Nada mais agradável do que esses mergulhos periódicos em Minas, a Minas profunda do interior, das pessoas de fala mansa e de cuidados em cada gesto.
Em cada visita me revigoro e colho as pequenas cenas mineiras, que me lembram meus tempos de infância, longe das guerra midiáticas e do ritmo maluco das metrópoles e dos aeroportos.
Cena 1
Patos de Minas é típica cidade média agradável. Limpa, bem cuidada e atenciosa.
O motorista da Localiza, que me trouxe de Uberlândia, me pega no hotel para irmos ao evento. Fica na Avenida Tancredo Neves. O motorista não conhece, mas se vale do procedimento padrão: para em um ponto de táxi.
Vem o mineirinho taxista, todo atencioso. O motorista pergunta o itinerário. O mineirinho pede para ele desligar o motor para poder ser atendido com mais vagar e cuidado.
No fora de pauta “vespera de um fim de semana prolongado” deixei um comentario. Abria um parentesis do depoimento q dei ao Governo Canadense no pedido de refugio. Contei um pouco da minha adolescencia antes a Ditadura.
Hoje retomo com os dois fatos que marcaram minha vida definitivamente, em Abril de 1964, na nova capital federal;
a subita morte de meu pai, 45 anos: obito: hemorragia cerebral; causa: acidente automobilista; local: L-2 Sul, Brasilia-Df
A encosta sempre esconde um povoado e tem sempre uma história a contar, o porquê do amontoar-se ali…Afundado detrás de colinas.
- Nesse dia que vos conto, quando lampejou o meu olhar nesta terra de mineiros em um povoado qualquer, onde o colonial não andou por lá, em suas casinhas sem eira nem beira, mas ainda faceiras, recolhendo em seus telhados as águas da chuva a gotejar.
- Chuva que trepidava em pingos grossos, espaçados, que caia arregaçando o cheiro da poeira numa tarde que ainda era Verão. Agoniava a quem passava, levando-os a passos desgarrados, esvaindo-se a rumos aquém.
_ Mas eram apenas pingos, pingos aqui e acolá,que mal diziam a calmaria daquele trecho onde nada acontecia.
De mandacaru à taquara rachada, elas faziam divisas apenas pra constar que estavam ali
_ davam continuidade aos quintais tornando toda a vizinhança numa grande família.
Quintais que uniam Silvas , Souzas, Ferreiras, Teixeiras, Nogueiras e quem mais adviesse ali.
E a gente… meninos, de todas as cores e todas encardidas e pernas marcadas de cicatrizes, esfoliações que se curavam sozinhas ou a base de mertiolate, saltávamos por entre árvores, fumávamos cigarrinho de talo de chuchu, porque chuchu e pé couve não faltavam em quintal nenhum e ainda fazíamos das folhas das bananeiras gangorras que se projetavam gingantemente ribanceira a baixo
_ Lembro-me o dia que nessa brincadeira, minha irmã foi sapecada por uma taturana cachorrinha, gritou horas e horas até ser benzida pelo vizinho curandeiro, que alisou uma pedra em cruz com leite acompanhada de rezas, muita reza.
Faz muito tempo não lia nada tão terno sobre um caso concreto de amizade, num relato que ficou em primeiro lugar no concurso para homenagear os 50 anos da revista Humboldt.
A Humboldt 99, comemorativa dos 50 anos, mostra os resultados do concurso que promoveu tendo como tema “Amizade: Fisionomias de uma relação complexa” . Sua capa estampa o primeiro lugar em fotografia, ganho pela brasileira Renata Beltrão, mostrando peixes em sacos plásticos, que dizem muito sobre a “liberdade” que gozamos no dia-a-dia.
De guerras e pepinos
Renata Beltrão, Brasil:
Sem título, Bairro da Liberdade, São Paulo, Brasil, 2007Teaser.
Felipe Peixoto Braga Netto (1973) afirma que não é jornalista, não é publicitário, nunca publicou crônicas ou contos – não é, enfim, literariamente falando, muita coisa, segundo suas próprias palavras. Paulistano, mora em Belo Horizonte e ama Minas Gerais. Ele diz que nunca publicou nada, mas a crônica que abaixo foi extraída do livro ‘As coisas simpáticas da vida’, Landy Editora, São Paulo (SP) – 2005, pág. 82.
O SOTAQUE DAS MINEIRAS
(F.P.B. Netto)
O sotaque das mineiras deveria ser ilegal, imoral ou engordar.
Afinal, se tudo que é bom tem um desses horríveis efeitos colaterais, como é que o falar sensual e lindo das moças de Minas ficou de fora?
Porque, Deus, que sotaque! Mineira devia nascer com tarja preta avisando: ‘ouvi-la faz mal à saúde’. Se uma mineira, falando mansinho, me pedir para assinar um contrato doando tudo que tenho, sou capaz de perguntar: ’só isso?’.
Assino, achando que ela me faz um favor.
Eu sou suspeitíssimo. Confesso: esse sotaque me desarma.
Certa vez quase propus casamento a uma menina que me ligou por engano, só pelo sotaque.
A primeira vez que ouvi Chico Buarque de Hollanda eu devia ter uns 14 ou 15 anos. Foi em um programa da extinta TV Tupi, não sei se “Almoço com as Estrelas” ou um programa do Fernando Faro. O cantor tocava seu violão e nem olhava para a câmara. Acho que cantava “Pedro Pedreiro”.
No início de 1965, com 15 anos incompletos, passei seis meses estudando eletrônica, em Santa Rita do Sapucaí. Fui morar na república WC, a mais barra pesada da cidade, liderada pelo itajubano José Saia, que exibia no braço esquerdo marcas que, assegurava, eram de navalhadas que recebera de Mineirinho, o mais célebre bandido da época. Toda manhã acordava com meu companheiro de beliche, Salário Mínimo, de São José dos Campos, tocando no violão a valsa “Subindo aos Céus”, de Aristides Borges.
Música antiga, só na WC. Nas noitadas de Santa Rita, reinava a bossa nova, com o violão do Salário Mínimo, de São José, do Tota, de Poços de Caldas, a voz do Marcão, de Ouro Preto. Em cada serenata se punham literalmente de joelhos quando falavam de Vanda Sá, a Vanda Vagamente, musa absoluta, cujo retrato estava em um altarzinho na república WC.
Quando voltei a Poços, no segundo semestre de 1965, foi que teve início a era Chico Buarque de Holanda. Chico estourou, ao lado de Geraldo Vandré, no famoso Primeiro Festival da Record. Politizada, nossa turma torcia pela “Disparada”, de Vandré. Mas nas serestas, nossa companheira era “A Banda”, de Chico. A televisão, ainda novidade, transformou a disputa no fato nacional mais comentado do período. Pouco depois, “Olé Olá” foi lançada e transformou-se em hino nas nossas serenatas. Leia mais »
Para mim é motivo de orgulho ter ficado entre os 50 classificados. Confira a qualidade dos participantes, a partir dessa matéria do jornal Expresso, de Portugal.
Rio de Janeiro, Brasil, 21 Mai (Lusa) — Na lista dos 50 livros finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2009, divulgado na quarta-feira no Rio de Janeiro, seis são romances portugueses e outros quatro são obras de autores africanos de países de língua portuguesa.
Segundo o anúncio dos finalistas que concorrem à sétima edição do prémio, estão na disputa os romances: “A viagem do elefante” de José Saramago (Companhia das Letras), “A eternidade e o desejo” de Inês Pedrosa (Alfaguara — Objetiva), “Aprender a rezar na era da técnica” de Gonçalo M. Tavares (Companhia das Letras), “Cemitério de pianos” de José Luís Peixoto (Record), “Ontem não te vi em Babilónia” de António Lobo Antunes (Alfaguara — Objetiva), “Rio das flores” de Miguel Sousa Tavares (Companhia das Letras), “Predadores” do moçambicano Pepetela (Língua Geral ) e “Venenos de Deus” de Mia Couto (Companhia das Letras).
De poesia, foram escolhidas as obras do cabo-verdiano José Luiz Tavares “Lisbon Blues” (Escrituras Editora) e do moçambicano Luís Carlos Patraquim “O osso côncavo e outros poemas” (Escrituras Editora). Leia mais »
Tive alguns sonhos na vida. Um, o de ter conhecido Garoto, o multiinstrumentista brasileiro. Mas ele morreu do coração em 1954, quando garoto era eu, com meus quatro anos de idade.
Conheci Luiz Gonzaga pouco depois, fazendo show em praça pública em Poços de Caldas, cidade que abrigou durante certo tempo sua segunda mulher, que padecia de problemas do pulmão, e o filho Gonzaguinha.
Foi um período ainda rico em Poços, que, sem a projeção dada pelo jogo, ainda preservava parte da majestade.
O teatrólogo Oduvaldo Vianna morou por lá um tempo com seu filho Vianinha.
O show de maior sucesso na rádio Cultura era o de Sebastião Leporace, exímio violonista, que compunha uma paródia diária sobre temas do momento. Sebastião era irmão do radialista Vicente Leporace, e pai de Gracinha e Fernando Leporace, que fizeram sucesso na MPB no início dos anos 70.
Os Índios Tabajara também passavam por lá todo ano, tocando violão nas temporadas.
Alguns anos depois, os Índios Tabajara estourariam nos Estados Unidos, com sua fantasia de índio-embora fossem autênticos cearenses- e uma “técnica violonística atlética”.
Poucos músicos brasileiros venderam tanto disco no exterior quanto eles. Soube outro dia que voltaram para o Brasil e estão morando em um sítio no Estado do Rio.
Meu pai tinha uma discoteca de música brasileira de primeiríssima, ainda na época dos discos de 78 rotações. Apreciava “Dora”, de Caymmi -em homenagem ao qual batizei minha filha caçula- , Inezita, Ivon Cury e seu “Amendoim Torradinho”.
Mas um dos autores que ele mais gostava era Zé do Norte. Zé era um Luiz Gonzaga mais rústico e sem carisma.
Estourou no Brasil com a música “Lua Bonita”, da trilha sonora do filme “Lampião, Rei do Cangaço”. Foi uma das músicas que marcaram a nossa infância.
Quase toda noite, minha mãe juntava os filhos no quarto e, enquanto meu pai ia fechar a farmácia, cantava “Lua Bonita” com sua voz límpida: “Lua bonita / se tu não fosse casada / eu ponhava uma escada / e ia no céu te beijar / E se colasse teu frio com meu calor / pedia a Nosso Senhor / pra contigo me casar”.
Essa era a mais conhecida. Mas havia um conjunto de baiões e xaxados rústicos que colocavam o Nordeste inteiro na sala de nossa casa, quando executados na vitrolinha.
Havia o “Ô Zé, quando for para a lagoa / toma cuidado com o balanço da canoa / Ô Zé, faça tudo que quiser / só não me roube o amor dessa mulher”.
Eu dormia sonhando com essa lagoa escura que temia, mas que ao mesmo tempo me atraía por seu perigo e por ser lagoa, que sempre imaginei como um lago calmo.
A música mais pungente de Zé do Norte das que eu conheci era “Pomba Arribação”, um monumento à tristeza nordestina, à seca e aos retirantes, que já sensibilizavam as cabeças infantis da minha geração.
A pomba arribação era o último ser vivo que abandonava o sertão.Quando isso ocorria, nada mais havia a se fazer.
“Pomba arribação quando foge do sertão / deixa tudo em tristeza / deixa tudo em solidão / ai, ai, hum hum hum, ai meu Deus, que maldição”.
A música tinha uns versos lindos na sequência e terminava com: “quando a noite vem chegando / por detrás da serrania / o vaqueiro dá o aboio / se despedindo do dia”. Pareciam puros versos de Patativa do Assaré.
Anos atrás, Zé do Norte apareceu reivindicando a autoria de uma novela de Dias Gomes. Pouca gente levou a sério. Depois, soube que ele estava agasalhando sua velhice no Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá.
Outro dia, numa lista de discussão de música popular, me informaram que ele teria falecido em 1979 -tudo isso?
Às vezes acho que esse meu ritmo profissional anda me atrapalhando muito cultivar melhor os meus velhinhos.
Durante anos fiz planos de conhecer Zé do Norte, da mesma maneira que gostaria de ter conhecido os sambistas Antônio Almeida e o coronel Luiz Antônio- de “Lata D’Água na Cabeça” e “Barracão”.
Esses, não deu, mas ainda vou conhecer o Paulo Soledade (de “Vê, estão voltando as flores”) e o violinista Fafá Lemos, antes que me aprontem uma falseta.
No meio da entrevista para falar do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), em Belo Horizonte, a Ministra Dilma Roussef embatucou. Começou a falar de Minas, do sotaque de Minas, dos sons da sua infância e balançou.
A Ministra era leitora das crônicas que eu escrevia aos domingos na Folha, especialmente as que falavam de Minas. Em um encontro recente, presenteei-a com “A Casa da Minha Infância”, lançado no final do ano passado com algumas das crônicas familiares. Antes de começar a entrevista, ela começou a folhear o livro, procurando coisas por lá, uns cinco minutos folheando, até eu perceber o que ela procurava: Minas e trechos que pudessem lembrar a casa da sua infância.
Disse-lhe, então, que, desde que nossa casa foi vendida em Poços e me mudei da cidade, nunca mais substitui a casa da minha infância. Era como se tivesse sido inquilino de todas as outras. Ela ficou em silêncio, balançou a cabeça concordando e admitiu que, com ela ocorreu o mesmo. Até hoje está atrás da casa da sua infância.
***
Lembro-me quando escrevi a crônica “Ritual da passagem”, imaginando a cena da morte, com as diversas gerações reunidas no mesmo ambiente e o ponto nobre da mesa ocupado por meu pai e meu avô, do Delfim me enviar um email emocionado. Me surpreendi com a manifestação de um homem que viu de tudo na vida, um cético militante em relação à natureza humana.
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Para nós, esses reencontros e afastamentos permanentes com a infância dói. Imagino nas figuras públicas, sabendo que, depois de feita a opção, terão apenas alguns minutos por semana, nos intervalos do dia-a-dia massacrante, para celebrarem, sozinhos, o acervo de afetos da infância. Imagino o Serra lembrando da banca do seu pai no mercado, o Lula lembrando do regaço materno para compensar a miséria e a fome, o Aécio lembrando o avô contando histórias da vida, o Ciro rememorando a saga familiar.
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Por trás dessas rememorações, há o elo, o vínculo com as gerações anteriores, com os princípios que ajudaram a construir e a passar para frente, com esse acervo de emoções, valores e histórias. É assim que se formam povos e se constroem nações.
No fundo, o trabalho diário para melhorar o país, é como uma homenagem, uma prestação de contas, um compromisso com os que vieram antes. É como se disséssemos a eles: pegamos o bastão e não vamos deixar a peteca cair. Fiquem sossegados que trataremos de entregar um país melhor aos seus netos e bisnetos.
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Nessas últimas décadas, os valores nacionais foram jogados de lado. Uma falsa noção de internacionalismo julgava a última moda a crítica impiedosa ao Brasil, ao modo de ser brasileiro.
Com o fim do ciclo financeiro, ocorre uma redescoberta dos valores nacionais, volta o “orgulho de ser brasileiro”. É esse sentimento, são os sons da infância, são as recordações das cantigas infantis, a lembrança dos pitos paternos, dos conselhos maternos que vão construindo a escala de valores que permitirá ao país, a cada geração, tocar o bonde e sonhar com avanços, com progresso, com redução das desigualdades sociais.
Confira que bela história levantada pelo repórter Eduardo Geraque, da Folha, “enviado especial a Lassance”, MG, sobre a filha que Carlos Chagas.
Não fosse a praga do manual engessando a criatividade e impondo matérias curtas, daria fácil uma página bem ilustrada. Pergunta-se porque o jornalismo atual não tem novos Ricardo Kotscho ou José Roberto Alencar ou José Hamilton RIbeiro. Simples: porque não deixam. Uma cidade mineira chamada Lassance, uma personagem de nome Maria dos Impossíveis, um pai cientista famoso e um repórter com sensibilidade, só faltou espaço para uma grande matéria.
Chagas foi pai de farmacêutica, diz população local
Lalo de Almeida/Folha Imagem
Antiga estação ferroviária de Lassance, onde Carlos Chagas improvisou um posto de saúde dentro de um vagão de trem, em 1909 DO ENVIADO ESPECIAL A LASSANCE (MG)
Uma história ainda pouco conhecida sobre a Lassance antiga é o nascimento de Maria dos Impossíveis Franco, farmacêutica cuja paternidade é atribuída a Carlos Chagas. Um historiador da região, Moisés Vieira Neto, resgatou sua biografia com relatos de pessoas que conviviam com ela. No livro “Lassance, o berço histórico de Dr. Carlos Chagas”, ele conta que o médico reconheceu a filha, mas não publicamente.
A mãe da menina era Tercília Ribeiro, funcionária do médico quando ele viveu em Lassance. Descendente de escravos, a mulher “morreu no parto”, contou Letícia Prado Ferreira, 84 anos, à Folha. Moradora de Lassance, dona Letícia, que foi professora autodidata, lembra bem de Maria dos Impossíveis.
“Ela nunca se gabava [de ser filha do Carlos Chagas]. Na cidade, todo mundo sabia. Mas a própria Maria, quando questionada, falava “dizem que sou”.”
Maria dos Impossíveis se mudou para o Rio de Janeiro criança, enviada pela avó. Recebeu toda a atenção de Chagas e foi criada por um amigo dele, que lhe permitiu estudar.
Formada farmacêutica, trabalhou no Instituto Manguinhos. “Jamais esqueceu Lassance”, diz dona Letícia.
“Mandava sempre roupa e remédios. Aqui, quando vinha, dava sopa aos pobres”. Maria dos Impossíveis não teve filhos com nenhum dos dois maridos. Está enterrada em Lassance num túmulo mal cuidado. (EG)
Em 1º de abril de 1986, a revista New Scientist publicou a famosa brincadeira do boimate. Semanas depois, a VEJA publicou:
“Num ousado avanço da biologia molecular, dois biólogos de Hamburgo, na Alemanha, fundiram pela primeira vez células animais com células vegetais – as de um tomateiro com as de um boi. Deu certo.”
Que outras brincadeiras de 1º de abril vocês se lembram?
Por DeSola
Essa do boimate deixou um velho médico veterinário furioso.
Domingos Archangelo escreveu ao Jornal da Tarde uma carta colérica contra a ” a violação das leis naturais”. Segundo ele, ” do alto dos meus 76 anos, não posso ficar calado ante tal afronta às leis divinas. Boi nasceu para pastar, para puxar os saudosos carros do interior e para nos oferecer sua saborosa carne. E tomate, além das notórias qualidades que se lhe imputam na cozinha, serve também para ser arremessado à cabeça de quem perpetra tal montruosidade e, também, dos que dão guarida e incentivam tais descobertas”.
…..hehehe, mas o teor da carta revela que o velhinho devia ser uma pessoa muito singela.
A desgraça do goleiro Barbosa, que tomou o gol que tirou no Brasil a conquista do titulo, no mundial de 1950, contra o Uruguai, realizado no Maracanã, me inspirou, faz tempo, este conto.
Não entendo nada de futebol, mas me fascina o lado humano de seus personagens.
Pra ele doía muito mais que fratura. Meu amigão, colega do grupo escolar. Saudade das peladas, eu era lateral direito, ele goleiro.Parecia um gato, o camarada! Mudou pra São Paulo, trabalhava numa firma lavando vidro e lá mesmo, jogando na fábrica, foi contratado pelo Ypiranga, por volta de 1940. Ele era do 1921, o senhor faz as contas, tinha 19 anos.
No 1943, o Barbosa já era dos melhores goleiros paulistas, daí o Domingos da Guia indicou ele pro Vasco em 44, em 45 já estava no escrete brasileiro. Mas naquele 16 de julho de 50, contra o Uruguai… (continua) Leia mais »
Há várias maneiras de morrer por engano. Todas contra a própria vontade. Pensei há pouco que poderíamos morrer por engano também como fruto da nossa vontade. Por exemplo, procurar o suicídio quando nem tudo ainda está perdido. Algo como matar-nos em um processo de uma doença incurável, assim diagnosticada por erro médico. Matar-nos por ausência absoluta de esperança, quando nem todas as possibilidades foram ainda perdidas. Depois, considerei que isto seria mais propriamente um matar-se por engano. Por isso reafirmo que todas as maneiras de morrer por engano se dão contra a vontade própria.
Pode-se até dizer, se nos permitem um rápido aprofundamento, que há modos de morrer por engano mais e menos cruéis. E entre os menos, incluiria os equívocos de pátria. Por exemplo, um indivíduo latino, ou europeu, lutar sob a bandeira norte-americana no Iraque. E quando menos espera, o seu veículo explode. Ou então, de outra maneira, posar ao lado de Bush em sua última foto, um segundo antes. Isto é morrer por engano, mas de uma forma menos cruel, porque repentina e com um calculado risco. Ou então, de um modo mais inocente, errar-se a avenida, o restaurante, o hotel, o país, e ser jogado, de repente, em uma zona de balas, de tiros, ou de extraordinária onda gigante. Isto também é morrer por engano, de uma forma dura, como todas as mortes, mas ainda assim, se permitem uma gradação, de uma forma menos crua e cruel. Leia mais »
LN sempre foi meio avoado. Ele conta que uma das primeiras comunicações da escola para seus pais elogiava seu comportamento e suas notas, com um adendo “continua distraído como um sábio”.
Esses dias, me disse que seu telefone celular estaria grampeado, porque a secretária não conseguia fazer ligações e, quando conseguia, outra pessoa atendia. Pensei cá com meus botões: que grampeador distraído, atendendo o telefonema do grampeado! Hoje estava um tumulto no escritório, todos atrás de LN e um tal de Francisco teimava em atender o telefone dele, LN. Me pediram para tentar, LN atendeu normalmente. Já falaram em clone, em boicote, aquelas coisas. Calejada com esse distraído, fui verificar e é lógico que ele havia passado o número errado para a secretária, que passou para o motorista e diversos outros contatos de LN. Coitado do Francisco! Vai ficar atendendo telefonema para um tal de Nassif por um bom tempo! Pensei em ligar para ele e pedir que fizesse a gentileza de dar às pessoas o número certo, haha, mas achei que podia ser um pouco de abuso
E, com vocês, um pouco de Clarice Lispector contando como, às vezes, a distração é essencial na vida.
POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
Comentário
No aeroporto, ontem, terminei o café, levantei da mesa e fui em direção ao portão de embarque. Uma mocinha muito simpática bateu no meu ombro: o senhor esqueceu uma coisa na mesa. Era minha mala, aquele objeto grande, maior do que carteira, pasta de computador.
Recebo um telefonema inesquecível de dona Carolina Amaral Gurgel, viúva do João do Amaral Gurgel.
Ela já tinha deixado um recado na nota sobre o marido – que vocês rechearam com declarações de amor pelo carrinho e de admiração pelo Gurgel. Ficou especialmente tocada com o comentarista que disse que, quando morresse, gostaria de ser enterrado no seu Gurgel
Na conversa com dona Carolina, dá para perceber de onde vinha parte da garra impressionante de Gurgel. Nada de olhar para trás, de lamber feridas e chorar incompreensões. “Quem está na chuva é para se molhar”, diz ela.
Dona Carolina passou 52 anos casada, os últimos sete cuidando do marido vencido pelo mal de Alzheimer. “Tenho lembranças maravilhosas daquele maluco de carteirinha”, conta ela. Dia desses, se pilhou rindo sozinha, lembrando-se do único dia em que ele a ameaçou. Ela foi beijá-la de noite e ele, entorpecido pela doença, julgou estar sendo atacado por alguma ninfa.
Foram sete anos cuidando da doença do marido, praticamente sozinha. Dona Carolina achava que se juntasse muita gente em volta haveria muita fofoca.
Como o inferno astral dura sete anos, agora o jogo será outro. Ela voltou a praticar sua ginástica no Paulistano e está cheia de planos de arrumar a casa, que ficou meio abandonada pela dedicação ao marido.
Agora, se define como uma “velhinha computadorizada”. Já armazenou os comentários carinhosos de vocês e está trabalhando com um photoshop para colocar seu retrato na rede.
Ela manda um beijo carinhoso para todos os admiradores de João do Amaral Gurgel.
Até meados do ano passado, a Irlanda era apontada como o grande exemplo a ser seguido pelo Brasil. Nos anos 80, procedeu a um forte ajuste fiscal. Depois, a um estudo sobre os novos setores da economia. Identificou os mais promissores e montou uma plataforma de exportação para toda a Europa.
Durante anos seu PIB teve crescimento asiático.
Agora, o país naufraga. Grandes multinacionais estão transferindo suas unidades para países do Leste Europeu. Seu sistema bancário está em pandarecos; o desemprego pode chegar a 12% até o final do ano. Primeiro país da Europa a ser considerado AAA (a melhor classificação) pelas agências de risco, agora começa a ser rebaixado. O déficit público poderá chegar a 9,5% em 2009. Leia mais »
Creio que falta uma reavaliação mais aprofundada da importância da Dolores Duran na formação da moderna música popular brasileira.
Em geral, ela é conhecida pelos sambas canções de fossa e pelas parcerias com Tom Jobim. É muito mais do que isso.
A parte essencial da bossa nova é a síntese com as demais formas de manifestação da música brasileira, especialmente o samba sincopado, o samba canção (bolero) e o samba choro. Além do jazz, presente nas harmonias e nas formas de interpretação de três grandes cantores negros: Johnny Alf, Agostinho dos Santos e Alaide Costa.
Havia no movimento um grupo dotado de enorme preconceito com essas formas populares de música. É o pessoal que julga que a bossa-nova representou uma ruptura – e não uma continuidade.
Recentemente, o próprio Rui Castro admitiu que João Gilberto fez a síntese entre vários elementos do que havia de mais embalado e sofisticado na música brasileira de então, tese que não admitiu em seu livro.
Pois Dolores foi o lado feminino dessa história. Antes da bossa nova, transitou pelo baião. Nessa relação de músicas abaixo, você a ouvirá interpretando o sincopado de Geraldo Pereira, os sambas pulados, a música de fosse, o samba canção. Uma senhora intérprete, sem preconceito musical.
insônia. eu deveria trabalhar. eu deveria escrever, eu deveria fazer uma mágica, um feitiço, macumba – “simpatia do amor, pague só depois do resultado” – para ver se você volta. mas nem sobre a rejeição eu sei escrever e minhas tentativas desajeitadas são patéticas porque se esbarram na mediocridade que, agora em rasgo de sinceridade insone, eu ouso admitir. admito agora, enquanto o silêncio é perturbado por rugido de carro, alguém que foge de si mesmo em sua própria angústia noturna. minha é esta insônia de excessos, é assim como naquele dia em que eu resolvi pintar um quadro com tinta a óleo e exagerei tanto, misturei tanto, errei tanto – no meu afã de querer tudo, de pintar como quem engole o mundo, de querer impressionar você a qualquer custo, de querer disfarçar meus dedos medíocres, estes que nem escrevem nem desenham, só se contorcem – errei tanto que ficou aquele borrão pardo, indefinido, indecifrável. um auto-retrato involuntário. e é assim minha insônia. nem durmo nem faço nada. eu penso em você. eu penso em você o tempo todo, noite-e-dia, dia-e-noite, este velho hábito que custa a morrer; este mau hábito que eu não deixo morrer para não ficar sozinha demais. para que meu silêncio seja povoado pela falta, pelo eterno ansiar; para preencher de angústia as lacunas estéreis da minha vida medíocre. ontem, fui à manicure e escolhi pintar de vermelho as unhas dos pés. só porque você não gosta – só porque você não gostava – então, pintei de vermelho vivo, que é um grito de rebeldia, assim como se eu gritasse ao mundo que eu não me importo mais com você. um grito furioso e púrpura que é para ver se me convenço. deitada, na minha insônia, liguei o televisor e vi meus pés me encarando como olhos rubros na escuridão azulada da programação de madrugada. coloquei meia: vendei os olhos da escuridão. ah se eu pudesse também vendar os meus!, estes que me assombram dia-e-noite-noite-e-dia… sei que não faço sentido: pouco se me dá. vou endereçar ao seu email este lamento sobre o nada, mesmo sabendo que você não vai entender que ele é todo perturbação e saudade. e abandono.
Um poema de Vinícius ordena, suplica que “Pensem nas crianças mudas telepáticas. Pensem nas meninas cegas inexatas. Pensem nas mulheres rotas alteradas. Pensem nas feridas como rosas cálidas…”. É esse poema, A Rosa de Hiroxima, é essa talha em versos que ordena, que resiste e insiste em nossa memória, quando vemos a foto de Somaeah Hassan, de 6 anos, abatida na faixa de Gaza. Essa flor fuzilada, entre gazes, olhinhos semicerrados, é a própria Rosa da Palestina. Contenhamos a velocidade da mão, refreemos a velocidade da escrita, represemos o fluxo da leitura. Pedimos uma pausa no caleidoscópio, nas luzes fugazes, frívolas, vulgares do incessante ir e vir do noticiário de todos os dias. Somaeah Hassan está morta. Calma, buldogues, fechem suas bocas, canos quentes de balas, suspendam a digitação, noticiaristas, segurem por um instante a divulgação do mais quente e recente escândalo. Porque o escândalo já está feito: Somaeah Hassan está morta (continua).
Daqui a pouco começa a ceia. A Ruiva já foi para a cozinha desde cedo, preparando um banquete mineiro: lombo, tutu. As menininhas Bibi e Dodó passaram o dia inteiro brincando com os avós e com a tia Marina. Daqui a pouco chegam as meninonas, Mariana e Luizinha e a boneca da Clarinha, minha neta e sobrinha das menininhas.
Vai ser uma ginástica. Primeiro, ceia em casa. Depois, as meninonas vão até a casa da família da mãe, a Ica. Se por aqui não terminar muito tarde, tentarei ir à casa de uma das minhas irmãs, onde estará o restante da familinha – os irmãos e suas famílias. Amanhã, o ritual de visitar a familiona, as tias, que, depois de tantos anos de São Paulo, ainda conservam a afetividade doce e contida do interior.
Atrás da tela do computador, vocês, uma multidão de amigos desconhecidos, irmanados nessa loucura que é a Internet, nessa relação ao mesmo tempo afetiva e impessoal, de velhos-novos companheiros se reunindo diariamente em torno de notas, comentários e discussões.
Pretendia escrever mais, mas para quê? O que vale é desejar, do fundo do coração, um Feliz Natal e um grande 2009 para vocês e para o Brasil.
Estamos atravessando a maior revolução da história, com essa crise que veio para modificar hábitos, costumes, a economia, as relações de poder. Por cima das paixões, das lutas, do velho estendendo tentáculos agonizantes, tentando asfixiar o novo, há os valores eternos da civilização: a solidariedade, a busca do bem comum, a recuperação do amor próprio nacional, a capacidade de enxergar o Brasil como um todo, uma nação em que pobres, ricos, trabalhadores, empresários consigam de unir em torno de um ideal comum: a busca do desenvolvimento com justiça social, a redução das desigualdades e do preconceito, o combate a toda forma de discriminação.
Meu agradecimento especial à Ruiva e as meninas mais velhas, que tiveram coragem para enfrentar a barbárie, que esconderam de mim as noites mal-dormidas, o choro com as ofensas, para não derrubar minha disposição de ir até o fim nessa batalha. Essa batalha contra a escuridão, aliás, ajudou a fortalecer ainda mais a família. Souberam entender – sem que eu precisasse explicar – que não haveria como não me apresentar à luta.
Quando algum conhecido, ou algum de vocês, perguntava de onde vinha a energia para enfrentar esse festival inédito de baixarias, a resposta era simples: uma família equilibrada, unida em torno de princípios e valores claros.
Nessas poucas horas que faltam para a ceia, a lembrança voa para dona Tereza e seu Oscar, para a casa da minha infância. Não é mais uma lembrança dolorida. É a sensação de estar cumprindo adequadamente os ensinamentos que me passaram.
E pé na tábua que 2009 está aí, à nossa espera!
Feliz Natal.
Por Thiago M.
Feliz Natal, Nassif!
Como presente encaminho um link para um video muito bonito, que mostra a linguagem universal dos seres humanos: o sorriso. E é impossível não sorrir, assistindo.
Meu tipo inesquecível foi um advogado. Com ele aprendi o significado da sua profissão, o devotamento solitário e fervoroso à causa, a solidariedade ao cliente, o culto aos valores essenciais que tornam o advogado instrumento permanente de consagração dos direitos individuais.
Doutor Francisco Rangel Pestana era advogado da “Folha” quando, em 1984, meti-me no meu primeiro processo –uma interpelação de um curso de inglês denunciado na recém-criada seção “Dinheiro Vivo”. Otávio Frias Filho alertou-me, brincando. “Vá falar com o dr Rangel. Se ele for com sua cara, você esta salvo. Se não for, precisamos arrumar outro advogado”.
Subi à sua sala, no décimo andar do prédio da “Folha”. Atrás de pilhas de processos, estava a figura alta e grisalha, mais de setenta anos, olhar severo por cima dos óculos, medindo o interlocutor. “Vocês jornalistas são todos uns irresponsáveis”, começou ele, “parece que não atentam para o significado das palavras”. E indagou o que eu tinha querido dizer com determinada expressão forte a respeito do curso. “Isso mesmo que as palavras significam”, respondi-lhe, algo mordido. “Você tem provas sobre o que está afirmando?”, continuou ele. “Tanto tenho, que escrevi”.
Sua expressão foi mudando. “Posso escapar pela tangente e dar uma explicação que satisfaça o advogado da parte contrária ou posso partir para o pau. O que você prefere?”. Expliquei-lhe que o curso em questão tinha procurado aproximações pouco ortodoxas comigo, e que preferia que ele partisse para o pau. Seu olhar iluminou-se. “Então, vamos para o pau”. E ficamos amigos.
O decreto do Cruzado
Tempos depois, no governo Sarney, envolvi-me num processo maior, movido pelo consultor-geral Saulo Ramos em função de denúncias de alterações na segunda edição do Plano Cruzado –recriando as indústrias da concordata e da liquidação extrajudicial.
Rangel Pestana assumiu a defesa, num momento em que o país mal saía das fraldas do autoritarismo. Foi uma guerra. No meio do processo, saí da “Folha” e abri mão da defesa judicial proporcionada pelo jornal. Orgulho besta, já que não tinha condições financeiras de contratar um advogado.
Fui me despedir do dr. Rangel, e agradecer seu empenho. “Você não está satisfeito com meu trabalho?”, indagou preocupado. “Pelo contrário, é que estou saindo do jornal e o senhor é advogado da ‘Folha’”, expliquei-lhe. “Engano seu. A ‘Folha’ me paga, mas meu cliente é você”, respondeu. Resolvi abrir o jogo. Disse-lhe que não tinha condições de pagar seus honorários. “Quem falou em honorários?”, redargüiu.
Sua atuação no processo foi heróica. Com problemas de saúde, chegou a sair direto do hospital para comparecer a uma das audiências, e retornar em seguida.
Quando o processo terminou –ele vencedor– já tinha condições de pagar ao menos parte dos seus honorários. Não aceitou. Comprei um jogo de canetas e fui visitá-lo em sua casa. Foi pouco antes de sua morte. Levei lá minhas filhas pequenas. Depois fomos até a Livraria Cultura, que mantinha um encontro todo sábado com jornalistas, poetas e escritores. Lá ele bebeu, divertiu-se a valer, contou histórias da mocidade, sua relação com Roberto Marinho, com a Antárctica.
Pouco depois morreu, deixando em mim lembranças para toda a vida.
Quando tinha cinco anos, minha filha me dizia que acordava de noite com medo, por causa de “sonho ruim”. A Mariana, hoje com 27, também passou por esses medos. Mas tinha uma babá que a embalava ao som de “boi, boi, boi do curá / pega essa menina que não quer mamá”.
O medo sempre fez parte da nossa cultura. Foi companhia permanente das nossas infâncias, muitas vezes trazido por babás e empregadas e suas histórias maravilhosas.
Menino ainda, provavelmente com a idade da Beatriz, tinha “sonhos ruins”. Imaginava o vendedor de amendoim fazendo plantão na frente de casa, em plena madrugada. A casa, então, não tinha grades e dava para o largo do São Benedito, um enorme terreiro onde, nos meses de abril e maio os congos traziam seus cantos rituais. Mas nem os espíritos dos congos que povoavam o São Benedito nos protegiam do medo do vendedor de amendoim.
Espalhou-se na época que o vendedor de amendoim era “tarado”. A gente imaginava que ele entregava amendoim enfeitiçado para os meninos que, depois de ficarem grogues, eram algemados e chicoteados. Nosso conceito de tarado não ia muito além disso.
Quando se reuniam minha mãe, minha avó Martha e minha tia-avó Mariana, aí o medo e a tragédia corriam soltos. Eu ficava encolhido enquanto elas contavam a história da linda normalista de São Paulo, que pegou o ônibus para casa, foi seguida por um marginal que a matou. Os crimes eram tão escassos na época que, cada qual, rendia uma novela caseira. São Francisco de Assis e o Sagrado Coração de Jesus me ajudaram a enfrentar os pesadelos que sempre se seguiam aos “causos” das três.
Nos anos 50, em Poços de Caldas, estávamos a léguas de distância de ter medo de ET. Nosso medo era concreto, de personagens que habitavam as fazendas –como sacis, caiporas, lobisomens e mulas sem cabeça. Tio Zito Vilela quase quebrou quando descobriram uma criação de sacis em sua fazenda em São Sebastião da Grama e houve uma debandada de colonos.
A história da região começou a mudar lá pelo início dos anos 70. Fui a São Tomé das Letras a serviço, por ocasião daquele fiasco que foi a visita do cometa Kohoutec, para saber o que os moradores achavam do cometa, da perspectiva de fim do mundo, e dos teosofistas que se mudaram para lá atrás de uma carona de disco voador, antes que o tal do mundo se acabasse.
Subi a pedreira, abri a porta da igreja, dei de cara com a pintura de um barão de olhar alucinado. Ao lado, uma velhinha quase nonagenária que tomava conta da igreja. Indaguei se era verdadeira a história. “É verdade”, confirmou. “E eles viram algum disco voador”. A velhinha, taxativa: “Nenhum”. “E a senhora, já viu algum?”. E ela, com ar de enfado por trás das lentes grossas dos óculos: “Eu? Estou cansada de ver”.
Foi o período em que os sacis começavam a ser expulsos do sul de Minas pelos discos voadores. Era o prenúncio do ET de Varginha.
Com o tempo, esses medos maravilhosos, mágicos, parte intrínseca da cultura brasileira, parte essencial de um país que ainda não se urbanizara, vão cedendo lugar a outras formas, mais contemporâneas e cruéis de medo.
Primeiro, o medo de enfrentar a metrópole, a primeira profissão, o medo das primeiras opções de vida. Em muitos, vi o medo do desemprego.
Nos anos 70, havia o medo permanente da tortura, pelo menos na nossa profissão.
E quem era o pai que nos confortava a todos? Quem me refresca a memória é o leitor Celso Dival Moreira Lima que me enviou e-mail sobre o caso Galdino, desses da gente guardar para sempre, sobre a necessidade da coragem para enfrentar o estabelecido, a unanimidade e a sede de sangue: “O maior cristão, talvez o único, que eu conheço é Dom Paulo Evaristo Arns, que teve até parte da sua Igreja voltando-se contra ele por ser o porta-voz dos oprimidos. Um preso político certa vez comentou: “Ele colocava a mão em meus ombros e falava apenas três palavras: coragem, coragem, coragem”. Esta é a única oração que eu até hoje aprendi”.
Do que minhas filhas irão se lembrar de mim, de que gesto, que molecagem, que pito, que conselho? Lá sei eu.
Outro dia conversava com o Paulo Leandro, diretor de jornalismo da TV Cultura, neto do grande compositor paulista Marcelo Tupinambá. O avô já velho, enxergando pouco, levava o Paulo, com cinco anos, o irmão dele, com seis, para andar de bonde. Em um dos passeios, Paulo pediu ao avô se podia descer do bonde pela janela. O avô não se fez de rogado. Foi até o motorneiro, cochichou alguma coisa. O bonde parou, Tupinambá desceu e tirou o neto pela janela.
Que neto há de esquecer?
Meu pai não chegava a essas liberalidades. Mas as melhores recordações dele são os pequenos gestos. Lembro-me, talvez com cinco anos, levantando de manhã, antes de ele abrir a farmácia, para uma volta na Circular de Poços. Chegávamos ao ponto final, descíamos, meu pai comprava uma guloseima em um carrinho, não sei se doces ou milho. Comíamos, depois entrávamos no Circular e voltávamos para casa. Só isso. Inesquecível!
Outra lembrança antiga era ele me dando a mão para andar na rua. Tinha um tique, um jeito de passar o afeto discreto, que era roçar com o mindinho a borda da minha mão. Com todas as minhas filhas repeti esse gesto. E em cada afago de mindinho me lembrava do seu Oscar e sua afetividade discreta.
Lembro-me como se fosse ontem da primeira vez que ele e dona Tereza me levaram ao cinema. Foi em uma sessão noturna. Acho que era um musical com o herói de guerra Audie Murphy. Eu era tão pequeno que, durante anos, me ficou a sensação de drama. No musical, há uma cena em que o mocinho leva uma martelada na cabeça e desmaia. Só décadas depois assisti novamente e descobri que ele era acordado por um beijo da mocinha.
O que mais me impressionou não era o filme, mas eu segurando as mãos de ambos, a caminho do cinema, olhando para cima, aqueles dois adultos imensos, poderosos, protetores, conversando em voz baixa, rindo de forma cúmplice. No cinema, a mesma sensação. Um comentava algo com o outro, que ria baixinho. Esticava a orelha tentando captar a conversa, mas não conseguia.
Do que minhas filhas irão se lembrar? Luizinha, certamente, do dia em que a deixei no Shopping Eldorado, depois fui buscá-la. Tinha um dos primeiros celulares. Ela me ligava de orelhão informando a posição. Pedi para ficar na porta do shopping. Passei, e nada. Meia hora para me ligar de novo. Pedi que ficasse na porta do supermercado. Outra volta, e nada. Mais meia hora, me liga de novo. Já impaciente, pedi que ficasse na porta do McDonalds. Estacionei o carro, fui até lá, e nada. Aí ela me liga, do alto de seus dez anos:
– Papai, em que shoppings você está?
– No Morumbi, ora!
– Mas você me deixou no Eldorado.
Pausa.
– Papai, sabe o que somos?
– Diga.
– O Debi e o Lóide (uma dupla que fazia filmes de humor na época).
Quem esquecer há de? Ou quando deixava a Maricota na Escola Pacaembu, e, na frente das amiguinhas, gritava para ela voltar a pedir a “bença”? Certamente Luizinha não se esquecerá jamais do dia em que joguei sorvete em sua cabeça, ela saiu correndo atrás de mim para descontar e, nesse instante, entram em casa quatro coleguinhas, certinhas como ela. Ou mesmo quando íamos para a banheira, eu enchia de espuma que ia crescendo, crescendo, até transbordar. E a Luizinha, naquele tempo com uns seis anos:
– Acho que mamãe vai dar uma bronca em nós!
Não sei se Maricota se lembrará de quanto ficava com ela para a mãe ir lecionar, trocava a fralda, que ficava sempre do avesso.
Bibi jamais se lembrará quando, com menos de um ano, a mãe pedia que eu desse banho, e ela escapava feito bagre ensaboado das minhas mãos e deslizava pela banheira. Mas vai lembrar quando viajamos sozinhos para João Pessoa, ela com apenas cinco anos. Dois anos depois, preparou um diário para a escola com o feito mais relevante de cada ano de vida. Com cinco anos, foi a viagem com papai.
Cacá certamente se lembrará do dia em que contou para o vovô que pretendia mudar de nome quando completasse 18 anos. A razão? Os colegas que mexiam: “Clara, onde está a Gema?” E vovô sugeriu que trocasse o nome para Omelete Nassif. Certamente se lembrará da “tia” Dodó, do alto de seus sete anos, recomendando: “Ignora, Cacá, ignora”.
Outro dia, provocadas, as três menores admitiram que o papai (e vovô) era chato. Aí indaguei:
- Querem que eu deixe de ser?
E elas:
- Assim está bom, mas não pode aumentar.
Neste dia dos pais, teremos um almoço com todas, preparado pela primogênita Mariana. Luizinha, minha primeira caçulinha estará fora, em Buenos Aires para onde se mudou. Antes de ontem, conversei com ela pelo MSN. Na despedida, me disse:
– Boa noite, papai.
Achei que depois de certa idade, as nossas crianças deixassem de falar “papai”. Ainda bem que não.
Acabo de ler sua crônica (chorando), irei me lembrar do quanto você é carinhoso, afetuoso, tão afetuoso que às vezes se perde nas palavras e atitudes. Vou me lembrar de quando cheguei perdida em paris e lá você estava … de braços abertos, e me colocou de baixo das suas asas e eu dormi tranqüila, vou me lembrar de quando você e mamãe se separaram e você foi me ver jogar minha partida de futebol, ou de todas vezes que eu fui parar no hospital por me aventurar em meus esportes radicais rs e você largava seu dia corrido para ver se estava tudo bem e ali parecia esquecer de tudo, estaria a me proteger apenas estando ao meu lado e dizendo que tudo ficaria bem.
Me lembrarei dos sorvetes no Santa Rita (troféu porquinho), lembrarei da minha festa de 15 anos, me lembrarei de quando brigamos e eu devolvi Tudinhoo a você, lembrarei de quando fiquei mocinha e você me levou dar uma volta de carro, como deve ter sido difícil pra você, homem, pai e tendo que dar conselhos de mulher e mãe, e quer saber fez muito bem… lembrarei de tudo e com certeza os pequenos momentos, que passam despercebidos são os que marcam… estes sim são os de grande valor… às vezes expressadas materialmente, mas com o fundinho sentimental (estes sim valem).
Pensei demais em você hoje, queria estar ai com vocês, com minha família, te dando aquele beijo e parabéns e dizendo que você é o melhor pai que podia ter…
Então mesmo distante… deixo aqui meu amor por você, deixo meu agradecimento pelo pai maravilhoso que é, pela pessoa honesta e guerreira que nos ensina todos os dias como é cair na batalha diária…
Agora…. espero-te na MINHA casinha, na terrinha do vovô, para darmos voltas, tomarmos vinhos, descansar a mente e o coração, escutarmos uma boa musica e comer uma boa comida rs
Amo você meu papai (alias sempreeee papai)… aqui comigo sempre
Foram dez anos, exatamente dez anos atrás quando a fui buscar no Hotel da Alameda Lorena onde se hospedavam cientistas e professores para os seminários da USP. Você tinha vindo para um encontro de farmácia. Alguns meses antes nos tornamos amigos virtuais, trocando conselhos e nos consolando mutuamente pelo ICQ.
Eu me encantava com seus modos, sua graça, quando chegava entusiasmada contando como fora a uma festa e chamara a atenção por sua beleza; ou pedindo uma pausa, para que pudesse esquentar o jantar do pai, que acabara de vir do trabalho; ou quando me mandava poemas que se encaixavam tão bem nas situações que atravessava.
Não tinha a menor idéia do que iria encontrar no hotel, quando marquei pegá-la às 20 horas para um jantar. Pelas molecagens nas salas de chat, imaginava uma menina magrinha, elétrica, com cabelos ouriçados, mesmo você sutilmente me avisando que não era bem assim.
Parei o carro no pátio do hotel e te olhei de leve caminhando em minha direção. Apresentou-se, entrou, e nem olhei direito para seu rosto. Estava vexado de sair com uma moça tão mais nova, ainda que não houvesse nenhuma intenção maior no encontro, a não ser o de conhecer uma amiga virtual. Era eu mentindo para mim. E você para você, quando supôs que seria apenas um encontro corriqueiro.
Minha timidez impediu-me de perceber, de cara, que você estava inibida. Nem parecia aquela serelepe que atazanava a sala com provocações. Só a olhei de fato, só vi seus olhos, olhei seu rosto, os dentes meio separados quando chegamos ao Chalé Alpino, pedimos o prato e o vinho, e parei para respirar.
Nem sei se parei para respirar ou deixei de respirar quando, pela primeira vez, olhei seu rosto. Foi um choque, um impacto que não esperava. O vinho correu solto e tirou a inibição. A conversa fluiu, todas as confidências trocadas no ICQ vieram à tona, estimuladas pelo vinho.
No túnel escuro em que me metera, de repente seu rosto era um farol, tão intenso que, em determinado momento, a chamei para vir embaixo da minha asa, e avancei um beijo, que você não recusou.
Depois, fui deixá-la no hotel, mas a acompanhei até o apartamento. Nem me lembrava direito o que tinha acontecido. Durante muito tempo imaginei que era um sonho e que, em determinado momento, eu a cobria de declarações, uma enxurrada de palavras, apaixonadas, segurando seu rosto com minhas duas mãos.
Muito tempo depois você me disse que não havia sido sonho. Fiz, de fato, as declarações, justo eu que fugia de qualquer envolvimento como o diabo da Cruz, que tinha todos os pruridos para expor sentimentos, quanto mais para fazer declarações. Mas tudo o que eu imaginara sonho, tinha de fato acontecido.
Naquela noite começou uma nova vida, complicada, difícil, mas que me salvou da solidão.
Hoje, dez anos depois, quando vejo nossas menininhas, vejo a mocinha de 25 anos tornando-se mulher, sofrida, amadurecida, companheira, constato que já fiz muitas apostas na vida, muitas apostas erradas.
Mas na maior delas, ganhei você, as menininhas, e a certeza de uma longa vida companheira pela frente.
A celebração do feito de Hugo Hoyama no tênis de mesa me trouxe de volta boas lembranças dos tempos em que praticava o esporte, que sempre teve ídolos de primeira. O maior deles foi Biriba.
Pelé foi gênio aos 17 anos. Aos 13, apenas Biriba no tênis de mesa e Mequinho no xadrez.
A bem da verdade, naqueles anos 50 e 60, em que apareceram as primeiras glórias do esporte nacional, o tênis de mesa não chegava a ser atividade nobre. Havia o boxe, com Luizão, Fernando Barreto e, principalmente, Éder Jofre; o futebol, com a geração de 58; o salto triplo de Ademar Ferreira da Silva, o atletismo múltiplo do grande José Telles da Conceição e o tênis feminino de Maria Esther Bueno, no final dos anos 50.
Já na década de 60, Thomaz Kock surgia como o grande nome do tênis masculino brasileiro, mas provocava uma implicância danada da imprensa. Para alguns, o craque brasileiro era Ronald Barnes, que se tornou professor de tênis nos Estados Unidos. Outros insistiam em Edson Mandarino, outros falavam muito de um carioca, campeão amador brasileiro, de nome Jorge Paulo Lehmann -futuro Banco Garantia. Mas quem levava os títulos era mesmo o Kock, que ainda por cima usava um rabo de cavalo à Woodstock que lhe dava um certo ar de contracultura zen.
O tênis de mesa era o primo pobre do tênis de quadra. Mas foi nele que apareceria o mais precoce fenômeno do esporte brasileiro: Biriba.
Lá na Associação Atlética Caldense sempre tivemos boa tradição no tênis de mesa, que remontava os anos 40. Nos anos 60, veio morar na cidade o Paulo Eugênio, ex-campeão carioca de duplas, e que era filho do Vivaldi, o grande empreendedor que transformou a Cinelândia do Rio e construiu o Quisisana em Poços -que teria sido um dos maiores hotéis cassinos do país, não fosse o fato de alguns meses após a inauguração dona Santinha ter convencido o presidente Dutra a fechar o jogo.
O Paulo Eugênio era um fenômeno -pelo menos era o que a gente pensava. Tinha uma doença qualquer que atrapalhava seus movimentos, por isso quase não se movia sobre a mesa. Ficava na defensiva, com aqueles movimentos de cortes curtos para baixo na bola, que a gente chamava de nheco-nheco. A tática impedia o ataque do adversário. Era só o adversário cansar com o ataque para Paulo Eugênio desfechar um top spin mortal -aquele golpe longo na bola, com a raquete fazendo um movimento de baixo para cima, que confere um efeito em forma de elipse. As cortadas de Paulo Eugênio eram apenas colocadas. Mas ele tinha um lance qualquer, uma forma de “não” olhar a bola, que sempre jogava o adversário no lado oposto da mesa.
Comecei a praticar o tênis de mesa aos 14 anos. Os mais antigos -como o Romeu Popó, o Armandinho e o Ruidiziam que o tal do top spin tinha sido ensinado ao Paulo Eugênio por coreanos que foram jogar no Rio. Eu e o Amílcar Caselli Neto, o Netinho -meu companheiro de treinosficávamos muito impressionados.
O grande momento do tênis de mesa em Poços foi quando Paulo Eugênio convidou Biriba para uma temporada no Quisisana, com direito a treinos diários matinais. A molecada da Caldense ia toda para lá ver o Biriba cortar e o Paulo Eugênio aparar.
Pois eu dizia do craque precoce. Biriba tinha 13 anos quando foi disputar o campeonato mundial, no Japão. Na segunda ou terceira rodada pegou o então campeão mundial, e o venceu. Há um lance no jogo que entrou para a história do tênis de mesa mundial. Foi quando o campeão japonês deu uma cortada forte, a bola bateu perto da rede e subiu que nem foguete. A bola passou por Biriba que, rápido como um raio, deu um salto e cortou a bola de costas, conquistando o ponto. A fotografia do lance foi aproveitado por uma fábrica japonesa para lançar a raquete Biriba, das mais prestigiadas da época. Depois disso, não havia moleque brasileiro que não sonhasse em ser como o Biriba.
Tive lá meu curto período de bom jogador, cheguei a ser campeão de Poços e vice da Média Mogiana. Depois, o Tiro de Guerra acabou com meu tempo livre e disputei um campeonato mineiro em péssimas condições técnicas.
Foi nesse campeonato que a glória de Paulo Eugênio atingiria o máximo. Venceu todos os campeões mineiros, um povo de Belo Horizonte que chegou em Poços achando que estava em cima da carne seca. Na decisão, destruiu o campeão Ivan em dois sets, deixando-o estatelado umas duas vezes no chão com seu estranho golpe de corpo.
Voltei a me entusiasmar com o tênis de mesa no ano seguinte quando, recém chegado a São Paulo, conheci o Pedrinho, filho de iugoslavos, dono de uma banca de revistas na rua Maria Paula, integrante da Seleção Paulista de Veteranos e um gozador incorrigível. O dia em que Pedrinho ficou de me apresentar o pai de Biriba foi o mais glorioso de minha curta carreira de caipira recém-chegado a São Paulo. Saí mais cedo da faculdade só para antecipar o grande encontro.
Seu Biribão tinha uma loja que vendia frangos engradados, na Vila Maria Alta. Lá, o pai coruja mostrou os álbuns com recortes de jornais sobre o filho. Depois, explicou que a carreira de Biriba começou a declinar com a idade, porque sua grande vantagem eram as pernas ágeis de menino.
A conversa fluiu e perguntei de Paulo Eugênio. “Ah, o Paulinho, grande amigo nosso”, disse ele. “E grande jogador, né?”, arrisquei. “Não, como jogador era fraquinho” -era o velho Biribão dos frangos engradados deixando em frangalhos a reputação do nosso campeão. Tentei argumentar: “Fraco perto do seu filho, que quase foi campeão mundial”. E seu Biribão, decretando a sentença de morte em minha crença de que algum dia poderia vir a me tornar um bom jogador: “Que nada. Até eu ganhava dele”.
Nunca contei essa história em Poços para não desiludir a minha geração de mesatenistas. Conto agora, porque acho que eles já estão em idade de absorver esse golpe.
Esse povo do nordeste, que tem justo orgulho das suas raízes, não economiza para enaltecer Antônio Conselheiro, quando este declarou independência do Brasil. Mas lá na nossa região tivemos também um levante bonito, que quase culminou com a constituição da República Livre da Fazenda da Pedra.
O coronel José Custódio Dias de Araújo, Zeca da Pedra, dono da Fazenda da Pedra, era o maior chefe político de Campestre, no sul de Minas. A Pedra em questão era uma portentosa pedra, no meio de suas propriedades, de onde se avistavam muitas cidades vizinhas. Quando Tiradentes foi feito em picadinho, sua família saiu da região de Ouro Preto e foi se abrigar justamente na Fazenda da Pedra.
Nasceu lá em 1858 e morreu no Rio em 1943. Foi vereador em Campestre, e concessionário da linha telefônica Poços-Campestre, de 1905 e da Empresa de Luz Elétrica de Campestre. Pertencia à mesma linhagem do capitão-mor de Machado, Custódio José Dias, participante de 2a Junta Governativa de Minas, em 1822, e do padre José Custódio Dias, senador do Império, que participou da abdicação de Pedro I.
Era o chefe absoluto de Campestre até se meter com Arthur Bernardes, o todo-poderoso presidente do Partido Republicano Mineiro. Quando Bernardes assumiu, dentro do processo de renovação do PRM sugeriu ao coronel Zeca abrisse mão da candidatura à Câmara estadual em favor do próprio filho. O coronel não aceitou:
- Proponho que meu filho fique na bitola estreita, candidatando-se à Câmara Estadual, enquanto eu vou para a bitola larga, a Câmara Federal.
Bernardes não topou e romperam politicamente. A partir de então o coronel sofreu perseguição política implacável, que culminou com a mudança das divisas municipais. O coronel acordou uma manhã e, em lugar de Campestre, sua fazenda havia sido transferida para Machado. Mudaram a pedra de município.
Anos depois, faleceu o presidente mineiro Raul Soares, sendo substituído por Mello Vianna. Em Belo Horizonte chegou a notícia que Zeca da Pedra havia comemorado a morte servindo “cerveja para os miúdos, champanhe para os graúdos”, e declarado a independência da República da Fazenda da Pedra. Conseguiu a adesão do padre local, proibiu a entrada na cidade do coletor de impostos, que nem seu antepassado, e ficou esperando, com batedores encarrapitados na pedra para observar a movimentação das tropas adversárias.
Você veja que não foi Itamar quem inaugurou essa mania em Minas de colocar PM para cercar a represa. Foi o coronel Zeca da Pedra, e para cercar a pedra. Imediatamente o PRM mandou tropa de 50 soldados incumbidos de prender o Zeca e recuperar a pedra
A tropa chegou em Poços de Caldas e foi solicitar condução ao delegado local. Este, de férias, havia sido substituído pelo interino, José Luiz de Araújo Dias, dono da companhia elétrica local, e mais conhecida por Luiz da Pedra, filho do Zeca da mesma.
Nos anos de 1927 e 1928 o engenheiro Dias construiu uma estrada para automóveis de Poços a Machado, passando por Campestre, financiada por seu pai, o Zeca da Pedra.
Enquanto providenciava a condução, Luiz da Pedra enviou mensageiros para alertar o pai. Zeca da Pedra juntou todo o dinheiro que tinha e fugiu para São Paulo. Dali, para a Ilha da Madeira. Em São Paulo, com medo de ficar com muito dinheiro na mão, acabou adquirindo alguns terrenos onde, anos depois, o governo paulista instalou o Aeroporto de Congonhas.
Aliás, no dia da inauguração do aeroporto, Assis Chateaubriand envolveu-se em um rolo com o marido de uma amante, pegou o revólver e deu um tiro. A bala foi em direção a um dos orgulhos nacionais: a boca de Guilherme Olímpio, jornalista bonito que nem o diabo, com passagens por Hollywood e dono da dentição mais perfeita do país. Por puro reflexo, Guilherme abriu a boca, a bala entrou, atravessou a garganta, deixando intactos seus dentes.
Os soldados da Força Pública rumaram para Campestre, mas não encontraram o Zeca. Ficaram alguns dias na cidade em perfeita ordem, até o justo momento em que um italiano local, dono de uma vinícola, teve a infeliz idéia de convidá-los a provar o vinho. Produziu-se um terremoto inédito na cidade. Os soldados pararam o relógio da Matriz a tiro, invadiram uma fazenda das imediações e praticaram tiro ao alvo em uma vaca do fazendeiro Bié Junqueira, mais conhecido por Bié Calado, por gostar muito de ouvir, e poucos terem ouvido algum dia sua voz.
Bié Calado estava na fazenda Recreio, de Poços de Caldas, quando comunicaram o fuzilamento de sua vaca.
O desenvolvimento da moderna pesquisa tecnológica brasileira está diretamente associado à energia nuclear. Nos anos 70, o início do programa nuclear Brasil-Alemanha levou o então Secretário de Tecnologia do governo Figueiredo, José Israel Vargas, a montar os primeiros programas sistemáticos de qualidade. O fracasso do programa levou o Conselho Nacional de Energia Nuclear (CNEM) a montar uma parceria inédita com a Universidade e, através do IPEN (Instituto de Pesquisas Nucleares) a controlar o processo de enriquecimento do urânio.
No início dos anos 50, foi a busca do domínio sobre a energia nuclear que levou o governo criar o Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) e entregar seu comando ao almirante Álvaro Alberto.
Naqueles anos, o Brasil esteve a ponto de ter seu primeiro reator atômico, uma história ainda pouco conhecida. A guerra fria já começara quando Álvaro Alberto esteve nos EUA. Uma sucessão de acordos militares mal explicados tinha conferido aos americanos o monopólio sobre a pesquisa de minerais brasileiros. Na época, Álvaro Alberto havia enviado minérios brasileiros à França, na esperança de conseguir o apoio dos franceses ao projeto nuclear brasileiro. Quando a informação vazou, provocou enorme reação de Washington.
Em sua visita aos EUA, Álvaro Alberto havia se avistado com o “pai” da bomba atômica americana, o físico Robert Oppenheimer. Os acordos firmados com os EUA garantiam ao Brasil a entrega de alguns reatores pequenos, apenas para pesquisa de laboratório. O conselho de Oppenheimer havia sido outro: “No Brasil, não há o que discutir (…) Tem que fazer logo o reator atômico”, disse-lhe o físico. Sugeriu a construção de um reator simples. “Deixem essa história de reator experimental e façam um reator desse tipo, porque servirá de escola para vocês”.
Seguindo a sugestão, e ante a resistência dos EUA em fornecer tecnologia, Álvaro Alberto encomendou à Alemanha três unidades de ultracentrifugadores (sistema para enriquecimento de urânio). Isso foi em princípio de 1954. As tropas de ocupação da Alemanha não autorizaram a venda.
Tempos depois, restabeleceu-se a soberania da Alemanha. Mas um documento do governo americano ao brasileiro, que permaneceu sob sigilo por algum tempo, encerrou as negociações. Apesar do equipamento claramente não poder ser utilizado para fins bélicos, o documento dizia que “o estabelecimento no Brasil de um processo de extração de urânio físsil (…) poder ser considerado como uma ameaça potencial à segurança dos Estados Unidos e do Hemisfério Ocidental”.
Foram necessários quase cinqüenta anos para se recuperar o terreno perdido e se dominar o ciclo de enriquecimento de urânio. Mas as sementes plantadas por Álvaro Alberto já tinham encontrado terra fértil, ajudando a forjar a parte mais avançada da pesquisa tecnológica brasileira.
Eu tinha oito anos quando enfrentei o maior desafio da minha vida: a final da Copa do Mundo de 1958. A campanha brasileira havia sido magnífica. Os “canarinhos” eram da família, pois haviam feito a concentração em Poços de Caldas, graças às ligações entre meu pai, Oscar, e Carlos Joel Nelli, da “Gazeta Esportiva”.
Lembro-me até hoje do batizado da minha irmã Inês sendo interrompido pela notícia de que o Brasil acabara de fazer dois a zero na Rússia e o padrinho Dr. Martinho, e o padre Trajano, e os pais da batizada comemorando. E a batizada chorando, sem entender nada.
Parecia um sonho, até que se chegou à final contra a Suécia. No dia anterior, meu pai acordo macambúzio. Contou-me a desgraça de 1950 no Maracanã, o Brasil, amplo favorito, sendo derrotado pelo Uruguai. Desde então, a imagem que se consolidara era a do país que amarelava na final, que não acreditava em si, que tinha talento mas não tinha fibra. E foi com esse fantasma pairando sobre nós que fomos assistir o jogo na casa do seu Alexandre, nosso vizinho.
A transmissão era pela Rádio Bandeirantes, meio tempo com a locução do Pedro Luiz, meio tempo com a do Edson Leite. Mal começa o jogo, a Suécia faz um a zero. Fez-se um silêncio sepulcral não apenas ali, mas em todo o país.
Olhei o largo do São Benedito, que ficava em frente de casa e ainda não tinha sido asfaltado. No centro, a Igrejinha de São Benedito, linda, caiada, no seu interior as pinturas preciosas da Via Sacra, na frente dela, a escadaria com vinte degraus. Ali mesmo fiz a promessa: se o Brasil virasse o jogo, além de ir na missa com milho no sapato, eu me comprometeria a lamber, um a um, os degraus da Igreja. Cumpri o prometido, contei para minha mãe que lavou minha boca com álcool. Mas o Brasil merecia o secrifício.
Não havia televisão na época em Poços, não havia transmissão ao vivo no Brasil. Mas Pedro Luiz descreveu a cena tal e qual a assistimos dezenas de vezes, nos anos seguintes, seja no cinema, pelo Canal 100 de Carlos Niemayer, seja pela televisão. E descreveu com aquela voz inigualável, de emoção contida, contando todos os detalhes do lance, não apenas os principais.
Foi por sua voz que “vi”, nascendo, a maior cena da história do país. Enquanto a Seleção parecia imobilizada em campo, Didi foi até o nosso gol, pegou a bola no fundo das redes, colocou-a debaixo do braço e caminhou em direção ao meio do campo, carregando-a como se carrega a um fuzil. Foi andando normalmente e, no caminho, soltando palavras de incentivo aos seus soldados.
O que se viu, dali para frente, jamais o mundo veria outra vez, nem em 1970, nem em 1974 com a Holanda, nem em 1982, com a Seleção de Telê. Era como se não apenas a Seleção, mas o Brasil florescesse como uma laranjeira em flor. Os ecos da Semana de 22, o canto orfeônico de Villa-Lobos, as descobertas culturais de Mário de Andrade, a geração de 1942, os regionalistas, os cantores populares, de repente tudo aparecia nítido aos olhos do mundo e, principalmente, aos olhos do país. Habemus um país.
O derrotismo, a baixo auto-estima, o complexo de inferioridade, tudo foi sendo varrido da frente por aqueles passos compassados, firmes do capitão Didi em direção ao meio do campo.
Quando Didi morreu, alguns anos atrás, recordei-me dele em Poços, em 1958 e 1962, a maneira como fazia os exercícios, suas corridas estacionárias nos treinamentos individuais, os lançamentos esplendorosos nos coletivos, o gol de “folha seca”.
Mais tarde foi para o Real Madri, dizem que sofreu boicote do grande Di Stefano. Depois, largou a mulher e se casou com a branca Guiomar. Foi alvo de campanhas preconceituosas de jornais, nada que reduzisse em um milímetro a admiração e gratidão que os brasileiros lhe devotavam.
Os EUA celebram a foto dos fuzileiros em Ivo Jima. O Brasil sempre celebrou o grito do Ipiranga, no quadro de Pedro Américo. Mas para a minha geração, do menino de 8 anos aos velhos septuagenários, a cena de Didi, sua caminhada do nosso gol até o meio de campo, foi um marco, um corte no país que teimava em nascer.
Nos anos seguintes, a auto-estima do país chegaria ao auge. Mesmo com todos os percalços políticos, resistiria incólume ainda por muitos anos.
Introdutor do jornalismo de serviços e do jornalismo eletrônico no país. Vencedor do Prêmio de Melhor Jornalista de Economia da Imprensa Escrita do site Comunique-se em 2003, 2005 e 2008, em eleição direta da categoria. Prêmio iBest de Melhor Blog de Política, em eleição popular e da Academia iBest.