Autor da versão comenta polêmica sobre “Mr. do Pandeiro”
Um post sobre o novo disco de Zé Ramalho, no qual ele canta versões de músicas de Bob Dylan, provocou uma interessante discussão aqui no blog. Escrevi especificamente sobre como me agradou a versão de “Mr. Tambourine Man”, realizada pelo poeta e escritor Bráulio Tavares, que transformou o personagem-título da canção em “Mr. do Pandeiro” e, num segundo verso, em “Jackson do Pandeiro”.
Rodolfo Tornesi, em seu comentário, realçou algo que também me chamou a atenção – que o esforço de tradução das músicas de Dylan resulta igualmente numa adaptação à cultura brasileira e ao universo de Zé Ramalho. Tornesi cita a menção ao filme “Tropa de Elite” na adaptação de “Rock Feelingood”.
Houve também, é claro, leitores que discordaram totalmente dos meus elogios. Beto, por exemplo, que se disse autoridade em matéria de Bob Dylan, escreveu: “Afirmar que o sr. Ramalho tem algo a ver com Bob é o mesmo que afirmar que Che Guevara tem algo a ver com São Francisco de Assis.”
O músico Claudio Henrique, que é autor de uma versão de Dylan (“Just Like a Woman”, que virou “Apenas Uma Mulher” no seu CD de estréia, em 2002), avaliou que a versão de Bráulio Tavares para “Mr. Tambourine Man” comprometeu a sonoridade da letra original. “Numa versão, é fundamental que a sonoridade da palavra seja respeitada, e não seu sentido literal”, escreveu. Também registrou o seu “desconforto” com o fato de a versão manter a palavra “Mr”. “Se era pra ficar regional, como se supõe, de onde vem este Mister?????”, protestou.
Jairnumo contribuiu no post com uma lista de músicos brasileiros que já gravaram versões de músicas de Dylan, lembrando da ótima versão do Skank para “I Want You”. Malaquias reconheceu que “a questão da tradução sempre é questionável, e ninguém precisa gostar da tradução, mas que as músicas tiveram novo fôlego, e dos bons isso é indiscutível.”
Por fim, para alegria deste blogueiro, o criador da versão de “Mr. Tambourine Man”, Bráulio Tavares, em pessoa, entrou no blog . Em seu comentário, Bráulio reconhece as dificuldades envolvidas na sua versão, acolhe as críticas recebidas e dá uma aula de boa educação ao dialogar com as opiniões dos leitores. Reproduzo neste post o seu comentário:
Obrigado a Maurício e a todos pelos comentários. Fazer versão é uma tarefa ingrata, e para mim toda versão é uma perda em relação ao original. Paciência. É um quebra-cabeças poético, e quando a gente encontra alguma solução que se encaixa bem o prazer supera o desânimo de todas as vezes em que só se acha uma solução insatisfatória. Manter a sonoridade é tão importante quanto acompanhar o sentido. Só que na maioria das vezes não dá. Mais até do que na poesia impressa, a sonoridade das palavras é importante numa canção, mas nem sempre dá para manter. O que a gente perde de um lado procura compensar do outro. É preciso ter humildade e tentar fazer o melhor possível. Se a gente for esperar atingir a versão ideal, não grava nunca…
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: Braulio Tavares, Mr. do Pandeiro, Mr. Tambourine Man, Tá Tudo Mudando, Zé Ramalho



Grande Maurício, Grande Bráulio
Elegância e clareza do mestre Bráulio. É isso aí mesmo. Versão é sempre um tarefa árdua e ingrata. Quando fiz “Apenas uma mulher” de “Just Like a Woman”, segui todo um ritual “burocra”: tive que mandar a letra da versão em português, a tradução em inglês desta versão e ainda um take voz e violão interpretando a canção. Fiquei imaginando: se eles (leia-se escritório do Dylan) não entendem português, querem apenas saber se não estou dizendo alguma besteira e como está soando, certo? No mais, devo confessar que joguei a toalha em prol do guru Dylan: depois de tentar inúmeras possibilidades para traduzir o refrão, preferi mantê-lo em inglês (entendendo-o como o DNA da canção), recitando a tradução literal ao final da gravação. Uma solução em prol da sonoridade, em respeito ao autor, e com a ajuda da forma (se é que não estou transformando isso num mestrado da versão no cancioneiro popular, rs). Naquele momento, achei a melhor solução, mas prometo conseguir um dia alguma versão completa. E já estou de olho numa do repertório dylanesco. Mas não conto aqui – nem em inglês!!!!! Abs a todos.
Gostei muito do cd, “Mr.do Pandeiro” na minha opinião não é a melhor, tem outras faixas muito melhores. Gostaria de indicar para comparações a versão de Zé Geraldo para “Mr. Tambourine Man” em seu cd “Catadô de bromélias”, eu achei muito melhor que a do Zé Ramalho e Braulio Tavares. Completando quero dizer que gosto muito do som de Dylan e mais ainda do ZR, principalmente das composições.
Não sou nehum profundo conhecedor da obra de Zé Ramalho (e, nesse caso, de Bráulio Tavares) nem tampouco de Bob Dylan. Apesar de saber das origens de ambos (de sua própria e de seu estilo). O que posso dizer é que conheço a música em questão (as duas rsrs). Uma coisa que talvez esteja sendo esquecida é o fato de que nas versões o importante realmente é poder analisá-las como um todo e não verso-a-verso. E sob essa ótica o caso de Bráulio Tavares exclui totalmente qualquer contestação pois satisfaz plenamente a idéia que o autor quis passar. Obrigado Bráulio, obrigado Zé.
A versão Mr. do Pandeiro, sinceramente, ficou horrível.
Bráulio, não sou autoridade nenhuma qdo o assunto é música. Entretanto, modéstia à parte, curto Bob Dylan há cerca de 30 anos, e posso então, ao menos, dizer estas palavras a respeito do assunto. Falar de Dylan é mencionar um universo paralelo. Vc vai do céu ao inferno com este cara. Éntre altos e baixos, Dylan construiu uma carreira incrível, que não dá p/ comparar com outro artista do gênero. A maioria de suas músicas tem letras extensas, às vezes confusas, nos dando a impressão que Dylan sempre fez músicas para todo mundo ouvir, mas p/ somente ele cantar. Salvo exceções, a exemplo de blowing the wind, e poucas outras que são mais ” normais”. Quanto às versões do Zé Ramalho ( artista que admiro muito), confesso que a única que gostei foi tá tudo mudando (things have changed). As outras deram para o gasto ou não ficaram boas, a exemplo de “Mr.Pandeiro”. Para finalizar, Bob Dylan tem um manancial incrível (penso que o maior de todos) para ser explorado, a exemplo de Red river shore, workmenblues (álbum Modern Times), you´re a big girl now, if you see her say hello, entre outras tantas a serem exploradas. Mas, alerto, vai dar muito trabalho, Mr Ramalho !
Traduzir é algo que os grandes mestres da literatura sempre tiveram reservas, embora existam grandes traduções. A canção Mr.Tamborine Man do mestre Dylan, como tudo que ele faz é obviamente intraduzivel, mas a versão que de fato não é uma tradução mas uma adaptação a outro idioma, gravada pelo grande Zé Ramalho é muito bonita, principalmente na homenagem a Jackson do Pandeiro, insigne artista brasileiro. Conheço homenagens semelhante feita pelo própriop Dylan a seu inspirador Woody Guthrye. Portanto vamos deixar de ser puristas e curtir o CD do Zé nesse deserto de boa música que á a atual MPB. Abraços a todos.
Maurício, bom dia
Pois é, você me citou, e tenho a esclarecer o seguinte: eu disse que era “autoridade” dando a entender que conheço toda a obra de Bob Dylan. Olhe as aspas! Pode alguém tecer comentário sem conhecer profundamente? E aí está, a meu ver, o perigo. Muitos comentam, mas leram pouco e ouviram menos ainda. Para opinar pra valer é necessário conhecer de verdade, senão fica difícil. Foi nesse sentido, e somente nesse sentido que eu disse que era “autoridade”. Muitos falaram mal, não foi? Pode ter sido bom para acender a discussão. E por último, gostaria de dizer que acho mesmo absurda a associação do sr. Zé Ramalho com Bob Dylan, e o motivo da bronca é somente esse, a associação. Eu acho que críticos de música que afirmam isso depõem contra eles mesmos, pois isso é de fazer rir, para não dizer chorar. Até a respeitada crítica Ana Maria Bahiana entrou nessa. Não existe um “Bob Dylan tupiniquim” ou algo parecido. Bob é grande demais para que associações desse tipo se espalhem por aí. Quanto ao disco que o sr. Zé Ramalho gravou, tudo bem, mas nunca vou ouvir. Um grande abraço.
Resposta do Mauricio:
Beto, entendi o que você quis dizer com “autoridade” e, por isso, reproduzi parte do seu comentário no post. Fiz isso com a melhor das intenções e, mais uma vez, agradeço sua participação na discussão. Abraços
Eu queria aproveitar este qualificado forum de entendidos de Mister Dylan e seus pandeiros para batucar na cabeça de vocês que existe um CD, muito bom, em que o cantor e compositor Maurício Baia interpreta canções de Bob Dylan. São deles, aliás, duas das versões gravadas por ZRamalho, mas ainda não as ouvi e por isso não comento. E não custa citar a lendária Diana Pequeno – os acima de 40 irão me entender: a primeira versão que conheci na última flor do lácio. Outro que tb já se arriscou muito em versões de Dylan foi o gaúcho Vitor Ramil. E para não dizerem que estou me acovardando nesta berlinda, digo: os poucos que quiserem se aventurar a conhecer a minha (certamente péssima!!!) versão de Just Like a Woman (para poderem meter o pau tb, rs) devem acessar http://www.claudiohenrique.com.br/claudio_faixas.php
é a última faixa do CD. Aguardo os tomates….
abraços.
Escrever é algo difícil de se fazer, e ver profundamente é ainda mais trabalhoso, árduo. Ver superficialmente é simples, cômodo, não machuca. Então, pessoal, vamos para o fundo! Por que nunca ninguém disse que Tom Jobim era o nosso Cole Porter? Bem, associações são perigosíssimas; beiram, quase sempre, o ridículo. Agora me veio à cabeça um “aforismo” do Hermeto Paschoal, que disse que “ser músico é gostar de música, não precisa tocar. Tem músico que toca e não é músico”. Alguém, nos comentários, associou Dylan aos beats, à Kerouac e outros. O Eduardo Bueno disse bem, quando afirmou que Dylan conseguiu o que os beats tentaram, mas nunca conseguiram, ou seja, unir poesia e música. E os beats, principalmente Allen Ginsberg, eram profundos admiradores de Dylan, talvez por causa disso. Dylan, como se vê, foi além, precisava ir. Ele sempre esteve um passo à frente. Gosto muito do Dylan “iconoclasta” e irônico. “Tudo isso tem que acabar, isso é uma bobajada.” (sobre os hippies). “Não fui a Woodstock, falhei nisso também.” (risos, de Dylan). Certa vez o Ruy Castro disse que os Beatles não eram o começo, mas o fim, o fim da era das grandes canções. Incluo Bob Dylan nesse “fim”. Eles bem que merecem a companhia de Gershwin, Porter, Jobim e muitos outros. Mas foi o fim. Maurício, um grande abraço.
Olá, Maurício, boa tarde.
Eu não sabia que esse negócio de blog existia, pois não tenho computador e nem mesmo gosto, acho. Mas é assim mesmo? Quer dizer, você lança a notícia, o pessoal entra, opina e depois nunca mais volta? Esquisito, não? E quem ficou com a razão nesse caso específico? Ou não é pra se ter razão? Estranho isso, essa avalanche de informações que, praticamente, as pessoas são obrigadas a acompanhar, ou quase. No meu caso, não. Seja lá como for, eu gostaria de dizer algo mais sobre o assunto. Li uma entrevista na internet com o sr. Zé Ramalho, se não me engano para O Globo. Ele se dizia magoado com a crítica, inclusive em relação ao último disco. Ele disse que sempre foi assim, que “os cães ladram, mas a caravana passa”. Não sei, não. Não se trata, aqui, de ofensas pessoais, mas o criticado sempre acaba levando para o lado pessoal.Muito difícil não ser assim. Nos meus comentários, não o ofendi como pessoa, e nem ofendi. Mas não sou jornalista, não tenho autoridade nenhuma, ninguém vai reparar no que eu escrevi, é muito diferente. Aliás, domingo eu também li que o compositor Luiz Tatit, em parceria com um outro, escreveu um livro no qual analisa canções, 6 ao todo. São analisados Caetano, Chico e Gilberto Gil, além de Tom Jobim. Vale a pena ler a reportagem do Caderno 2 do Estadão. Nessa reportagem o Tatit diz que nem o Bob Dylan conseguiu analisar a realidade como o Caetano, o Chico e o Gil. Ele também cita John Lennon, que também, na opinião dele, não conseguiu. Discordo do Tatit em gênero, número e grau. Bob Dylan é, em comparação com o trio brasileiro, o compositor mais versátil e plurarista. Maurício, não volto mais aqui, e um grande abraço.
Resposta do Mauricio:
Caro Beto,
Acabo de ver a mensagem que vc postou hoje. Queria, em primeiro lugar, te agradecer pelo interesse e pelos ótimos comentários sobre o assunto que vc colocou. Depois, gostaria de esclarecer que minha proposta, neste blog, é de promover discussões sobre temas que considero importantes. Muitas vezes dou a minha opinião, outras vezes nem isso, apenas apresento o assunto. De qualquer forma, não pretendo ter a palavra final sobre nenhum assunto. Neste caso do Zé Ramalho, ocorreu um debate muito saudável de idéias. Visões diferentes e divergentes sobre um mesmo assunto. Vc disse que não visita muito blogs. Pois é. Nem toda discussão em blog ocorre dessa forma educada e interessante, como foi no caso do meu post sobre o Zé Ramalho. Não acho que alguém tenha que ter a razão. Mais de uma pessoa pode ter a razão – e com opiniões muito diversas. Isso é saudável e democrático. Por isso tudo, escrevo para dizer que vc é muito bem-vindo e que ficarei feliz de te ver em outras discussões aqui no blog. Não cumpra a promessa de não voltar mais aqui.
muito obrigado
um abraço
Mauricio
[...] também se manifestou a respeito, cinco dias depois escrevi um segundo post sobre o assunto, Autor da versão comenta polêmica sobre “Mr. do Pandeiro”, que rendeu outra dezena de [...]
Cada disco lançado pelo Zé Ramalho, vem com uma produção bem feita, não apenas pelos arranjos bem executados, mas na arte, nas participações, enfim… Créditos ao Sr. Robertinho do Recife, co-produtor dos trabalhos do Zé desde 1997… Escolher a versão do Bráulio Tavares foi um gol de placa, pois este é um dos maiores compositores do país, e já fez versões ótimas de músicas do exterior… Com certeza a escolha do compositor e da versão em questão foi feita a dedo…
Música é uma questão de gosto, de ouvido… Porém é injusto negar a qualidade da obra do Sr. Zé Ramalho, assim como da versão do Sr. Bráulio Tavares.