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10/08/2009 - 09:51

O que Ciro disse. E o que quis dizer

A entrevista de Ciro Gomes, no Valor de hoje, mostra, primeiro, os ciúmes do político que julga não estar recebendo a devida atenção dos aliados. O que não impede de ser uma entrevista interessante – pelo que Ciro diz e pelo que suas declarações não dizem, mas sugerem.

1. O risco de Dilma concorrer aliada ao PMDB e, principalmente, governar com o PMDB. É um risco real, pelas razões que ele aponta.

2. Tenta comprovar que não há transferência de votos de presidente popular para seu candidato, dando como exemplo JK e Lott. Nada a ver com Lula e Dilma. JK terminou o governo impopular, devido ao aumento expressivo da inflação e às denúncias de corrupção na construção de Brasília. Sua imagem era a do tocador de obras: a de Lott, a de legalista sem jogo de cintura. Foi colocado para perder. Lula está atrelando a imagem de Dilma às obras de seu governo. Se vai ser bem sucedido ou não na transferência, são outros quinhentos. Mas a comparação com JK-Lott não se sustenta.

3. Sua avaliação sobre o pragmatismo de Lula é correta: “Primeiro, o presidente conciliou, na minha opinião de forma muito frouxa, o segundo mandato, para esconjurar essa escalada golpista que o ameaçou no primeiro mandato, e não conseguiu institucionalizar nenhum dos grandes avanços que promoveu”. Pode-se discutir se conseguiria resistir ao golpismo sem pragmatismo. Mas o preço pago foi esse mesmo.

4. A retórica de elogiar Lula e condenar o continuísmo faz parte do repertório de Aécio Neves também: vamos manter o que Lula fez de bom e melhorar. A retórica de Ciro é: como Dilma é continuísmo, ela só vai manter, não vai melhorar. Uma ginástica retórica forçada, a não ser na constatação de que, mantido o arco de alianças, Dilma será manietada. Aí o argumento ganha mais consistência.

5. A afirmação de que a candidatura Marina implode a de Dilma faz parte da estratégia muito adotada por economistas de traçar o mapa do caos se… Se não me ouvirem. É um óbvio exagero retórico.

6. Diz que a eleição de Dilma estará perdida se Serra se candidatar à reeleição em São Paulo e apoiar Aécio Neves para a presidência. De fato, é a hipótese mais temida em Brasília.

7. O elogio que faz a Serra, chamando-o de “grande governador” tem três objetivos. O primeiro, o de não confrontar a mídia que, em geral, o tem poupado. O segundo, sinalizar a Serra de que, se sair candidato, Ciro não o atrapalhará. Terceiro, o de tirar Lula do estado de soberba atual e abrir espaço para a capacidade de barganha política do PSB.

Do Valor Econômico

“Marina implode candidatura Dilma”

(…) Nossa avaliação unânime no PSB é que, da forma como as coisas estão postas, hoje a tendência é que esse projeto que defendemos está ameaçado de perder as eleições.

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Autor: luisnassif - Categoria(s): Eleições, Política Tags: , , , , ,
07/08/2009 - 11:13

Os limites do pragmatismo político

O jogo de xadrez da política é curioso. Vamos tentar aprofundar um pouco mais a questão Marina Silva.

1. Grosso modo, os ambientalistas podem ser divididos em dois grupos. Um grupo mais light, representado pelo Carlos Minc e pelo Xico Graziano, entre outros. E o grupo mais radical, liderado pela Marina. Digo radical sem nenhum juízo de valor. Ela é radical e é o maior ícone do movimento. Muito antes de ser petista, ela é ambientalista.

2. O jogo político se equilibra entre duas forças muitas vezes opostas. Uma, a realpolitik, a necessidade de fazer alianças complicadas. Outra, a opinião pública. São objetivos conflitantes.

3. Quando enveredou pelo caminho da direita raivosa, José Serra buscava o apoio da mídia e o discurso para ocupar o espectro da centro-direita. Exorbitou e perdeu um amplo leque de apoios que poderia conquistar no centro e no centro-esquerda. Especialmente, agora, quando poderia explorar o desgaste de Lula com o excesso de pragmatismo.

4. Quando cedeu às alianças com Sarney, Renan e outros, Lula atendeu à realpolitik. Garantiu governabilidade mas se comprometeu com um leque de eleitores que não aceitam esse jogo – e que não poderiam migrar para Serra, porque sua imagem já estava contaminada.

5. Confiante de que esse espectro mais purista estava sob controle, Dilma Rousseff avança sobre a base de apoio de Serra. Busca aproximar-se de grandes grupos, ter abertura na grande mídia, mas deixa exposto o flanco de apoio de novas forças modernizantes e de forças mais à esquerda. É bobagem! O enfraquecimento gradativo da mídia vai provocar uma redução nos laços de solidariedade a Lula. Hoje há uma frente contra o golpismo. Quando o golpismo não for mais fantasma, a frente cede, porque Lula não está tratando de costurar apoios em cima de princípios. De certo modo, mídia e Lula estão abraçados e dependentes um dos ataques do outro. A defecção de Marina Silva é o primeiro resultado concreto dessa insensibilidade.

6. Todo esse jogo confuso, de excesso de cautela, de pragmatismo de lado a lado, abriu brechas que podem ser ocupados por terceiros, candidatos não convencionais e não expostos a esse tiroteio insano, pautado pela mídia. Um deles, é Ciro Gomes em São Paulo. Outro, é Aécio Neves no PSDB nacional. Um terceiro é Marina Silva – que tem história e imagem para aspirar à candidatura que bem desejar.

7. Até as eleições, muita água vai rolar. Creio que, depois desse desastre geral e irrestrito dos episódios do Senado, todos vão sentar, respirar fundo, tomar água gelada e analisar sua posição daqui para frente.

PS – Com a sutileza que o caracteriza, o Sérgio Meinberg, da Folha, expôs bem a estratégia de ataques a Sarney. Consiste em explorar o máximo possível sua demonização e o apoio de Lula a ele. Depois, confiar que a próxima pesquisa de opinião melhore a posição relativa de Serra.

Hoje em dia, já há sinais de afastamento da candidatura Serra em direção a outra mais viável na oposição. Uma pesquisa desfavorável liquidaria com sua candidatura. Então, interrompem-se as pesquisas e cria-se o cenário capaz de melhorar o quadro clínico-eleitoral de Serra, antes de IBOPE e Datafolha ousarem a próxima.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Política Tags: , , , , ,
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