Trabalhando a partir de qualquer lugar

Meu escritório é no deserto.
Uma repórter de um site sobre tecnologia me escreveu pedindo uma entrevista sobre aquilo que está ficando conhecido como “nomadismo digital”. Publico as respostas que enviei por e-mail, com algumas observações complementares e exclusivas para você, leitor fiel desta humilde choupana na web.
Definições
Em vez de nomadismo digital, prefiro a expressão trabalho remoto, pois não se fixa apenas no uso de tecnologias digitais. E não dá a idéia de que esse tipo de atividade seja nova. É até o contrário: se descartarmos o trabalho familiar no feudalismo, o nosso tipo de sedentarismo profissional é que existe há bem pouco tempo na História.
Vamos às perguntas:
Na sua opinião, quais são as vantagens e as desvantagens – para o profissional – do uso das tecnologias para o trabalho remoto?
Vantagens:
1. Livrar-se da escravidão de estar preso a um horário fixo e um espaço físico de trabalho.
2. Livrar-se de trânsito e de perder tempo no escritório só para cumprir regras.
Desvantagens:
1. Se o profissional não souber impor limites, transforma sua vida inteira num escritório.
2. No Brasil, há várias dificuldades tecnológicas fora dos grandes centros. Para ser mais específico, fora de RJ e SP. Celulares que não pegam, lanhouses mantidas por leigos, redes wi-fi mal configuradas, essas coisas. Isso deve ser incluído nos custos de trabalho.
Qual o limite para os nômades digitais não se tornarem escravos do trabalho?
O limites é a negociação. Isso significa:
1. Aprender a dizer não para clientes.
2. Saber dizer sim de modo realista, eficiente e organizado.
Quem sai ganhando com o trabalho remoto?
Empresa e profissional. Mas nas seguintes condições:
1. Se o profissional for criativo e organizado.
2. Se a empresa entender que também há custos estruturais no trabalho remoto.
Ou seja: ainda há impostos, despesas de transporte, custos dos diferentes níveis de tecnologia das cidades e do mundo etc. Eles são pagos pelo profissional, mas devem ser repassados no custo.
Resumindo: trabalho remoto não é liquidação, mas pode sim ser mais barato para ambos os lados.
Nômades podem trabalhar mais que profissionais dentro de empresas?
Só posso responder por mim. Trabalho mais, só que em menos tempo. Em vez de enrolar 8 horas por dia, concentro minha produtividade em 2, 3 horas (E ainda sou desorganizado e procrastinador. Perco muito tempo com feeds completamente inúteis sobre mercado de tecnologia).
Aliás, essa mentalidade de medir o trabalho em horas, como se fôssemos uma planilha do Excel, me irrita profundamente.
Geralmente meus clientes precisam de atenção e resultados. Raramente isso significa tempo a mais de trabalho.
Porém, muitos deles ACHAM que precisam de mais tempo. Quando são abertos para discussão, conto-lhes a verdade. Quando não são, evito fazer o que muita gente bem-intencionada faz: gastar o tempo do cliente em procrastinação.
Detesto esse teatro. Mas há gente que não confia em trabalho rápido e efetivo. Simplesmente confiam mais na burocracia do que na efetividade. São clientes escravos da mentalidade da ocupação: você precisa parecer que está dando duro, ainda que só esteja jogando os recursos do contratante no lixo.
Quando o cliente REALMENTE precisa de mais tempo, fico feliz em lhe oferecer. Não é uma luta: eu contra meu inimigo, o empregador. É uma parceria. Se for uma relação de guerra, é melhor pedir demissão ou reavaliar o trabalho.
Muitas vezes, nosso maior carrasco é a insegurança profissional. Ter que provar algo ilusório para alguém ou para si mesmo, só porque você tem medo de tudo e de todos à sua volta. Ou porque quer criar uma imagem de “rei do gado” em alguma área. E isso acontece com nômades ou qualquer outro tipo de profissionais.
Assim, não quero ser o melhor, nem o pior, nem o medíocre. Quero viver além dessas amarras conceituais inúteis. Trabalho sustentável.
Qual o seu conselho para aqueles que já começaram a sentir os ’sintomas’ do nomadismo digital? Ou seja, já começaram a trabalhar da rua, do carro, das cafeterias e shoppings com Wi-Fi, etc?
O sintoma não está em trabalhar em ambientes como esse. O sintoma é fazê-lo irritado, odiando a vida.
Semana passada, por exemplo, trabalhei 2 horas num café de cinema em São Paulo, usando banda larga 3G. Na hora do filme, fui assisti-lo. Depois retomei minhas tarefas. Terminadas, fui jantar com amigos. Poderia dizer a mim mesmo: “como sou miserável, trabalhando aqui”. Mas a verdade é que estava lá para gastar menos tempo de condução entre as diversões que eu havia programado para depois.
O segredo é: quando for trabalhar, trabalhe. Quando for se divertir, divirta-se. Parece simples e óbvio, mas pouquíssima gente consegue. Geralmente estamos no meio do expediente com a cabeça no jogo de futebol ou no estádio pensando no trabalho. Assim, só podemos criar irritação e frustração.
Autor: Eduf - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Touché!
A Dell mantem uma rede social sobre o assunto: http://www.digitalnomads.com/.
No mais, excelente texto.
concordo com tudo. uma das coisas mais difíceis é ter disciplina pra não transformar a vida em puro trabalho. tem outro elemento que pega também: trabalhar remotamente dentro de uma equipe que é fundamentalmente presencial. tem uma coisa cultural, tem que aprender a socializar de um jeito que permita acabar com inveja e outras coisas. é um %!@$&@#aprendizado.
Falou tudo!
Adoro ler esse site, por que aprendo a viver também. Com, qualidade e tranquilidade, respeitando meus limites e dosando a inspiração.
Grande abraço!