Quando a tecnologia vira religião
Acabei de ler que um dos mais conhecidos cientistas da atualidade, Richard Dawkins (autor de Deus: Um Delírio, entre outros livros), acumulou alguns milhares de euros para uma campanha antiteísta. Ao mesmo tempo, hoje tive que enfrentar alguns protestos de fãs de uma empresa de computadores. Foi impossível deixar de ligar uma coisa à outra. Podemos fazer da tecnologia uma espécie de religião?
Qualquer coisa pode despertar o velho hábito mental do sectarismo. Futebol, música, tipografia (tenho amigos que odeiam a fonte Helvetica) e, claro, aparelhos eletrônicos. Onde quer que existam ideias há algum tipo de segregação.
Usamos conceitos e marcas para determinar quem somos e para que servimos no mundo. Assim, não é de se espantar que existam Nintendistas (fãs da Nintendo), Sonystas, fanáticos pela Apple ou Microsoft, entre outros “ismos” e “istas”.
Mas uma coisa é defender ideias ou usar disputas como um jeito bem-humorado de aproximar as pessoas. Outra completamente diferente é espalhar rabugice toda vez que se ouve a mínima crítica a respeito de algo que você gosta.
Senso de ridículo
Muitas vezes ignoramos o ridículo de uma situação como brigar com pessoas apenas porque elas não gostam de um determinado gadget. Aparelhos são negócios, dinheiro. Não necessariamente filosofias de vida. Mas os marketeiros sabem que esquecemos disso frequentemente. Seth Godin que o diga.
O sectarismo, seja ele religioso ou tecnológico, cria cegueira para detalhes e contextos. Por exemplo: um gadget pode ser perfeito para a estrutura tecnológica de um país, mas uma porcaria para outros lugares menos equipados. Ao criticá-lo, o fiel fecha todo um pacote: você está desrespeitando o fã, o fabricante e o estilo de vida supostamente vinculado a tudo isso.
Nada poderia ser mais útil no mundo do marketing viral e da recomendação. Ódios e modas se espalham e morrem ainda mais rapidamente. Fortunas são construídas e destruídas em meses. Até a bolsa de valores se comporta cada vez mais como a web (ou seria o contrário?).
Por isso, acho o projeto vinculado a Dawkins um tanto engraçado. Porque é possível tirar Deus e incluir qualquer outra coisa. Há tantos outros deuses por aí, inspirando fiéis a levar tudo à sério. E gastar tempo e dinheiro. Faça um teste: quanto tempo você gasta da sua vida se preocupando com sectarismos inúteis? Ou pior: fomentando-os?
Autor: Eduf - Categoria(s): comportamento Tags: campanhas, gadgets, religião, richard dawkins
Bem, na verdade algo parecido com isso já foi feito com a Igreja Positivista de Augusto Comte.
Dawkins… cético radical, sociobiólogo limitante, ateu militante. Ele pelo menos já escolheu pra que outro “deus” quer rezar.
Pq ao ler esse texto me veio logo na cabeça os Fãs da Apple? (os mais “chatos” entre todos os tipos de fãs de tecnologia que eu conheço, claro havendo exceções lógico)
Concordo. Fãs da Apple são os campeões.
Realmente sempre há espaço para tais comportamentos onde o tempo não é devidamente ocupado, ou pior, onde a vida permitiu alguns lapsos enormes na personalidade das pessoas.
E ter uma posição unilateral acerca de determinado assunto é sentir-se importante! No quesito software tenho amigos que levam tão a sério a tentativa de demonstrarem que possuem uma opinião que chegam a ser chatos quando o assunto é tecnologia.
Acaba se tornando uma falácia sem conteúdo! É aquela velha história, de um debate o que se vê são dois monólogos!