O diretor Christophe Honoré quer atualizar o cinema francês da era dos cineastas Jean-Luc Godard e François Truffaut. Seu filme “Em Paris” foi exibido por aqui no ano passado. ” Les Chansons D’Amour”, de 2007, é um musical sobre um relacionamento a três, um filme estranho, incômodo (as pessoas se viram como podem), mas com momentos de graça, quando nada parece tão sério assim.
Je N’Aime Que Toi – Les Chansons D’Amour.Louis Garrel, Ludivine Sagnier & Clothilde Hesme cantam.
É notável não apenas a nostalgia do filme, mas sua vontade de mostrar o modo como se vive hoje como uma experiência curiosa, engraçada e extremamente interessante.
A artista alemã Uta Barth tem 50 anos, e parte de sua producão se dedica a registrar os momentos da ação da luz em sua própria casa. São instantes dramáticos, depressivos, felizes, tudo provocado pela atenção de Barth para acontecimentos banais.
Wolgang Tillmans é dez anos mais jovem que Barth, e ele também procura por momentos fantásticos em ocasiões mais inesperadas. Há um extremo respeito pelo mundo em suas imagens.
Gregor Schneider, 39 anos, gosta também de ambientes e detalhes distribuídos no espaço. Ele os recria em seus projetos. Mas, ao contrário de Barth e Tillmans, nada nele sugere meditação. Suas cenas possuem uma alta carga de tensão, de violência.
O título acima é do jornal Libération, espantado com os números do leilão de obras de arte que aconteceu na terça-feira em Londres, pela Christie’s. Especialmente pelo preço final de uma peça: 52 milhões de euros por um quadro do pinto Monet, de 1919. A arte se mede em quantias de filmes de Hollywood. Mas quem são esses compradores? O que exatamente querem possuir?
Há artistas claramente mais difíceis de serem vendidos do que outros. O pior pesadelo para o vendedor é não conseguir descobrir para qual público a obra deve ser oferecida. O mexicano Six Million Dollar Weirdo com “Horror Amor” continua pedindo uma explicação.
O saudosismo, a nostalgia, a saudade são hoje uma presença cotidiana na vida, a experiência de todos os dias, como antes tinha sido o futuro. Os anos 60 estavam sonhando com os anos 2000, e os 2000 querem os anos 60. Agora o passado parece ser o que existe de mais fascinante. Sempre é possível roubar alguma coisa lá, trazer algo de bem longe. Especialmente os cortes de cabelo.
The Last Shadow Puppets – Standing Next to Me
Mas há também o guarda-roupa, os tons das cores, um ambiente que permanence misterioso, lendário. A máquina do tempo é a invenção mais aguardada, como imaginada há mais de 40 anos no “Túnel do Tempo”. Uma linguagem visual precisa
Na última década, a indústria do luxo tem se comportado como um foguete espacial: partiu para o alto, e permanece assim, sem previsão para descer. Os lucros são muitos, e o consumo também. Segundo Patrick Thomas, executivo da francesa Hermés, essa não é exatamente uma boa notícia, como disse na última semana: “Quanto mais você é desejável, mais você cresce, e quanto mais você cresce, menos desejável você se torna”. O luxo é uma questão de privilégio
Thomas avisa que o grande risco é mesmo o comportamento descartável. Uma peça não deve durar uma estação, mas a vida inteira, para assim proporcionar uma “satisfação estética e sensual”. Como Jacques Dutronc e Jane Birkin fazendo plic-ploc nos anos 60. Luxo para toda uma existência.
No ultimo final de semana foi aberta mais uma, desta vez em Paris: o museu Maillol recebe até outubro a exposição “China Gold”, sobre a arte chinesa. A China está presente em toda parte na arte. Os artistas do país estão penetrando no mercado de forma intensa, quase como se fosse um valor em si a obra ter sido criada por um artista chinês. Dinheiro, vermelho e o rosto de Mao Tsé-tung tem sido uma combinação irresistível
Foto de Wang Qingsong
Esse é o segundo momento, em um espaço de 40 anos, em que a China entra na moda. No final dos anos 60 foi a mesma coisa. Mas o tom era diferente. Antes era Pop, jovem e revolucionária. Agora é e algo que ninguém entende ao certo. Mas nos dois casos ela provocava medo. A Chinesa. Filme de Jean-Luc Godard.
Marcelo Rezende é escritor (“Arno Schmidt”; “Ciência do sonho: A imaginação sem fim do diretor Michel Gondry”), curador (“Comunismo da Forma”/SP; “À la Chinoise”/Hong Kong; “Estado de Exceção”/SP) e editor do projeto de publicações da 28a Bienal de Arte de São Paulo: “Em Vivo Contato”.