Abaixo um texto do Marco Aurélio — que foi por muitos anos o editor-chefe do Jornal Nacional da TV Globo — onde ele conta como o Ali Kamel mudou o texto do repórter para esconder um erro do IBOPE nas eleições de 2004 admitido pelo próprio Montenegro. Segundo o Marco Aurélio, ali começou o calvário do repórter Dorneles que já não está mais na TV dos Marinhos: clique aqui.
“Nós erramos em São Paulo”, admitiu o todo-poderoso chefe daquele que é considerado – e pior – alardeado pelas organizações, como o mais importante instituto de pesquisas do país. Era 2004, campanha para a prefeitura de São Paulo. Por ‘desvio metodológico’ ou ‘desvio na tabulação dos dados’ (explicações dadas à época) foi ‘impossível’ prever a arrancada de Marta Suplicy de cinco pontos percentuais – fora portanto da margem de erro da pesquisa. Essas mudanças de comportamento influenciam muito a parte dos indecisos que vota para ganhar, como já expliquei em 20/08/2009 (arquivo do blog).
Mais uma obra-prima da era Ali Kamel-Rodolfo Fernandes em O Globo (Meu Deus!, um jornal que há dois anos caminhava para ter um padrão de qualidade internacional).
1. Regiões mais ricas têm mais emprego formal.
2. Regiões mais pobres, menos emprego formal.
3. A Bolsa Família se destina às famílias mais pobres. Onde existe menos emprego formal, existe mais Bolsa Família. Onde existe mais emprego formal, menos Bolsa Família.
4. Logo…. Esqueça o “logo”. A lógica Rodolfo-Kamel não é socrática.
Manchete de O Globo de hoje:
Em cidades onde o programa beneficia 71% das famílias, trabalho chega a 1,3% da população
Criado para reduzir a miséria, o Bolsa Família, maior programa social do governo federal, não gerou empregos no interior do país. Em 85 municípios onde o programa atinge em média 71% das famílias, o emprego com carteira assinada só alcança 1,3% da população. Em Presidente Vargas, no Maranhão, onde 80% das famílias são atendidas pelo programa, empregos formais são contados nos dedos de uma mão: 4, para 10,2 mil habitantes, relatam os enviados REGINA ALVAREZ e SÉRGIO MARQUES. Gestores reconhecem que o programa pode levar à acomodação e que é difícil fazer funcionar as chamadas portas de saída. E a baixa escolaridade, aliada à falta de capacitação, dificulta o crescimento profissional. Páginas 3 e 4 (clique aqui para ler esse Prêmio Pullitzer do jornalismo tupiniquim)
Donde se conclui:
1. 100% das matérias que O Globo escreve sobre O Bolsa Família tem conclusões manipuladas e viés ideológico furado, piorando ainda mais a baixa qualidade do jornal.
2. Logo, é a Bolsa Família quem emburrece O Globo.
PS – A matéria é honesta. A manipulação é da primeira página e dos títulos.
Matéria do Jornal Nacional sobre o dossiê falso da Agência Nacional de Petróleo (ANP). A matéria informa que o Ministério Público considerou as acusações falsas e investiga agora se o agente aposentado recebeu dinheiro ou não para divulgar o dossiê.
O valor de um dossiê é diretamente proporcional à repercussão que ele tenha na imprensa. Um dossiê divulgado pelo Giba Um tem valor ínfimo. Pela Veja e pelo Jornal Nacional, valor alto. Se o dossiê foi financiado por alguém e se tionha a expectativa de emplacar em ambos os veículos, o valor certamente foi elevado.
O JN admite, também, que na matéria que deu em maio – repercutindo a Veja – informou que o relatório era da Polícia Federal e não tinha tido sequencia.
Toda essa armação, do lado da Globo, foi de Ali Kamel – que sempre trabalhou estreitamente ligado com o sistema Veja. Na época, foi criticado pelo Nelson Sá, na Folha, que apontou a malícia de colocar a armação de Diogo Mainardi no ar, para poder atingir o Franklin Martins. Kamel rebateu, disse que a imagem ficou “apenas” alguns segundos. “Apenas”… para milhões de telespectadores do Jornal Nacional.
Nenhum jornalista sério do país endossaria as acusações de Mainardi, nenhum. Kamel endossou, sabendo que era alta a possibilidade de ser uma armação. Como endossou a campanha macartista contra livros didáticos, conduzida pela Abril.
São sempre os mesmos personagens e sempre o mesmo jogo de favores recíprocos.
É um exercício bem interessante ler as manchetes dos principais orgãos de imprensa sobre o depoimento do Secretário Geral da Receita na CPI e comparar com as manchetes dos veículos das Organizações Globo, no final da relação.
Agência Estado
CPI: Cartaxo diz que Petrobras não foi multada
Agência Senado
Cartaxo diz que sigilo fiscal impede divulgação de dados, mas aponta legalidade em operação da Petrobras
Band News
Romero Jucá encerra investigação de manobra contábil da Petrobras
CNT
Otacílio Cartaxo afirma que legislação é omissa em relação a mudança de regime tributário feita pela Petrobras
Diário Comércio e Indústria
Receita vê brecha legal para opção da Petrobras
Folha de S.Paulo
Receita recua e agora nega irregularidade na Petrobras
Band News
CPI: Receita Federal, representada por Octacílio Cartaxo, isenta a Petrobras de culpa
JB Online
Secretário: lei não proíbe mudança tributária na Petrobras
Rádio Bandeirantes SP
Receita isenta Petrobras de culpa
Record News
Cartaxo afirma que opção fiscal feita pela Petrobras está amparada em uma MP de 1999
TV Brasil
Petrobras teria agido dentro da lei em suposta manobra fiscal
Valor Econômico
Na CPI, Receita reconhece legalidade em manobra tributária da Petrobras
Abaixo, a doutrina Kamel de jornalismo:
G1
Legislação é omissa sobre mudança tributária feita pela Petrobras, diz Cartaxo
Globo News
CPI: legalidade da mudança contábil não é unânime
SERÁ MAIS uma vez lamentável se uma nova operação da PF, com a Justiça e o MP, for contaminada pela luta partidária e ideológica.
É IMPORTANTE desvendar casos de suposto superfaturamento de obras públicas – a refinaria de Lula e Chávez em Pernambuco, uma delas – para a Camargo Corrêa abastecer caixa dois de político.
POLITIZAR O assunto, como se sabe, é tudo o que culpados querem. Pois fica fácil desqualificar tecnicamente as acusações na Justiça.
Comentário
Deve-se investigar apenas a “refinaria de Lula e Chávez”. Qualquer outra investigação será contaminada pela luta partidária e ideológica.
É o país da piada pronta, segundo o brasileiro que mais entende de Brasil, o Zé Simão.
Ou, como diz o Merval: Infelizmente o inquérito contra Daniel Dantas será anulado por culpa do Protógenes.
Os riscos da ironia
Por José Gonçalves
Caro Nassif, sou seu leitor diário e prezo o seu compromisso com o jornalismo independente. Talvez eu esteja paranóico, mas tenho observado a sua leitura favorável a Dantas de algum tempo. Eu comecei a perceber esse fato quando vc fez uma certa apologia do caráter civilizado desse cidadão e o descompasso do seu advogado (de gangster). Após isso aqui e ali sai uma matéria dizendo que não conhece Protógenes, mas que parece um caro bom. Agora já concorda com Merval e assume publicamente que o Protógenes contaminou o inquérito. Esse aliás é o mote da defesa com a colaboração (manipulação) do PIG. Será que o jornalista não pode aguardar a publicidade do inquérito para saber o que de fato contém vícios no inquérito. O que o PIG faz nós já sabemos e entendemos a sua intenção, mas o Nassif sabe disso muito melhor do que nós todos. Portanto, não estou querendo entender nada dessa mudança de retórica.
Comentário
Se alguém deu a mesma interpretação do José Gonçalves, vai o alerta: o que fiz foi ironizar a afirmação do Merval. Não há nenhuma evidência de que o Inquérito Satiagraha possa ser anulado. O que há é muita vontade por parte de setores pró-Dantas.
Introdutor do jornalismo de serviços e do jornalismo eletrônico no país. Vencedor do Prêmio de Melhor Jornalista de Economia da Imprensa Escrita do site Comunique-se em 2003, 2005 e 2008, em eleição direta da categoria. Prêmio iBest de Melhor Blog de Política, em eleição popular e da Academia iBest.