Zenware: programas para combater as distrações
Ontem, na Slate Magazine, o jornalista Jeffrey MacIntyre, apontou uma tendência que está crescendo no mercado de softwares: o surgimento de programas propositalmente simples, com poucas funcionalidades e praticamente sem recursos visuais. Um bom exemplo deles é o Writeroom (para Mac). Trata-se de um processador de texto à moda do velho Word para DOS: tela completamente preta e um cursor pronto para digitar. Nada mais. Nem mesmo os menus do sistema operacional aparecem.
Macyntyre chama esse tipo de aplicativos de zenware. O objetivo dos seus desenvolvedores seria eliminar as distrações do desktop (MSN, e-mails, menus dispersivos e incompreensíveis etc.) para ajudar o usuário a se focar em suas tarefas. O que é bonito na teoria, mas muito pouco prático.
O conceito de zenware é fruto de uma dupla incompreensão. Primeiro, da prática zen (se você quer se aprofundar no assunto, recomendo o livro Mente Zen, Mente de Principiante, de Shunryu Susuki). Segundo, de como funcionam as distrações. Tratei sobre isso num post anterior.
Simplificar quase sempre é uma atitude saudável. Mas não é “o antídoto” para as distrações. Por exemplo, se você se isolar, durante apenas 3 minutos, numa sala completamente escura, sem nada para fazer e sem qualquer barulho, descobrirá que sua mente vai trabalhar como se não houvesse amanhã. Ela é uma espécie de máquina de conceitos, julgamentos, expectativas, medos e esperanças. Nenhum menu da Microsoft vai conseguir chegar perto da quantidade de informação e bagunça que você perceberá – isso se conseguir manter a atenção por mais de 5 segundos.
Se você quisesse evitar machucar os pés ao andar na cidade, o que faria? Tentaria cobrir todas as ruas de couro ou usaria sapatos? O princípio é o mesmo aqui. Não adianta eliminar todos os recursos do computador. Você é que precisa desenvolver a concentração.
Desde crianças, reforçamos o hábito da distração. Ele é tão arraigado que mal o percebemos. Precisamos ser constantemente entretidos. Tanto que vivemos fugindo de um fantasma cultural chamado tédio – que a cada dia fica mais forte e está mais presente. É como um viciado em drogas: depois de algum tempo, é necessário aumentar a dose para obter o efeito desejado. Assim, tudo fica mais chato, precisamos de cada vez mais canais de TV, mais mp3, mais espaço em disco, mais sensações, mais possibilidades. Não é a chatice que causa a distração. É a distração que causa a chatice.
O hábito da distração torna nossas mentes muito inflexíveis, difíceis de lidar. Quando precisamos, não conseguimos dirigir a atenção para onde queremos sem sofrer, sem fazer um esforço cansativo. Para mudar esse cenário, não há milagres: é preciso treinamento sistemático. Aprender a lidar com a mente, retomar o foco constantemente, sem se irritar, sem perder o rebolado. Dispersou, não perca tempo se condenando por isso ou tentando encontrar uma técnica mirabolante de concentração. Apenas retome o que estava fazendo. Esse é apenas o começo de uma jornada muito maior.
No fim, o que o zenware tenta combater, nem é tanto a dispersão. É mais a resistência, a relutância em terminar uma tarefa. Mas esse é assunto para um outro post.
Autor: Eduf - Categoria(s): Sem categoria Tags:
Muito boa essa matéria. Essa questão de se dispersar é mto comum. O tédio é fato há muito tempo, pois com base nele muitos escritores românticos fizeram inúmeras poesias. Talvez exista o tédio produtivo, no qual surja uma idéia mirabolante que pode vir a ser mto útil futuramente.
Abraços
Não acredito no tédio.
Fiquei interessado nesse livro do Shunryu Susuki, ele é bom?
Pra mim, é excepcional. Mas cada um cada um, não é?
Buenas!
Hombre, sou teu fã. Acompanho teu blog constantemente e partilho muitos conceitos contigo. A-d-o-r-e-i esse artigo. Estou vendo que hoje será uma daquelas noites que me embrenharei nos weblogs até altas horas; o que é ótimo por que me faz um ser humano melhor. Grande abraço e obrigado!
Obrigado, Cícero!
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