Nem sempre é produtivo ser produtivo

Dois blogueiros nos EUA começaram uma campanha reveladora: The Cult of Done (algo como o culto ao concluído). Bre Pettis e Kio Stark lançaram um manifesto on-line e têm até uma comunidade no Facebook para debater o assunto. A seguir, transcrevo alguns dos princípios que achei mais questionáveis. Entre parênteses, meus comentários.
2. Aceite que todas as coisas são rascunhos. Ajuda a completá-las.
(Ideia interessante. Mas não devemos nos apegar à mentalidade do rascunho. Nem relaxado demais, nem de menos.)
4. Fingir que você sabe o que está fazendo é quase o mesmo que efetivamente saber. Então apenas aceite que você sabe o que está fazendo, mesmo quando não sabe.
(Ok. Mas não me chame para ser seu cliente. Ou seu paciente no hospital.)
5. Abandone a procrastinação. Se demorar mais que uma semana para executar uma ideia, abandone-a.
(Apenas se você for ansioso e descuidado. Algumas coisas precisam passar por um período de maturação, outras não. É como vinho: não procrastina, envelhece. Às vezes, 4 anos é pouco tempo para escrever uma tese acadêmica. Um trabalho de design pode demandar anos de pesquisa. Portanto, é preciso ter uma definição bem precisa do que é procrastinação. Cuidado e descanso também fazem parte do trabalho produtivo.)
6. O objetivo de completar as coisas não é terminá-las, mas resolver outras coisas.
(Ou seja: fazer confusão e trabalho mal-feito?)
7. Uma vez que você terminou um assunto, pode abandoná-lo.
(A não ser que você trabalhe com vendas, ou com a maioria das coisas que envolvam relação com consumidores.)
8. Ria da perfeição. É chata e é o que impede de concluir tarefas.
(Também ria do descuido e da pressa, que cria a refação.)
10. Falhas contam como coisas feitas. Então cometa erros.
(O ideal seria lidar com as situações como surgirem. Por vezes, o erro é mais inteligente do que o acerto, porque corrige concepções e metas. Nem erros, nem acertos. Livre-se de conceitos inúteis. Relacione-se com a realidade.)
13. Terminar é a energia de fazer mais.
(Mas vale perguntar: é sempre útil ter que fazer mais e mais?)
É claro que o manifesto é uma brincadeira, não um documento estatal. Mas mostra que, ao identificar os problemas da procrastinação, muita gente cai no extremo oposto: o produtivismo. Ou melhor: a produtivice. A obrigação de concluir por concluir.
Isso leva à ansiedade e a fazer mal feito. Temos que nos livrar tanto da culpa da procrastinação quanto da paranóia da produtividade. Apenas fazer, sem conceitualizar demais. Encontrar meios termos. Liberar-se da escravidão das palavras.
Não precisamos de manifestos.

Ao terminar de ler fiquei na dúvida: se comentasse, estaria sendo produtivista. Se deixasse prá lá, estaria sendo procastinador… E agora, José?
Acho que você começou a entender o que é viver sem critérios. Note que não te impediu de comentar.
Imagino que este culto não é mais do que dar um “choque” na procrastinação. Fazer a pessoa levantar a “bunda da cadeira” e acabar o que deveria estar acabando.