Como lidar com clientes difíceis
Trabalho há cerca de 15 anos com design e webdevelopment. É uma das melhores profissões para domar o ego, porque você precisa aprender a fazer exatamente o que o cliente quer / deseja. Ele o procura para ter soluções, ideias e opiniões de “um profissional”, mas, no fundo, quer dar a palavra final, por mais desinformada que seja.
Depois que passa sua adolescência criativa, fazer o que os outros querem não é exatamente um problema. Você se acostuma a não levar cada trabalho para o lado pessoal. Se tem uma necessidade muito grande de autoria, sempre pode criar seus próprios sites e projetos experimentais. A dificuldade é outra: boa parte das pessoas não sabe o que quer. Ou será que sabe?
Traduzindo a mente do cliente
É como alguém que chega num restaurante e não sabe o que quer comer. Ao ver o menu, começa a delimitar seu gosto. “Odeio lagosta”, “prefiro comida com tons amarelados”, “essa massa me lembra do meu casamento fracassado”. E por aí vai. Por eliminação, conseguimos chegar em algum tipo de orientação prática. Mas trabalhamos no nível dos sentimentos, que não se expressam exatamente na terminologia da profissão ou das faculdades de design.
Nem todo webdeveloper tem paciência de mergulhar na sensibilidade do cliente. Dá muito trabalho, gasta-se tempo. E é difícil de colocar esse processo nas planilhas de “horas trabalhadas”. É preciso sentar-se com o cliente, se importar com as suas histórias etc. Para o profissional de criação, é muito mais fácil:
1. Apresentar técnicas supostamente criadas para coletar o que as pessoas querem (wireframes, testes, papelada).
2. Ir fazendo o que acha ser melhor, na esperança de convencer o cliente.
Medindo subjetividades
Para algumas pessoas, um wireframe pode parecer algo muito abstrato. O mockup pode ser estático demais. O cliente aprova porque quer se livrar da burocracia. Ou fingir que entendeu aquilo. Mas, como diria o pessoal da Programação Extrema, você precisa apresentar regularmente versões funcionais do seu produto. Algo com o que o cliente possa se divertir, corrigindo e alterando.
Você também pode criar um “plano básico” de alterações incluídas no preço. Como numa operadora de celular. Passou de um certo ponto, cobra-se mais, altera-se o prazo. Clareza e respeito pelo cliente e pelo próprio trabalho: é o melhor que se pode oferecer.
O hábito de fazer o que nós queremos
Os problemas surgem quando tentamos “ser eficientes”. Começamos a deduzir e trabalhar de antemão. Depois temos que refazer tudo. Pode parecer que damos duro pelo cliente, mas, na verdade, trabalhamos para o ego. Queremos nos livrar de uma chateação e fazer o que achamos válido. O problema é que a ansiedade raramente faz as coisas funcionarem bem. Melhor entrevistar o cliente.
Suas deduções podem até estar certas. E você pode negociá-las. Mas para que tentar provar algo? Não podemos viver em eterna disputa com o mundo. Certos assuntos são dignos de insistência, outros podem perfeitamente ser liberados.
A origem do cliente difícil
Por liberar, entenda: perceber a exata dimensão e a origem da situação. Ou seja: seus pensamentos. Não é exatamente o cliente que é confuso. Ele só não se encaixa nas suas expectativas do que seja uma pessoa clara e organizada. E então você começa a julgá-lo, a rejeitar a situação e criar uma história na sua própria mente. De alguma forma, você cria seu próprio inimigo.
Em vez de sofrer, cobre mais, ajuste o prazo. Converse melhor com o cliente. Mas seja lá o que fizer, perceba que são os seus pensamentos que criam a situação. A todo momento, eles filtram e criam “a realidade”.
Nós temos o hábito de nos apavorar com pensamentos. Ou de reagir automaticamente a eles. Mas se você analisar com calma todos os conceitos que tem sobre o cliente, eles podem acabar se dissolvendo. Você vai perceber o teatro, o novelão mexicano que se forma na sua cabeça. Relaxe. Amanhã você vai ter outras prioridades.
