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Arquivo de janeiro, 2009

20/01/2009 - 16:08

Time pequeno não sobrevive sem ajuda pública?

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Desconheço a existência de algum outro time de futebol que, como o Grêmio Recreativo Barueri, tenha avançado da sexta para a primeira divisão em cinco anos. Em 2002, o Barueri disputou a Série B-3 do Campeonato Paulista, foi promovido para a B-2 e não parou mais, até conquistar um lugar na Série A-1 em 2006. Neste ano, também disputou a Série C do Brasileiro, sendo logo promovido para a Série B. Em 2008, finalmente, conseguiu a vaga para a Série A. Ou seja, se não erro a conta, em sete anos o time conquistou sete acessos.

Façanha desse tamanho não ocorreu num passe de mágica. O Barueri nasceu como um clube municipal e, até meados de 2007, recebia oficialmente recursos da Prefeitura da cidade. Chegou a pagar salários dos jogadores com recursos oficiais, admitiu o presidente do clube, Walter Sanches. Hoje em dia, garante, o futebol profissional não recebe mais ajuda municipal.

As coisas, porém, não tão simples, como constatei ao visitar o Centro de Treinamento do Barueri, na semana passada. Como relato na reportagem, o CT pertence à Prefeitura, que o cedeu ao clube. No estacionamento, há uma vaga de carro reservada para o prefeito ao lado da vaga do presidente. Um ônibus da Prefeitura, usado para transporte de atletas, estava estacionado no CT no dia da minha visita.

Enfim, o time que estréia no Paulista nesta quinta-feira contra o Corinthians ainda tem um longo caminho a percorrer. Em campo, luta para mostrar que a sua ascensão não é fogo de palha. Nos bastidores, precisa assegurar um modelo de gestão e desenvolvimento capaz de manter o clube em condições de disputar futebol em alto nível sem a ajuda do poder público. “Não existe time pequeno que possa sobreviver sem ajuda oficial”, diz Sanches. Será?

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte Tags: , , , ,
20/01/2009 - 08:35

Drible de Kaká pega o mundo no contrapé

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Sinto-me obrigado a voltar a tratar do assunto Kaká neste blog. Como escrevi cinco dias atrás (Espero não queimar a língua, mas vou elogiar o Kaká), o craque do Milan havia dado uma sinalização importante, ao sugerir que, além do dinheiro envolvido, outros aspectos deveriam pesar na negociação de sua transferência para o Manchester City.

Num mundo em que os valores materiais falam mais alto do que tudo, que ganhar dinheiro é sinal de competência, que ser frio e racional é requisito para ser bem-sucedido, a atitude de Kaká pegou todo mundo – inclusive seu pai e o premiê Silvio Berlusconi – no contrapé. Por que recusar a maior oferta financeira já feita a um jogador de futebol? Como assim?

Na década de 50 do século passado, ao escrever sobre o futebol no Brasil, o crítico de teatro Anatol Rosenfeld já havia percebido que “dar pontapés numa bola era um ato de emancipação”. Quantos jogadores já não trocaram bons times no Brasil e carreiras promissoras por contratos mais rentáveis em times inexpressivos na Coréia, no Qatar ou mesmo na Europa?

Estamos carecas de ver situações desse tipo. São, de um modo geral, negociações motivadas pelo desejo de melhorar de vida, tirar a família de uma situação de pobreza, quando não de miséria, mesmo que abrindo mão de um futuro com mais glórias, em equipes mais tradicionais e participação na seleção brasileira.

A situação de Kaká, sorte a dele, permitiu que a sua escolha não se orientasse exclusivamente pelos valores financeiros do negócio. Preferiu apostar num plano de longo alcance a mergulhar numa aventura que ninguém sabe onde vai dar. Abriu mão de milhões na expectativa que será recompensado de outras formas – talvez uma longa carreira no Milan, inclusive depois que deixar de jogar futebol. 

Todos os elogios para Kaká – mas não tenho ilusão alguma que o seu gesto servirá de exemplo para qualquer outro jogador.

Em tempo: Para quem se interessa pelo assunto, o famoso ensaio de Anatol Rosenfeld, “O Futebol no Brasil”, está publicado no livro “Negro, Macumba e Futebol” (editora Perspectiva). 

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte Tags: , , ,
19/01/2009 - 11:01

A revolta dos paparazzi no Gisele Fashion Day

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Voltei a exercitar meus talentos de repórter e fotógrafo de moda neste domingo. Minha missão era acompanhar o dia de Gisele Bündchen no São Paulo Fashion Week. Foi uma jornada cansativa, mas divertida, como relato em reportagem publicada na manhã desta segunda-feira, no iG Moda.

Apelidei o programa de “Gisele Fashion Day”. Consegui um convite para assistir o desfile na Fila C – uma humilhação, escrevo, para qualquer jornalista que se leva a sério no mundo da moda. Ainda assim, deu para ver o desfile direitinho (a foto ao lado mostra a minha perspectiva). O problema foi um mala que se sentou ao meu lado e ficava gritando, ao telefone: “Estou no desfile da Colcci!!! Vou ver a Gisele!!!!”

Também fui à festa oferecida pela marca depois do desfile, num restaurante no Itaim. Gisele ficou numa área reservada, distante dos demais mortais. Fiquei quase duas horas. Estava tão sem graça que a Luana Piovani nem beijou o namorado em público. Entediado, resolvi dar um pulo lá fora, na rua. Ali, me diverti. Mais de dez paparazzi, barrados, faziam plantão na porta e reclamavam que dois fotógrafos haviam sido autorizados a entrar.

Muitas vezes chatos e inconvenientes, os paparazzi são também guerreiros. Passam horas à espera de uma foto, que pode nem acontecer. Achei legal quando, no esforço de agradá-los, a produção da festa ofereceu a oportunidade que entrassem “de dois em dois” e eles se recusaram. Ou entrava todo mundo, ou não entrava ninguém. “A gente não é palhaço”, gritou um, ao ouvir a proposta. “Um dia eles vão precisar da gente”, disse outro. A espera foi recompensada com uma foto da modelo ao chegar e outra ao sair da festa. Apenas isso.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Crônica Tags: , ,
17/01/2009 - 11:46

Uma “bicicleta fantasma” por mais humanidade no trânsito

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Eles parecem loucos, mas são, de certa forma, heróis. São ativistas do ciclismo, em São Paulo – uma cidade cuja política de transporte sempre privilegiou os carros. Promovem passeios, fazem campanhas de conscientização, pintam bicicletas no asfalto, em grandes avenidas, a sinalizar que ônibus e carros devem dividir espaço com as bicicletas.

Encontrei-os pela primeira vez em setembro do ano passado, no Dia Mundial sem Carro. O protesto que promoveram não reuniu tantos ciclistas quanto esperavam, mas chamou a atenção pelo bom humor e a criatividade.

Menos de quatro meses depois, voltei a encontrá-los, no mesmo local, uma área que eles chamam de “Praça do Ciclista”, na confluência da avenida Paulista com a rua da Consolação. O bom humor havia dado lugar ao luto pela morte de Márcia Regina de Andrade Prado, ciclista do grupo, atropelada e morta por um ônibus no último dia 14, por volta de meio-dia, na avenida Paulista.

O protesto que organizaram, na noite de sexta-feira, 16, foi emocionante. Eram cerca de 300 amigos e colegas de Márcia. Saíram no ponto de sempre e rumaram em direção ao local do acidente, entre a rua Pamplona e a alameda Campinas. Em silêncio, levando as bikes nas mãos, ocuparam duas faixas da Paulista. Carregavam rosas brancas, distribuídas a quem parava para olhar o protesto.

No meio da marcha, começou a chover forte, como escrevi no Último Segundo, mas o protesto prosseguiu impávido. No ponto da avenida em que Márcia foi atropelada, os ciclistas instalaram uma bicicleta pintada de branco, uma “bicicleta fantasma”, para servir como marco da luta por mais humanidade no trânsito. Um símbolo forte – espero que eficaz.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): São Paulo Tags: , , , , ,
16/01/2009 - 15:26

BBB9 – Até agora, só dá Bial

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Num programa até agora morno, o apresentador Pedro Bial está fazendo o possível e o impossível para animar a festa. Leia aqui a versão integral da minha colaboração para o site especial do BBB.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): televisão Tags: ,
16/01/2009 - 11:58

A arte da cantada numa feira livre em São Paulo

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No livro “Modos de Macho & Modinhas de Fêmea”, bem como em diferentes textos na imprensa, o jornalista Xico Sá vem refletindo com sabedoria única sobre a arte da cantada. Numa das crônicas que escreveu a respeito, publicada na revista “Homem Vogue”, onde mantém a coluna “Cantata”, Xico observou que “a cantada é como a revolução de Mao Tse-Tung, tem que ser permanente”. E teorizou:

Porque cantar, à vera, é cantar todas e não cantar nenhuma ao mesmo tempo. Explico: é espalhar pacientemente a devoção a todas as mulheres como quem espalha sementes nos campos de lírios. (…) A cantada permanente e indiscriminada é irresistível, quando você menos espera, acontece o que você tanto sonhava. Sim, tem que ter o cuidado para não ser simplesmente um chato que baba diante do melhor dos espetáculos, a existência das mulheres. Ter que cantar sempre a mesma mulher e parecer que está apenas de passagem, que o estribilho é sempre novo, nada de larararás que mais parecem refrões do Sullivan e do Massadas, lembram dessa dupla de músicas chicletosas?

Lembrei deste texto do Xico ao ver, quinta-feira, um feirante exibir o seu talento nesta arte para uma moça que, acompanhada de uma amiga, passou em frente da sua barraca:

“Fumar não pode, amor”, disse ele, provocando o olhar de espanto dela, que caminhava com um cigarro aceso na mão. “Vai prejudicar o meu bebê”, emendou ele, arrancando um sorriso dela.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Crônica Tags: ,
15/01/2009 - 13:29

BBB9 – Falta critério, falta calcinha e sobra cara de pau

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Num breve comentário sobre o BBB9, para o site especial do iG, escrevo nesta quinta-feira sobre falta de critério (da Globo), falta de calcinha (da Milena) e excesso de cara de pau (da Ana Carolina).

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): televisão Tags:
15/01/2009 - 09:28

Espero não queimar a língua, mas vou elogiar o Kaká

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Comentei certa vez aqui no blog sobre uma capa da “Caras” em que Kaká aparecia desfrutando férias na Sardenha e fui bombardeado pelo fã-clube do atleta. Vou correr o risco novamente. Confesso que não tenho muita simpatia pela imagem de bom-moço e carola do craque, tanto fora quanto dentro do campo. Sempre com um sorriso nos lábios ou com as mãos levantadas ao céu, posando para fotos ao lado de Berlusconi ou dando autógrafos, Kaká não parece humano, mas de outro planeta, em missão por aqui. Não à toa, é o jogador mais querido do Brasil, apontou uma pesquisa recente.

Mas, sua atitude, até o momento, no episódio que envolve a oferta de compra do seu passe pelo Manchester City, merece elogios públicos. Digo “até o momento” porque nunca se sabe o que acontecerá nos próximos capítulos e posso queimar a língua. Diferentemente do que se esperava, ao ser alvo da maior proposta financeira já feita por um jogador de futebol, Kaká evitou dizer “sim” automaticamente. O jogador declarou amor eterno ao Milan, clube em que atua, e deu a entender que grana não é tudo na vida.

Ah, dirão muitos, com o tanto de dinheiro que ele já tem, é fácil dizer isso. É verdade. Ainda assim, o simples fato de não se render de forma irrefletida, como qualquer jogador faria, ao caminhão de libras esterlinas que estacionou à porta da sua casa, já é digno de nota. Segundo seu assessor, para aceitar o convite dos donos bilionários do Manchester City, “a garantia que ele vai exigir é um time vencedor, porque ele quer voltar a ser o melhor do mundo e jogar uma Copa do Mundo, e para isso precisa jogar em um time alto nível”. 

Na minha maneira de ver, o raciocínio está corretíssimo. Espero que não seja apenas demagogia de Kaká, para ficar bem com a torcida do Milan. Vamos aguardar os próximos lances desse negócio. 

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Esporte Tags: , , ,
15/01/2009 - 08:40

Volta do Los Hermanos é notícia decepcionante

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A notícia que o Los Hermanos vai voltar a se reunir para tocar antes dos shows do Radiohead no Brasil pode ter animado os fãs, mas passa uma imagem ruim do grupo – especialmente se o retorno for exclusivamente para esta apresentação.

Ao longo de sua carreira, a banda conquistou muita admiração justamente por nadar na contracorrente, sem se curvar ao mercado e adular a mídia. Com essa volta, o Los Hermanos passa a impressão que a decisão anterior, que implicou na separação, não foi tão séria e refletida assim.

Todo mundo tem o direito de voltar atrás em suas decisões, mas é ruim que seja o “mercado” a dar o tom. Especialmente no caso de um grupo que sempre cultivou a sua independência em relação a essas coisas. 

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Cultura Tags: , ,
14/01/2009 - 15:44

BBB9 – O blogueiro se espanta na estréia do programa

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Esse blogueiro aceitou o desafio de submeter alguns momentos do seu dia ao Big Brother Brasil 9 e escrever a respeito. O primeiro texto que produzi, sobre a estréia da atração, está aqui, no site especial que o iG mantém sobre o assunto. Fala do meu espanto em ouvir uma candidata, na fase de seleção, classificar o programa como “um espelho da juventude do Brasil”.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): televisão Tags: ,
13/01/2009 - 17:15

A filosofia de Carlos Imperial

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Escrita por Denilson Monteiro, a biografia “Dez! Nota Dez!” recoloca em cena Carlos Imperial (1935-1992), um dos mais competentes e polêmicos produtores culturais que o Brasil já teve. Em entrevista ao Último Segundo, Monteiro fala das dificuldades que enfrentou para conseguir publicar o livro – “quase todas” as editoras do país não se interessaram pelo trabalho. Abaixo, selecionei do livro algumas frases de Imperial, que dão uma medida do que ele fez e pensava:

“Se você quiser chamar a atenção pra você, comece a falar mal da pessoa que estiver mais em evidência no momento.”

“Prefiro ser vaiado no meu Mercury Cougar do que aplaudido num ônibus.”

“E agora com vocês, o Elvis Presley brasileiro.”
(ao apresentar Roberto Carlos no programa “Clube do Rock”, em 1958)

“Comigo é assim: mulher e música, se não tiver dono, eu vou lá e apanho.”

“Amigos, estava eu abatendo umas ‘lebres’ na minha casa na Barra da Tijuca.”
(frase com que abria sua coluna na imprensa)

“É trolha na xavasca!”
(um de seus gritos de guerra)

“Durante a agonia de Tancredo Neves, me surpreendi ajoelhado no meu quarto diante do aparelho de TV rezando. E pensei: assim como depois da morte de Cristo surgiu o cristianismo, após a morte de Tancredo surgiu o tancredismo.”
(ao criar o Partido Tancredista Nacional)

“No Brasil, autor de teatro não pede adiantamento, pede é: ‘pelo amor de Deus, me monte’.”

“Dez! Nota dez!”
(anunciando as notas na apuração do desfile das escolas de samba)

“Você pode estar morrendo em pé, mas não deixe isso transparecer para ninguém”

 
Crédito da foto: Arquivo Ivan Cardoso. Feita durante as filmagens de “O Monstro Caraíba”, de Julio Bressane, proibido pela censura. 

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Cultura Tags: , , , ,
13/01/2009 - 12:06

Globo de Ouro e a falácia da “prévia do Oscar”

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A Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood reúne pouco mais de 90 integrantes (dois deles brasileiros, Paoula Abou-Jaoude e Ana Maria Bahiana). Foi criada em 1943 e, pouco depois, já estava concedendo o Globo de Ouro a representantes da indústria cinematográfica.

Com muita eficiência, a associação transformou o Globo de Ouro num megaevento. Na edição deste ano, todo mundo que importa na indústria, com exceção de Woody Allen, compareceu. Quem não gosta de ganhar um prêmio? Ainda mais cercado de glamour, repórteres no “tapete vermelho” e muita badalação na imprensa?

O que sempre me surpreendeu foi a propagação da idéia de que o Globo de Ouro é “uma prévia” do Oscar. A Academia que promove o Oscar tem mais de 6 mil filiados e a votação em cada categoria é um processo complexo, que envolve milhares de votantes, ligados aos diferentes sindicatos que representam a indústria (atores, roteiristas, diretores, produtores, técnicos etc).

Como é possível que os votos de menos de 100 pessoas, jornalistas estrangeiros que vivem em Hollywood, possam expressar uma tendência do que o Oscar, um mês depois, vai apontar? Essa foi uma besteira dita e repetida tantas vezes que se tornou uma espécie de “verdade”.

Nos últimos anos, diferentes jornalistas e veículos de imprensa apontaram a falácia que está por trás da idéia de dizer que o Globo de Ouro é uma prévia do Oscar. Esta semana, foi a vez de Leonardo Cruz, na “Folha de S.Paulo”, falar que essa idéia é “uma tremenda bobagem”. Ele escreveu que o prêmio é apenas uma “grande vitrine para a promoção e lobby dos longas que buscam a estatueta (o Oscar), mas as verdadeiras prévias estão com as entidades de classe”. 

Os prêmios que, de fato, podem sugerir indicações sobre os humores do Oscar (cuja cerimônia de entrega será no dia 22 de fevereiro) são aqueles concedidos pelos sindicatos dos atores (25 de janeiro), diretores (31 de janeiro) e produtores (24 de janeiro) de Hollywood.

Em tempo: o Último Segundo publica nesta terça-feira uma ótima matéria do New York Times sobre o Oscar.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: ,
12/01/2009 - 09:40

Sobre óvnis, ETs e a ditadura no Brasil

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Ao ler a ótima reportagem “SNI investigou óvnis durante a ditadura”, de Fernando Rodrigues, publicada na edição de domingo, na “Folha de S.Paulo”, me lembrei de uma que publiquei, há mais de dez anos, no mesmo jornal, intitulada “Regime militar investigou óvnis e ETs”.

Apesar dos títulos quase idênticos, a reportagem do Fernando trata de investigações do SNI no Pará e Maranhão em 1977 e 78, enquanto a minha falava de como o Dops averiguou um caso de suposto contato com disco voador no interior de São Paulo, em 1974, e depois xeretou a vida de dois ufólogos na capital paulista.

Escrevi minha reportagem com base em documentos localizados pelo historiador e ufólogo Claudio Suenaga, que na ocasião escrevia uma dissertação de mestrado sobre o assunto. Em outro texto, na mesma edição, também abordava o interesse – sempre negado – da Aeronáutica pelo assunto.

Para quem gosta do assunto, transcrevo abaixo três trechos da reportagem, publicada num domingo, 11 de maio de 1997. Em tempo: naquela época, o Manual de Redação da “Folha” recomendava que não se usasse a palavra “ditadura” para se referir ao período em que o país foi dirigido pelos militares.

Regime militar investigou óvnis e ETs

O regime militar brasileiro (1964-1985) investigou, nos anos 70, casos de supostos aparecimentos de discos voadores e espionou as atividades dos especialistas brasileiros em ETs (extraterrestres).

Documentos do extinto Dops (Departamento de Ordem Política e Social), hoje guardados no Arquivo do Estado de São Paulo, mostram que os chamados serviços de informação perderam tempo e dinheiro averiguando o “seqüestro” de um comerciante paulista por tripulantes de um objeto voador não-identificado (óvni).

Os documentos também mostram que o Dops chegou a convocar para depor dois ufólogos, pessoas que são estudiosas de óvnis (UFOs, em inglês), e infiltrou um agente para acompanhar as reuniões periódicas de um grupo de apaixonados por discos voadores.

Localizados pelo historiador Cláudio Tsuyoshi Suenaga, os documentos confirmam algo que os ufólogos brasileiros sempre suspeitaram, mas que a comunidade científica via apenas como mais um sintoma da mania de perseguição que acomete muitos desses estudiosos: “Os militares sempre se preocuparam com o fenômeno óvni”, diz Suenaga.

O historiador, que prepara tese de mestrado sobre o tema na Unesp (Universidade Estadual Paulista), vai além: “É claro que existe um ‘Arquivo X’ brasileiro. Até hoje existe preocupação do governo brasileiro com esse tema”. (…)

Na avaliação de Cláudio Suenaga, os documentos do Dops que encontrou mostram claramente que o interesse original dos serviços de informação era pelo “fenômeno óvni em si”.

À medida que a investigação da polícia política evolui, o foco de atenção passa a se concentrar nas atividades dos ufólogos, visando averiguar se praticavam algum tipo de atividade “subversiva”.

“Os documentos que encontrei são apenas uma parte, uma pequena parte, do ‘Arquivo X’ brasileiro”, diz Suenaga.

Dops queria saber se ufólogos eram ’subversivos’

A investigação “extraterrestre” do Dops tem origem num fato ocorrido no dia 28 de abril de 1974, nas proximidades de Guarantã (423 km a noroeste de São Paulo).

Naquele dia, conforme relato enviado ao diretor do Dops pelo delegado Hermínio José Theodoro, “Guarantã foi abalada pela notícia de que o indivíduo Onilson Patero fora ‘sequestrado’ por um ‘DISCO VOADOR’ há (sic) 12 quilômetros desta cidade”.

O caso Patero, como ficou conhecido, teve grande repercussão na mídia. Comerciante, estabelecido em Catanduva (385 km a noroeste de São Paulo), ele afirmava ter tido dois contatos com óvnis.

O primeiro teria ocorrido em maio de 73, numa rodovia próxima a Catanduva. No segundo “encontro”, que causou maior alvoroço, Patero sumiu por seis dias.

O carro do comerciante foi encontrado abandonado numa rodovia no interior de São Paulo na manhã do dia 29 de abril e ele reapareceu após seis dias numa fazenda em Colatina, no Espírito Santo.

No relatório que enviou ao Dops, o delegado Theodoro observa que, ao narrar para jornalistas a sua viagem num disco voador, Patero estava na companhia de quatro “elementos estudiosos da Associação de Estudos dos óvnis”.

O delegado se apressa em identificar os estudiosos e pedir ao Dops que os investigue, na tentativa de ajudar a esclarecer se, de fato, Onilson Patero viajou num disco voador de Guarantã a Colatina.

Em São Paulo, a investigação foi comandada por Roberto Quass, à época delegado-adjunto do Serviço de Informações (SI) do Dops.

O SI era então comandado pelo hoje senador Romeu Tuma (PFL-SP), que, segundo mostra um documento, tomou conhecimento da principal investigação sobre os óvnis “vistos” pelo comerciante Onilson Patero.

Entre os ufólogos que estiveram com Patero em Guarantã e serão investigados pelo Dops, estão dois dos pioneiros da ufologia no país, Max Berezovsky e Willi Wirtz.

É o delegado Quass que toma os depoimentos de Berezovsky e Wirtz, à época integrantes da Associação Brasileira de Estudos das Civilizações Extraterrestres. Os depoimentos à polícia foram dados no dia 11 de outubro de 74, quase seis meses após o caso Patero aparecer nos jornais.

O médico Berezovsky (…) afirmou em seu depoimento que considerava verdadeiro o relato de Onilson Patero sobre o seu primeiro encontro com um disco voador, mas via sinais de que o segundo encontro fora inventado.

Por sua vez, o professor Wirz disse à polícia que considerava falsos os dois “encontros” de Patero com discos voadores.

Segundo Wirz, a história contada pelo comerciante de Catanduva era “completamente inconsistente, com muitos pormenores que lembram filmes de televisão, principalmente a série ‘Os Invasores’”. (…)

No final de outubro, o delegado Quass parece se dar por satisfeito com os depoimentos de Berezovsky Wirz e aceita a conclusão de que Onilson Patero é um “mitômamo”, que “apresenta certa alteração neurológica”.

O seu relato é enviado ao delegado Romeu Tuma, que o encaminha ao então diretor-geral do Dops, Lúcio Vieira. O caso parece encerrado – mas será reaberto.

Em janeiro de 75, a investigação sofre uma reviravolta – e os ufólogos de São Paulo é que passam a ser investigados.

Um documento com carimbo do 2º Exército, enviado ao Serviço de Informações do Dops, relata que “tem havido reuniões de cunho duvidoso” na casa de Max Berezovsky e num clube israelita em Higienópolis (centro de SP).

Nessas reuniões, “com a idéia de se realizar debates sobre Estudos das Civilizações Extraterrestres (discos voadores), buscam contatos com estudantes e outros elementos, possivelmente ligados à subversão, para discussão e combate ao governo constituído”.

É este relato anônimo que leva o Dops a infiltrar agentes nas reuniões dos ufólogos paulistanos.

Berezovsky tem certeza de que, no período, teve todos os seus telefones grampeados e era vigiado pela polícia. O que se pode afirmar com certeza é que um agente do Dops assistiu, disfarçado, uma reunião dos ufólogos, em 27 de junho de 75, e relatou detalhes do que viu e ouviu a seus superiores.

Num texto saboroso, porque surreal, o agente relata que “o conferencista (Flávio Augusto Pereira) discorreu sobre a problemática dos discos voadores, transmitindo inúmeras teorias e informações sobre o assunto”.

Mais adiante, o agente informa que “a posição do orador ficou manifesta sobre a existência de tais objetos, como civilizações de outros planetas e galáxias, parecendo também evidente que a maioria dos presentes é aficionada e crente no assunto”.

Por fim, o agente do Dops informa que os ufólogos estão em campanha de novos sócios e, o mais importante, que não observou “qualquer comentário, atitude ou alusão política” no encontro.

Assim, com a conclusão favorável do agente, observa o historiador Cláudio Suenaga, “encerrava-se um dos mais insólitos processos movidos durante o período pelo Estado brasileiro”.

Aeronáutica recolhe dados sobre óvnis

Dentro do governo, o principal centro de referência sobre objetos voadores não-identificados fica no Ministério da Aeronáutica, no Núcleo do Comando de Defesa Aeroespacial Brasileiro, conhecido pela sigla Nucomdabra.

A forma de atuação desse núcleo é alvo de muita discussão. Os ufólogos juram que o Nucomdabra investiga aparições de óvnis, desloca agentes para os locais onde eles podem ter aparecido e monitora o espaço aéreo brasileiro atrás de movimentações suspeitas.

A Aeronáutica nega. “O que fazemos é receber informações e arquivar, arquivar, arquivar. Por que não investigamos? Porque não existe uma diretriz específica nesse sentido”, diz o brigadeiro José Montgomeri Rebouças, chefe do Centro de Comunicação Social do Ministério da Aeronáutica.

“Deve ser um assunto palpitante, porque recebemos muitas informações, mas não damos tratamento científico a esses relatos, nem consideramos discos voadores como ameaça aérea”, diz ele.

O ufólogo Cláudio Suenaga, autor da tese de mestrado sobre óvnis, constatou em 1991 que o Nucomdabra faz mais do que apenas arquivar informações sobre supostos discos voadores.

Suenaga enviou ao órgão fotos que tirou em Guaianazes (zona leste de SP) de um suposto óvni.

Em resposta, o então major-aviador Mardem José de Andrade, do Nucomdabra, enviou a Suenaga um “parecer preliminar” sobre as fotos, no qual diz que a luz que se vê no céu “parece tratar-se de um rastro de condensação (jet stream), relativo a uma aeronave em grande altitude”.

Andrade também enviou um questionário-padrão, no qual se pede uma série de informações sobre o óvni, tais como a “posição do objeto”, a sua forma, tamanho, cor, velocidade e rastro, a trajetória e a duração da observação.

O questionário, com 14 itens, está impresso num papel sem timbre, da mesma forma que a carta do major-aviador Mardem de Andrade, que é assinada.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Brasil Tags: , , ,
11/01/2009 - 12:34

Próximos projetos de Daniel Filho: “Se eu Fosse Você 3”, “Roque Santeiro” e “Chico Xavier”

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O sucesso de “Se Eu Fosse Você 2”, de Daniel Filho, filme que em uma semana levou cerca de 1,5 milhão de espectadores ao cinema, também intriga o jornal “O Globo”. Com argumentos semelhantes aos apontados por três críticos e a produtora do filme, ouvidos por este repórter, o diário carioca sugere, neste domingo, as seguintes razões para a bem-sucedida carreira dos filmes do diretor:

A preocupação (de Daniel Filho) com o Ibope, trazida da TV; a prática publicitária na televisão, onde fazia desde chamadas até aberturas; o apoio da Globo Filmes, que traz publicidade; e o profundo conhecimento de cinema.

O próprio Daniel Filho, ouvido pelo jornal, dá a sua explicação para o seu sucesso como diretor (os seis filmes que dirigiu desde 1995 já levaram 9,2 milhões de pessoas aos cinemas):

Corro atrás do público como quem corre atrás do prato de comida. O sucesso é uma coisa que eu persigo sempre. Minha natureza profissional é essa, seja no circo, no teatro de revista, na televisão ou no cinema.

Daniel Filho anuncia na reportagem os seus próximos projetos – todos eles candidatos a estourarem nas bilheterias. O primeiro, uma cinebiografia do médium Chico Xavier; depois, uma adaptação da novela “Roque Santeiro” e, por fim, para 2010, “Se Eu Fosse Você 3”. A Fox, conta Daniel, já encomendou a nova sequência. “Calma. Quem sabe daqui a dois anos? É uma franquia legal”, diz o diretor.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Cultura Tags: , , , ,
10/01/2009 - 10:10

Morre o vilão de um clássico de Bob Dylan

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No dia 8 de fevereiro de 1963, o fazendeiro William Devereux Zantzinger, dono de uma plantação de tabaco, então com 24 anos, atacou três funcionárias de um hotel, em Baltimore (Maryland), com uma bengala. Bêbado, fazendo insultos racistas, o fazendeiro pediu um uísque a Hattie Carroll, uma faxineira de 51 anos, mãe de onze filhos. Zantzinger atacou Carroll com a bengala no ombro e na cabeça. A mulher passou mal, foi levada a um hospital e morreu. Zantzinger foi condenado a seis meses de prisão – ao final de um julgamento polêmico, no qual seus advogados convenceram o júri que Carroll sofreu um derrame em consequência do estresse sofrido pelos ataques verbais do fazendeiro, não por causa da agressão física.

Esta história inspirou Bob Dylan a escrever uma das mais famosas canções da fase inicial de sua carreira, em que se notabilizou pela música de protesto. “The Lonesome Death of Hattie Carroll” é a nona composição do terceiro LP de Dylan, “The Times They Are A-Changin’”, lançado em 1964. Com violão e gaita, Dylan descreve de forma quase jornalística o caso da morte de Carroll por Zantzinger chamando a atenção para o racismo e a iniquidade da decisão judicial. O músico toma algumas liberdades na letra. Em vez de onze, Carroll tem dez filhos e Zantzinger vira Zanzinger, sem o “t”.

Aqui neste vídeo, disponível no You Tube, Dylan canta a música, sozinho, com a sua gaita e o violão, no programa Steve Allen Show, em 1964.

Zantzinger morreu no último dia 3 de janeiro, aos 69 anos, mas sua morte só foi confirmada na quinta-feira, 8.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: ,
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