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30/11/2009 - 08:12

Preservem o IUPERJ

Do Estadão

Instituto de ciências sociais vive crise financeira

Instituto de ciências sociais vive crise financeira

Com 40 anos, Iuperj cortou salários dos docentes em 30% e não os paga há 3 meses e meio

Márcia Vieira

O Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), referência em ciências sociais, vive sua pior crise em 40 anos. “Estamos no fio da navalha”, diz Jairo Nicolau, diretor executivo do instituto. O Iuperj é ligado à Universidade Candido Mendes, também com dificuldades financeiras. É a universidade que paga os salários dos 18 professores do instituto, que não recebem há três meses e meio. Os 200 alunos de mestrado e doutorado em Ciência Política e Sociologia não pagam mensalidades.

A última tentativa de salvar o Iuperj é transformá-lo em Organização Social (OS), vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Assim, receberia recursos do governo federal. “O Iuperj não gera benefícios financeiros. Mas oferecemos dois serviços de excelência. Já formamos mais de 120 professores que hoje estão em universidades públicas no País inteiro”, defende Nicolau.

Há alguns dias ele percorre gabinetes em Brasília em busca de apoio para que o governo federal transforme o instituto em OS, de acordo com a lei federal de 1998. Ela permite que uma entidade privada, sem fins lucrativos, receba não só isenções fiscais como dotações orçamentárias. “É o caminho que se desenhou para manter o Iuperj íntegro com a sua história. Não há outra alternativa”, afirma Nicolau. A ideia é que, como OS, o instituto faça convênio com uma universidade privada, a Candido Mendes, para que não perca seus cursos.

INTEGRIDADE

O reitor Candido Mendes de Almeida, que criou o Iuperj em plena ditadura militar, disse que o dinheiro federal é bem-vindo, mas não admite perder o controle administrativo e acadêmico sobre o instituto. E afirma que o Iuperj não vai fechar. “Prefiro fechar a Candido Mendes. As pessoas não entendem, mas o que me move é a paixão. Educar é perder dinheiro, mas manter sua integridade.”

Segundo o reitor, o Iuperj custa à universidade R$ 6 milhões anuais. Nicolau faz outra estimativa. “Os custos giram em torno dos R$ 4 milhões, incluindo salários e custos de manutenção. Os salários são pagos pela Candido Mendes e nós vamos atrás de recursos para pagar contas, comprar livros, fazer pesquisas e seminários.”

A crise do instituto vem desde 2004. Para garantir seu funcionamento, os professores concordaram em ter redução salarial de 30%. “Sei que as instituições são mortais, mas ainda cabe no País uma instituição como o Iuperj. O Rio não tem nenhum outro programa de doutorado em ciência política”, argumenta Nicolau. O acervo do instituto é rico. Sua biblioteca, aberta à consulta de pesquisadores, tem 23 mil volumes e 400 títulos de periódicos.

Por Diotima

Estudei no Iuperj. Foi um dos períodos mais estimulantes intelectualmente de toda a minha vida.

As aulas com o grande Wanderley Guilherme dos Santos ficaram marcadas em minha memória.

Numa delas – acho que inaugural para um dos cursos – ele começou perguntando à turma: “Qual o melhor regime político que já existiu no mundo?”

Alguém respondeu, timidamente: “A democracia!”

“Como, a democracia?” – atalhou socraticamente o professor Wanderley. “A massa vota com base na informação que tem. Informação é um bem muito mal distribuído. O eleitor pode ser manipulado. O eleitor pode ser corrompido. O eleitor pode votar com a paixão, não com a razão. O eleitor pode votar com base no pensamento desejante, escolhendo propostas sedutoras e não factíveis. O eleitor pode votar porque o candidato é bonito ou teve mais recursos na campanha. A democracia é a forma de governo mais cara que existe. Enfim, a democracia é péssima. O melhor regime de governo existente é o Despotismo Esclarecido. Mais econômico, mais eficiente, mais enxuto, mais racional…”

- Mas, professor – atalha a voz de outro aluno – como ter alguma garantia de que o déspota é verdadeiramente esclarecido? Como evitar que o despotismo resvale para a tirania?

- Pois é – retrucou o Wanderley, com uma voz irônica – esse é o grande problema… Infelizmente, ninguém ainda conseguiu solucioná-lo. Enquanto isso… (suspirou) … não temos remédio. Fiquemos com a democracia mesmo…

Autor: luisnassif - Categoria(s): Internacional, Universidade Tags:

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16 comentários para “Preservem o IUPERJ”

  1. Diotima disse:

    Estudei no Iuperj. Foi um dos períodos mais estimulantes intelectualmente de toda a minha vida.
    As aulas com o grande Wanderley Guilherme dos Santos ficaram marcadas em minha memória.
    Numa delas – acho que inaugural para um dos cursos – ele começou perguntando à turma: “Qual o melhor regime político que já existiu no mundo?”
    Alguém respondeu, timidamente: “A democracia!”
    “Como, a democracia?” – atalhou socraticamente o professor Wanderley. “A massa vota com base na informação que tem. Informação é um bem muito mal distribuído. O eleitor pode ser manipulado. O eleitor pode ser corrompido. O eleitor pode votar com a paixão, não com a razão. O eleitor pode votar com base no pensamento desejante, escolhendo propostas sedutoras e não factíveis. O eleitor pode votar porque o candidato é bonito ou teve mais recursos na campanha. A democracia é a forma de governo mais cara que existe. Enfim, a democracia é péssima. O melhor regime de governo existente é o Despotismo Esclarecido. Mais econômico, mais eficiente, mais enxuto, mais racional…”
    - Mas, professor – atalha a voz de outro aluno – como ter alguma garantia de que o déspota é verdadeiramente esclarecido? Como evitar que o despotismo resvale para a tirania?
    - Pois é – retrucou o Wanderley, com uma voz irônica – esse é o grande problema… Infelizmente, ninguém ainda conseguiu solucioná-lo. Enquanto isso… (suspirou) … não temos remédio. Fiquemos com a democracia mesmo…

  2. Rodrigo Medeiros disse:

    O IUPERJ é um patrimônio intelectual brasileiro. Deve ser preservado. Por que não fazer uma estatização? É moda no mundo anglo-saxônico para preservar organizações nacionais tidas como relevantes.

    Tenho algum receio quanto à figura da Organização Social tão defendida pelo professor Bresser-Pereira para a prestação de serviços científicos e tecnológicos.

    Achatam-se salários a partir da contratação de celetistas e os docentes acabam sendo submetidos a uma sobrecarga de trabalho insustentável do ponto de vista da excelência? Que tal um olhar mais atento para o que se passa no sistema de saúde paulista? Haverá problemas quanto à prestação de contas perante os órgãos competentes?

    Não sei as respostas. Ainda…

  3. Eduardo Viveiros de Freitas disse:

    Lamentável. A solução da OS é interessante. Desde que o IUPERJ se comprometa com contrapartidas para a sociedade que lhes pagará os custos. Por exemplo: boletins de análise de conjuntura para blogs cadastrados no Instituto, sites e TVs públicas. Elaboração de publicações voltadas a todos os níveis de ensino sobre Ciência Política, Cidadania, Democracia, funcionamento do Estado, Partidos Políticos etc para serem utilizados na rede pública e privada. Os alunos do Institutos devem oferecer minicursos, palestras e conferências em escolas públicas e privadas. O esforço deve ser o de popularizar e democratizar o conhecimento científico na área, para que a Política deixe de ser assunto de “especialistas” como os que infestam a mídia nativa. Pluralidade, diversidade de pensamento, projetos e ideologias, para que a sociedade conheça a riqueza do pensamento político brasileiro e universal. Sair da torre de marfim, descer à planício. Isso vale para todo e qualquer instituto ou universidade que precise de financiamento público. República já! Salve o Iuperj!

  4. General Hans disse:

    O dinheiro deveria ir para Matemática, Física, Química, BIologia, Medicina, Engenharias, Ética, Línguas, Contábeis e Jurídicas. Ciências exatas e biomédicas com alta qualidade, laboratórios e bibliotecas tecnocientíficas. Ciência desde o ensino básico.
    Humanas e artes deveriam ser cursos livres e particulares.
    Opinólogos somos todos e o William Waack teria convidados mais variados e com opinióes mais diversas.
    Lula é melhor sociólogo que FHC pelo simples fato de ser um torneiro mecânico. Sua formação custou bem menos para os cofres públicos que a “formação” do empolado doutor.

    • Anarquista Lúcida disse:

      Céus! Que falta de visao. Um país nao se forma só com tecnologia. Necessita tb de cultura e de pensamento.

  5. Bruno Moreno disse:

    A idéia da OS é ruim. Não pode em tempo algum uma universidade privada ser financiada diretamente por dotações orçamentárias e não ser pública. Se querem fazer alguma coisa para salvar o IUPERJ, que o tornem incorporado a uma universidade pública.

  6. Aurea Mota disse:

    Caro Luis, obrigada por dedicar parte de seu tempo a causa tão importante. Esse tema da crise do IUPERJ deve sim fazer parte da agenda pública nacional. O governo não pode ficar imune ao sério problema que coloca em risco um dos melhores institutos de pós-graduação e pesquisa em ciências sociais (sociologia e política) que existe atualmente no Brasil. Espero que suas sábias e palavras sobre o tema ecoem para além da esfera pública virtual e cheguem aos ouvidos de pessoas que podemo fazer com esse momento seja superado.
    Mais uma vez, muito obrigada!

  7. joão p. disse:

    Os estudos publicados pelo Observatório Político Sul Americano, da IUPERJ, disponíveis na internet, ajudaram pra caramba a fazer vários trabalhos e pesquisas, contribuiu decisivamente para meu TCC. Encontrei trabalhos de qualidade lá, reunidos, sem os quais seria dificílimo fazer uma pesquisa sobre América do Sul.

  8. Leo V disse:

    O Estadão nao perder a chance de colocar a frase: “os 200 alunos(…) não pagam mensalidades”. Pro Estadão, tem que cobrar mensalidade obviamente.

  9. Jairo Luis Brod disse:

    Com o fim de preservamos a flor tenra da democracia, precisamos encontrar uma saída para o Iuperj!
    Já imaginou uma ‘débâcle’ dos institutos de pesquisas sociais do País? Adeus pluralidade de pensamentos. Como relata o leitor “Diotima”, estará aberto o caminho para a tirania. Nem mesmo um déspota esclarecido talvez consiga reverter a situação, que dirá uma democracia fragilizada! Uma das providências é a sociedade civil fazer um ‘barulho’ a respeito da situação do Iuperj. Precisamos mostrar a todos que nos importamos com aquela Instituição, que ela tem um importante papel a desempenhar no fortalecimento de uma sociedade aberta e multifacetada. A título de exemplo, da minha parte, estou escrevendo discurso (minha função profissional) e preparando artigo para divulgação entre servidores e deputados do Legislativo Federal. É pouco, mas como recente beneficiário da excelência iuperjiana é o instrumento que me ocorre tocar agora para essa ‘Sinfonia Interrompida’.

  10. Bruno3 disse:

    Mais grave é o caos promovido pela gestão do Candido Mendes na secular escola de graduação, que cobra mensalidades altas.

    Segue abaixo a carta do Prof. Miguel Baldez, militante histórico das causas populares no Rio de Janeiro, ex-procurador do Estado do Rio de Janeiro, referência na luta dos trabalhadores rurais sem-terra, processualista respeitado, homenageado com as Medalhas Chico Mendez (Grupo Tortura Nunca Mais), Tiradentes (Alerj, por indicação do deputado Alessandro Molon) e Pedro Ernesto (Câmara do Rio, por indicação do vereador Eliomar Coelho), que agora sofre a perseguição do Candido Mendes:

    ———- Forwarded message ———-
    From: PROCAM
    Subject: CARTA ABERTA PROF. BALDEZ

    À Comunidade Universitária e Entidade de Direitos Humanos

    Venho denunciar as práticas fascistas que o professor Cândido Mendes pretende estabelecer dentro desta Universidade, a todos comunicando que contra mim será instaurado inquérito disciplinar pelo fato de ter relatado em Audiência Pública na ALERJ, por designação da PROCAM, nossa associação, as razões e os efeitos da crise em que se encontra a Faculdade de Direito – Centro como consequência da má administração de sua Reitoria.

    Atente-se em que, convidado, o Sr. Reitor, desprezando a iniciativa da instituição parlamentar, não compareceu, nem mandou representante. Ao contrário, pediu ao Senador Cristóvão Buarque, seu companheiro na SBI, mantenedora da UCAM, que intercedesse (?) junto ao Deputado Paulo Ramos. Com que objetivo não se sabe, mas seria bom e salutar que o dito Sr. Senador, homem ligado à educação, explicasse ao Sr. Reitor o sentido e os compromissos da educação superior.

    Ao invés de comparecer à Assembléia, o professor Cândido Mendes preferiu dar guarida à destemperada e tosca denúncia (?) feita contra mim pela chamada Câmara de Ensino, Extensão e Atividades Acadêmicas – CEAC, cuja redação o Sub-Reitor Acadêmico Sérgio Pereira da Silva, certamente para preservar a indenidade lingüística de seus pares, atribui ao Sr. Rogério Tupinambá.

    Causou-lhes impacto e revolta o meu relatório, mas não há nele qualquer novidade. Disse eu, como aliás, deve estar transcrito nos Anais da Assembléia, que o Sr. Reitor não cumpre suas obrigações trabalhistas nem, tampouco, os princípios fundamentais da ética: alimentar-se e morar, principalmente quanto aos trabalhadores de menor salário.

    Disse também que a imposição do sistema de “aulões” (apenas uma aula de três horas por semana), a todas as unidades, à exceção da Faculdade de Direito – Centro, é antipedagógico, servindo apenas para reduzir o salário do professor em 25% e transformar o aluno em mero cliente de uma mercadoria empobrecida e desqualificada.

    Mas a resistência de professores, funcionários e alunos vai constituindo, no curso da nossa história acadêmica, uma sólida caravana ética cuja força, espero eu, acabará por garantir à Faculdade de Direito – Centro, além da sobrevivência, a utopia de seu compromisso com o ensino do direito no Rio de Janeiro.

    Enfim, senhor Reitor e senhores integrantes dessa solene Câmara de Ensino, Extensão e Atividades Acadêmicas, “quebra de confiança acadêmica e vilipêndio da imagem da UCAM”, é mistificar, como fazem vocês, com “aulões e aulinhas”, o ensino superior dos cursos jurídicos.

    Rio, 24 de novembro de 2009.

    Miguel Lanzellotti Baldez
    Professor

  11. Karine Fernandes de Carvalho disse:

    Ingressei no mestrado do IUPERJ em 2001permanecendo nesta instituição até meados de 2003 e essa crise já estava instaurada. Mas o que me fez constatar que havia escolhido a instituição certa para construir a minha trajetória acadêmica foi o fato de que os professores em momento algum deixaram transparecer as dificuldades e mantiveram a excelência dos seus cursos.

  12. Ricardo de João Braga disse:

    Associo-me àqueles que desejam ver preservado o IUPERJ: sua história, seu corpo de professores, os serviços que presta à sociedade brasileira. Ele é sem dúvida um centro de referência nos estudos sociais brasileiros, e pensar a sociedade é obrigação de todo povo que tenciona se desenvolver. Precisamos é de mais instituições como ele, a fim de ajudar o Brasil a entender melhor seus conflitos, seus desafios e as opções que pode e deve tomar.

  13. anderson b. costa disse:

    O problema de se tornar orgão vinculado do estado é que o instituto vai pesquisar em prol do papai-estado -o que ja faz teoricamente com alguns de seus quadros – ou vai buscar apoio do grande capital odebrecht, petrobras, vale, que ja financiam iniciativas nesse sentido no campo das ciências exatas, inviesando os estudos e silenciando na critica. tomara que o instituto se mantenha sem seguir nenhuma das duas pessimas tendencias

    esse aqui abaixo é puro fascista
    General Hans disse:
    30/11/2009 às 10:16

    O dinheiro deveria ir para Matemática, Física, Química, BIologia, Medicina, Engenharias, Ética, Línguas, Contábeis e Jurídicas. Ciências exatas e biomédicas com alta qualidade, laboratórios e bibliotecas tecnocientíficas. Ciência desde o ensino básico.
    Humanas e artes deveriam ser cursos livres e particulares.
    Opinólogos somos todos e o William Waack teria convidados mais variados e com opinióes mais diversas.
    Lula é melhor sociólogo que FHC pelo simples fato de ser um torneiro mecânico. Sua formação custou bem menos para os cofres públicos que a “formação” do empolado doutor.
    Responder

  14. Daniela Tranches de Melo disse:

    Realmente é necessário uma mobilização da sociedade na tentativa de se preservar o IUPERJ. Não só pela importância de suas pesquisas, como por desenvolvê-las de forma diversificada e democrática (afinal, a ausência de mensalidades que alguns tanto criticam é o q possibilita que muitos alunos possam estar na instituição). Qual será a solução eu não sei, mas o problema ainda existe e precisa ser visto com cuidado.

  15. Daniela Tranches de Melo disse:

    PS: realmente o comentário sobre as ciências humanas e artes beira o fascismo.

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