Bruno enviou a seguinte mensagem: “Não consegui achar uma referência concreta, mas aposto a minha cabeça que o poema supracitado num dos comentários NÃO é do Drummond. Pelo amor de Deus, parem de disseminar textinhos toscos de auto-ajuda vagabunda como se fossem obra de grandes autores!!! E se o texto de fato for do Drummond (probabilidade ínfima), então ele escreveu coisa ruim também, porque este é sofrível. Mauricio, por favor, não deixe isso passar impune aqui. Propagação de ignorância é crime, e seu blog não é lugar pra isso.”
Estimulado por Bruno, resolvei investigar. A simples menção no Google a Carlos Drummond de Andrade e “Recomeçar” traz quase 27 mil citações. Há inúmeras versões do poema recitadas em vídeo, no You Tube, e em centenas de sites e blogs. Pesquisando mais, acabei chegando ao site “Meu Anjo”, mantido pelo programador Paulo Roberto Gaefke. Ali, é possível ler que o texto, na verdade, é de autoria do próprio Gaefke. Bem humorado, ele respondeu ao e-mail que enviei, em busca de um esclarecimento: “Drummond deve revirar na tumba ao ver o meu texto com o nome dele”, disse.
Autor de dois livros de poemas, publicados por conta própria, o programador mantém o site desde abril de 2000. Até 2002, assinava as suas mensagens apenas com um bordão – “eu acredito em você” – e o seu primeiro nome, Paulo. “Daí virou uma festa”, ele conta. “Cada um repassava acrescentando um ponto e diversas mensagens minhas (mais de 2 mil) estão por ai sem a devida paternidade… como ‘Revolução da Alma’, que atribuem a Aristóteles (sic), ‘Paciência’, atribuída ao Jabor, e a clássica ‘Recomeçar’ (que também é conhecida por ‘Faxina na Alma’)”.
Para surpresa de Gaefke, ao final do seu texto, em algum momento no ano de 2003, alguém acrescentou os versos “Porque sou do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura” e assinou “Carlos Drummond de Andrade”. Tal citação foi entendida como se o texto inteiro fosse de Drummond, e se espalhou como praga pela Internet. Mas, lembra o verdadeiro autor do texto, nem esses versos são do poeta mineiro, mas de Fernando Pessoa (estão em “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro).
Conta Gaefke: “Quando eu pesquisei no Google a primeira vez, tomei um susto. Esse texto estava em mais de 50 mil sites com autoria de Drummond. E para provar que era meu foi uma briga…”. Registre-se que, pesquisando na Internet, encontrei várias mensagens de Gaefke em blogs e sites que publicaram o seu texto como sendo de Drummond, alertando os autores para o engano.
Encerro, então, este post com a reprodução do belo poema de Caeiro:
VII – Da Minha Aldeia
Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não, do tamanho da minha altura…
Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe
de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos
nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.




Isso só mostra a decadência do que era considerado um clássico como o Drummond e agora virar apenas um nome em meio a tantos outros, além de ser atribuído a ele obras de valor menor e a confusão envolvendo fragmentos de poemas do alberto caeiro que também era outro clássico e agora entrou, assim como o DRummond, para a vala comum da banalidade da internet.ISSO É UMA VERGONHA.
ps:todos deveríamos pedir desculpa a esses dois grandes nomes da literatura(Drummond e o Fernando Pessoa), pois eles reinventaram, de certa forma,o modo de enxergar a literatura e a internet está destruindo qualquer visão do que é realmente a literatura.
Meu tenho vários poemas do c d a e esse cara tá equivocado.
E o pior de tudo é que a Ana Maria Braga no seu programa certa vez deixou a tal msg “faxina da alma” e disse que era de Drumond e no final ainda disse, faça igual a ele pense nisso!
Só não me lembro em qual programa foi, mas asseguro que aconteceu.
Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão
Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Drumond
Até que enfim surgiu uma polêmica interessante. Pelo menos as pessoas estão discutindo sobre assuntos inteligentes. Se foi engano de autor, tudo bem. Parece que já foi esclarecido. Ufa! Esqueceram de discutir amenidades como o programa da Globo.
Infelizmente, esta uma das facetas ruins da Internet, da velocidade da tecnologia. A informação está a um “clic”, fazendo que o desejo de conhecimento esteja atrelada a idéia de rapidez para obtê-lo. E com isto, infomações duvidosas, fontes não confiáveis se tornam caracteríticas determinantes de nosso tempo. Hoje, os estudantes não mais vão às bibliotecas (ainda existem?) buscar material, conteúdo e informações para suas pesquisas escolares. O charme da poeira dos livros, a sensação deliciosa de saborear cada linha de um livro, as camada de poeira dos livros que adquirimos e que ficam encostados como enfeites em nossas estantes foram substituídos pela pela sedutora idéia do conhecimento em um clique.
E agora José?
No meio do caminho tinha uma pedra.
Tinha uma pedra no meio do caminho
Já que estamos falando disso….escrevi esse agora a pouco…
Para que amar?
Sabendo que tudo vai passar
Estaremos os dois a chorar
E nunca chegaremos a nenhum lugar
O amor machuca e nos faz sofrer
Nos mata sem morrer
Nos faz cegos sem perceber
Sem você o que fazer?
O amor nos faz sorrir
Até você decidir partir
Hoje você me fez cair
Mas levantar vou conseguir
O amor rima com dor
Quando outro não da valor
Foi apenas por um rumor
Que perdi meu grande amor
Talvez o amor seja uma grande ilusão
Começa sempre com muito tesão
O que não falta é paixão
Para no final nos cortar o coração
O Deus de cada homem
Quando digo “meu Deus”,
afirmo a propriedade.
Há mil deuses pessoais
em nichos da cidade.
Quando digo “meu Deus”,
crio cumplicidade.
Mais fraco, sou mais forte
do que a desirmandade.
Quando digo “meu Deus”,
grito minha orfandade.
O rei que me ofereço
rouba-me a liberdade.
Quando digo “meu Deus”,
choro minha ansiedade.
Não sei que fazer dele
na microeternidade.
Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond
Página principal do site MEMÓRIA VIVA
Soneto da perdida esperança
Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.
Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.
Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? na noite escassa
com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.
Carlos Drummond de Andrade
Aurora
O poeta ia bêbedo no bonde.
O dia nascia atrás dos quintais.
As pensões alegres dormiam tristíssimas.
As casas também iam bêbedas.
Tudo era irreparável.
Ninguém sabia que o mundo ia acabar
(apenas uma criança percebeu mas ficou calada),
que o mundo ia acabar às 7 e 45.
Últimos pensamentos! últimos telegramas!
José, que colocava pronomes,
Helena, que amava os homens,
Sebastião, que se arruinava,
Artur, que não dizia nada,
embarcam para a eternidade.
O poeta está bêbedo, mas
escuta um apelo na aurora:
Vamos todos dançar
entre o bonde e a árvore?
Entre o bonde e a árvore
dançai, meus irmãos!
Embora sem música
dançai, meus irmãos!
Os filhos estão nascendo
com tamanha espontaneidade.
Como é maravilhoso o amor
(o amor e outros produtos).
Dançai, meus irmãos!
A morte virá depois
como um sacramento.
Carlos Drummond de Andrade
Verdadeiras. Todos de Carlos Drummond de Andrade.
Poemas retraídos, todo poema é lindo, todos tem encantos, todos tem batismo ,e seu único autor, uma pena, várias penas, que solicitem Drummond, para legitimar suas dores.
Drummond, sofreu, exclamou, amou, morreu, sempre Drummond, notável Drummond, nunca copiou ilusões ou sonhos que não fosse os seus, nem a amargura importou.
Isso é crime, nojento crime.
“fossem…”, perdão.
Quem L~e sabe quando não é Drummond ou outro autor que é muito citado – Luis Fernando Veríssimo. Só sendo mesmo ignorante (do verbo ignorar) em estilo para acreditar nessas correntes imbecis que circulam na internet. Deleto na hora.
O respeito ao autor e nomeá-lo ao citar ou reproduzir sua obra, é declarar honestidade inata.
Mas, na verdade, pouco importa sua origem ou seu autor. Importam apenas as palavras, sua força, aquele “que” que adentra a alma, acalenta o espírito, faz pulsar mais forte o coração e deixam os olhos orvalhados. Essa é a verdadeira poesia, seja seu autor renomado ou não.
Precisamos ler, sentir e viver mais a poesia embebida em nossas almas, a poesia da vida e a poesia dos poetas…”Penetra surdamente no reino das palavras, lá estão os poemas que esperam ser escritos. CDA”. Ah, é muito bom conhecer e ler a obra de Drummond. Em breve desenvolverei um projeto muito interessante intitulado: “UMA VIAGEM PELA POÉTICA DRUMMONDIANA, DESVENDANDO A DOCE HERANÇA LITERÁRIA EM ITABIRA”.
Pior ainda: quando a pessoa não sabe de onde vem o dito que quer usar então diz: “como dizia meu avô”… e a gente tá careca de saber que aquele conhecido ditado nada tem a ver com seu avô.
[...] novo capítulo sobre a polêmica causada pelo falso poema do Drummond. Recebi neste sábado um simpático e-mail do leitor Valdeir. Foi ele que postou o poema, sem [...]
cadeia nele!!!!!!!!!