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13/11/2009 - 10:01

Eles quase quebraram o país

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Henrique Meirelles, Mário Torós e Mário Mesquita, do Banco Central.

Belíssima matéria de Cristiano Romero e Alex Ribeiro, no Valor de hoje, sobre a corrida bancária na crise do ano passado. Some-se a matéria de ontem da Raquel Ballarin sobre o ataque especulativo de que foi alvo o Unibanco, no mesmo período (clique aqui para ler a matéria).

O curioso da matéria é que ela foi feita em cima de Mário Torós, personagem central da crise, com ele relatando como quase salvou o país. Irresponsáveis que quase jogam o país na maior crise da sua história.

Toda essa jogatina desenfreada, patrocinada pelo BC, foi relatada aqui no Blog.

Primeiro, o banco permitiu a apreciação desmedida do real.

Depois, para compensar os grandes exportadores, instituiu o “swap reverso”, uma excrescência que permitia aos exportadores ganhos financeiros sempre que o real se apreciava. Ou seja, perdiam no operacional, mas ganhavam no financeiro. Com isso, o BC colocava todas as forças da economia – mercado financeiro e grandes empresas exportadoras, na mesma linha de apreciação da moeda. Quem bancava o ganho financeiro da especulação? O BC, é claro. Ou, melhor, o Tesouro. Ou melhor, todos os contribuintes.

No dia 3 de junho de 2008 – antes da crise, portanto – na coluna “O escândalo do swap reverso” alertei para essa leviandade:

O Ministério da Saúde está em uma luta insana para obter R$ 20 bilhões adicionais, que garantiriam a universalização do acesso a medicamentos no pais.

Do ano passado a maio deste ano, a mesa de operações do Banco Central, com apenas uma operação – o “swap reverso”, operação no mercado de derivativos — deu um prejuízo de R$ 10 bilhões ao Tesouro, e um lucro correspondente ao sistema bancário.

(…) Suponha-se a situação inversa: uma crise cambial que provocasse uma enorme desvalorização do real. Pelas quantias envolvidas no “swap cambial” haveria o risco concreto de uma crise sistêmica, obrigando o BC a intervir no mercado para salvar as instituições. O BC está agente de criação de futuros riscos sistêmicos.

É bom que os operadores do BC se dêem conta. Estão atuando contra o Estado brasileiro, queimando dinheiro público. Essa operação tem contornos que permitem desde a abertura de uma CPI até de um inquérito por parte do Ministério Público.

O BC criou o epicentro desse jogo especulativo com derivativos. Induziu todos os grandes grupos nacionais não-financeiros a entrar nesse jogo. No rastro, grandes bancos estrangeiros trouxeram operações similares com derivativos internacionais. Criou-se uma jogatina desenfreada. Quando a crise explodiu, as incertezas quanto ao tamanho do rombo ameaçaram arrastar todos de roldão, não apenas bancos pequenos e médios, muito alavancados, mas até o Unibanco – conforma mostrou a matéria da Raquel Ballarin – apesar de sua posição sólida.

Mesmo nesse quadro de intenso tiroteio, esses irresponsáveis ainda seguraram os juros nas alturas. Aliás, a matéria conta que Henrique Meirelles quase foi demitido – o que absolve a Carta Capital da capa que fez dando conta de sua demissão.

O que era para dar margem a uma CPI, a um inquérito da Polícia Federal e do Ministério Público, vira uma auto-louvação na boca dos dois Mários – os mesmos que, em sucessivas entrevistas em off para o mesmo Valor – ameaçaram o governo com demissão coletiva em plena crise. Se não fosse a atuação rápida da Fazenda, a crise teria sido um terremoto, e não uma marola.

Mereciam duas medalhas: um inquérito do MPF por irresponsabilidade na condução da política monetária; e um troféu Burrice por virem, agora, chamar a atenção pública para sua irresponsabilidade.

Desde fins de 2007 vinha alertando aqui que a política cambial era o maior fator de risco do governo Lula. Espero que aprenda para 2010.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crise Tags: , , , ,

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111 comentários para “Eles quase quebraram o país”

  1. Pelo que li na matéria do Valor, a iminência de demissão do Meirelles teria ocorrido em Março/Abril de 2008.

    A matéria da Carta Capital, caso eu não esteja enganado, foi publicada no final de 2008.

    Gosto da Carta, mas essa matéria da revista foi um bola fora dos grandes.

  2. Roberto São Paulo/SP disse:

    Creio que é preciso lembrar que o G-20 realizou um aporte de mais de 1 Trilhão de dólares ao FMI em abril de 2009, afastando o risco de falta de liquidez para os pais com necessidade de financimento das contas externas.

    Boa parte da atual queda do dólar no Brasil se deu em função da demora do BACEN em se ajustar a esta nova realidade da liquidez internacional proporcionada pelo aporte de mais de 1 trilhão de dólares do G-20 ao FMI, principalmente na resistência ao retorno do IOF para investimento estrangeiro em renda fixa defendido pelo Ministério da Fazenda.

    Além disso deveria ter sido mais agressivo nas compras de dólares no mercado à vista, principalmente quando se iniciou o processo de recuperação da economia brasileira.

    O Nosso problema é o COPOM.

    • Roberto São Paulo/SP disse:

      G-20 anuncia plano de US$ 1,1 tri e maior controle financeiro
      Líderes confirmam acordo para triplicar o capital do FMI e aumentar a vigilância sobre fundos e paraísos fiscais
      Lourival Sant?Anna, LONDRES, O Estado de S.Paulo, Sexta-Feira, 03 de Abril de 2009
      As 20 maiores economias do mundo – representadas por 19 países desenvolvidos e emergentes e pela União Europeia – confirmaram ontem um pacote de US$ 1,1 trilhão para irrigar a economia mundial. Os líderes do G-20 prometeram triplicar o capital do Fundo Monetário Internacional (FMI) de US$ 250 bilhões para US$ 750 bilhões, com o aporte imediato de US$ 250 bilhões pelos países-membros e mais US$ 250 bilhões em Direitos Especiais de Saque (SDR, na sigla em inglês), equivalente à emissão de uma moeda, para reforçar as reservas dos países necessitados.

      Para chegar a US$ 1,1 trilhão, o FMI vai captar mais US$ 500 bilhões em Novos Arranjos para Empréstimos (NAB, na sigla em inglês) de países-membros e instituições. Outros US$ 100 bilhões deverão vir de captações no mercado, que ficarão disponíveis para os bancos multilaterais de desenvolvimento.

      Além disso, o FMI também poderá vender parte de seu ouro para emprestar US$ 6 bilhões a países pobres………………

      http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090403/not_imp349243,0.php

      .

      • Ivan Moraes disse:

        (Uma pessoa que deveria ser mais falada e nao eh: Lourival Sant’ana. As poucas analises dele que ja vi foram reproducoes no OI, e ele eh uma fera! Pudera, ta escondido no estadao!)

  3. Scooby disse:

    Torós está de saída. Sai ainda neste ano.

    A matéria é um adeus via promoção pessoal e tentativa de releitura dos fatos.

    A administração Toros-Meirelles produziu uma enorme bolha cambial, daí a tentativa de dar outra versão para encobrir a barbeiragem.

  4. José AIRTON de AMORIM disse:

    Caro Nassif; amigas e amigos,

    Tenho uma opinião formada quanto a mercados especulativo. Sou contra a jogatina financeira, a ficção dos papéis, que se “configura” como algo palpável. As invencionices tresloucadas, vezes sem pé nem cabeça. Deveria haver regulação capaz de lhes impedir, ou permitir apenas o razoável.
    Mas, confesso, devo ser um ignóbil, em matéria de mercado financeiro.
    Mesmo assim, permito-me meter o bedelho nessa seara, porque, ao ver o jogo jogado, acho que os operadores do mercado, no caso, tanto o BC quanto Governo e Fazenda, deveriam todos estarem de parabéns. Não consigo “enxergar” onde houve falha. Ao contrário do que “sustenta” o Nassif, que parece estar descrevendo uma catástrofe, o que houve foi uma verdadeira batalha vitoriosa, numa guerra cujo adversário continua vivo e retornará, mas essa é outra história… e serão outras batalhas…

  5. José AIRTON de AMORIM disse:

    Caro Nassif; amigas e amigos,

    Tenho uma opinião formada quanto a mercados especulativo. Sou contra a jogatina financeira, a ficção dos papéis, que se “configura” como algo palpável e as invencionices tresloucadas, quase sempre sem pé nem cabeça, apenas um acordo de cavalheiros que nada têm a perder, jogam com o dinheiro dos outros. Deveria haver regulação capaz de lhes impedir, ou permitir apenas o razoável.
    Mas, confesso, devo ser um ignóbil, em matéria de mercado financeiro.
    Mesmo assim, permito-me meter o bedelho nessa seara, porque, ao ver o jogo jogado, acho que os operadores do mercado, no caso, tanto o BC quanto Governo e Fazenda, deveriam, todos, estar de parabéns. Não consigo “enxergar” onde houve falha. Ao contrário do que “sustenta” o Nassif, que parece estar descrevendo uma catástrofe, o que houve foi uma verdadeira batalha vitoriosa, numa guerra cujo adversário continua vivo e retornará, mas essa é outra história… e serão outras batalhas…

    LN, desconsidere o texto anterior de mesmo conteúdo, que corrigi alguns erros.

  6. Marcos Gomes disse:

    É o que sempre digo, a maior crítica que o governo Lula poderia receber da oposição, seria na Gestão do BC e do BNDES, mas essa o PIG não banca, pois ganha junto.
    Por isso, ficam sem disrcurso, mas se a Marina pegar um caminho à esquerda e bater nisso complica. Ah complica… Quem viu a matéria do Helio Fernandes hoje na Tribuna da Imprensa on line, sabe o que eu estou falando.

  7. evandro condé disse:

    Nassif, interessante a análise-eu que entendo lhufas de economia, tento entender alguma coisa. Interessante também que teve alguem que fez uma leitura diferente da tua (laguarfa 11:36). Infelizmente não possuo elementos para discutir. Entretanto fica evidente que, não importa o governante, nenhum faz o mea culpa.

  8. Eduardo Ramos disse:

    Imperdoável, com 80% de popularidade, Lula permitir que o Brasil corresse tantos riscos… É por essas e outras, que mesmo adorando seu Governo, vou de Ciro Gomes, e não de Dilma…

  9. Morais disse:

    O swap reverso visto de forma isolada pode resultar em questionamentos como os que não podem isentar Lula. O swap reverso pode ser visto de outra forma como a continuidade de uma política de Estado de contrução de um sistema financerio nacional nos moldes do modelo americano, que impulsionaria o desenvolvimento, assim como o projeto industrialista tentou fazer a partir dos anos 30.
    Os primórdios vem da ditadura, mas o projeto tomou vulto no pós-Sarney, com o paradigma neoliberal: dê-me um sistema financeiro livre e robusto e lhe daremos o “desenvolvimento sustentável” (na formulação de Malan, não dos ambientalistas, ou seja, sem inflação e crise).
    Assim como no desenvolvimentismo industrializante nunca se gastou tanto dinherio público para se sustentar o projeto e seus fundamentos do “mercado financeiro livre”. No caso do
    último, câmbio livre e liberdade de movimento de capitais só pode existir enquando o Estado (o BC) banca os riscos que os bancos nacionais não podem fazer, não porque sejam pequenos, mas porque não participam da formação dos movimentos cambiais das moedas predominantes.
    Sem swaps, reversos ou não, não há como manter o câmbio flutuante em países periféricos. A oscilação é incontrolável sem ter a Viúva para pagar os riscos.
    O primeiro problema do Governo Lula é que, como toda a sociedade, não consegue enxergar a necessidade da “flutuação da moeda” como um projeto político e não como uma necessidade da natureza. E o segundo é que, mesmo que enxergasse sua “artificialidade”, não conseguiria arranjar forças para interromper sua continuidade. A China, cuja história e estrutruras lhe deram um outro Estado, não está nem aí para isso e vão muito bem obrigado (mas não é simplesmente uma questão de vontade para fazer o mesmo aqui).

    • Câmbio flutuante é necessidade da Natureza ou é Projeto Político ?

      Câmbio é troca de uma moeda por outra e moeda é dinheiro legal em algum lugar.

      E projeto político, o que é ? Depende de que ?

      Como se vê, fica praticamente impossível se determinar com precisão o que quer dizer as frases do Morais, mas para ele servem para a conclusão de que não se pode baixar os juros pornográficos que exploram o Brasil.

      Para baixar os juros basta ter vontade, encrenca, como os outros já colocaram aqui nesta mensagem, já existem para várias gerações, não vão ser os nossos juros baixos que irão produzi-las.

      Basta ter vontade política para acabar com a farra, a hora é essa.

  10. Li o artigo no Valor, relato de bastidores mesmo.

    Fico pensando, por que depois do apagão resolveram contar esta história ?

    Ainda mais, está pela metade, pois no caso do Unibanco, o Meirelles estava em Wahsington para resolver o problema que a quebra da AIG, a controladora do Unibanco , tinha causado.

    De toda forma, algum significado que escapa a minha compreensão deve ter.

    Será que vêm bomba por ai ?

  11. Jorge Verissimo Pereira disse:

    Falando em BC, ha um tempo atras nao tinha um projeto no congresso que dizia respeito a aplicar o codigo de defesa do consumidor para bancos tambem e o BC era contra? Vi esta materia no NYT sobre a pressao do congresso americano para impor normas aos bancos e criacao de uma agencia que tiraria certos poderes de fiscalizacao do BC (seria transferido para esta agencia). http://www.nytimes.com/2009/11/13/business/13regulate.html?_r=1&hp.

    E como anda a proposta ai de regulamentacao dos bancos brasileiros na sua adequacao ao codigo de defesa do consumidor.

  12. JR Lemos disse:

    Nassif.

    Nessa do swap reverso, dancaram Aracruz e Sadia, duas empresas ícones nacionais. A VCP só nao foi junto, porque o BNDES segurou as pontas.

    Sds
    JRLemos

  13. EDSON MEDEIROS disse:

    Parece que o Torós “rodou” e justamente por conta da entrevista acima …

    Do blog do Guilher de Barros

    Circulam rumores de que Torós estaria saindo do BC

    São fortes os rumores de que Mário Torós, diretor de política monetária do Banco Central, estaria deixando a instituição. A entrevista publicada hoje no Valor deixou Torós numa situação muito desconfortável. Dentro do governo, a saída de Torós é considerada uma questão de tempo.

    http://colunistas.ig.com.br/guilhermebarros/2009/11/13/circulam-rumores-de-que-toros-estaria-saindo-do-bc/

  14. Clever Mendes de Oliveira disse:

    Luis Nassif,
    Você me traz um texto quilométrico do Cristiano Romero e do Alex Ribeiro. Lembro do nome Alex Ribeiro, mas não me recordo de quem é. É difícil ler um texto deste tamanho sabendo que é de Cristiano Romero. Há muitas datas, muitas declarações, muitas informações sobre o dólar. Quem desconfia teria que conferir tudo. As vezes ele não faz amarração de datas com declarações, e eu não tenho onde conferir.
    É um texto e tanto realmente, mas preso por desconfianças, o texto fica fatigante. Não gosto de Cristiano Romero. Tive oportunidade de dizer isso em comentário que enviei para o post aqui no seu blog intitulado “BC X Fazenda” de 07/10/2009 às 14:00 feito para dar destaque ao artigo do Cristiano Romero no Valor Econômico “As razões do Banco Central e da Fazenda”. O título parece igualar Banco Central e Fazenda. O conteúdo, entretanto, é crítico ou da Fazenda ou de Lula, mas no caso não a Lula, mas à Fazenda. Havia enviado um comentário em 7/10/2009 às 21:26 para junto do comentário de João Carlos enviado em 07/10/2009 às 14:21 fazendo críticas ao artigo. Posteriormente o comentarista Jotapê em comentário de 07/10/2009 me fez um elogio e eu respondi em 08/10/2009 às 9:29 em agradecimento e complementei meu comentário anterior mencionando uma antiga resistência que eu tinha a Cristiano Romero.
    - – - – - – - – - – - – - -
    “Agora, pode ser que eu tenha alguma resistência ao Cristiano Romero e tenha carregado nas tintas. E essa resistência é antiga. Uma vez, o Rolf Kuntz fez uma crítica ao governo a partir de um artigo do Cristiano Romero. Eu aproveitei para criticar os dois. É crítica de leigo, mas que eu gosto de repercutir. Aproveito e retiro parte de um comentário que enviei em 28/09/2009 às 13:54 para o post aqui no blog do Luis Nassif intitulado “O manjado jogo dos juros altos” de 28/09/2009 às 12:50 em que eu faço menção aos artigos do Rolf Kuntz no Observatório da Imprensa. É o que se segue:
    “Sempre que tenho oportunidade faço críticas à visão econômica da inflação. E a falta de percepção que, no Brasil, o Banco Central não é autônomo na questão da inflação. Isso pode ser visto em uma série de comentários que eu mandei para o Observatório da Imprensa junto ao post “Os juros, a inflação e o comício” de 22/04/2008 e de autoria de Rolf Kuntz.. E há um comentário um ano mais antigo enviado também para o Observatório da Imprensa junto ao post “A fascinante história da meta única porém múltipla” de 03/07/2007 também de Rolf Kuntz em que eu, sem saber que o Regime de Metas de Inflação” era o “ultra plus ultra” da academia para a teoria monetária (Vim saber sobre isso nos bons escritos do economista José Luis Oreiro) ridicularizei o Regime de Metas de Inflação a partir do próprio conteúdo da análise de Rolf Kuntz e do posicionamento do governo em relação à meta para 2009 que o Rolf Kuntz tanto criticava”.
    Nessa passagem eu não mencionei o Andre Araujo com quem eu aprendi muito sobre o Regime de Metas da Inflação. Entretanto, enquanto o Andre Araujo fez um apanhado um tanto acrítico do Regime de Metas da Inflação o José Luis Oreiro apresenta o Regime de Metas de Inflação como um avanço teórico da doutrina sobre o combate à inflação.”
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    Deixei essa passagem sobre o Andre Araújo para destacar que, embora ele algumas vezes dê umas pisadas na bola, é uma das minhas boas fontes de conhecimento aqui no seu blog.
    Enfim, o Brasil sofreu um ataque especulativo em dezembro de 2008. Foi isso mesmo? Henrique Meirelles por pouco não foi demitido às vésperas de o pais ser arrastado pela turbulência internacional. É isso mesmo? Se o que se diz na reportagem do Henrique Meirelles (Meirelles, quase demitido por causa da elevação dos juros, acabou ficando e pôs sua experiência de ex-banqueiro e contatos no mercado a serviço da gestão da crise no Brasil) for verdade, eu terei de reformular aquela máxima minha de que o Henrique Meirelles é presidente do Banco Central para inglês ver (Quero dizer que é vê-lo como presidente e não dizer que é o Banco Central que é para inglês ver) ou para quem se toma por inglês. Ele foi importante porque tinha contatos. Deve ter passado uma lista de telefones de ingleses que o tomam por presidente do Banco Central.
    Tudo mudou em 14 de setembro de 2008. É, foi a partir daquela data. Ironicamente Meirelles quase foi demitido na véspera da fase mais aguda de crise internacional. Véspera? Que véspera? Em abril o Copom promoveu o primeiro aumento de juros em três anos. . . . Lula chamou Belluzzo para uma conversa e fez uma sondagem. . .. Diante das pressões da Fazenda, Meirelles num domingo de abril de 2008 entregou o cargo. Para a surpresa de Meirelles Lula disse: “Esquece esse troço”. No ano seguinte Belluzzo vira presidente do Palmeiras.
    Não dá para ler essa história até o fim checando a veracidade dela.
    O ataque especulativo foi dia 05/12/2008. Dia 03 a taxa diária foi 2,47. Dia 04 foi 2,53; dia 05 foi 2,47 e dia 08 foi 2,50. A estratégia do especulador era levar a R$3,00. Como o especulador ia ganhar não se disse.
    A resistência do BC e do presidente da República em queimar reservas era mantida em segredo dentro do governo. Mas em 06/10/2008, uma segunda-feira, o ministro Guido Mantega disse, em entrevista, que Lula proibira o BC de gastar reservas. O efeito no mercado foi imediato. A cotação do dólar saltou de R$ 2,19 para R$ 2,45 em menos de 48 horas. Torós fez seu diagnóstico definitivo: era preciso vender dólar. Henrique Meirelles foi pessoalmente pedir autorização a Lula, na manhã de 8 de outubro.
    As cotações que se tem para o dólar nesse período são: 06/11/2009 a 2,19; dia 07/10/2009 as 2,31, dia 08/10/2009 as 2,30; dia 09/10/2009 as 2,19 e dia 10/10/2009 as 2,31. Talvez o Mantega tivesse interesse que a cotação do dólar subisse mais um pouco e deu o sinal. De todo modo, não foi tão grave como se deixa transparecer, a não ser que se pretenda dizer que Mantega é um irresponsável, ou então não sabe de nada, afinal ciente do segredo revelou-o. Evidente que a opção mais razoável é que ele revelou o segredo como estratégia. algo como, eu digo que não vende, eles vêm a você pedir para vender, você permite e eles se sentem fortes.
    Poderia também voltar a criticar os seus artigos críticos ao Banco Central. Para mim o Banco Central com o swap reverso produz liquidez para economia. Produz liquidez com perda para o Banco Central. É função do Banco Central assegurar liquidez. Muitas vezes ele ganha com isso, outras vezes ele perde. Se ele tiver uma boa equipe saberá avaliar o custo benefício.
    Quanto às empresas que recebem o swap de mão beijada do Banco Central, elas precisam saber que não se trata de um jogo. Como pode-se depreender das entrevistas dos principais envolvidos com os swaps reversos com perdas muito elevadas eles estavam como crianças jogando e ganhando. Acabaram perdendo.
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 13/11/2009

  15. Lula sempre condenou a autonomia do BC quando estava na oposição, mas concedeu autonomia ao BC quando concedeu status de ministro a Henrique Meirelles para que o mesmo não depusse na Comissão de Assuntos Econônicos do Senado a respeito de denúncias surgidas contra Meirelles.

  16. luka disse:

    Guilherme Barros – mercado, economia e grandes empresas – iG
    sexta-feira, 13 de novembro de 2009 19:31
    Governo já cobra de Meirelles a saída de Torós

    Integrantes da equipe do governo já começaram a pedir a Henrique Meirelles a saída de Mários Torós da diretoria de Política Monetária do Banco Central. A entrevista concedida por ele ao jornal Valor repercutiu muito mal dentro do governo e a sua permanência se tornou praticamente insustentável. O que se alega é que não foi a primeira vez que Torós deu informações consideradas sigilosas pelo governo. Há pouco tempo, numa outra entrevista, ele deu pistas da política que o BC adotaria em relação ao câmbio ao dizer que a autoridade monetária não iria comprar dólares além do fluxo normal de divisas.

  17. Roberto São Paulo/SP disse:

    ‘Quem salvou o País da crise foi o povo’, diz Lula
    13/11 – 16:04 – Agência Estado/Último Segundo do iG
    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva atribuiu o mérito pela superação dos efeitos da crise econômica global ao povo brasileiro. Em discurso nesta sexta-feira na abertura do 9º Congresso Nacional de Iniciação Científica, na FMU, na capital paulista, ele destacou: “Quem salvou o País da crise foi o povo, as classes mais baixas, que consumiram o que tinham que consumir.”

    Na sua avaliação, o Brasil está preparado para crescer de forma contínua.

    “Isso não é a conquista de um governo, mas da sociedade que soube se comportar com muita dignidade durante a crise, sem entrar em pânico.”

    Enquanto isso, afirmou o presidente, líderes internacionais, como os dirigentes do Fundo Monetário Internacional (FMI) não sabiam como agir.

    “O FMI vivia dando palpite quando a crise era em outros países. Quando a crise foi no umbigo dele, não sabia de nada.”

    O presidente destacou, porém, que o crescimento do Brasil só será sustentado se incluir a distribuição de renda entre seus requisitos.

    “Não adianta crescer sem distribuir. Quebramos a máxima de que o aumento do salário mínimo é inflacionário.
    Há sete anos damos aumento real do salário mínimo e não há qualquer risco inflacionário”, disse.

    Lula aproveitou o discurso econômico para negar que seu governo tenha inchado a máquina pública, com contratações desnecessárias. “Temos hoje apenas 10 mil funcionários públicos a mais que em 1997″, disse.

    “Como esse País vai dar um salto na Educação sem contratar professores e na Segurança sem contratar policiais?” ………………….

    http://ultimosegundo.ig.com.br/economia/2009/11/13/quem+salvou+o+pais+da+crise+foi+o+povo+diz+lula+9087914.html

  18. Alexandre Leite disse:

    Mantega vai mostrar a Meirelles equívocos nas declarações de Torós

    http://colunistas.ig.com.br/guilhermebarros/2009/11/13/mantega-vai-mostrar-a-meirelles-equivocos-nas-declaracoes-de-toros/

    O ministro da Fazenda, Guido Mantega, vai mostrar a Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, uma série de equívocos nas declarações concedidas por Mário Torós, diretor de Política Monetária do BC, na entrevista publicada hoje no jornal Valor Econômico.

    Mantega ficou indignado com a afirmação de Torós de que uma declaração feita por ele teria sido o principal fator para a aceleração do dólar durante a crise do final do ano passado.

    Na entrevista, Torós afirma que, no dia seis de outubro de 2008, uma segunda-feira, o ministro Guido Mantega disse em entrevista que Lula proibira o Banco Central de gastar reservas.

    Segundo as declarações de Torós ao Valor, o efeito no mercado foi imediato. A cotação dói dólar saltou de R$ 2,19 para R$ 2,45 em menos de 48 horas. A consequência teria sido uma corrida bancária, que tinha se originado em outros países do mundo e atingira o Brasil.

    Mantega tem em mãos entrevistas concedidas por ele naquele mesmo dia, seis de outubro, que mostram exatamente o contrário. Ele colheu recortes de declarações publicadas pela Reuters na qual ele admite a piora da crise e afirma que o Brasil estava disposto a usar as reservas de forma inteligente para conter o terremoto financeiro.

    O ministro também teria dito inclusive, naquele mesmo dia, de acordo com os recortes, que o governo iria disponibilizar parte das reservas para financiar o comércio exterior do País. Conta também que as declarações de Mantega foram concedidas ao lado de Meirelles.

    Mantega deve apresentar nos próximos dias a Meirelles esses recortes para mostrar os equívocos das declarações de Torós, o que deve aumentar a pressão para a saída do diretor do BC.

    • Clever Mendes de Oliveira disse:

      Alexandre Leite (13/11/2009 às 22:01),
      Dê uma olhada no meu comentário enviado em 13/11/2009 às 19:21. Lá eu considero que, se não foi uma estratégia do governo revelar o segredo para pegar os especuladores no contra-pé, o culpado foi o Cristiano Romero.
      Clever Mendes de Oliveira
      BH, 14/11/2009

  19. Índio Tupi disse:

    Aqui no Alto Xingu, os índios republicam um post que colocaram em outubro de 2008 no blog, a propósito do colapso do capitalismo monopolizado pelas finanças, o qual, desde meados dos anos 1970 passou a se especializar na fabricação, não mais de mercadorias, mas, essencialmente, de bolhas alternativas em diferentes segmentos do mercado financeiro, em decorrência da ausência de oportunidades de investimento para o capital sobreacumulado.

    “”Depois de voltarem da pescaria, os índios estavam descansando e filosofando sobre a evaporação do sistema financeiro ocidental e seus efeitos radioativos pelo mundo inteiro, quando um curuminzinho referiu-se a uma indagação de Bertold Brecht — contida em um livro que encontrara boiando no rio — sobre se havia diferença entre fundar e assaltar um banco. Para essa questão, os índios até agora não deram resposta, mas, ponderaram que, se, às vezes, não podemos confiar até em nós mesmos, como os governos dos cidadãos puderam fiar-se em banqueiros liberados, eis que no passado, como bancos regulados, eram, por natureza, celerados? A essa ponderação, o curuminzinho observou: “Só se, com o tempo, tivesse havido uma simbiose entre eles, sob a dominância da tribo das finanças, e não fossem mais entidades à parte.” Ao que outro curuminzinho observou: “Como, então, deixar ao próprio governo rentista que engendrou a crise resolvê-la?” Ao que o pajé observou: “Certamente é para atribuir à tribo dos cidadãos o ônus do ajuste”. Ao que o primeiro curuminzinho observou: “Então, essa não é uma falsa solução?” “Certamente”, respondeu o pajé, acrescentando: “O sistema não pode contrariar sua natureza. A menos que seja mudado”

  20. Índio Tupi disse:

    Aqui no Alto Xingu, os índios recordam outro post da mesma época de outubro de 2008:
    “”"Os índios alertam que DEM/PFL constitui bancada do rentismo financeiro nacional e internacional. A estratégia oportunista de aproveitar a crise para enfiar goela abaixo da nação o projeto espúrio de concessão de independência ao BACEN não passa de artimanha para entregar a chave do Tesouro definitivamente à banca, que quer se locupletar mais ainda com a crise, agora que resolveu até fazer “greve branca”, recusando-se a repassar ao setor produtivo os recursos que recebeu do Tesouro para tal, preferindo, ao invés, aplicá-los em títulos do próprio Tesouro, auferindo elevada margem de lucro sem nenhum risco. A banca rentista quer, assim, com a espúria independência do Bacen, o monopólio do acesso aos recursos do Tesouro para aplicá-los em títulos do próprio Tesouro a uma taxa mais elevada. A independência do Bacen não passa da sujeição completa e definitiva da sociedade à ditadura do rentismo financeiro, que contará com acesso livre e desimpedido à arca do Tesouro, às custas das necessidades econômicas e sociais do povo brasileiro. Se a banca está em “greve branca”, compete ao governo forçá-la a entrar em atividade sob pena de intervenção, eis que é concessão de serviços públicos. Não podem fazer greve contra a autoridade que lhe concedeu carta-patente para o exercício de função pública. Simultaneamente, o governo poderia direcionar os recursos do Tesouro por meio dos bancos públicos e semi-públicos.

  21. Índio Tupi disse:

    Aqui no Alto Xingu, os índios transcrevem mais outro post que remeteram em outubro de 2008:

    “Os índios assistem maravilhados o clima de “Alice no País das Maravilhas” existente, quando o capitalismo de desastre de Wall Street, liderado por agentes duplos, dá uma rasteira não apenas na chamada democracia norte-americana mas no mundo dito civilizado por meio de uma bem-orquestrada bolha especulativa e, num passe de mágica, bate a carteira de todos os contribuintes, no montante incalculável de vários trilhões de dólares. Como explicar que todos os Congressos tenham cedido poderes sem a menor resistência? No caso dos EUA, a explicação está no exército de 42 mil lobistas que representam em Washington os financistas, as corporações e os poderosos. Alguns bancos, inadevertidamente, sairão machucados, o que é normal, mas dezenas de milhões de fanílias perderão suas moradias, dezenas de milhões de trabalhadores perderão o emprego e a aposentadoria, número incontável de pequenas e médias empresas ruirão, mas os bancos gigantes emergirão intactos, mais fortes, vitaminados pela gigantesca transferência de renda dos contribuintes, com o controle virtual dos governos e liberdade total do uso dos fundos públicos. A estratégia do “Capitalismo de Desastre” está documentada em livro de Naomi Klein: “A Doutrina do Choque: A Ascensão do Capitalismo de Desastre”. Essa “nova economia” gera lucros gigantescos da miséria alheia: guerras, catástrofes naturais, sanções comerciais, fissão de bolhas especulativas e desastres econômicos engendrados por 1% da população. Na ciclópica crise, os potentados conservadores de Wall Street têm prioridade de resgate, são os primeiros da fila e receberão vários trilhões de dólares, secundados pelos gastos com a segurança nacional e com a guerra no exterior, tudo a ser coberto com o desemprego, a redução de salários e a redução dos gastos com a previdência social. Mas, a mídia focará temas diversionistas, respostas religiosas e “bodes expiatórios”. Mas, alguém alegará: os EUA estão tomando dinheiro emprestado do exterior para cobrir o rombo. Têm dívida externa de US$ 11 trilhões. Ao que os índios respondem. Há muitos anos, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) nos EUA está sendo manipulado e, hoje, subestima a inflação real em cerca de 7% a.a. Ou seja, o país que tiver aplicando suas reservas internacionais em títulos do Tesouro norte-americano vem, há muitos anos, perdendo cifra monumental. Em dez anos perde a metade do capital. A mágica foi excluir cerca da metade dos itens de consumo da cesta de produtos que serve para apurar o índice. O objetivo original, inspirado por Michael Boskin e Alan Grrenspan, era reduzir os gastos com a previdência social: uma tunga nos trabalhadores locais. Na linguagem índígena, o IPC foi substituído pelo índice do custo de sobrevivência. Desde os anos 90 (era Clinton), as aposentadorias caíram em mais de 1/3. Daí para tungar os aplicadores do mundo inteiro foi um passo. Por isso, ali, dívida externa não é problema.

  22. alfredo machado disse:

    Nassif:
    Quando o governo federal pede a Henrique Meirelles pela saída de Mários Torós da diretoria de Política Monetária do Banco Central, em função desta entrevista ao jornal Valor, assina embaixo a sua displicência quanto às operações reconhecidamente danosas ao país, sob o argumento de que algumas das informações publicadas eram consideradas “sigilosas” pelo Planalto.

  23. Roberto São Paulo/SP disse:

    Tudo indica que a manutenção das políticas econômicas neoliberais pelo Governo do Presidente Lula fez parte do acordo para ampliar as alianças políticas e tentar vencer as eleições de 2002.

    Creio com a crise do política de 2005, para evitar o fim antecipado do mandato o comando da política econômica foi passado definitivamente para o BACEN,

    A ampliação das políticas sociais e a entrada de Ministro Guido Mantega mudaram o rumo do Brasil.
    O Ministro Guido Mantega aproveitou muito bem os monumentais erros do COPOM no final de 2008, para recuperar o controle da politica econômica.

    A saída de Henrique Meirelles está provocando uma intensa disputa pelo controle da polítca ecnômica.

    A rápida recuperação da economia brasileira e fim da defesa do livre mercado na economia internacional, estão criando uma oportunidade histórica para recuperar o BACEN como aliado na construção de um longo ciclo de crescimento do PIB.

  24. Índio Tupi disse:

    Aqui do Alto Xingu, os índios reproduzem outro post do início de novembro de 2008:

    “”"Os índios consideram que a principal exportação dos EUA no século XXI foi o empacotamento de empréstimos ao consumidor e de hipotecas habitacionais e a venda ao exterior sob a forma securitizada. Desde 2001, mais de US$ 27 trilhões — cerca de duas vezes o PIB — desses títulos foram vendidos, inclusive a bancos estrangeiros, sequiosos de imitarem a forma como seus parceiros norte-americanos lucravam. Não conseguiram exatamente o que queriam: do prejuízo global de US$ 1 trilhão nesse negócio, ficaram com cercas de 1/3. Segundo Stiglitz, a globalização parte da premissa de a cada minuto nasce um idiota e de que basta apenas procurá-lo nesse cenário globalizado, onde eles pululam. Na Europa, a securitização cresceu 6 vezes, passando de E 78 bilhões em 2000 para E 453 bilhões em 2007. Três bancos da Islândia tomaram empréstimos para comprar US$ 228 bilhões, a maior parte de títulos securitizados, tornando seu sistema financeiro um verdadeiro fundo de hedge. E a estória se repetiu em Estados da Alemanha, no Japão, na Austrália, etc. A securitização é um sistema bancário fantasma que financia a maior parte dos negócios com cartões de crédito, compras de automóveis, compras alavancadas e hipotecas de alto risco. O sistema reune créditos e reparte os riscos, tornando-os mais baratos. Criou uma cultura que os distribui de Seul a São Paulo a fim de permitir aos bancos aumentar seus lucros em 1/5 nos últimos 10 anos. A “securitization”, ou securitização, implica segurança, e os investidores com menos propensão a risco compram os títulos securitizados de classificação mais alta e recebem por primeiro os pagamentos de juros a taxas mais baixas. Os com maior propensão, recebem taxas mais altas, mas depois. Se o banco não puder ou não quiser vender um título desses, pode vendê-lo a um seu fundo fiduciário, chamado “Empresa de Propósito Específico (EPE)”, incorporado em um paraíso fiscal, o que lhe permite, por exemplo, conceder US$ 100 milhões em empréstimos, vender parte dos títulos correspondentes a investidores e transferir o resto à EPE, não tendo necessidade de ter maior volume de capital e com um lucro de cerca de 1,25% do montante emprestado. Por um passe de mágica, o banco pode conceder empréstimos sem ter capital. Lucra comissões sem capital. Negócio do futuro, divulgado em incontáveis seminários pelo mundo nos anos 80 e 90, inclusive por meio de um livro de Juan Ocampo e pelo consultor da McKinsey, James Rosenthal, entitulado “Securitization of Credit: Inside the New Technology of Finance”. Como vimos, a tecnologia serviu para criar uma arma de destruição em massa, amplamente disseminada pelos mercados financeiros com a complacência dos bancos centrais e a cumplicidade dos órgãos supervisores. De 1998 a 2008, os empréstimos aos consumidores nos EUA triplicaram para US$ 2,8 trilhões. Os bancos estrangeiros imitaram a cultura do endividamento. A coisa evoluiu em 1998 com a criação do primeiro “off-balance-sheet structured investment vehicle (SIV)”, ou “empresa de investimento estruturado fora das Demonstrações Contábeis (EIEFDC)”. O Citicorp concedeu um empréstimo, refinado como um título, posteriormente vendido à sua SIV com lucro. Depois o mesmo foi feito com notas de capital que proporcionavam lucro de 20% a.a. Os proprietários dessas notas auferiam todos os lucros em excesso quando os devedores cumpriam as obrigações, mas eram os últimos a serem pagos nas fases difíceis. No começo, os SIVs detinham apenas dívidas de nível A- ou mais altas e não assumiam risco de câmbio ou de taxas de juros. A partir de 2005, a securitização começou a recorrer ao mercado monetário de curto prazo para seu financiamento, principalmente para operações que envolviam a reunião de outras obrigações, conhecidas como obrigações de dívidas colateralizadas (CDC) ou CDO em inglês. Os mercados monetários eram os mais baratos para o financiamento, mas o mais perigoso porque o prazo de vencimento pode ser o dia seguinte, mas os lucros eram muito elevados. Enquanto em uma operação bancária tradicional se auferia 10 ou 20 pontos básicos, com os títulos, papéis comerciais e títulos garantidos por ativos de baixo nível os lucros eram 10 ou mais vezes mais altos. E, assim, de 2005 até 8.08.08, foram vendidos US$ 1,2 trilhão em ativos garantidos por papéis comerciais. Quando os fundos do mercado monetário começaram a ser convocados para esse financiamento, criou-se um monstruoso apetite para ativos de alto rendimento, muito mais do que poderia existir em bases seguras. Para atender à demanda, os bancos financiaram mais hipotecas de alto risco, com prazo médio de sete anos, em substituição ao financiamento de automóveis, de três anos, e os cartões de crédito, de 18 meses. Repentinamente, soou o alarme: os banqueiros tinham aprendido a evitar esse descasamento de recursos: o emprestador tinha que devolver o dinheiro antes que o tomador tivesse que pagar. O castelo de cartas começou a desabar no início de 2008 e até hoje o Tesouro e o FED norte-americanos já desembolsaram mais de US$ 1 trilhão. No Reino Unido, o Tesouro injetou US$ 64 bilhões em capital nas instituições financeiras locais e na Alemanha E 400 bilhões em garantias. Segundo Nouriel Roubini, esse é um desastre absoluto, que manchou significativamente a reputação dos |Estados Unidos como centro e líder financeiro. Na Europa, a venda de títulos garantidos por ativos caiu 40% no 2trim/08, para E 12,7 bilhões, e das ODC despencaram 2/3, para E 10 bilhões. Nos EUA, as obrigações hipotecárias emitidas por entidades não afiliadas ao governo caíram para US$ 10,8 bilhões no 1Sem/08, 1/20 do valor registrado no mesmo período de 2007. Os autores do livro referido antes, que inspirou a aventura financeira, mudaram de ramo. (continuação) Na reunião do American Securitization Forum, realizada em setembro passado, os banqueiros foram alertados de que o FASB planejava emitir regulação forçando o registro, nas Demonstrações Contábeis, dos US$ 10,7 trilhões de seus ativos, o que requereria níveis vultosos de capital. Seus negócios de juntada e venda de ativos já estavam afetados pela queda de 47% no 1o.Sem/08, e o setor não poderia sofrer outro golpe, segundo George Miller, Presidente do Forum, que defendeu essa posição em audiência no Comitê da Cãmara de Deputados, a fim de que fosse mantida uma regra contábil para os ativos fora-dos-balanços que ajudava os bancos a exportar dívidas tóxicas pelo mundo. Segundo o Dep. Democrata, Jack Reed, era uma falha que contribuiu “para a severidade da crise atual”. Prejuízo causado: mais de US$ 680 bilhões em perdas e baixas, dos quais 1/3 pelos bancos europeus. Esforços dos lobistas postergaram as regras do FASB e mantiveram partes fundamentais do sistema financeiro além do alcance dos órgãos supervisores, inclusive os derivativos de balcão, e persuadiram a SEC a reduzir as exigências de capital das corretoras/distribuidoras dos bancos de investimento. Isso lhes permitiu aumentar as tomadas de empréstimos e os lucros. Também não apertaram as normas dos empréstimos hipotecários. Continuou aberto o caminho para registrar essas operações em pontos escuros, fora das vistas dos acionistas e dos supervisores, tudo com a complacência do FED e da SEC A securitização se acelerou em meados dos anos 90. O total de títulos lastreados por hipotecas emitidas quase triplicou entre 1996 e 2007, para US$ 7,27 trilhões. Em 1998, Alan Greenspan, do FED, Robert Rubin, Secretário do Tesouro, e Arthur Levitt, da SEC, se opuseram à tentativa da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities, de Chicago, de estudar uma forma de regular os derivativos de balcão. Em 2000, o Congresso norte-americano aprovou lei mantendo essas operações fora do alcance da supervisão. Desde 2001, os “credit-default swaps (CDS)” pendentes — contratos de derivativos usados para proteger ou especular em relação a dívida de uma empresa — cresceram de US$ 62 trilhões paraUS$ 631 trilhões. Embora os swaps distribuam os riscos, esqueceram que eles também disseminam o terror. Cerca de 90% dos negócios estavam concentrados em 17 bancos, o que os deixava expostos caso algum fosse à falência, o que ocorreu com o Lehman em setembro. Em seguida, foi disparado o mecanismo de interrupção total do crédito. Ao depor no Senado em 21.10.08, Joseph Stiglitz, professor de economia na Universidade de Columbia e ganhador do Prêmio Nobel, afirmou: “Exportamos nossas hipotecas tóxicas para o exterior. Se não o tivéssemos feito, os problemas aqui nos Estados Unidos seriam muito piores.” Aqui no Brasil, o lobby tentou vender aos fundos de pensão a idéia de que investissem no exterior.”"”

    Recentemente, foi aprovada e ninguém pediu abertura de CPI…

  25. [...] O que a trinca Meirelles-Torós-Mesquita faziam no BC no pré-crise está muito bem contada no Blog do Luís Nassif, que conhece os bastidores da economia como poucos neste [...]

  26. Ayrom disse:

    O engraçado é que as falhas do nosso sistema econômico e financeiro atual sao regularizadas, quase sempre e cada vez mais, pelas medidas tomadas pelo Governo e financiadas, é claro, pelo povo. Deixar o mercado ditar as regras do jogo é como andar na Av.Paulista sem sinalizaçao e guardas de trânsito. E no final, quem paga a conta?

  27. José Almeida de Souza Jr. disse:

    Banco central “independente” é para isso mesmo. Solução: “estatizar” o BACEN e deixar de lado a política econômica restritiva (não apenas monetária, mas também fiscal) em vigor. Consenso de Washington é para o consumo dos parvos apenas! Parabéns pelo artigo!

  28. [...] sua coluna, Eles quase quebraram o país, Luís Nassif revelou como na verdade a ação do Banco Central, ao estimular o swap reverso (um [...]

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