Adam Sun e a arte da checagem
Acabo de saber da morte de Adam Sun. Tinha 55 anos. Foi um jornalista especial, dedicado a um ofício sobre o qual ninguém ouve falar e, menos ainda, almeja realizar. Aliás, a palavra que designa a função que realizava com inigualável talento, a de checador, nem está dicionarizada.
“Aurélio” e “Houaiss” registram o verbo checar como sinônimo de conferir, e o trabalho de checagem como o ato de checar, mas ignoram a nobre função que Adam ocupou nas revistas “Veja” (1992-1998), “Época” (1998-2002) e “Piauí” (desde o lançamento, há dois anos).
Conheci-o bem na “Época”, onde montou a equipe de checagem da revista. Toda reportagem era enviada aos checadores antes de ser publicada. Adam e sua equipe passavam a madrugada conferindo grafias de nomes, datas, informações, tudo que pudesse ser alvo de erros. Para facilitar o trabalho, deveríamos deixar com eles todo o material que havíamos utilizado ao longo da apuração da matéria. No início, muitos jornalistas faziam isso a contragosto, mas com o tempo não houve quem não percebesse que o trabalho de Adam e sua equipe só melhorava os textos.
Mais que isso, fui percebendo que Adam era o co-autor invisível de muitas matérias. E não apenas daquelas que ele salvou do ridículo, apontando erros grosseiros antes da publicação. Quando um texto que eu escrevia passava incólume pelo seu crivo (coisa rara de acontecer, aliás, pois ele sempre achava alguma coisa errada), eu podia dormir tranqüilo, certo que aquela reportagem estava “redonda”.
Se o ceticismo já é uma qualidade importante a qualquer jornalista, a um checador é objeto de primeira necessidade. Adam era um cético radical. Não acreditava em nada que lesse até checar com os próprios olhos se a informação estava correta. No ano passado, na Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), fez uma ótima palestra cujo teor está disponível na Internet. Ensina ele:
Por que erros desse tipo ocorrem? Além da ignorância, desinformação e incompetência, contribuem também a desatenção e a ausência de releitura para conferir os dados, em função do prazo apertado de fechamento. Outro agravante para a ocorrência de erros é a falta de certo ceticismo do jornalista em relação à informação dada pelo entrevistado
Nascido em Taiwan, Adam fez uma nova tradução, diretamente do chinês, do clássico “A Arte da Guerra”, do general chinês Sun Tzu, publicado em 2006 pela Conrad.
Atualizado em 11 de novembro de 2008, depois da leitura do obituário de Adam na revista “Piauí”.
Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): jornalismo Tags: Adam Sun, checagem, obituário



Grande Adam Sun, Grande Maurício
Tb com surpresa li ontem na coluna de outro gigante, Ancelmo, sobre a morte desta figura generosa, inesquecível e paciente – e aqui, em sua memória, checarei a conotação de cada uma dessas palavras -, o Adam. Eu já era, diria, quase uma baleia no jornalismo, após anos como foca, e confesso que até chegar à revista Época, em seu número 0-3, jamais ouvira falar desta função, o checador de matérias. E quantas foram as vezes que, já no quinto chopp da noite, recebi uma ligação dele ou de alguém da sua equipe, me provocando com perguntas do tipo:
_ “João das Xongas”, é esse mesmo o nome dele? Com X? “35 anos”, é esta a idade dele? Mas se ele tem 35, porque diz aqui que ele assistiu à Copa de 78 com 13 anos?
As perguntas do Adam eram sempre as mais inteligentes – ou pertinentes, já vou checar!!!! -, e ter textos conferidos por ele, momentos de muito aprendizado.
Nunca fui seu amigo, daqueles de tomar chopp depois do expediente – até porque ele costumava sorver dicionários e sites de busca justo na hora em que eu me afundava nas tulipas. Mas sempre tive grande admiração por aquela obsessão (opa…!!!) que ele mantinha pela exatidão de cada linha, cada palavra. E me inspirei nela para reformular e resgatar algumas das minhas certezas do tempo de foca, que deixara para trás. Não era um revisor. Pra mim, foi sim um retrovisor, a quem aqui agradeço os exemplos de profissionalismo e dedicação.
Acordei ouvindo em meus sonhos esta música:
Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar
Tonto de emoção
Com sofreguidão
Mil venturas previ
O teu corpo é luz, sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso prende, inebria, entontece
És fascinação, amor
Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar
Tonto de emoção
Com sofreguidão
Mil venturas previ
O teu corpo é luz, sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso prende, inebria, entontece
És fascinação, amor
Pior do que o que estamos fazendo com a natureza
Ao abraçarmos tão ávidamente esta cultura consumista
Pior do que o que estamos fazendo ao supervalorizarmos o banal
È O QUE ESTAMOS FAZENDO COM O AMOR
PS. Acordei agora, 4:30, vou postar esta mensagem, no maior número de páginas que puder, até as 6:30, ao sair para o trabalho.
Consciente que poucos a lerão, e se lerem, pouca importância darão.
[...] Via blog do Mauricio Stycer. (crédito da foto: André Penner) [...]
Maurício,
Adam Sun nos salvou de poucas e boas. À sombra, sempre bem humorado, cuidadoso, meticuloso, fazia os jornalistas parecerem mais precisos, mais exatos. Ah, se os leitores soubessem…Fará imensa falta. E, tenham certeza, todos nós erraremos muito mais agora…
abraços
Conheci Adam Sun na ECA/USP nos anos 70 do século passado. Uma grande figura. Inteligente e instigante. Já está fazendo falta.