Produtividade num templo budista. Faz sentido?
É um tanto bizarro trabalhar num centro budista e ao mesmo tempo escrever sobre produtividade. Primeiro, por um motivo óbvio: templo não é empresa – por mais que muitos livros de auto-ajuda tentem convencê-lo disso. O objetivo aqui é treinar a mente. “Ser produtivo” não faz exatamente parte das prioridades.
Quando estava vivo, nosso principal professor, S. Ema. Chagdud Tulku Rinpoche, adorava distribuir tarefas aparentemente malucas aos alunos. Coisas como mandar construir paredes do jeito mais errado possível. Quando o resultado não funcionava, ele gargalhava e nos advertia: não se apegue a resultados.
Ainda assim, em 7 anos, Rinpoche e seus alunos foram um exemplo de produtividade. Fundaram uma editora, projetos assistenciais, traduziram textos raros, construiram templos, várias rodas de oração preenchidas por milhares de mantras (e você não imagina o trabalho que dá para fazer isso), eventos anuais elaboradíssimos, sites, centros em vários países da América Latina, entre outras coisas.
Se você olhar usando conceitos tradicionais, apegados a esquemas ditos racionais, parece que tudo é formatado para dar errado. No entanto, funciona. Muitos de nós somos completamente leigos nas áreas em que trabalhamos. Pior: como moramos em comunidade, não podemos disfarçar quando somos rabugentos, metidos, apavorados, desorganizados. Cedo ou tarde você acaba exposto. Em especial porque aqui parece sempre que todos estão correndo.
Rinpoche nos ensinava (e, de certa forma, ainda ensina) a fazer o melhor possível, de um jeito preciso e detalhista, às vezes por meio de grandes esforços. Mas não nos deixa ser esquemáticos e achar que tudo sempre vai dar certo. Nem que vai dar errado. A ideia é se livrar dos conceitos, enfrentar o que vier, dançar no meio do caos. Não por acaso, Rinpoche era conhecido como “O Senhor da Dança” e o próprio nome Chagdud significa algo como dar nó em barras de ferro.
Ele parecia ser amigo de infância da Lei de Murphy, nos preparando para a dinâmica da vida, que está sempre se renovando, surpreendendo. Ainda hoje, toda vez que tentamos solidificar algo, nosso tapete é puxado, como num filme de David Lynch. Você acha que é fulano? Que se comporta de modo x, y, z? Acontece uma reviravolta (e sem explicação final acolhedora). Até que, de repente, você descobre uma confiança e uma flexibilidade que nunca pensou que tivesse. Não é um processo fácil. Mas, por incrível que pareça, funciona.
Este ano no templo budista me fez enxergar a idéia de produtividade por angulos muito diferentes. Ainda preciso de relógios, esquemas, contagens, medidas. Quero encontrar saídas perfeitas, sem furos. Ainda tenho o hábito da autocomiseração, da autocondenação, de pedir colo o tempo todo, de só pensar no meu lado e nos meus problemas. Mas já consegui ter alguma noção de que as melhores ferramentas para executar qualquer projeto são a flexibilidade e a ausência de preconceitos. Todo resto vai aparecendo no caminho.
Autor: Eduf - Categoria(s): comportamento, diretoria Tags: budismo, budismo tibetano, chagdud tulku, rinpoche, tibet