A arte de ser ineficiente
Ao longo das nossas trajetórias profissionais, sempre aprendemos técnicas para trabalhar mais rápida e eficientemente. A cada ano aumentamos nosso “estoque de atalhos”, principalmente eliminando hábitos inúteis. Mas você já sabe disso. O que eu queria dizer é que também precisamos aprender a arte da ineficiência.
Explico. Quando trabalhamos em equipe, temos que respeitar o desespero alheio, por mais que lhe pareça ilusório. E assim desenvolver a capacidade de abrir mão das suas idéias sobre eficiência para tentar ajudar o resto do grupo. (E também por certa humildade de aceitar que pode ser que no futuro você perceba que, afinal, estava mesmo errado).
Imagine que você seja o técnico de um atleta que treina para uma maratona. Seu pupilo tem tanta vontade de ganhar e está tão ansioso, que dispara a correr descalço. Você tenta dizer: “seu pé vai ficar com bolhas, isso vai atrasá-lo”. Mas o estresse é tão grande que o corredor não quer ouvi-lo. Pelo contrário: se você demonstrar calma ou senso de limites, ele vai achar que você não se importa com a corrida, que está de má-vontade.
Então você respira fundo e corre atrás dele, gritando: “Vamos, rápido. Os quenianos vão nos pegar. Não vê que vamos perder? Precisamos fazer isso, aquilo…”. Ao mesmo tempo, carrega um par de tênis. Pega uma garrafa d’água, joga no rosto do pupilo e comenta: “estamos podres, que correria horrível!”. Isso desperta companheirismo e abre a mente do corredor. “Olha, tente colocar esses tênis. Eu seguro os quenianos. Amarrar o cadarço, ajustar a língua, são tantas emoções. Estamos perdidos!”
Aí o corredor calça os tênis, treina melhor e consegue bom desempenho na competição. Se ele ganhar, vai ter uma síncope de tanto elogiá-lo. Dirá que sua ajuda foi fundamental.
Mas você sabe que o competidor poderia ter feito tudo sozinho. E de maneira mais eficiente. O problema é que nem sempre a eficiência é eficiente. Estamos falando de gente, tudo é experiencial, emocional.
Muitos de nós não estamos interessados em ser rápidos ou trabalhar menos. Pelo contrário: queremos nos sentir ocupados, fazendo parte de algo maior. O objetivo nem sempre é concluir uma tarefa. É ter uma lista de to do enorme, para sentir-se leal, esforçado, carregador de piano, forte.
Esse tipo de situação mascara a pergunta que mais tememos: o que faríamos e como nos sentiríamos se não estivéssemos tão ocupados tentando bancar o Hércules?
Autor: Eduf - Categoria(s): gtd e produtividade Tags: eficiência, produtividade
Caro Edu, se eu não estivesse tão ocupado acho que estaria fazendo exercícios físicos, lendo livros que ainda não li e que estou só na vontade, aprenderia a cozinhar, tocaria guitarra e dormiria muito. Porém, isso soa ineficiência! Então para não ser flagrado no meu próprio sonho estou aqui a “carregar piano” lendo, escrevendo, trabalhando cultivando meu Hércules interior. =)