Tem que ser suficientemente amplo e plural para caber a grande empresa e o pequeno empreendedor, o sistema financeiro e os movimentos sociais, o agronegócio e a agricultura familiar, as políticas industriais e a Bolsa Família.
Esse é o desenho de país moderno que se pretende. E peça chave nessa montagem é o repúdio a toda forma de radicalização, parta de quem partir.
O MST é um movimento jovem. Como todo movimento político infante, tem a fase de radicalização. E tem a fase do amadurecimento.
Conheci a Universidade MST uns dois anos atrás e fiquei impressionado com o trabalho que fazem. Nas poucas conversas que tive com o Stédile me pareceu um intelectual sólido e um belo organizador de um mundo à parte – com a cultura MST, as pequenas propriedades do MST.
Sem conhecer intimamente o movimento, me pareceu um avanço em relação a práticas de outros tempos, quando convocavam desempregados urbanos para ocupações, em troca da promessa de terra.
Por outro lado, pelo que me informam não há uniformidade política no MST. Há todo um processo de amadurecimento que, mais à frente, irá levar à institucionalização do movimento, como um partido à esquerda representando o último segmento dos excluídos do país.
Há duas formas de se tratar o MST. Uma, jogá-lo na ilegalidade. Outro, ter paciência – sem abrir mão da disciplina da lei – aguardando seu amadurecimento, a construção da rede econômica de pequenas propriedades, a organização comunitária e, futuramente, o partido político que irá enriquecer o espectro político brasileiro – ao lado de novos partidos que surgirão mais à direita ou mais à esquerda.
Popr Fernando M.A.
Só uma dúvida, a CPI é de qual MST?
MST é uma sigla que a imprensa usa para tudo, mas que não corresponde a toda a verdade, pois existe o “Movimento dos Sem Terra” (que anda quieto), o Movimento Libertário dos Sem Terra”, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra” (este é o grupo que motivou a CPI) e assim por diante, o qual são grupos diferentes, o que distingue a quem é ligado, ao PT, ao PSOL, a Igreja Católica (normalmente são os libertários), ao PSDB (sim, os tucanos tem ou tinha seu grupo de sem terra), chegando a existir mais de um deles por estado (já ouvi catorze deles num estado só, o que não imagino como é possível).
Novamente pergunto, qual deles será investigado? Se focar em todos nenhum deles terá profundidade alguma e será completamente inútil.
Assinam o documento personalidades como Antonio Candido, Luis Fernando Veríssimo e Emir Sader
Roldão Arruda, de O Estado de S.Paulo
SÃO PAULO – Intelectuais do Brasil e do exterior divulgaram nesta sexta-feira, 23, um manifesto em defesa dos Movimento dos Sem-Terra (MST) e contra a CPI criada nesta semana para investigar supostas irregularidades na repasse de verbas públicas para a organização. De acordo com o documento, está em curso no Brasil “um grande operativo político das classes dominantes objetivando golpear o principal movimento social brasileiro, o MST”. No fundo, diz o texto, “prepara-se o terreno para mais uma ofensiva contra os direitos sociais da maioria da população brasileira”.
Entre os signatários do manifesto aparecem os escritores Eduardo Galeano, do Uruguai, e Luiz Fernando Veríssimo. Também estão na lista o crítico literário e professor aposentado Antonio Candido, o cientista político Chico de Oliveira e o filósofo Paulo Arantes. Até o final da tarde de desta sexta-feira, cerca de cem pessoas já haviam assinado o manifesto, que está circulando por diversos países. Em Portugal ele ganhou a adesão do sociólogo Boaventura de Souza Santos, um dos ideólogos do Fórum Social Mundial.
Foi lido na manhã desta quarta-feira o requerimento para criação da CPI mista do MST, que vai que supostas irregularidades em repasses feitos pela União ao Movimento Rural dos Trabalhadores Sem Terra (MST). O requerimento que pede a criação da CPI foi protocolado na terça-feira pelo DEM, mas a CPI só é criada depois de sua leitura em sessão conjunta do Congresso
O deputado Coffy Rodrigues (PSDB) reconheceu hoje que móveis comprados com dinheiro público foram para os quartos dos netos da governadora Yeda Crusius. O deputado garantiu que há legalidade na ação e acredita que o caso é compreensível. “Eu pergunto para qualquer vovó que more junto com os netos, se viesse a se eleger à governadora do Estado, e viesse a morar dentro do Palácio Piratini, não teria que comprar uma cama para o neto? Ou iria colocar o neto para dormir no chão? É a mesma coisa”, afirmou.
Comentário
O deputado tem razão. Em casa tem uma cama especialmente comprada para a Cacá, minha neta. É a mesma coisa.
Intervalo na CCJ – Depoimento de Lina Vieira – Manchetes do momento nos principais portais:
18/08/09 – 13h19 – Atualizado em 18/08/09 – 14h02
Robson Bonin Do G1, em Brasília
Lina diz que Dilma não tentou impedir investigação sobre filho de Sarney
‘Agilizar’ de ministra foi para dar celeridade à investigação, disse.
Ex-secretária manteve versão de que encontro com Dilma aconteceu.
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18 de agosto de 2009 | Atualizada às 14h11m
O Globo
Ex-chefe da Receita reitera que Dilma pediu pressa em ação sobre Sarney
Acompanhe o depoimento na CCJ do Senado
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18/08/2009 – 12h28
GABRIELA GUERREIRO
da Folha Online, em Brasília
Lina diz que Judiciário já havia pedido para acelerar investigações e nega pressão de Dilma
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Estadão On Line
Lina diz que pedido de Dilma foi ‘incabível’, mas não apresenta provas
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18/08/2009 – 13h27
Claudia Andrade
DO UOL Notícias
Em Brasília
Lina afirma que Dilma pediu rapidez, e não engavetamento de investigação
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Política – Terra
Ex-secretária da Receita muda duas vezes versão sobre pedido de Dilma
Minha solidariedade ao José Arthur Giannotti, nessa entrevista dada ao neo-Estadão. O entrevistador quer de todas as maneiras direcionar a entrevista para a campanha de vitimização do Estadão pela “censura” do veto judicial à divulgação de grampos. Como se o jornal fosse a vítima indefesa da história.
Gianotti tenta enveredar por outro tempo muitissimo mais interessante – a nova democracia, com o advento de uma nova cidadania não tradicional e todas as confusões decorrentes da transição.
O Gianotti tinha que pagar um pedágio – falar da “ameaça” à liberdade de imprensa para passar a sua análise. Virou a chamada entrevista-rocambole – enrolada por fora, com marmelada por dentro – para tentar conciliar a análise séria com as demandas do neo-Estadão. Gianotti acaba supostamente concluindo que a investida contra o Estadão é consequência do advento das massas, sem tradição democrática, fenômeno mundial recente. Ou seja, pela entrevista, o velhíssimo Sarney tornou-se fruto das mudanças recentíssimas que estão ocorrendo na democracia ocidental.
É evidente que Gianotti jamais cometeria uma análise dessas.
Independentemente do rocambole do neo-Estadão, o que se percebe no mestre Gianotti é o inconformismo com as novas invasões bárbaras, a dificuldade em enquadrá-las em uma perspectiva nova, otimista. Não são vistas como uma transição complicada, mas que está arejando a política tradicional, colocando em xeque velhos vícios e estruturas de poder carcomidas.
É a reedição da “Rebelião das Massas” que tanto assustou Ortega y Gasset – e que nos anos 30 trouxe consequências danosas para a humanidade. Sem pessimismo, mas também sem ilusões. O processo atual é igualmente assustador, especialmente por uma semelhança fortíssima com os anos 30: a maneira como as forças tradicionais – especialmente a mídia – estão descontroladas com a perda de poder e cegas em relação às consequências de seus atos.
O blogueiro Idelber Avelar resumiu de forma definitiva os riscos em que a mídia passou a incorrer quando perdeu o rumo. Numa livre adaptação do que colocou no seu Twitter, o que dói mesmo é saber que apesar de tudo o que vivemos, a mídia exorbitou tanto que a suposta censura ao Estadão é incapaz de provocar comoção sequer nos seus aliados.
O grande desafio é saber qual o novo formato de democracia para abrigar os novos atores políticos e o fim do monopólio da informação expondo à luz os vícios de todos os poderes.
Do Estadão
‘A questão da censura é a mesma da crise do Senado’
Entrevista – José Arthur Giannotti: filósofo; para professor, não é papel do Judiciário impor restrições à veiculação de informações de interesse público
Ao final, tucanos comentavam que pela defesa de Sarney, tecnicamente, não há fatos que possam levar à cassação do seu mandato. Mas insistiam que a questão é política e dependerá da evolução da crise nos próximos dias e da posição de aliados dele no Conselho de Ética.
Da Folha
Oposição diz que discurso “técnico” a desarmou
VALDO CRUZ
FÁBIO ZANINI
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
A oposição, armada para a guerra, disse que José Sarney (PMDB-AP) não convenceu, mas admitiu que o discurso “técnico” e “humilde” do presidente do Senado baixou a temperatura no plenário da Casa, transferindo o embate para o Conselho de Ética.
Os aliados de Sarney celebraram o tom de defesa judicial da fala do peemedebista, destacando que a oposição arquivou o discurso da renúncia.
Reunidos na véspera do esperado discurso de Sarney, senadores do PSDB, DEM e rebeldes do PMDB e PT combinaram uma estratégia de guerra para rebater o presidente do Senado no plenário. Esperavam uma fala dura.
Só que o peemedebista mudou de planos. Abandonou os rascunhos de um discurso de enfrentamento e optou pelo apelo à paz e por uma defesa técnica, escrita por advogados ligados ao ex-ministro José Dirceu -com quem Sarney tomou café da manhã ontem.
“Estávamos armados para a guerra. Havíamos acertado o tom, mas ele fez um discurso humilde, técnico, e baixou a temperatura. Não chegou a nos convencer, mas apresentou sua defesa técnica, que será julgada no Conselho de Ética”, disse o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE).
Líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR) disse que a “oposição não quer ser convencida”, mas Sarney colocou pontos irrefutáveis de defesa. Segundo Jucá, o mais importante é que seu aliado conseguiu recuperar votos que poderiam escapar entre democratas e tucanos. Por sinal, ao final do discurso, quando circulou pelo plenário, foi notada a atenção que os senadores Elizeu Resende (DEM-MG) e Eduardo Azeredo (PSDB-MG) deram a Sarney. Os dois ligados ao governador tucano Aécio Neves.
Durante o período em que ficou no plenário, Sarney só ouviu contestações do líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM).
Entre os democratas, a avaliação seguiu a mesma linha dos tucanos. “Ele fez um voo de pássaro em sua defesa”, afirmou o líder do DEM, José Agripino Maia (RN). A fala de Sarney chegou a ganhar elogios de seu adversário Tião Viana (PT-AC). “Foi uma fala humilde, que contribuiu para um clima de paz”, afirmou o petista, derrotado por Sarney na disputa pelo comando da Casa.
Ao final, tucanos comentavam que pela defesa de Sarney, tecnicamente, não há fatos que possam levar à cassação do seu mandato. Mas insistiam que a questão é política e dependerá da evolução da crise nos próximos dias e da posição de aliados dele no Conselho de Ética.
Comentário
Mesma avaliação que coloquei ontem – e que abriu espaço para uma discussão sem tamanho. Essa história de que “a questão é política” significa assim: nós julgamos não em função das provas e dos elementos apresentados, mas de acordo com a maior ou menor eficácia da mídia em manobrar a opinião pública.
Por Luciano Prado
Certa feita, no Roda Viva da TV Cultura Merval Pereira, para justificar a cassação de Renan Calheiros foi pra cima de Jobim com essa tese, ou seja, de que no processo de cessação não haveria necessidade de provas, bastaria a vontade política da maioria.
Jobim rebateu o jornalista afirmando que essa prática era usual nos idos da ditadura e que era possível prever as consequências danosas dessa tentativa insana.
Por Edvard Bagdonas
Caro Nassif,
Somente para efeito de informar corretamente aos leitores de seu blog, segue abaixo a transcrição do dialogo mantido entre o Ministro Nelson Jobim e Merval Pereira no programa Roda Viva.
É tarefa inglória essa de tentar explicar o significado político da tentativa de derrubada de Sarney – ainda mais sabendo que Cláudio Humberto foi acionado para atacar o senador Pedro Simon.
Mas, vamos lá, que o desafio é bom.
Ponto 1 – Sarney representa, de fato, o lado complicado da política brasileira.
É um coronel político, trata os adversários menores (nos seus estados) sem complacência, vale-se de alianças no Judiciário e de facilidades no Executivo.
Lembro os seguintes posts que coloquei no Blog sobre ele.
BRASÍLIA – Quinta-feira, 16h, plenário vazio no Senado. Mão Santa (PMDB) preside a “sessão”, Cristóvam Buarque (PDT) pede voto de censura contra Lula por causa do “pizzaiolos”, Álvaro Dias (PSDB) fala algo sobre a CPI da Petrobras. Em 15 minutos, encerram-se os trabalhos. Na prática, o recesso começou.
(…) A maior vitória foi ter empurrado a instalação da CPI com a barriga por 60 dias, operação que um governista chama de “enrolation” (enrolação, na língua do sarcasmo). Deu tempo para a Petrobras se armar para a guerra e os líderes treinarem e municiarem a tropa de choque governista.
A intenção é forçar uma batalha na base da chantagem: tudo que tucanos e democratas apresentarem contra a Petrobras terá, imediatamente, um contraponto com o que era antes, na era FHC.
A CPI, assim, é considerada “sob controle” pelo governo, mas isso não significa tranquilidade. Petróleo é altamente inflamável, a Petrobras mexe com empresas e contratos bilionários, há um mundo desconhecido nas suas entranhas e 54 senadores são candidatos à reeleição, doidos por holofotes.
Admite que a CPI poderá afetar imagem e negócios da maior empresa brasileira.
Como comparação, a CPI dos cartões corporativos remexia mesquinharias que caíam no terceiro escalão e murchavam. A CPI da Petrobras é como um balão: tudo que aparecer ali sobe na hierarquia, e ninguém sabe onde pode parar.
Portanto, não dá para o governo baixar a guarda. A oposição é desarticulada e pouco aplicada, mas, se houver bombas-relógio, elas tendem a explodir. No duro, quem faz as CPIs é a imprensa. Hoje o foco está em Sarney. Mas até quando?
Confira o que O Globo fez com o factóide da Petrobras.
Hoje, na seção de Cartas, publica a seguinte carta da Petrobras.
Regime tributário
Sobre a matéria “Garras menos afiadas” (17/6), a Petrobras reitera que a opção pelo regime tributário de caixa está amparada pelo artigo 30 da Medida Provisória nº 2.158-35/2001.
Trata-se de procedimento legal, feito por outras empresas, como cita o próprio GLOBO.
O texto da MP deixa claro que cabe a qualquer empresa brasileira escolher, a seu critério, a forma de tributação do Imposto de Renda (IRPJ) e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSSL) sobre as variações cambiais. A MP não define o momento para a mudança de regime, o que é coerente com seu objetivo, de amenizar o impacto tributário decorrente da variação da moeda nacional em situações de crises internacionais e, por consequência, na apuração e no pagamento de tributos federais.
LUCIO MENA PIMENTEL – gerente de Imprensa da Petrobras
Consultando-se o Blog da Petrobras, percebe-se que O Globo – que tem tradição de desrespeitar os leitores que escrevem para sua seção de cartas (conforme já experimentei na pele) – suprimiu o seguinte trecho da carta:
Trata-se de um procedimento legal, feito por outras empresas, como cita o próprio Globo e conforme informou hoje um grande jornal de São Paulo, em matéria sobre o mesmo assunto.
O grande jornal, em questão, é o Estado de São Paulo Em sua edição de ontem publicou uma matéria sobre as compensações tributárias, onde diz (clique aqui):
As chamadas compensações tributárias feitas por empresas até abril também influenciaram e somaram R$ 4,2 bilhões. As compensações são manobras contábeis para reduzir legalmente o pagamento de certos tributos. Embora a Receita não revele nomes, a Petrobrás foi responsável pela maior parte dessa perda com a mudança de regime tributário que adotou no fim de 2008, fato que acabou provocando a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).
Ou seja, a matéria do Estadão comprova claramente que a denúncia de O Globo era furada, ao tratar como escândalo uma operação fiscal. Aí, quando se vai à página 2 de O Globo, o que se lê explica a supressão do trecho:
As melhores de maio
A manobra contábil da Petrobras, que permitiu à empresa deixar de recolher R$ 4,38 bilhões aos cofres da União entre dezembro de 2008 e março deste ano, foi eleita ontem pelos editores como a melhor reportagem do mês passado. A matéria, escrita pelas repórteres REGINA ALVAREZ e MARTHA BECK, da sucursal de Brasília, teve enorme repercussão nos dias seguintes e acabou tornando irreversível a CPI da Petrobras.
Embora ainda não esteja funcionando, a CPI foi instalada poucos dias depois da denúncia de Regina e Martha.
Ou seja, publicam uma notícia falsa (a de que a manobra fiscal da Petrobras era ilegal) e comemoram o fato de que a falsificação gerou uma CPI.
Na medida em que os fatos vão se desenrolando em torno da CPI, tendo a relativizar algumas análises que eu mesmo fiz no início desse processo.
É possível fazer uma interpretação que a CPI é fruto de uma articulação visando enfraquecer a posição do Estado no pré-sal; tanto no que diz respeito a aumentar a participação desse Estado na renda petroleira quanto no que concerne ao fortalecimento da Petrobras.
Isto eu coloquei no meu blog lá no portal no dia em que a CPI foi criada: A CPI da Petrobras e a irresponsabilidade sem limite. (clique aqui)
Contudo, vendo a marcha dos acontecimentos, me pergunto: qual o alcance efetivo desta estratégia? Leia mais »
Como se monta ou se prorroga uma CPI? Conta-se uma inverdade, cria-se a marola, depois pouco importa se o fato relatado era mentiroso.
Exemplo 1 – O relatório com conclusões falsas que a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) passou para a revista Veja, sobre suposta escuta ambiental no órgão. Era falso. Resultou na prorrogação da CPI do Grampo. Tempos depois, na entrevista concedida à UOL, Gilmar Mendes candidamente admitiu que os dados poderiam ser furados, mas eram “verossímeis”. Em qualquer país com mídia séria, seria um escândalo.
Exemplo 2 – A operação contábil da Petrobras, visando reduzir o pagamento de impostos quando a crise interrompeu a liquidez do sistema financeiro.
Escrevi na época que era bobagem, que toda grande empresa recorre à engenharia fiscal, que a medida tinha fundamentação jurídica, mesmo podendo ser questionada pela Receita.
Que estudo é esse? Preparado por José Roberto Afonso, consultor do PSDB para assuntos fiscais e tributários, um dos pais da Lei de Responsabilidade Fiscal.
Algumas coisas chamam a atenção após uma boa zappeada pela blogosfera: dezenas de blogs estão colocando links permanentes nas suas “side bars”; os blogueiros da Petrobras não estão deixando passar nada sem resposta; em apenas quatro dias já se pode dizer que há uma torrente de comentários; a atualização é praticamente simultânea. Conclusão: os caras vieram com vontade mesmo prá briga.
Comentário
É um divisor de águas, com direito ao Twitter (http://twitter.com/blogpetrobras).
Ao expor todo o material que enviou à Folha, sobre o caso de MBC, e publicar junto com a reportagem (clique aqui), a Petrobras mata uma das grandes armas de manipulação: a escolha seletiva do que publicar para atender à pauta.
Mais cedo ou mais tarde iria acontecer e vai levar à transparência não apenas da empresas, coo cobertura da imrensa.
Infelizmente, as colegas premiadas entrarão para a história da mídia como o primeiro episódio de análise de caso, em que uma reportagem é exposta à luz do dia, em tempo real.
Coloquei no Google Docs (clique aqui) algumas das muitas colunas que escrevi, ainda na Folha, sobre o papel deletério das CPIs, sobre a suprema hipocrisia de que CPIs só pegam culpados, quem não deve não teme e outras variações do mesmo teor.
Alguns trechos das colunas:
De 15/05/2001
O país das quarteladas
Se não se definirem com clareza uma reforma política ampla, o papel da mídia no quadro político e o papel das CPIs como ferramenta política, dificilmente o país se livrará de crises políticas enormes nos próximos anos, seja quem for o próximo presidente da República.
(…) Hoje em dia tem-se a mesma estratificação política do início da República, a mesma relação ambígua entre poder central e local, o mesmo esgotamento dos planos econômicos como fatores de legitimação política, mas uma dinâmica de opinião pública mil vezes mais elétrica, conduzida pela velocidade da internet e pela competição mercadológica entre os grandes veículos.
Essa força pode ser o grande fator de transformações do país, na medida em que induza a aprimoramentos institucionais e formas de controle democráticas. Mas também pode ser grande fator de instabilidade. É muito mais fácil do que nos tempos das “Cartas Brandi” ter o escândalo real ou esquentado, criar a comoção, que fornece o álibi para uma CPI, que promove a destituição do governante.
De 24/05/2001
CPIs, catarse e técnica
Há uma série de considerações a fazer acerca do artigo “O instrumento ameaçador” -publicado na Folha de domingo como contestação à minha coluna “CPI e interesses pessoais”.
Uma -menos importante-é de ordem pessoal. Diferentemente do que sugere o artigo, há muito tempo questiono os critérios pouco técnicos e o sensacionalismo das CPIs. Comecei a questioná-los na CPI do Impeachment, apesar de ter sido o jornalista que mais atacou Collor antes da CPI (de acordo com livro de Cláudio Humberto). Fui também o principal crítico da grande pizzaria em que se transformaram a CPI dos Precatórios e a dos Bancos. E isso porque acho que CPI só serve para fazer barulho e atrapalhar a produção de provas.
Grosso modo, a defesa que o artigo faz da CPI centra-se em dois pontos. Um, nas vantagens legais sobre outras formas de investigação (como inquérito policial e investigações do Ministério Público). Outro, na sua presumível eficácia sobre as demais formas.
No plano legal ela teria mais facilidades em conseguir quebrar sigilos bancários e telefônicos do que o Ministério Público e a Polícia Federal. É falso. Quando o pedido é bem fundamentado, nem Ministério Público nem PF têm encontrado dificuldades em obter autorização judicial para a quebra do sigilo. Ou se esquece de que as denúncias sobre a Sudam foram levantadas em cima de mais de 300 horas de “grampo” autorizado pelo Judiciário? Esse mesmo limite vale para as CPIs, uma das quais -a do Futebol- recentemente teve negada pelo Judiciário autorização para a quebra de sigilo de suspeitos -conforme lembra o atento leitor Marx Golgher.
Outra “virtude” da CPI -segundo o artigo- seria o “o confronto de tendências opostas entre os numerosos investigadores”. Ora, mas essa característica é justamente o que impede a eficácia das CPIs. Confronto de “tendências opostas” é bom para questões políticas e até para julgamentos finais, jamais para investigações, operação que exige critério, método, estratégia e sigilo. Nas CPIs têm-se levantamentos feitos de forma amadorística, sem preocupação de colher provas e submetidos ao critério subjetivo das “tendências opostas”. E esses critérios são exclusivamente o da manipulação de ênfases, sem nenhuma preocupação técnica.
Outra pretensa “virtude” das CPIs seria seu caráter público. Ótimo! Na CPI do Narcotráfico o público mais atento ao caráter público e democrático das sessões foram os narcotraficantes. Era só ligar a TV Senado ou TV Câmara, conferir o nome da testemunha de acusação e eliminá-la em seguida. (…)
De 17/04/2001
CPIs e interesses pessoais
A direção nacional do PT censurou publicamente o senador Eduardo Suplicy por ter apoiado a CPI do Lixo, da Câmara Municipal de São Paulo. Jornalistas carlistas justificaram a desistência de Antonio Carlos Magalhães em assinar a CPI da Corrupção pelo fato de terem sido incluídas nela temas da vida do senador e o controle das investigações ficar com adversários políticos. O governo joga o que pode contra a aprovação de qualquer CPI sobre seus atos. E, sempre que alguém fica contra a CPI, todos repetem a mesma cantilena que é utilizada por seus adversários quando é sua vez de ser vítima de uma CPI: quem é contra a CPI é contra a transparência.
É uma hipocrisia fantástica e generalizada. Por que todos fogem de uma CPI? Porque todos, quando podem, utilizam politicamente a CPI e sabem que CPIs são instrumentos de manipulação política.
Em seus tempos de oposição, o PT se valia do instrumento das CPIs para tentar desestabilizar o governo, especialmente depois que a desvalorização cambial liquidou com a blindagem política de Fernando Henrique Cardoso.
Lula eleito, PT no poder, o último partido a se integrar ao jogo político, pensava-se que se chegaria à maturidade. Ledo engano. O que o PSDB está aprontando com sucessivos pedidos de CPI envergonham o jogo político. Essa CPI da Petrobrás servirá apenas para atrapalhar a empresa, em um momento em que anuncia investimentos no pré-sal que correspondem a um quarto de todo o investimento do governo chinês para recuperar a economia chinesa.
***
A Petrobrás seguiu uma estratégia tributária legítima, a partir de uma Medida Provisória editada em 1999, logo após a maxidesvalorização do real. Leia mais »
Achei triste a CPI das Escutas Telefônicas Clandestinas ter indiciado Daniel Dantas da forma como o fez. Não que eu não ache que ele mereça, muito menos que ele não tenha realizado nenhuma interceptação clandestina. Estou convicto de que ele grampeou, e muito. Mas é preciso ser coerente. Essa CPI é uma farsa, um factóide montado por uma revista que se perdeu entre o pântano e o cemitério e parlamentares da mais baixa estatura moral, com uma ou duas exceções. Leia mais »
Não tem jeito. O menosprezo dos jornais pela inteligência de seus leitores não tem mais limites.
Confira a matéria do Estadão – do previsibilíssimo Fausto Macedo – sobre Paulo Lacerda. A matéria atropela os seguintes princípios jornalísticos básicos:
1. É requentada.
Marcelo Itagiba já deu quinhentas vezes essa declaração. Um jornalismo sério jamais daria destaque a ela, nem que partisse de fonte confiável. Esse recurso é para quem não tem competência para gerar novas pautas.
2. É falsa.
Quem decretou que a colaboração Abin-PF é “criminosa”? A manifestação do TRF3 – no único julgamento sobre o caso – avalizou sua legalidade. Portanto, ao endossar o julgamento de Itagiba, Fausto Macedo demonstra sua vocação de repórter de porta de cadeia – não de porta de Tribunal.
3. Aceitam-se acriticamente declarações de fonte suspeita.
Além de inimigo declarado de Paulo Lacerda, Itagiba é autor de dossiês, montou o esquema Lunnuns, montou o dossiê contra Paulo Renato (quando trabalhava no serviço de inteligência do Ministério da Saúde, de Serra), foi figura-chave no governo Garotinho. Qual sua credibilidade como policial e qual seu conhecimento jurídico para uma afirmação dessas virar título de matéria?
4. É canhestra na tentativa de “ouvir o outro lado”, como maneira de dar consistência a um “cozidão”.
Itagiba repete a mesma abobrinha de sempre. O jornalista diz que Paulo Lacerda foi procurado, mas não foi encontrado… E para quê? Para rebater a mesma abobrinha de sempre.
Leia esse modelo do velhíssimo jornalismo dos anos 50 que ressurge de roupa nova:
Documento de apreensão não cita a legenda; banqueiro diz que “não reconhece” papéis
PF fez apreensão durante a Satiagraha; em 2008 foi divulgado um documento que citava “contribuições ao clube” no valor de R$ 36 mi
RUBENS VALENTE
DA REPORTAGEM LOCAL
A Operação Satiagraha apreendeu, no apartamento do banqueiro Daniel Dantas, no Rio, dois papéis descritos como “extratos” e intitulados “contribuições ao partido”, num total de R$ 30,44 milhões, segundo o auto de apreensão assinado pelo delegado federal responsável pelas buscas.
O material é periciado pela Polícia Federal e deverá constar do relatório final do inquérito. Dantas e o banco Opportunity não têm doações oficiais para campanhas eleitorais desde 2002, diretamente em seus nomes, embora um alto executivo do banco, Dório Ferman, tenha feito doações que somam R$ 14 mil aos deputados Marcelo Itagiba (PMDB-RJ) e Raul Jungmann (PPS-PE).
Os papéis integram o inquérito aberto pela PF para apurar supostas gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro por Dantas e Opportunity. Em 2008, à época da segunda prisão de Dantas, foi revelada a apreensão, no apartamento, do documento “contribuições ao clube”, no valor de R$ 36 milhões.
A íntegra do auto de apreensão revela que havia três documentos sobre “contribuições”: “Ao partido” teriam sido destinados dois pagamentos, um de R$ 36 mil e outro de R$ 30,4 milhões. O auto não esclarece a sigla partidária e os detalhes dos supostos pagamentos.
Os papéis foram encontrados em 8 de julho passado pela equipe do delegado da PF Carlos Eduardo Pellegrini, encarregado do cumprimento da ordem, emitida pelo juiz Fausto De Sanctis, de busca e apreensão no endereço em que Dantas reside, em Ipanema, no Rio.
CPI dos Grampos se reúne com juízes e delegado em São Paulo e Brasília
da Agência Câmara
da Folha Online
Integrantes da CPI das Escutas Telefônicas Clandestinas na Câmara se reúnem nesta terça-feira, a partir das 13h, em São Paulo, com os juízes Ali Mazloum, do processo sobre o vazamento de informações da Operação Satiagraha, Luiz Renato Alves Pacheco de Oliveira, responsável pelos autos da Operação Chacal, e Fausto De Sanctis, que determinou as prisões da Satiagraha.
Na quarta-feira, a partir das 12h, os membros da comissão vão se reunir com o delegado que preside o inquérito sobre o vazamento da Satiagraha, Amaro Vieira, na sede da Polícia Federal em Brasília. As reuniões serão fechadas.
De acordo com o relator, deputado Nelson Pellegrino (PT-BA), os parlamentares vão tentar aumentar a cooperação da Justiça com a comissão, compartilhando as informações colhidas nos inquéritos e processos em andamento sobre as operações da Polícia Federal –Satiagraha e Chacal.
Comentário
É obsceno esse comportamento da CPI, pretendendo que todos os juizes quebrem o sigilo dos respectivos processos. Não bastasse o carnaval que o juiz Ali Mazloun permitiu que fizessem com seu inquérito, transferindo para deputados suspeitos a prerrogativa de julgar. Agora, pretendem que todos os demais juizes cometam a mesma indignidade com o próprio Poder Judiciário.
Quando defendi Ali, na Operação Chacal, a acusação que pesava sobre ele era de ter ameaçado um Policial Rodoviário por não ter enviado material referente a um processo que estava sendo julgado pelo próprio Mazloun. Era uma reação mais que justificável, de um juiz zeloso de suas prerrogativas.
Agora, o que se pretende é a espetacularização (e consequente anulação) de todos os processos? Onde está o compromisso desse povo com as prerrogativas do Judiciário? Jogaram fora juramentos, compromissos, amor às causas da Justiça? Espero que essa CPI vergonhosa encontre pela frente juizes que respeitem a autonomia do Judiciário.
Vale a pena assistir o debate, de dois repórteres com pleno controle sobre as ferramentas da reportagem, sem passionalismo, demolindo um a um os factóides armados.
Ótimas informações que não costumam sair nos jornais.
Introdutor do jornalismo de serviços e do jornalismo eletrônico no país. Vencedor do Prêmio de Melhor Jornalista de Economia da Imprensa Escrita do site Comunique-se em 2003, 2005 e 2008, em eleição direta da categoria. Prêmio iBest de Melhor Blog de Política, em eleição popular e da Academia iBest.