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01/10/2008 - 13:00

Marcelo Camelo sem concessões ou apelos fáceis

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A turma pop odiou, como era de se esperar. Mas o primeiro disco solo de Marcelo Camelo merece ser ouvido com atenção por quem gosta de música brasileira. O trabalho, de fato, aponta numa direção diferente (não diria oposta) ao que Camelo e Rodrigo Amarante propuseram nos discos do grupo Los Hermanos – o que parece natural, num momento de transição profissional e, quem sabe, pessoal.

“Sou” é um disco muito melancólico, tanto do ponto de vista melódico quanto nas letras, em que a solidão surge como tema de boa parte das canções. Na salada sonora criada pelos Los Hermanos, em que rock, samba, reggae e até metal se misturavam, essa temática já aparecia, mas soava de forma mais ambígua e, por isso, mais estranha e interessante. A favor da estréia solo de Camelo, pode-se dizer que, aparentemente, há agora mais uniformidade, mais padrão.

No texto que acompanha o CD, distribuído para jornalistas, seu irmão, Thiago Camelo, fala do bom humor e da alegria de Marcelo, mas também do estranhamento que sentiu ao ouvir as novas canções:

Por isso é engraçado quando as pessoas que apenas o conhecem na figura do artista vêm falar do seu isolamento, sua timidez e estranheza. Não que ele não seja isolado, tímido e estranho. Às vezes, alcançar o universo dele é difícil e, por trás da alegria com a qual estou habituado, enxergo uma pessoa profundamente só. Quase sempre só. E isso confunde, porque, embora tenhamos uma intimidade irmã, existe esse muro (um mundo) que nos separa. Pois esse CD me ajudou a atravessar tudo e – tão exposto – Marcelo está agora bem perto.

É preciso preparar o espírito para apreciar “Sou”. Logo de cara, em “Téo e a gaivota”, ele canta: “Todo amor encontra sempre a solidão”.  Depois, em “Tudo passa”, diz: “E até eu vou pra ver no que vai dar / a massa a moça / e até esse pra sempre / tudo passa”. Na quase instrumental “Passeando”, diz apenas, quase murmurando: “e lá vai deus sem sequer saber de nós / saibamos pois / estamos só”. Desse ponto, Marcelo evolui para “Doce solidão”, o primeiro raio de sol do disco, no qual canta: “Posso estar só mas sou de todo mundo”. E diz ainda: “Foge que eu te encontro que eu já tenho asas”.

O clima de fossa prossegue em “Janta”, dueto com a adolescente Mallu Magalhães (que canta em inglês). Outro raio de sol surge em “Mais tarde”, quando o cantor avisa; “to cansado demais / vou ver a vida a pé” e, em seguida, em “Menina bordada”, ele suspira: “vai ver era só / dizer a ela assim / moça por favor / cuida bem de mim”. O clima não muda muito em “Liberdade”, muito menos na instrumental “Saudade”, nem em “Santa chuva” e na última canção com letra, “Saudade”: “amor eu vivo tão sozinho de saudade”.

Especialmente “Santa Chuva” e a divertida “Copacabana” ajudarão os fãs a perceber que “Sou” não é uma ruptura total, mas uma transição pensada, refletida, da sonoridade dos Los Hermanos para a carreira solo. É possível pensar que Camelo esteja dizendo com o título do disco algo na linha: “sou assim”. Mas virado de cabeça para baixo, a capa do CD propõe um segundo título: “Nós”.

Letrista sensível, Marcelo Camelo, com esse disco novo (de estréia?), reitera o que já se sabia desde Los Hermanos. É um artista talentoso, criativo, preocupado em não se repetir. Consegue acrescentar algo com a sua marca ao rico universo da musica brasileira, sem fazer muitas concessões ao gosto médio ou ao que os fãs esperam dele. Não é pouca coisa hoje em dia.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , ,

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28 comentários para “Marcelo Camelo sem concessões ou apelos fáceis”

  1. Eu, que não sou um cara com cultura, achei o disco uma me… Espero, que no segundo, ele faça algo melhor.

  2. Bruno disse:

    Baixei as dez musicas e ouvi algumas vezes, mas sempre no trabalho e dedicar a atençao necessaria. Realmente, nao é uma obra acessivel, o que explica, na minha opiniao, a rejeiçao de varios comentaristas (“criticos”?). Afinal de contas, nesta época veloz, onde nao temos nem 20 minutos para escutar uma novidade antes que descubramos outra, quem tem tempo pra destrinchar arranjos complexos como o de “Téo e a Gaivota”, por exemplo?

    Fica uma pergunta: “hermético” ou “pouco acessivel” sao adjetivos “positivos” ou “negativos”?

    Mauricio, você jah escutou “Beirut”?

    http://www.deezer.com/#music/album/106592

  3. Bruno disse:

    Ops, faltou um “sem” na primeira linha:

    “…sem dedicar a atençao necessaria.”

  4. Mauricio Stycer disse:

    Bruno,

    Já conhecia o Beirut, sim. Acho muito legal. Valeu. abraços, Mauricio

  5. Mah disse:

    O disco é perfeito… Mostra exatamente quem o Marcelo é…
    Expressa muito bem os sentimentos…

    Amei!

  6. Viviane disse:

    Ahhh incrivel melodia do Marcelo Camelo, estávamos precisando…
    Eu aprovo, adorei e recomendo… Santa Chuva na voz de quem compôs, não tem prêmio maior!

  7. Ricardo disse:

    Esse disco só comprova o que eu já desconfiava, Marcelo Camelo além de pretensioso (sonha em ser um João Gilberto) é o responsável maior pela baixa qualidade do último disco dos Los Hermanos (quatro) espero que ele tenha botado toda a amargura que ele carregava tem nesse disco, para quem sabe voltar com os Los Hermanos com musicas de verdade.

  8. Mah disse:

    Quem quer espera ouvir pop, compre o cd do Nx Zero.

  9. Dum De Lucca disse:

    Sinceramente, você está defendendo um trabalho ruim. Não se trata se é de rock, pop ou mpb. A música é boa ou ruim, e esse disco é pra lá de modorrento. Ouvi com atenção, umas duas vezes. E uma delas já foi suficiente para sacar que ele foi infeliz nessa.

    abraço

  10. Mah disse:

    Muita gente estava esperando ouvir uma continuação do Los Hermanos… Mas é Marcelo Camelo… Tentem escutar sem pensar na banda e sim no artista!

  11. Beta disse:

    Vou escutar o cd novamente, com mais vagar. Num primeiro momento, gostei de pouco. Mas não o ouvi com atenção. Gosto do Camelo. E gostaria de assistir a volta do Los Hermanos. Cabe muito bem uma carreira solo ao lado do grupo.

  12. Teago Oliveira disse:

    Acho que o que acaba fazendo um músico não gostar de dar entrevistas é essa abordagem em tom de desdém, típico de jornalista crítico de música: “a turma pop odiou, como era de se esperar”. Aí o jornalista recorre pra família do artista, sempre cheia de boa vontade.

    Fazia tempo que eu não lia um texto tão infeliz como esse. Até porque, se saíssem do universo umbigo que têm, perceberiam que pop tem sido a coisa mais alternativa dos últimos tempos.
    Não estou fazendo jus à competência do jornalista, que considero extremamente talentoso, mas que pra mim, escreveu o texto como um fã bitolado, abominador do pop.

    Pop hoje é ser cult, posar de intelectual, de crítico de música, valorizar a música “brasileira” de camelo, que bebe tanto de chico buarque como de beatles e pearl jam. Que gosta de ivete e se insipra no axé da bahia.

    É de se entristecer como a crítica encara a música hoje em dia, e como isso reflete nos fãs, cada vez mais imbecilizados em troco de nada.

    E como uma resposta ao comentário ignorante aqui acima, “Quem quer espera ouvir pop, compre o cd do nx zero”, mas também compre o do los hermanos, que também é pop, dos beatles, que também é pop, do lulu santos, que também é pop, da rita lee, que também é pop, do u2, que também é pop, e por aí vamos, em tantos estilos distintos de pop.

  13. Teago Oliveira disse:

    Eu não considero que se deve preparar o espírito pra ouvir música, porque música é o que te emociona, o que te toca, o que te faz refletir, o que altera seus sentimentos e mexe com você.

    Toda forma de se preparar pra ouvir algo que, tendenciosamente você se força a gostar, soa artificial. Como um adolescente que se força a gostar de Led Zeppelin porque acha bacana a postura do rock anos 70.

    Isso não quer dizer que só se deva ouvir uma vez, ou com desatenção.

  14. Muitas discussões poderiam ser eliminadas se tentássemos enxergar a vida não como um simples dualismo (Los Hermanos X Marcelo Camelo), mas como uma sucessão de acontecimentos simultâneos que dialogam com o passado.

    É impossível separarmos hoje Los Hermanos do Marcelo e o Marcelo de Los Hermanos. Obviamente ele, que também fazia as músicas da banda, irá levar muito disso para a carreira solo.

    Ele não é pretensioso como disse o Ricardo, ele é corajoso de fazer um trabalho autoral, sem se interessar se será comercial, se os fãs gostarão, se a crítica vai elogiar ou se a MTV vai colocar na programação. Ele é corajoso em um cenário em que a primeira apresentação ao vivo de uma banda chamada “Nove mil anjos” (lê-se Júnior Lima, o da Sandy, e ex-integrantes do Charlie Brow Jr. e Pitty) será no VMB, um dos maiores prêmios da música brasileira. Os caras fizeram um cd comercial, montaram uma banda de famosos e nem fizeram um showzinho antes de aparecer na TV, enquanto bandas boas lutam pelo seu espaço ao sol, como foi no começo do Los Hermanos e como seria hoje para o Marcelo se ele já não tivesse seu trabalho já reconhecido.

    Quem quiser pop comercial, vai ouvir NX Zero, como disse o ou a Mah.

  15. Teago Oliveira disse:

    É exatamente esse tipo de fã aqui acima que eu falo, como se los hermanos não fosse pop comercial, como se não tocasse em malhação e vendesse muitos discos, dvd’s, tocasse no faustão e tudo o mais.

    É aquela modinha do cult alternativo, que tá uma febre danada e só faz a música ser analisada de uma forma mais pobre e cega.

  16. Teago Oliveira disse:

    Thanius, é essa a diferença de Marcelo Camelo que você tem em mente? Ele estará no próximo cd de Ivete, que terá mais notoriedade do que qualquer apresentação da MTV. Está tocando nas rádios e saindo na globo local em cada show por onde passa, dando entrevistas e saindo nas revistas populares.

    É realmente isso que o torna diferente dessa banda do Junior Lima? Porque até então, nesse aspecto não sinto essa diferença.

  17. Eduarda disse:

    Mania do povo de criticar tudo o que mal sai,gosto tem pra tudo…não vamos comparar nx zero que é puro comércio ao Marcelo Camelo,se parece ou não com Los Hermanos é outra coisa.
    A propósito o cd tá ótimo,mesmo com essa Mallu Magalhães que logo vira comércio também…pitty,cpm,charlie brown pfff tudo passageiro,Los Hermanos acabou mais teve muitos anos de estrada com grandes trabalhos.
    Se o “sou” vai virar ou não depende das críticas.
    Ninguém gosta de ouvir o que é criticado

  18. Teago Oliveira disse:

    Meu deus do céu, se los hermanos não era comércio eu não sei o que mais é.

  19. fred disse:

    Fecho com o Teago aí….pop por pop, até o beatles é…
    o problema é que esse cd do Cam(p)elo é pretensioso, cheio de silêncios que parecem mais uma falta do que escrever, um sub “kid a” do radiohead, já que é experimentalismo zero, não acrescenta nada de novo…muito pelo contrário, só recicla fórmulas velhas…
    esse cd “sou” me lembra Salvador Dalí assinando telas em branco e colocando pra vender….lamentável….

  20. preta disse:

    quero ouvir!

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