iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade
12/11/2009 - 21:41

A Unicamp responde a Paulo Renato

Por Luiz Carlos

DIREITO DE RESPOSTA

Ao tentar defender a política meritocrática repaginada pela Secretaria de Estado de Educação de São Paulo, o Sr. Secretário da Educação Paulo Renato Souza atribui grande responsabilidade pelos problemas da escola aos professores e à sua formação, apontando as Faculdades de Educação, e nominalmente a Unicamp e Usp, pelos males da Educação do Estado de São Paulo.

Afirma o Sr. Secretário que a formação nesses cursos é muito teórica e ideológica, em que se defende a ausência de método e não se provê o professor de técnicas adequadas de ensino.

Não ingenuamente, o Sr. Secretário de Educação faz parecer que universidades públicas e privadas funcionam a partir dos mesmos princípios e condições, com os mesmos propósitos e a mesma qualidade, o que nem de longe corresponde à realidade.

Induz também a pensarmos que são as instituições públicas que formam a maioria dos professores do Estado, o que também não corresponde à realidade. No Estado de São Paulo, infelizmente, as universidades públicas paulistas são responsáveis por apenas 25% das vagas universitárias, contra 75% das privadas.

Vale dizer que essa discrepância não parte de uma opção das universidades públicas, mas foi produzida, nos últimos 15 anos, pela própria política de encolhimento do setor público e ampliação do setor privado que ele, então Ministro da Educação, ajudou a implementar.

Soa estranho, então, que a responsabilização pela suposta má formação dos professores recaia exatamente no setor minoritário, em termos numéricos, quanto à formação de professores.

Pior fica perceber que o ex-Ministro e atual Secretário de Educação do Estado desconhece os projetos e currículos dos cursos de pedagogia da Unicamp e Usp, pelos quais o Estado é responsável.

No caso do curso de Pedagogia da Unicamp, há mais de uma década temos defendido e trabalhado, como princípios norteadores de nosso currículo, a formação teórica sólida (da qual certamente não abrimos mão, já que formamos educadores e não técnicos), a pesquisa como eixo de formação, a unidade teoria-prática, sendo o nosso compromisso, como universidade pública, com a educação pública de qualidade para todos. Em nossa última reforma curricular, foi exatamente nas atividades de pesquisa e prática, e no estágio supervisionado, que logramos ampliar nossa carga horária e nossas experiências de formação.

Nada na nossa organização curricular e nos nossos planos de ensino aponta para a defesa do espontaneísmo e ausência de pesquisa sobre a prática, como afirma nosso secretário. Equivoca-se o Sr. Secretário ao confundir autonomia do professor, como intelectual que reflete sobre a própria prática e toma decisões, com ausência de método. Nossa ênfase na formação continuada a partir dos projetos pedagógicos das escolas, como trabalho coletivo, reforçam essa diferença.

Se pensar criticamente a realidade, conhecer os problemas do nosso país, dos nossos alunos concretos, dos nossos professores concretos, é visto pelo Sr. Secretário como “viés ideológico”, o que dizer da assunção de uma meritocracia cruel e desumana, que se assenta de forma alienada sobre as profundas desigualdades que marcam o nosso Estado e o nosso país, escamoteando e ocultando suas verdadeiras causas por meio do discurso falacioso da meritocracia? Não haverá também aí viés ideológico, e a questão não estaria na opção que fazermos, de nossa parte, por defender uma educação de qualidade para todos, e da parte do Governo do Estado, em manter a desigualdade entre a educação para o povo e a educação para as elites? Ou pretende o Sr. Secretário zombar da inteligência do leitor, querendo fazer crer que a política por ele desenvolvida é neutra, imparcial, desprovida de ideologia?

Apenas para ilustrar nosso compromisso e vínculo com a realidade e o cotidiano escolar, e a relevância do trabalho que realizamos, segundo dados fornecidos pela Assessoria de Imprensa da Unicamp, a pesquisa realizada nesta Universidade mais consultada neste ano de 2009 é da Faculdade de Educação e, talvez para surpresa do Sr. Secretário, trata de uma questão pungente da sala de aula: o ensino de matemática. Esse é apenas um exemplo dos estudos que realizamos e nossa produção aponta a intensidade do vínculo que estabelecemos com a escola pública, nas nossas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Além disso, o Sr. Secretário desconhece que o curso de Pedagogia da Unicamp foi reconhecido, durante os últimos anos, como um dos melhores do país.

Quanto à forma como encaramos a relação público-privado, vale salientar que, em muitos países em que dizemos nos espelhar, a educação pública de qualidade é um direito da população, as condições de trabalho e salário docente são garantidas sem a necessidade do apelo à alegoria do discurso meritocrático, e a maioria das vagas universitárias são públicas (como nos Estados Unidos e na nossa vizinha Argentina). E, para informação do Sr. Secretário, a verba pública não é do governo nem do setor econômico; provém dos muitos impostos que nós, trabalhadores paulistas, brasileiros, pagamos, com o suor de nosso trabalho. A educação de qualidade, portanto, é nosso direito e obrigação do Estado.

Congregação dos professores da Faculdade de Educação da UNICAMP

Autor: luisnassif - Categoria(s): Educação Tags: , ,

96 comentários para “A Unicamp responde a Paulo Renato”

  1. Roberta Cristina de Paula disse:

    Fico feliz com a carta dos professores da Faculdade de Educação da Unicamp em resposta à entrevista dada pelo sr. secretário de educação do est. de SP: Paulo Renato ( Revista Veja).
    Considerei a mesma deplorável, visto que sou professora da rede pública estadual (atuo nas séries iniciais) e mestranda da Faculdade de Educação da Unicamp, na área de Ciências Sociais e Educação. Desta forma, vivencio em ambas instituições- universidade e escola pública. O discurso do sr. secretário é lamentável, pois demonstra a limitada visão educacional ( ignorância) do então gestor , o qual considero que veio apenas dar continuidade na política desenvolvida pela secretária anterior: sra. Maria Helena Guimarães de Castro, que também defendia as mesmas idéias. Como já foi apontado em vários comentários aqui, a política da meritocracia impera e todo um contexto é menosprezado, ou melhor, desconsiderado; dessa forma ficamos num nível de discussão rasteira, se nos basearmos apenas nas idéias e pensamentos expostos pela secretaria/secretário. Com o posicionamento dos professores da FE- UNICAMP, com autoridade na área , me considero representada e aguardando agora que ,realmente, o sr. secretário venha para o debate. Porém, num país onde muitos se vangloriam pelo sistema democrático, reflito sim, nesses momentos, que ainda falta muito… pois se assim fosse, não seria coerente que tal órgão da imprensa, com projeção nacional, abrisse espaço para ambas as partes se posicionarem? Por que só expôr o discurso oficial? O que pensam as congregações das faculdades de educação das universidades públicas, os sindicatos das categorias dos profissionais da educação e o professorado? Por que será que esses não aparecem nos grandes jornais e revistas de circulação nacional? E ainda o sr. secretário vem questionar uma formação ideológica e teórica? Precisamos de maior exemplo de discurso ideológico do que a própria entrevista do mesmo?
    Mais do que nunca, defendo a universidade pública, a qual considero um dos raros espaços que possibilitam o debate, o confronto de idéias e pensamentospara uma formação crítica e com possibilidade de transformação.

  2. Roberta Cristina de Paula disse:

    Já fiz um comntário anteriormente, mas faltou uma proposta prá fechar: a ex secretária Maria Helena, após algumas exposições públicas na linha do pensamento do Paulo Renato, e mais alguns escândalos referentes às publicações disponibilizadas às escolas através da Secretaria de Educação, também depois de uma campanha do “Fora Maria Helena”, que fez parte do movimento grevista dos professores da rede estadual no ano de 2008, acabou se retirando do cargo, então por que não sugerimos também a saída do sr. Paulo Renato?Considero que ao mesmo tempo que sofremos um grande desgaste enquanto categoria, esses chamados “gestores” não podem ficar dizendo o que quiserem sem que façamos algo que também venha a desgastá-los… levarei essa proposta para a APEOESP ( ASSOSIAÇÃO DOS PROFESSORES DO ENSINO OFICIAL DO ESTADO DE SÃO PAULO )…

  3. Arnoldo Debatin Neto disse:

    Pena que este tipo de defesa não tenha, nas mídias mais “populares”, o respaldo e a visibilidade que merece.

  4. Maria da Glória Minguili disse:

    Fiz Mestrado e Doutorado em Educãção na UNICAMP e não poderia esperar outra atitude que não esta que acabo de ler. Conheço o cursdo de graduação em pedagogia da Unicamp. Parabéns à Congregação da Faculdade de Educação e a todos seus professores. Vocês puseram em prática aquilo que discutimos em niossas salas de aulas, semina´rios e foruns:: o embate para desvelar a mentira e a hipocresia das elites.
    Abraços a todos, Maria da Glória Minguili, professora aposentada, UNESP, campus de Bauru-SP.

Deixe um comentário:

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

Os campos com * são de preenchimento obrigatório






Voltar ao topo