É impressionante a dificuldade da Folha em dar o braço a torcer, no caso da ficha falsa de Dilma Rousseff. O reconhecimento da fraude sai aos poucos e sempre com ressalvas. E o jornal chega a uma conclusão que revoluciona de vez o exercício do jornalismo: só se pode comprovar que um documento é falso se houver o original para ser comparado. É uma revolução newtoniana no jornalismo.
A fraude é facilmente comprovável, sem necessidade de laudo pericial nenhum, a partir do seguinte raciocínio óbvio e acessível a qualquer pessoa com um mínimo de honestidade intelectual:
1. A Folha recebeu a ficha por e-mail. Apresentou como se fosse a ficha de Dilma Rousseff no DOPS paulista. A partir daí, bastaria ir ao Arquivo Público, onde se encontra o material do DOPS e conferir se a ficha existe ou, pelo menos, se o modelo de ficha é o mesmo do spam.
2. Na carta da Ministra ao jornal (que publiquei) é mencionada a afirmação taxativa do diretor do Arquivo Público, de que aquele modelo de ficha nunca existiu no DOPS. O laudo reitera essa afirmação e menciona a inexistência de fotos no arquivo no período 1967 a 1969. Em vez de se render aos fatos, a Folha diz que “poderia” existir esse modelo, foto ou ficha, nos anos posteriores. Então mostre. Mas não vai atrás do Arquivo Público para comprovar a suspeita ou desmentir a acusação. Limita-se a desqualificar as provas em cima de bobagens inacreditáveis (os peritos se basearam na foto que saiu no Blog do Azenha, por estar mais legível, sendo que o Blog é crítico da mídia). Cáspite!
Sinceramente, não sei o que está por trás. Ou se mantém o fantasma pendente para uso posterior. Ou tenta se livrar a todo o custo a cara de quem armou essa jogada. Ninguém da redação mereceria essa solidariedade, do jornal se expor ao ridículo para salvar a cara do autor desse feito.
Ministra diz que uma das reproduções de papéis publicadas pela Folha sobre sua prisão na ditadura é “montagem recente”
Na sua reportagem, a Folha informava, na legenda sob a reprodução da ficha, que Dilma não havia cometido os crimes a ela imputados
PAULO PEIXOTO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM BELO HORIZONTE
A ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) questionou a autenticidade de um dos documentos referentes à sua prisão pelo regime militar publicado, com outros quatro, em reportagem da Folha no último dia 5. Segundo a ministra, a ficha em que ela aparece qualificada como “terrorista/assaltante de bancos” e da qual consta o carimbo “capturado” sobre a sua foto é uma “manipulação recente”. Dilma disse que o documento não consta dos arquivos em que ela mandou pesquisar. “A ficha é falsa, é uma montagem. (…) Estou, atualmente, numa discussão, tentando ver com a Folha de S.Paulo de onde eles tiraram aquela ficha, porque até agora ela não está em nenhum dos arquivos que pelo menos nós olhamos. Então, ela não é produto nem daquela época, ela é produto recente, manipulado, de órgãos ou de interesses escusos daqueles que praticaram esses atos no passado”, disse a ministra em entrevista à radio Itatiaia, de Belo Horizonte.
Ex-integrante do movimento VAR-Palmares, adepto da luta armada contra a ditadura, Dilma negou participação em ações criminosas realizadas em São Paulo e atribuídas a ela na ficha. “Eu nunca militei em São Paulo nesse período que eles relatam na ficha. Eu morava em Minas. Tem datas aí [na ficha], de 1968, que eu não só morava aí [em BH] como estudava na Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. Tinha endereço certo e sabido.” Na sua reportagem, a Folha informava, na legenda sob a reprodução do documento, que a ministra não havia cometido crimes a ela imputados. Dilma disse ainda que, embora tenha ficado presa por seis anos, “infelizmente ou felizmente”, nunca foi julgada por participação em ações armadas. “Nunca fui julgada por nenhuma ação armada ou por um assalto a banco, porque as minhas circunstâncias foram essas, não os cometi.” A ministra disse que a ficha “cumpre uma função similar àquela da pergunta que me foi feita no Senado”, referindo-se ao questionamento que lhe fizera o senador Agripino Maia (DEM-RN), em maio de 2008, sobre ela ter mentido em seus depoimentos durante os interrogatórios no regime militar. Na ocasião, Dilma respondeu: “Não é possível supor que se dialogue no choque elétrico, no pau-de-arara. Qualquer comparação entre a ditadura militar e a democracia brasileira só pode partir de quem não dá valor à democracia”. (…)
Nota da Redação – Tão logo a ministra colocou em dúvida a autenticidade de uma das reproduções publicadas, a Folha escalou repórteres para esclarecer o caso e publicará o resultado dessa apuração numa próxima edição.
Comentário
A demonstração de humildade da Folha, que em outros tempos seria interpretada como virtude jornalística, nas circunstâncias atuais é claramente medo da repetição do “fator ditabranda”.
É uma pena o que o Otavinho fez com o jornal nesse período, uma pena. E não foi por falta de aviso. Aquela Folha, já não mais há. Vai ter que juntar os cacos, sem ter a intuição do seu Frias para orientá-lo.
Por C. Brayton
Descobrir que divulgou uma montagem após o fato não é a mesma coisa que averiguar antes e deixar de divulgar.
Por Marc
Se esse documento não aparecer fica comprovado que ele é resultado do Photoshop.
Nesse caso a Folha vai ser o caso mais detalhado de revisionismo e adulteração histórica, a saber:
Ditabranda
Entrevista de Roberto Espinosa sobre a Dilma
Documentos adulterados (ficha da Dilma)
Grampo sem áudio do STF.
…
Independente da visão jornalistica e ideológica, como empresário não consigo entender esta postura, são atitudes que vão contra o pragmatismo que sempre deve nortear grandes grupos como a Folha.
Acho que os herdeiros tem uma visão distorcida da realidade e acreditam demais no seu poder, estão apostando todas as fichas num único lado e dobrando o lance a cada rodada perdida.
Por Marcello Oliveira
Eu recebi um e-mail, do tipo “olhem o curriculum do candidato do PT às próximas eleições”, com uma ficha daquelas, há pelo menos uns 6 meses. Tem uma cópia, por exemplo, neste link ( http://clubecetico.org/forum/index.php?topic=18867.0 ), datada de janeiro, bem antes da reportagem da Folha. Parece que alguém da redação também recebeu.
“Professores pedem direito de resposta no caso ditabranda
DA REDAÇÃO
Por meio de seus advogados, os professores Fábio Comparato e Maria Victoria Benevides requerem a publicação das considerações abaixo a título de “direito de resposta” a declarações do diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, publicadas em 8 de março:
“Levar mais de duas semanas para reconhecer um desatino editorial (a classificação do regime militar brasileiro como “ditabranda’), imputando a responsabilidade pelo episódio ao teor de nossas críticas, não parece um comportamento compatível com a ética do jornalismo. Sempre sustentamos, sem precisar receber lições de ninguém, que as vítimas de regimes arbitrários, aqui e alhures, merecem igual proteção e respeito, sem desvios ideológicos ou idiossincrasias pessoais.”
Nota da Redação: O tratamento dado pela Folha ao uso da palavra “ditabranda” em editorial de 17 de fevereiro, com a publicação de diversas críticas e o reconhecimento da impropriedade do termo, é um exemplo de transparência editorial. Imaginava-se encerrado o episódio, mas os professores Comparato e Benevides estão empenhados em extrair dele o máximo rendimento possível. As opiniões de ambos sempre foram transmitidas pelo jornal, por meio de numerosos artigos, sem a necessidade de advogados. A “resposta” acima é publicada com base na Lei 5.250/67, editada pela ditadura militar, a fim de que vítimas de regimes cautelosamente chamados de “arbitrários” e vagamente situados “alhures” também se sintam destinatários dessa solidariedade envergonhada.”
Não é nem preciso dizer que os referidos professores passarão ser ser personas non gratas no jornal do “Tavinho”.
Comentário
Em benefício da Folha diga-se que ela sempre respeitou o direito de resposta.
Ruptura
“O professor François Chesnais (”Ruptura radical” é a saída para o Brasil, defende professor francês”, Entrevista da 2ª, 31/5) tem dado uma excelente contribuição à causa do mundo subdesenvolvido ao mostrar, em seus vários livros, de que forma a globalização capitalista, comandada pelos EUA, aprofunda a divisão entre ricos e pobres até dentro dos países mais ricos do planeta. Mas, ao apontar em sua entrevista a experiência política cubana como exemplo a ser seguido pelos países subdesenvolvidos, especialmente o Brasil, o ilustre professor prestou um desserviço àquela nobre causa. A mundialização humanista, pela qual lutamos, funda-se no respeito integral à democracia e aos direitos humanos, caminho que, infelizmente, não tem sido seguido pelo governo cubano.”
Fábio Konder Comparato, professor titular da Faculdade de Direito da USP (São Paulo, SP)
Comentário
O Cássio não colocou o link, mas, pelos demais comentários, acho que a notícia veio do Blog do Rodrigo Vianna (clique aqui).
Por Ana Dias
Nassif, foi o Cássio quem achou, mesmo, e enviou pro Rodrigo Vianna, que colocou em seu blog dando o crédito ao Cássio.
A “ditabranda” do Otavinho teve pelo menos um mérito: rompeu com o peso das idiossincrasias dele sobre a linha do jornal. A imprevisibilidade de suas ações, a falta de clareza sobre o que pretendia – ao contrário do pai -, o autoritarismo sem critérios, criou um constrangimento terrível sobre jornalistas e colunistas.
Os mais fracos cederam miseravelmente, tornaram-se repetitivos, óbvios, vergaram demais a coluna vertebral e se transformaram em sombra dos jornalistas que foram – especialmente depois que jornalistas mais críticos foram afastados, como foi o caso dos dois últimos ombudsmen. Os de personalidade não se vergaram, mas se retraíram. E é neles que a Folha irá buscar, agora, sua tentativa de redimir – ainda que parcialmente – o jornalismo e a pluralidade.
Abaixo, artigo do Jânio de Freitas sobre a recuperação da história e o papel de Fernando Henrique Cardoso em aumentar o prazo de sigilo dos documentos oficiais. Leia mais »
O diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, divulgou ontem as seguintes declarações:
“O uso da expressão “ditabranda” em editorial de 17 de fevereiro passado foi um erro. O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis.
Do ponto de vista histórico, porém, é um fato que a ditadura militar brasileira, com toda a sua truculência, foi menos repressiva que as congêneres argentina, uruguaia e chilena -ou que a ditadura cubana, de esquerda.
A nota publicada juntamente com as mensagens dos professores Comparato e Benevides na edição de 20 de fevereiro reagiu com rispidez a uma imprecação ríspida: que os responsáveis pelo editorial fossem forçados, “de joelhos”, a uma autocrítica em praça pública.
Para se arvorar em tutores do comportamento democrático alheio, falta a esses democratas de fachada mostrar que repudiam, com o mesmo furor inquisitorial, os métodos das ditaduras de esquerda com as quais simpatizam.”
Otavio Frias Filho
Comentário
Otavinho se vangloria de pensar politicamente como um empresário da comunicação: entendendo os ventos políticos e oferecendo o que seu público quer. Faz sentido. Foi em torno desse princípio – e com um feeling extraordinário – que Otávio Frias, pai, transformou a Folha no maior jornal do país, montando um público fiel que tinha como ponto de convergência o combate à ditadura. Leia mais »
Uma análise isenta irá encontrar pontos positivos no regime militar brasileiro. Não tenho nenhum prurido de mencionar grandes avanços econômicos no período, a consolidação do parque industrial, a visão estratégica. Também grandes erros, como a incapacidade de entender o processo de urbanização, a ausência total de políticas includentes.
Mas o que o professor Marco Antonio Villa perpetra hoje na “Folha” (“Ditadura à brasileira”) é típica do papel que vem desempenhando nos últimos tempos: o de deixar de lado qualquer veleidade acadêmica e cair de cabeça para atender à demanda neocon.
Ele começa como acadêmico, levantando prós e contras do regime militar. Depois, envereda pelo seu exercício predileto, o da relativização de todos os aspectos negativos. Leia mais »
Introdutor do jornalismo de serviços e do jornalismo eletrônico no país. Vencedor do Prêmio de Melhor Jornalista de Economia da Imprensa Escrita do site Comunique-se em 2003, 2005 e 2008, em eleição direta da categoria. Prêmio iBest de Melhor Blog de Política, em eleição popular e da Academia iBest.