A Era do Alt + Tab

Outro dia estava descadastrando uns feeds do meu leitor de RSS. Isso me fez voltar a ler alguns sites norte-americanos sobre produtividade pessoal. Senti um certo mal-estar. Queria fugir daquele tipo de leitura o mais rápido possível. Vou tentar explicar porquê.
Muito do discurso sobre produtividade está baseado numa espécie de agressividade. Não falo de textos rudes ou algo assim. Mas de uma revolta contra si mesmo, que se expressa em crises de culpa, infinitas cobranças de adaptação a metas e procedimentos. “Não fiz isso, não consegui aquilo, deveria adotar tal prática”.
Ódio ao patrão datou
Até meados do século 20, muita da agressividade no ambiente de trabalho era voltada contra o “patrão explorador”. Agora muitos lutam contra si mesmos, usando como ferramentas certas tiranias conceituais – expedientes, técnicas gerenciais, procrastinação, entre outros fatores.
Ou algo muito mais sutil. E até inconsciente. Por exemplo: a pessoa gasta o dia inteiro em navegação-sem-cérebro pela web e depois a noite toda no ALT+Tab entre autopiedade e autocondenação. É como se torturar sistematicamente.
Outros controles remotos
Os anos 80 formaram a Era do Controle Remoto, dando origem aos zappers – que mudavam de canal frenéticamente e nunca assistiam propriamente a nada. Consequentemente, surgiram os cough potatos, cujo maior exemplo é Homer Simpson, sua obesidade pouco genética, seu sofá e sua cerveja.
Já os 2000 formam a Era do ALT+Tab, na qual zapeamos entre diversos sites, janelas e aplicativos, deixando um rastro de logins, contas, senhas e cadastros. Nosso personagem agora é outro, que compra (ou deseja) gadgets, é fã de popstars da indústria da tecnologia, sofre de lesão por esforço repetitivo (LER) e quer desesperadamente ser produtivo.
Do tráfico ao tráfego
Nos dois casos está uma mesma raiz: o entorpecimento, de alguma forma semelhante aos vícios químicos. Amy Winehouse encontra algum tipo de coragem ignorante para destruir-se com drogas pesadas. Nós preferimos nos entorpecer lentamente, assistindo ao pesadelo da cantora. Ainda assim, nos dopamos.
E, por trás de toda esse movimento, está a velha agressividade contra nós mesmos. Preferimos assimilar 4 milhões de informações por hora do que gastar um minuto para nos olhar no espelho. Honestamente, sem preconceitos e metas. Apenas na nudez do que somos.
Autor: Eduf - Categoria(s): comportamento, gtd e produtividade Tags: alt+tab, controle remoto, internet, procrastinação, produtividade, zapers
Pois é, me peguei pensando nisso outro dia, quando li os comentários de um artigo do Lifehacker, sobre confissões sobre coisas-que-você-podia-fazer-mas-não-faz. Curiosamente, pelo menos 80% dos leitores eram claramente frustrados com essa coisa do GTD e diziam não conseguir ter disciplina suficiente pra tanto. Qual a linha entre motivação e culpa? No mais, ótimo post.
Excelente post!
@kbrito Vou explorar essa sua pergunta sobre motivação e culpa num outro post. Há bastante a debater sobre motivação. Valeu!
Grande texto, Eduf! Por falar em Alt + Tab, você chegou a ler a entrevista com Nelson Pretto no qual ele fala de uma “geração Alt + Tab”?
http://tinyurl.com/alttab
Aquelabraço!
@Inagaki Não li. Obrigado por indicar, dotô.
Putzs…
Vou buscar uma clinica de reabilitação! rs
Eduf,
Acho que se a doença é o vicio e o entorpecimento da produtividade, os sites de lifehack são como tratamentos de alcoolismo em bares.