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06/11/2009 - 11:38

Prêmios e crítico sublinham prestígio da Mostra

Mostra SeloNem a chuva, que prejudicou a cerimônia de entrega dos prêmios, afetou o ótimo humor de Leon Cakoff. Em conversa com o blog, o criador da Mostra de Cinema de São Paulo festejou o final da 33ª edição com duas boas notícias. A primeira, o fato de os dois filmes premiados pelo júri, “Voluntária Sexual”, do sul-coreano Kyong-duk Cho, e “Os Dispensáveis”, do alemão Andreas Arnstedt, terem estreado mundialmente na Mostra – um sinal do grande prestígio do evento.

Cakoff também ficou muito feliz com um artigo escrito pelo crítico Jean-Michel Frodon, integrante do júri da 33ª edição. Em texto publicado em seu blog na véspera da cerimônia de encerramento, Frodon falou do seu encanto pelo festival organizado por Leon Cakoff e Renata Almeida. E foi além.

Segundo Frodon, assim como foi uma voz de resistência ao regime militar, ao ser criada em 1977, a Mostra de Cinema de São Paulo hoje é vista por cineastas em todo o mundo como um espaço alternativo aos grandes estúdios de Hollywood e à Rede Globo – “os poderes que se pretendem hegemônicos no imaginário deste imenso país”.

Fazendo a ressalva que não está comparando a ditadura militar com as potências da mídia, Frodon observa: “Isso não exclui observar como, em situações diferentes, respostas variadas, mas motivadas pelo mesmo espírito, são possíveis e necessárias”.

Ex-diretor da mítica revista “Cahiers du Cinema”, Frodon lembra que, ao introduzir o voto popular na Mostra de Cinema durante o regime militar, “Cakoff reinventou algo que não existia mais em lugar algum no país: um espaço democrático”. Hoje, lembra ele, o desafio de um festival – e dos críticos de cinema – é outro:

“O papel (dos festivais e dos críticos) não é mais o de tornar acessível o que é raro ou inacessível, mas trabalhar no sentido de abrir os espíritos a outras formas, outros ritmos, outras histórias que os espectadores saturados de mensagens promocionais seguramente não vão procurar por conta própria, mesmo que estas obras estejam à distância de um clique.”

Para Frodon, a Mostra de São Paulo tem um papel fundamental “e mais necessário do que nunca” de preparar o terreno “para o reencontro entre o público e os filmes”.

Em sua passagem por São Paulo, o crítico causou polêmica ao afirmar, em entrevista à “Folha”, que o cinema brasileiro, de uma maneira geral, sucumbiu ao modelo comercial dominante. “É um cinema sem maior brilho. Vi alguns documentários interessantes, mas o cinema brasileiro não é tão bom quanto poderia ser, ou o quanto imaginamos que seria”, disse Frodon.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , ,
05/11/2009 - 16:06

Verbete de Danilo Gentili na Wikipédia é alvo de disputa e manipulação

Na manhã desta quinta-feira, o humorista Danilo Gentili anotou no Twitter, onde é seguido por 438 mil pessoas: “Wikipedia diz q sou ‘ator’. Apaguei pois não sou. Reescreveram. Algum idiota por ai acha q sabe + da minha vida do q eu.”

Intrigado com o assunto, entrei imediatamente no verbete dedicado a Gentili. Não constava mais qualquer referência ao problema apontado pelo humorista, mas algo me chamou a atenção. Na última linha do perfil, estava escrito: “PS: todo preto tem mania de perseguição”.

Dado o histórico de Gentili – há quatro meses causou polêmica ao fazer um comentário de cunho racista no Twitter –, imaginei que o tal “PS” foi acrescentado a seu perfil apenas por provocação. Imediatamente, anotei no Twitter: “Verbete de @danilogentili na Wikipedia termina com um PS: ‘Todo preto tem mania de perseguição’. Pegadinha?”.

Seis minutos depois, voltei ao perfil de Gentili na enciclopédia online e o “PS” já havia sido removido. No entanto, vários internautas me mandaram cópias da página onde aparece a frase. Numa prova evidente de como os perfis na Wikipédia são alvo de disputa, @ALuizCosta verificou: “O verbete sobre Danilo Gentili teve 35 edições e contraedições nos últimos 2 dias”, enviando o link que mostra esta estranha movimentação.

O episódio em si não é tão importante, mas reforça o justo coro daqueles que enxergam a Wikipédia com cautela e ceticismo. Trata-se de uma ferramenta útil, mas que não deve ser usada como fonte única nem última de informação.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Blog, Cultura, Internet Tags: , , ,
05/11/2009 - 15:43

Apenas três decepções

Mostra SeloA Mostra está chegando ao fim e é hora de começar a fazer alguns balanços. O primeiro que farei aqui trata das poucas decepções que tive. Dos quase 30 filmes que assisti, apenas três não me agradaram. Aviso logo que entramos aqui num terreno de alta subjetividade já que a decepção está sempre relacionada a uma expectativa prévia, construída com base em fatos objetivos, mas também, e sobretudo, em idealizações.

woodstockAconteceu em Woodstock”, de Ang Lee, encabeça a minha lista. O filme é baseado nas memórias de Eliot Tiber, o jovem empreendedor responsável por levar o lendário concerto de Woodstock, em 1969, para a pequena cidade de Bethel, onde sua família mantinha um hotel decadente.

Ang Lee vislumbrou nas memórias de Tiber uma oportunidade de recontar uma história muito conhecida – a celebração hippie de Woodstock – pela ótica de um jovem tímido, dominado pela mãe, que vive aqueles dias como a oportunidade de renascer. É um tema que aparece em outros filmes de Ang Lee (“Banquete de Casamento”, “Comer, Beber, Viver” e “O Segredo de Brokeback Mountain”), mas sem a mesma força.

A história de Eliot Tiber claramente não tem impacto suficiente para segurar “Aconteceu em Woodstock” e o filme acaba resultando leve, superficial, com clima de Sessão da Tarde.

Soul KitchenSoul Kitchen” apresenta como maior credencial o fato de ser dirigido pelo cineasta alemão de origem turca Fatih Akin, figura conhecida na Mostra por “Contra a Parede”, “Do Outro Lado” e “The Sound of Istambul”.

À diferença dos filmes anteriores, “Soul Kitchen” é uma comédia rasgada. Ou melhor, esforça-se em nos fazer rir com as aventuras do atrapalhado Zinos, um dono de restaurante que faz tudo errado – no trabalho, com a namorada, com os amigos e com o irmão. Apesar de alguns bons achados, Akin opta pela caricatura e o escracho, a meu ver, as formas mais fáceis de provocar risos.

cabeça a premioCabeça a Prêmio” assinala a estreia do excelente ator Marco Ricca como diretor de cinema. O filme se baseia num thriller de Marçal Aquino, publicado em 2003. Conta as histórias cruzadas de diferentes personagens numa área do “faroeste” brasileiro – um piloto de avião, um fazendeiro traficante, sua filha e dois matadores profissionais.

Construído com habilidade e talento, o livro de Aquino se lê de um fôlego. Lembro que escrevi na ocasião que “Cabeça a Prêmio” parecia pronto para ser levado às telas. O filme de Ricca, no entanto, desidrata esta pulsão do romance, optando por um olhar mais reflexivo, em busca, talvez, da “verdade” por trás daqueles estranhos personagens.

O elenco escalado está à altura da ambição. Ótimos atores, como o argentino Daniel Hendler (no papel do piloto), Fulvio Stefanini (como o chefe mafioso), Otavio Muller (seu irmão), Eduardo Moscovis e Cassio Gabus Mendes (como matadores) encaram o desafio de dar vida ao faroeste caboclo descrito por Aquino. O resultado, porém, é irregular. O que “Cabeça a Prêmio”, o filme, perde em ritmo não compensa em “densidade”, apesar desta constelação em cena. Ricca mostra que tem boa mão para dirigir, mas talvez tenha sido ambicioso demais na estreia.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , , ,
03/11/2009 - 12:07

Salve! Dois filmes brasileiros muito acima da média

Mostra SeloA indústria cinematográfica nacional comemora 2009 como o ano em que o mercado dará um salto próximo a 20%. Devemos este crescimento às comédias (comédias?) “Se Eu Fosse Você 2”, “O Divã”, “A Mulher Invisível” e “Os Normais”, que arrebentaram nas bilheterias.

Não foi um ano, porém, de emoções fortes para quem aprecia cinema de qualidade. Cada vez mais formatado de acordo com as exigências do mercado, o cinema brasileiro tem surpreendido pouco o público mais exigente.

Integrante do júri da 33ª Mostra de Cinema de São Paulo, o crítico francês Jean-Michel Frodon expressou esta decepção com uma frase de impacto: “É um cinema sem maior brilho. Vi alguns documentários interessantes, mas o cinema brasileiro não é tão bom quanto poderia ser, ou o quanto imaginamos que seria”.

A declaração de Frodon, em entrevista à “Folha”, causou um certo mal-estar, por dois motivos: 1) partiu de um estrangeiro, e não de um brasileiro; 2) e é possível que ele não conheça tão bem a produção nacional para fazer um julgamento deste quilate. Na minha opinião, o ex-diretor da revista “Cahiers du Cinema” pode ter cometido injustiças, mas acertou o tiro no alvo.

É evidente que há exceções, e a própria Mostra de São Paulo está aí para ajudar Frodon a matizar as suas críticas. Dois filmes, em particular, merecem ser vistos com atenção por quem espera mais do que comédias com jeitão de novela das 7 no cinema.

os famosos e os duendes“Os Famosos e os Duendes da Morte” é o primeiro longa-metragem de Esmir Filho. O cineasta tem 27 anos e ficou muito famoso ao dirigir “Tapa na Pantera”, um pequeno filme com a atriz Maria Alice Vergueiro no papel de garota-propaganda das qualidades da canabis.

Ganhador do principal prêmio no Festival do Rio, há menos de um mês, “Os Famosos e os Duendes da Morte” se passa numa cidadezinha de colonização alemã, no interior do Rio Grande do Sul, e descreve o sofrido rito de passagem de um adolescente inquieto e angustiado. Neste “cu do mundo”, como diz um dos protagonistas, não há nada para fazer, mas o menino encontra, pelo MSN e pela Web, canais de comunicação e expressão.

Fotografia, roteiro, direção de atores, tudo contribui para que o espectador embarque na viagem do protagonista de “Os Famosos e os Duendes da Morte”, no ritmo dele. Com sensibilidade, Esmir Filho realizou um filme intimista, poético, misterioso, na contracorrente dos filmes sobre adolescentes, que os tratam ou como espertinhos demais ou retardados.

Com distribuição já assegurada, o filme deve chegar ao mercado em 2010. Nesta terça-feira, há uma última sessão programada na Mostra, às 19h40, no Espaço Unibanco Pompéia. Mais informações no site da Mostra.

viajo porque precisoO outro ótimo filme brasileiro exibido na Mostra é “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”. Neste caso, a surpresa é menor porque os seus diretores, Marcelo Gomes e Karin Ainouz, já vem mostrando, há alguns anos, trabalho de qualidade e inventividade. Gomes é diretor de “Cinema, Aspirinas e Urubus” (2005) e Ainouz já fez “Madame Satã” (2002) e “O Céu de Suely” (2006).

Neste novo filme, com título atraente, um geólogo percorre o sertão do Ceará e de Pernambuco fazendo pesquisa para uma futura obra de transposição de águas. No ritmo da paisagem árida que encontra, do olhar das famílias miseráveis que perderão suas casas e do sorriso desdentado das prostitutas que vivem à beira da estrada, o geólogo vai narrando as suas impressões e, aos poucos, as suas dores.

Com trilha sonora que reúne o melhor da música popular brega brasileira, fotografia magnífica e uma estrutura narrativa surpreendente, “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” confirma, mais uma vez, que a nova geração de cineastas do Nordeste (da qual faz parte, também, Sergio Machado, diretor de “Cidade Baixa”) encontrou o seu lugar no cinema brasileiro atual – bem longe da mesmice e da obviedade.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , , , , ,
01/11/2009 - 19:42

Muricy tem razão ao reclamar do horário da partida

Foi preciso esperar o sol surgir forte no domingo para as reclamações sobre o horário dos jogos aparecerem. Muricy foi o primeiro a chiar, encerrado Palmeiras e Corinthians, ainda no gramado. Lembrando que estamos em horário de verão, o técnico sublinhou que o jogo começou, de fato, às 15hs, sob sol de mais de 30º.

Ouvido pela rádio CBN, falou do “poder econômico”, que impôs este horário, sendo imediatamente replicado pelo comentarista da emissora, que observou: Muricy deveria reclamar com os dirigentes de Palmeiras e Corinthians, que acertaram a partida no oeste do Estado de São Paulo.

Muricy, de fato, deveria ter reclamado antes. A escolha do local do clássico deu-se no dia 22 de setembro – e o horário do jogo estava marcado há uma semana, pelo menos. A questão central, no entanto, e que parece ter escapado ao comentarista da CBN, é que o horário dos jogos é definido pela Globo, detentora dos direitos de transmissão do campeonato, com o aval da CBF, responsável pela organização e gerência do evento.

Em período de horário de verão, todas as partidas marcadas para as 16hs deveriam, automaticamente, ser transferidas para as 17hs. Muito simples.

Sou velho o suficiente para lembrar que as partidas de futebol no Rio de Janeiro, aos domingos, começavam às 17hs – antes disso, era desumano, por causa do calor.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte, televisão Tags: , , ,
31/10/2009 - 13:47

Os temas universais do paulistano Ugo Giorgetti

Mostra SeloParticipei há alguns meses da gravação de um programa de televisão, “Sala de Cinema”, cujo entrevistado era o cineasta Ugo Giorgetti. Exibido no SescTV, o programa é uma espécie de talk-show, comandado por Miguel de Almeida, com a participação de alguns convidados, que fazem perguntas para o entrevistado.

ugo giiorgettiAo longo da entrevista, Almeida fez várias perguntas a Giorgetti relacionadas ao universo paulista de seus filmes – “Jogo Duro”, “A Festa”, “Sábado”, “O Príncipe” e mesmo os dois “Boleiros”. Esta é uma questão recorrente e, mais uma vez, tive a oportunidade de ver como incomoda a Giorgetti ser rotulado como “cineasta paulista”.

Apesar de ambientados sempre em São Paulo, e a cidade ser um elemento central em seus filmes, Giorgetti entende, com toda a razão, que vê-lo como “cineasta paulista” limita, e muito, o alcance de sua obra.

Giorgetti sempre argumenta que São Paulo está presente em seus filmes porque é nesta cidade que nasceu, foi criado e vive, mas os temas de seu cinema são universais. A exibição de “Solo” e “Paredes Nuas”, seus filmes mais recentes, confirma isso, mais uma vez.

Como explicou em entrevista ao Último Segundo (Ugo Giorgetti filma os dilemas da sociedade do prazer), “Paredes Nuas” trata de um fenômeno relativamente recente, as irresistíveis seduções oferecidas pelo mercado de consumo, e “Solo” encara um tema mais que universal, a solidão de um idoso numa grande metrópole.

SoloAmbos os filmes se passam em São Paulo. Em “Solo”, o emocionante monólogo interpretado por Antonio Abujamra, a cidade aparece especialmente, nas lembranças do personagem, na transformação dos bairros em que ele viveu e na sua incapacidade de se adaptar aos tempos modernos. Isso faz de “Solo” um filme paulista? Lógico que não. A cidade é apenas a aldeia de Giorgetti a serviço de uma narrativa capaz de comover qualquer pessoa, em qualquer lugar.

“Solo” tem sessões no sábado (31), às 19h10; no Unibanco Arteplex, na segunda-feira (2/11), às 13hs, no Unibanco Arteplex; e na terça, às 18h20, no Espaço Unibanco Pompéia. Mais informações sobre o filme no site da Mostra.

“Paredes Nuas” tem ainda apenas uma sessão, neste sábado (31), às 17h20, no Unibanco Aretplex. Mais informações, aqui.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , , ,
31/10/2009 - 12:44

Amor nos tempos do fascismo: a saga da mulher de Mussolini

Mostra SeloBenito Mussolini (1883-1945) dirigiu a Itália entre 1922 e 1943. Sob a proteção dos “camisas negras”, sua milícia, e do Partido Fascista, que fundou, instaurou um regime autoritário, promovendo o culto fanático à sua personalidade e a perseguição aos inimigos políticos. Aliado da Alemanha de Hitler na Segunda Guerra Mundial, levou o país à ruína.

Ao mesmo tempo, com a ajuda da propaganda oficial, Mussolini conseguiu cultivar a imagem de “bom homem”. Foi casado com Rachele Guidi, com quem teve quatro filhos. Sempre foi descrito como pai carinhoso, compreensivo, uma pessoal gentil, amigo inclusive de vários judeus.

Ida_DalserO perfil do “Duce” ganhou novos contornos com a publicação, em 2005, de “A Mulher de Mussolini”. Sempre se soube que o líder fascista havia tido um relacionamento sério antes da sua união com Rachele Guidi, mas o jornalista Marco Zeni, ao reconstituir o caso em detalhes, documentou uma histórica trágica.

Ida Dalser (1880-1937) e Mussolini viveram mais que uma breve paixão, a partir de 1909. Esteticista, formada em Paris, Ida mantinha um salão em Milão, a mesma cidade onde Mussolini atuava como jornalista político no socialista “Avanti”. Em 1915, nasceu Benito Albino Mussolini, filho do casal, reconhecido pelo pai em documentos que Zeni encontrou.

Com a ajuda financeira de Ida, Mussolini fundou em 1914 o jornal “Il Popolo d´Italia”, com o qual liderou uma campanha pela entrada do País na Primeira Guerra Mundial, ao lado da França e da Inglaterra, e contra os alemães. Mais tarde, depois que romperam, a esteticista declarou ter testemunhado Mussolini receber dinheiro do governo francês para defender a tese da entrada da Itália da guerra em seu jornal.

VincerePor razões não muito bem esclarecidas, a partir de 1915, Mussolini afasta-se de Ida Dalser e aproxima-se de Rachele Guidi. No ano seguinte, nasce o primeiro dos quatro filhos que terá com a mulher.

Ida não se conforma com a separação e vai lutar, até o fim, para ser reconhecida como a primeira mulher de Mussolini e mãe de seu primogênito. Apesar de garantir ter se casado oficialmente com ele, este documento nunca foi encontrado. Mas vários outros documentos, cartas e bilhetes localizados por Zeni atestam a veracidade da história.

No poder, Mussolini dá início a um esforço para apagar todos os registros de sua relação com Ida. Com a ajuda dos aliados e a complacência dos que o temiam, consegue separar a moça do filho e interná-la num hospício. Sua saga é terrível, bem como a do primogênito do “Duce”.

É essa história que o experiente Marco Bellocchio conta, à sua maneira, no ótimo “Vincere” (Vencer), apresentado pela primeira vez em Cannes, este ano, e que está em exibição da Mostra de Cinema de São Paulo. Com a bela Giovanna Mezzogiorno no papel de Ida e Filippo Timi como o jovem Mussolini (foto acima), o filme descreve em detalhes o apaixonado romance entre os dois e a posterior perseguição que Ida sofrerá.

Com muita habilidade, Bellocchio equilibra a narrativa entre a trajetória pessoal de Ida e o pano de fundo histórico – a militância socialista e anticlerical do jovem Mussolini, sua ascensão política, o acordo que estabelece com a Igreja e a aliança com Hitler.

A certa altura, um psiquiatra tenta ajudar a mulher e explica como ela deve se comportar no hospício em que está internada. “Não fale a verdade, interprete”, ele ensina. É o único jeito de sobreviver no regime fascista, diz. Mas Ida não aceita o conselho.

“Vencer” tem ainda três sessões na Mostra, neste sábado, às 19h20, no Espaço Unibanco Pompéia; domingo (1/11), às 22h, no Unibanco Artplex; e quarta-feira, às 19h10, no HSBC Belas Artes. Mais informações no site da Mostra.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , ,
29/10/2009 - 16:01

Histórias de uma “videocracia” chamada Itália

Mostra SeloUm documentário que explica a Itália de Berlusconi ou, ainda, um filme que mostra como o império de mídia do empresário ajudou a idiotizar o país e a entronizá-lo no poder. Essas parecem ser as ambições de “Videocracia”, de Erik Gandini, que tem exibição nesta quinta-feira na Mostra. Ao menos, o filme tem sido apresentado dessa forma, o que é um pouco demais para ele.

“Videocracia” trata de três temas que o brasileiro conhece bem: o mundo da televisão de baixas calorias, o circo de subcelebridades que gravita em torno desse universo e o sonho maluco, compartilhado por milhões de pessoas, de ficar famoso a qualquer preço.

videocracia cartaz 3Silvio Berlusconi é o quarto elemento desta história – e, felizmente, personagem igual a esse não há por aqui. Crooner em cruzeiros marítimos na juventude, empresário de sucesso na vida adulta, ergueu um império de comunicação, hoje formado por três emissoras de televisão, revistas, jornais, editora de livros etc. Também é dono do Milan, um dos principais times da Itália.

Ao aventurar-se na política, na década de 90, Berlusconi criou o próprio partido e chegou ao cargo de primeiro-ministro da Itália por três vezes, entre 1994 e 1995, entre 2001 e 2006 e, agora, desde 2008. No posto mais alto do governo, Berlusconi controla, além das suas emissoras privadas, os três canais públicos (o sistema RAI), o que faz dele “dono” de 90% dos meios de comunicação do país.

“Videocracia” apresenta três personagens fascinantes e descreve as suas aventuras nesta Itália de Berlusconi. O primeiro é um mecânico chamado Riccardo, cujo único sonho na vida é ser famoso. Suas armas para isso são o físico, que cultua em rigorosas sessões de musculação, e a voz, que usa para imitar cantores pop. Riccardo acha que tem chances de explodir na televisão italiana como uma rara mistura de Van Damme com Ricky Martin.

videocracia 2A câmera de Erik Gandini acompanha o patético Riccardo em seu esforço de conseguir aparecer num programa qualquer de auditório. Além da natural falta de talento, seu objetivo é também comprometido pela preferência que esses programas dão a mulheres bonitas, que se dispõem a mostrar o corpo e rebolar no palco.

O segundo personagem de “Videocracia” é Lele Mora. Ex-cabeleireiro, é hoje empresário e agente de artistas e celebridades de segunda categoria. Fã confesso de Mussolini, é amigo de Berlusconi. Lele Mora já foi condenado mais de uma vez por fraude fiscal, mas exibe um sorriso de orelha a orelha no filme.

O empresário é filmado em sua mansão na Sardenha, cercado de atores e ex-participantes do Big Brother italiano, quase todos sem camisa, Ali ele explica como a sua intuição o ajuda a descobrir o talento escondido de figuras anônimas e como faz para transformá-las em celebridades.

O terceiro, e último, personagem do filme chama-se Fabrizio Corona. Empresário, é dono de uma agência de fotógrafos, especializada em obter flagrantes indiscretos de celebridades. “Vídeocracia” explica que antes de vender suas fotos para as revistas de fofocas, Corona prefere oferecê-las para os personagens fotografados. Ou seja, a vítima dos paparazzi tem a chance de pagar pelas imagens, de maneira que elas nunca sejam exibidas.

Parece chantagem e extorsão, e a Justiça italiano já entendeu, em mais de uma ocasião, que é isso mesmo. Corona responde a diversos processos e já passou uma temporada de 80 dias na cadeia. Personagem tão repugnante quanto fascinante, fala de si e do seu trabalho com enorme orgulho. É amigo de Lele Mora, também.

Berlusconi e suas emissoras de tevê compõem uma espécie de pano de fundo para este mundo cão e cafona. Difícil saber se a Itália teria chegado ao ponto em que chegou hoje se o empresário tivesse se mantido fora da política. Mas é evidente que esse duplo papel que Berlusconi exerce ajuda a passar a impressão de que o país virou um grande programa de auditório. Ao menos é isso que “Videocracia” nos faz pensar.

Em tempo: Gandini é italiano, mas vive na Suécia. Um dos co-produtores do filme é a Zentropa, que vem a ser a produtora do dinamarquês Lars Von Trier.

“Vídeocracia” tem mais duas sessões: nesta quinta-feira, às 22h40, no Espaço Unibanco Pompéia, e domingo (1/1), às 16h20, na Cinemateca. Mais informações no site da Mostra.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura, televisão Tags: , , , ,
28/10/2009 - 11:59

Proposta de mudar horário de jogos noturnos virou pó

Menos de duas semanas depois de Ricardo Teixeira ter levantado o assunto, parece enterrada a discussão sobre a mudança no horário noturno dos jogos da Série A do Brasileiro. Para quem não se lembra, o presidente da CBF observou que o horário das 21h50, escolhido pela Rede Globo, está longe de ser o ideal para o torcedor. “Como presidente da CBF, não posso ficar preocupado com o índice da televisão. Eu tenho que ficar preocupado também com o torcedor. Não adianta fazer jogo com o campo vazio”, disse Teixeira.

A declaração do presidente da CBF foi vista como uma reação à proposta da Globo, encaminhada dias antes aos clubes, de alterar o sistema de disputa do Brasileiro. A emissora, detentora dos direitos de transmissão do campeonato, sonha em reintroduzir o mata-mata na fase final, em lugar da classificação ser definida pela soma de pontos.

Segundo a coluna “Radar”, na “Veja”, Globo e CBF selaram um acordo de paz há uma semana: a emissora desiste de propor a volta do mata-mata e a confederação deixa de reclamar do horário dos jogos depois da novela.

Além do acordo, também há um argumento supostamente objetivo contra a mudança do horário noturno. Segundo a “Folha” desta quarta-feira, os jogos noturnos, às quartas, apresentam média de público no estádio (20,1 mil pagantes) superior à média geral do campeonato (16,5 mil). E segundo a Globo, as partidas exibidas depois da novela têm audiência superior (cinco pontos, em média) às exibidas aos domingos, às 16h.

Esses números, creio, são fáceis de explicar. Apenas 25 jogos, de um total de 310, foram realizados às 21h50. Os jogos programados para este horário envolvem sempre times muito populares – em São Paulo, quase sempre o Corinthians. Isso puxa para cima tanto a presença de público no estádio quanto o índice de audiência.

Em resumo, a boa notícia é que parece não haver riscos, no futuro próximo, de alteração do sistema de pontos corridos. A má notícia é que seguiremos com jogos neste horário esdrúxulo.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Esporte, televisão Tags: , , , , ,
27/10/2009 - 17:11

O documentário como exercício de reverência

Mostra SeloA safra brasileira de documentários nunca foi tão fértil, como comprova o cardápio da 33ª Mostra de Cinema de São Paulo. Há documentários de todos os tipos, para todos os gostos.

Entre os títulos disponíveis, identifico um tipo de documentário muito peculiar, que é o “filme de homenagem”. Assisti a três com esta característica: “Mamonas Pra Sempre, o Doc”, “A Raça Síntese de Joãosinho Trinta” e “Caro Francis”.

MamonasMamonas Pra Sempre, o Doc”, de Claudio Kahns, é um filme para fã nenhum botar defeito. Com ótimo material de arquivo e depoimentos de parentes, amigos, conhecidos e, especialmente, do produtor musical e do empresário que cuidaram da banda, o cineasta descreve de forma cronológica a impressionante história de sucesso dos Mamonas Assassinas.

Kahns não discute várias questões interessantes, apenas esboçadas no filme, como a ruptura com a lógica do mercado que os Mamonas representaram, os sentidos da transgressão da banda e, não menos importante, a qualidade do trabalho musical dos garotos de Guarulhos. Não é esse o seu objetivo. Em compensação, o cineasta brinda o espectador com uma sequência impressionante de imagens, que vai fazer o fã cantar e chorar com os Mamonas.

Joaosinho TrintaA Raça Síntese de Joãosinho Trinta”, de Paulo Machiline e Giuliano Cedroni, se propõe a explicar a trajetória de um dos mais importantes nomes do Carnaval brasileiro com base nos depoimentos de três pessoas apenas (Fernando Pamplona, Carlos Heitor Cony e Ferreira Gullar). O filme acompanha o carnavalesco durante a preparação do desfile da Grande Rio em 2003, “O Brasil que Vale”, que deixou a escola em terceiro lugar.

Debilitado por problemas de saúde, Joãosinho Trinta fala um pouco sobre a sua visão de cultura popular, mas não desenvolve nenhuma grande questão. Ao acompanhá-lo pelo barracão da Grande Rio, podemos vê-lo em ação – rigoroso e exigente com os responsáveis pela montagem de carros alegóricos –, mas em momento algum o documentário deixa a superfície para mergulhar, de fato, no mundo do carnavalesco.

FrancisCaro Francis”, de Nelson Hoineff, é definido pelo próprio cineasta como uma “homenagem pessoal” ao jornalista Paulo Francis, de quem foi amigo por mais de 20 anos. Hoineff não se furta a abordar episódios polêmicos na carreira de Francis, mas quase sempre sob o olhar de amigos do jornalista.

Francis é descrito nos depoimentos como uma pessoa gentil, um amigo dedicado e um jornalista polêmico, cujo ápice de popularidade ocorreu quando se transferiu para a televisão e vestiu uma espécie de “máscara” na tela. Para quem acompanhou as diferentes etapas da carreira de Francis, não é difícil entender o desenvolvimento desta narrativa. Mas o tom escolhido por Hoineff termina por abafar a própria vivacidade do personagem.

Em tempo: Já escrevi sobre dois outros documentários em exibição na Mostra que, na minha visão, fogem deste modelo. No blog, comentei sobre “Os Gracies e o Nascimento do Vale Tudo” , de Victor Cesar Bota. E entrevistei para o Último Segundo o mesmo Nelson Hoineff de “Caro Francis”, também diretor de um dos filmes mais ousados desta leva, “Alô, Alô, Terezinha”. O título da matéria reproduz uma declaração do cineasta: “Chacrinha vale um trilhão de vezes mais que a TV idiotizada de hoje”.

“Mamonas Pra Sempre, o Doc” tem ainda uma sessão, na próxima terça-feira (3/11), às 15h20, no Cinesesc. Mais informações no site da Mostra.

“A Raça Síntese de Joãozinho Trinta” tem duas sessões, na próxima segunda-feira (2/22), às 14h30, no Espaço Unibanco Pompéia, e na terça (3), às 17h20, no Unibanco Artplex. Mais informações aqui.

“Caro Francis” tem mais uma sessão, na próxima terça-feira (3/11), às 14h30, no Espaço Unibanco Pompéia. Mais informações aqui.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , , , ,
26/10/2009 - 10:54

Filme explica a motivação dos pichadores

Mostra SeloConhecido como Choque, o fotógrafo Adriano dedica-se a registrar o universo da pichação em São Paulo. É um dos maiores especialistas no assunto e, não por acaso, são seus os melhores depoimentos ao longo de “Pixo”, o documentário dos irmãos João Wainer e Roberto T. Oliveira, exibido pela primeira vez neste domingo, na Mostra de Cinema de São Paulo, com a presença de vários protagonistas do filme.

Choque explica que são três as motivações dos pichadores que escalam prédios e arriscam a vida para deixar suas assinaturas em locais de visibilidade na cidade: o prazer da aventura, o reconhecimento social e o protesto.

PixoO primeiro ponto iguala pichação a esporte radical – a aventura de fazer algo proibido, escalar um prédio pelo lado de fora, como documenta “Pixo”, aterrorizante para quem olha do chão, seria equivalente, em termos de adrenalina liberada, a saltar de asa delta do alto de um morro, ou surfar uma onde gigantesca.

Em segundo lugar, quanto mais difícil o lugar pichado – o último andar de um prédio no centro de São Paulo, um trem em movimento ou a parede da Bienal de São Paulo –, maior o reconhecimento e valor do pichador entre os seus pares. Como mostra claramente “Pixo”, eles formam uma comunidade nada invisível, que se reúne em locais conhecidos para troca de experiências e informações.

Por último, a questão mais importante: a pichação é uma forma de expressão dessa comunidade, formada basicamente por jovens de baixa renda da periferia de São Paulo. Colocar o seu nome de guerra, a sua marca, nos muros do centro da cidade, é a maneira de dizer que existem. Para nós, eles apenas sujam a cidade; para eles, a pichação é a forma de se fazer ouvir.

Mal vistos e isolados, os pichadores paulistanos conseguiram atrair ainda mais antipatia para a causa em 2008, ao atacarem, em três momentos diferentes, a galeria Choque Cultural, o prédio da Bienal e o Centro Universitário Belas Artes. Nas três ocasiões, grupos de pichadores invadiram os espaços e aplicaram tinta sobre trabalhos alheios e danificaram o ambiente.

Indefensáveis, porque afetaram realizações artísticas alheias, além de violarem a legislação, tais ataques são mal explicados por “Pixo”. O ataque à galeria Choque Cultural, por exemplo, explicita uma questão que aparece em diferentes momentos do documentário, mas nunca é esclarecida – a rivalidade entre pichadores e grafiteiros.

Reconhecido socialmente como uma forma de arte, o grafite tem alguma semelhança com a pichação. Grafiteiros são, em sua maioria, pessoas de origem social mais humilde, da periferia, que escolheram pintar em espaços públicos. O que era uma violação legal – desenhar num muro – passou, com o tempo, a ser entendido como uma forma de arte, e muitos grafiteiros hoje são reconhecidos como artistas talentosos.

Diferentes grafiteiros – brasileiros e estrangeiros – hoje expõem seus desenhos em galerias de arte e museus. Os irmãos Gustavo e Otavio Pandolfo, OsGemeos, são apenas os mais conhecidos brasileiros num time que tem vários representantes. Alvo dos ataques dos pichadores, a galeria Choque Cultural, não por acaso, é um espaço que exibe trabalhos de grafiteiros.

Diferentemente do trabalho dos “rivais”, as expressões dos pichadores não são reconhecidas como forma de arte – o que pode ajudar a explicar os ataques de 2008 e também as referências irônicas feitas ao longo de “Pixo” à turma do grafite. O filme, porém, evita afrontar abertamente esta questão.

O documentário de Wainer e Oliveira dá vida aos pichadores, humaniza-os, expõe as suas motivações. Apenas por isso, já é um filme de referência para qualquer discussão mais aprofundada que se pretenda sobre o assunto. “Pixo” também evita qualquer julgamento moral sobre os seus personagens – outra qualidade, na minha opinião, já que não precisamos ir ao cinema para ouvir uma condenação aos pichadores.

Ainda há três sessões programadas de “Pixo. Sábado (31), às 20h50, na Matilha Cultural; terça-feira (3/11), às 18h40, no Unibanco Artplex; e quarta-feira (4), àsd 21h15, no Cine Bombril. Mais informações, no site da Mostra.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura, São Paulo Tags: , , , , , , ,
25/10/2009 - 11:10

Tyson, os Gracies e a arte da violência. Arte?

Mostra SeloDois documentários programados na 33ª Mostra de Cinema de São Paulo recolocam em questão um tema espinhoso: boxe, jiu-jitsu e outras formas de luta podem ser consideradas esportes? Tanto “Tyson”, de James Toback, quanto “Os Gracies e o Nascimento do Vale Tudo”, de Victor Cesar Bota, defendem essa idéia com unhas e dentes, ao mesmo tempo em que as cenas violentas que exibem os contradizem o tempo todo.

“Parece um esporte brutal, mas é apenas uma técnica, uma arte”, defende Mike Tyson, a certa altura do longo depoimento que dá a Toback. Os diferentes integrantes da família Gracie que falam para a câmera de Bota enfatizam a idéia que o jiu-jitsu é uma técnica de defesa e que não é preciso ser forte e grandalhão para se sair bem numa briga.

O que poderia haver de mais brutal, no entanto, do que um boxeador arrancar um pedaço da orelha de seu rival numa luta? Ou ver um lutador caído no chão acertar um chute na testa do adversário, derrubá-lo e, na sequência, dar um soco no meio da sua cara?

TysonA brutalidade de Tyson, não é preciso ser psicólogo de botequim para notar, está intimamente relacionada à sua história de vida. E é dessa história que Toback tira a força do seu filme. Longe do esforço de objetividade, que caracteriza um documentário próximo do modelo jornalístico, “Tyson” propõe ao espectador um encontro íntimo com o ex-boxeador.

Falando para a câmera, sem ser interrompido ou confrontado com versões diferentes da sua, Mike Tyson conta a história tal como é capaz ou lhe interessa. Evita algumas questões polêmicas e possivelmente “reescreve”, ao bel prazer, diversos episódios, mas o seu relato é impressionantemente forte e comovente.

Tyson fala abertamente da infância na rua, dos primeiros assaltos, das primeiras temporadas no reformatório, até ser “adotado” por Cus D´Amato (1908-1985), que o treinou por alguns anos e o ensinou a administrar o medo. O treinador morreu um ano antes de ver Tyson se tornar, aos 20 anos, o mais jovem campeão mundial na categoria peso-pesado.

Segundo Tyson, D´Amato foi o único amigo que teve na vida. Cercado de “sanguessugas”, nas suas próprias palavras, avalia ter jogado fora mais de US$ 400 milhões ao longo do tempo – acredita ter sido roubado por todos os seus empresários, gastou milhões com indenizações, rompimento de contratos, multas etc. Mas não culpa ninguém. “Os sanguessugas se alimentavam do meu sangue e eu do sangue deles”, diz no filme.

GraciesJá os Gracies emergem do documentário de Victor Cesar Bota como uma família cujo destino de todos os homens parece traçado antes do nascimento: ter um nome iniciado com a letra “R” e ser lutador – de jiu-jitsu, luta greco-romana ou vale tudo.

Desenvolvida nos anos 30 do século passado pelos irmãos Carlos e Helio Gracie, a técnica brasileira do jiu-jitsu vai desembocar, 60 anos depois, no Ultimate Fighting, que tanto sucesso faz nos Estados Unidos e Japão.

Filhos, sobrinhos e netos dos patriarcas, como Rolls, Rorion, Rickson, Royce, Royler, Renzo e Ryan Gracie, desfilam pela câmera, exibindo seus talentos na arte da porrada e mostrando que a família está mais desunida do que nunca tanto em relação à filosofia por trás da luta quanto nos negócios.

O filme resgata boas imagens de arquivo, especialmente os desafios de luta-livre no Rio e em São Paulo nos anos 50 e os treinamentos do clã Gracie nos anos 70. O que mais impressiona, no entanto, são as imagens de um filme caseiro, que mostra dois alunos de academias rivais, ambas mantidas por Gracies, brigando ao ar livre, de sunga, no jardim da casa de alguém, cercados de espectadores. A certa altura, alguém quer interromper a luta, que já produz ferimentos com sangue nos lutadores, mas é impedido por outro espectador. E a briga continua.

“Tyson” tem mais três sessões na Mostra: terça-feira (27), às 12h, no Unibanco Artplex; sexta (30), às 14hs, no Cine Bombril, e domingo, (1/11), às 23h40, no Unibanco Artplex. Mais informações, e um trailer do filme, no site da Mostra.

“Os Gracies e o Nascimento do Vale Tudo” têm mais duas sessões na Mostra: segunda-feira (26), às 13h30, no Unibanco Artplex, e sábado (31), às 14hs, no Cinema da Vila. Mais informações, e um trailer do filme, no site da Mostra.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura, Esporte Tags: , , , , ,
24/10/2009 - 12:52

As raízes do mal: Haneke explica “A Fita Branca”

Mostra SeloO austríaco Michael Haneke é um dos mais importantes cineastas em atividade. Seus filmes costumam provocar perplexidade e mal-estar, por abordarem a violência, física ou psicológica, inclusive contra crianças, de forma muito direta, sem rodeios. Seus filmes mais famosos são “A Professora de Piano”, com Isabelle Hupert, e “Caché”, com Juliette Binoche, ambos exibidos no circuito comercial brasileiro. Também dirigiu “Violência Gratuita” e “Código Desconhecido”.

fita brancaCom o assustador, mas imperdível, “A Fita Branca”, que venceu o Festival de Cannes este ano, Haneke volta a provocar incômodo. Filmado em preto-e-branco, conta a história de uma comunidade rural na Alemanha, entre 1913 e 1914, onde estranhos e violentos incidentes começam a ocorrer.

Somos apresentados a um conjunto de personagens fortes: o barão dono das terras e seus empregados submissos, o médico autoritário, a parteira e seu filho com problemas mentais, o pastor protestante rigoroso, o professor tímido, um enxame de crianças reprimidas e entediadas.

Impossível não sair do cinema pensando que Haneke procurou, com “A Fita Branca”, explicar as origens das raízes culturais da geração que abraçou o nazismo, 20 anos depois dos fatos que narra no filme. Mas essa é uma leitura rasa, diz o próprio cineasta, numa excelente entrevista a Anthony Lane, na revista “New Yorker” (5 de outubro de 2009, infelizmente não disponível online).

Transcrevo a seguir, numa tradução livre, a longa resposta que Haneke dá à tentativa de rotular seu filme como uma parábola sobre o nazismo:

“Não ficaria feliz se esse filme fosse visto como um filme sobre um problema alemão, sobre o nazismo. Este é um exemplo, mas significa mais que isso. É um filme sobre as raízes do mal. É sobre um grupo de crianças, que são doutrinadas com alguns ideais e se tornam juízes dos outros – justamente daqueles que empurraram aquela ideologia goela abaixo deles. Se você constrói uma idéia de uma forma absoluta, ela vira uma ideologia. E isso ajuda àqueles que não têm possibilidade alguma de se defender de seguir essa ideologia como uma forma de escapar da própria miséria. E este não é um problema só do fascismo da direita. Também vale para o fascismo da esquerda e para o fascismo religioso. Você poderia fazer o mesmo filme – de uma forma totalmente diferente, é claro – sobre os islâmicos de hoje. Sempre há alguém em uma situação de grande aflição que vê a oportunidade, através da ideologia, para se vingar, se livrar do sofrimento e consertar a vida. Em nome de uma idéia bonita você pode virar um assassino.”

Este é Michael Haneke.

“A Fita Branca” terá mais três exibições na Mostra. Domingo (25), às 16h40, no Reserva Cultural, dia 31, às 18h20, nos HSBC Belas Artes, e dia 1º de novembro, às 20h30, no Cine Bombril. Mais informações, e um trailer, no site da Mostra.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , ,
24/10/2009 - 10:39

O diretor, a atriz e o luto

Mostra SeloNão se deixe levar pela sinopse publicada no jornal: “Mulher de meia idade casada com médico workaholic conhece rapaz que a faz se sentir jovem”. Muito mais que isso, “Alga Doce” é um exercício cinematográfico complexo, de alta densidade e beleza, que envolve um filme dentro de um filme, ambos protagonizados por uma grande atriz, Krystyna Janda, mais uma vez dirigida por Andrzej Wajda, um dos nomes mais importantes do cinema polonês.

WajdaKrystyna Janda foi a protagonista de dois filmes célebres de Wajda, “O Homem de Mármore” (1976) e “O Homem de Ferro” (1981), com os quais o diretor fez a crítica do autoritarismo do regime comunista. Em “Alga Doce” ela relata para a câmara sua dor pela morte do marido, o diretor de fotografia Edward Klosinski, ao mesmo tempo em que interpreta o papel de uma mulher entediada com o casamento e incapaz de superar o luto pela morte dos dois filhos na guerra.

Depois de um período de menos inspiração, na década de 90, Wajda dá sinais, aos 83 anos, de estar em plena forma. No ano passado, a 32ª Mostra exibiu “Katyn”, filme que reconstitui o massacre de milhares de oficiais do Exército polonês por ordens de Stálin, durante a Segunda Guerra Mundial. O cineasta, cujo pai foi uma das vítimas de Katyn, sonhou por anos em levar a história deste massacre às telas, mas só conseguiu fazer isso em 2007.

Dupla homenagem de Wajda, à atriz e ao diretor de fotografia de vários de seus filmes, “Alga Doce”, diferentemente da super-produção anterior, é um filme intimista, silencioso, delicado. Uma parte da narrativa se passa dentro de um quarto, onde Krystyna Janda tenta superar o luto pela morte do marido, e outra parte numa cidadezinha no interior, onde Marta, a personagem vivida pela atriz, vislumbra num jovem simplório de 20 anos a luz para o seu tormento.

Um filme difícil, duro, para quem entende o cinema também como um espaço de reflexão.

“Alga Doce” será exibido neste sábado, às 16h10 no Espaço Unibanco Pompéia; domingo (25/10), às 18h, no HSBC Belas Artes; segunda-feira (26), às 19h, na FAAP, e dia 2/11, às 19h20, no Espaço Unibanco. Mais informações, e um trailer do filme, no site da Mostra.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , ,
23/10/2009 - 14:03

A agenda cultural da dupla OsGemeos

Os Gemeos blogCom a abertura da exposição “Vertigem” no Museu da FAAP, a realização do cartaz da 33ª Mostra de Cinema e uma performance em novembro no encerramento do Ano da França do Brasil, OsGemeos ocupam São Paulo nas próximas semanas. Estive com eles na última quinta-feira, enquanto terminavam de montar “Vertigem”, para fazer a reportagem que o Último Segundo publica nesta sexta-feira. Ao final da entrevista, pedi a Gustavo e Otavio Pandolfo que falassem dos artistas que gostam. Veja as dicas, recomendações e preferências da dupla:
Arte
1. Blu: artista de rua, radicado em Bolonha (Itália). “É um grande muralista”, dizem. Algumas imagens do seu trabalho podem ser vistas aqui.
2. Barry McGee: artista de rua, baseado em San Francisco, na Califórnia (EUA). Uma mostra do seu trabalho aparece aqui.
3. Nunca: artista de rua, com murais pintados em São Paulo, parceiro dos Gêmeos. Um pequeno exemplo do seu trabalho está aqui.

Cinema
1. “Arte Inconseqüência”: Este documentário, de Robert Kaltenhauser, acompanha o trabalho de grafiteiros alemães. O filme tem duas sessões programadas na Mostra de Cinema de São Paulo, dias 4, às 22h30, no Cine Bombril, e 5, às 18h, no Centro Cultural São Paulo.
2. “Crash – No Limite”: O filme de Paul Haggis, vencedor do Oscar de 2006, se passa em Los Angeles e relata diferentes histórias e personagens que, por acaso, acabam se cruzando. “A vida é assim. Tudo tem uma ligação com a outra”, dizem OsGemeos.
3. Hayao Miyazaki: O cineasta japonês, diretor de filmes de animação, como o magnífico “Viagem de Chihiro”, é um dos favoritos da dupla

Música
1. Roger Waters, Pink Floyd
2. Siba, um dos criadores do grupo Mestre Ambrósio, em carreira solo.

Teatro
1. Slava Polunin, um palhaço russo. Já se apresentou no Brasil e, como OsGemeos, agrada às crianças, mas ambiciona emocionar os adultos. Seu site oficial fica aqui.
2. Royal de Luxe: companhia de teatro de marionetes francesa, que trabalha com bonecos gigantes. Aqui pode-se ver uma galeria de fotos com a trupe.

Autor: Mauricio Stycer - Categoria(s): Cultura Tags: , , , , , , , , ,
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