Sergio Silveira, o Gaúcho, 75 anos, ganha a vida há décadas como fotógrafo da noite, na Lapa, no Rio. Não conhecia sua história até que o encontrei nas edições que estão nas bancas de duas revistas de qualidade, que leio sempre, “Piauí” e “Trip”. É o tipo de coincidência que só interessa, talvez, a professores de comunicação, dispostos a provocar seus alunos sobre “jornalismo comparado”. Sem avaliar o estilo, chamo a atenção aqui para as diferentes informações que embasam os textos.
Na “Piauí, Silveira cobra R$ 15 por foto; na “Trip”, que o chama de Gaúcho, R$ 20. Na “Piauí”, o fotógrafo é descrito como um sujeito que “usa o cabelo grisalho para trás, com fixador, e bigode com rigor geométrico”. Na “Trip”, que publica a sua foto, vemos um sujeito semi-calvo com o cabelo que resta levemente desarrumado.
Na “Piauí” somos informados que Silveira começou a trabalhar como fotógrafo depois de descobrir que sua mulher o traiu com um vendedor de livros de porta em porta, da mesma equipe que ele. Separou-se, mudou de casa e, ganhou, então, uma Yashica – além de “conhecer um espanhol capaz de consertar no laboratório qualquer erro que ele cometesse com a máquina”. Antes de adquirir a Polaroid, que revolucionou a sua carreira, por dispensar o trabalho de revelação das fotos, ainda teve uma Rolleiflex.
Na “Trip”, talvez por falta de espaço, a história corre mais rápida e perde o sentido. Depois de descobrir a traição, “amargando a dor-de-corno, Gaúcho ganhou de um amigo a velha máquina que o acompanha até hoje, esta fiel”. Aprendeu a utilizar a máquina sozinho, mas “contava com a ajuda de um laboratorista, ex-chefe da Kodak, em Madri, que fazia a revelação”.
A “Piauí” nos informa ainda que, graças ao trabalho com a Polaroid, Silveira conseguiu bancar os estudos do filho no Colégio Naval. Também sabemos que, em meados da década de 90, o fotógrafo sofreu descolamento da retina. Perdeu 100% da visão do olho direito e 40% do esquerdo. Mas, conta a revista, citando-o, aprendeu a fotografar “de canhota”. “Garante que, hoje, enxerga melhor através do visor do que sem ele”.
A “Trip” não faz menção a esse problema capital na vida de um fotógrafo, mas informa que Gaúcho quer publicar um livro, “Minha história da Lapa”. O seu objetivo é “contar os muitos causos que já viu e ouviu e mostrar os famosos que já retratou”, entre os quais “o lendário Madame Satã”. Esse detalhe nos permite estimar que Gaúcho está na Lapa há mais de 30 anos, já que Madame Satã morreu em 1976.
Publicado na última página, na seção fixa “Despedida”, o texto da “Piauí” gira em torno de uma questão central, a obsolescência do instrumento de trabalho de Silveira e, em conseqüência, da morte anunciada – e próxima – de seu ofício. Com o advento das câmeras digitais e dos celulares com câmera, “a Polaroid virou uma velharia”. Além de perder parte da clientela, o fotógrafo foi informado por carta, meses atrás, que a Polaroid Corporation só garantiria o fornecimento de filmes para os donos de suas máquinas até dezembro de 2007. Silveira, então, encomendou filmes em São Paulo, no Peru e na Colômbia, garantindo um estoque até o final do ano. Depois disso, “ainda não decidiu o que fará”.
Já a “Trip” quantifica o declínio de Gaúcho ao nos informar que, nos áureos tempos, ele chegava a tirar 600 fotos por mês e, hoje, mal passa de 150. Menciona que o fotógrafo está tendo dificuldades em achar filmes – “e precisa fazer estoque pra quando não forem mais fabricados”. E diz que, quando isso ocorrer, ele pretende seguir nova carreira – publicando o seu livro de memórias.
Uma matéria no “Boston Globe”, de fevereiro de 2008, informa que, naquele mês, a Polaroid fechou duas fábricas que produziam o filme para a máquina em Massachusetts e que todas as demais fábricas, inclusive fora dos Estados Unidos, seriam fechadas ainda em 2008.