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08/11/2009 - 14:00

Lembranças de Anselmo Duarte

Por Ivan Lessa

Conheci demais o Anselmo. Desde que, em 1950, fizemos um filme na Atlântida (pode checar no IMDB e há os primeiros 20 minutos no YouTube). Tremendo moleque, engraçadíssimo, inteligente, papo sensacional. Anos 60, muita conversa no Fiorentina. Ele, como eu, morava ali no Leme. Simpaticíssima e mais do que justo seu lembrete e, eu ousaria dizer, homenagem. Abração do admirador e leitor habitual. Ivan

Por jairo arco e flexa, de sp

Permitam-me um comentário muito pessoal sobre esse paulista de Salto, que se tornou famoso com os filmes da Atlântida carioca.

Até estrear na direção com a comédia “Absolutamente Certo!” Anselmo era víitima de uma campanha impiedosa de grande número de críticos, que faziam de tudo para desmoralizá-lo.

Implicavam com sua pinta de galã, seu sucesso junto às mulheres, com o que consideravam sua falta de cultura, chamando-o de canastrão para baixo.

Quando “Absolutamente Certo!”, filme do qual, além de ser o diretor, era também o autor do argumento e o protagonista, fez um enorme e inesperado sucesso, a maioria dos críticos teve, com diria Zagalo, “que engoli-lo”.

Mas quando Anselmo anunciou que iria adaptar para as telas a premiada peça de Dias Gomes “O Pagador de Promessas”, os ataques recomeçaram.

No dizer de seus críticos, era muita ousadia um diretor cuja única realização havia sido uma simples comédia, encarar uma das peças de maior sucesso do teatro brasileiro, que havia sido encenada de forma magnífica por Flávio Rangel.

E não é quem em seu segundo trabalho Anselmo emplacou a Palma de Ouro em Cannes, prêmio até então inédito para o Brasil, proeza que até hoje nenhum outro diretor conseguiu repetir?

Mas a inveja, ah, a inveja… O pessoal do Cinema Novo do Rio não admitia o sucesso do paulista de Salto, ex-galã da Atlântida e da Vera Cruz, dois símbolos do cinema que os cinemanovistas detestavam.

Não há nada de parcial nisso que escrevo, sou amigo de muitos diretores do Cinema Novo carioca, mas foi exatamente isso que aconteceu. Eles, muito chegados ao pessoal dos cadernos de cultura dos jornais cariocas, fizeram de tudo para ignorar o prêmio, e, quando era obrigados a falar dele, tentar desvalorizá-lo.

Arnaldo Jabor, um dos expoentes do CN, reconheceu numa entrevista, que ele e seus colegas conseguiram “botar água no chope do Anselmo”.

Poucos anos depois, Anselmo, como ator, também calaria a boca de seus críticos, com uma atuação memorável como o vilão de “O Caso dos Irmãos Naves”, filme de Luis Sérgio Person que tinha Juca de Oliveira e Raul Cortez vivendo os dois personagens do título, vítimas de perseguição policial e de um clamoroso erro judiciário.

Detalhe curioso de Anselmo como ator: pouquíssimas vezes atuou na TV e nem pensava em fazer teatro, por um problema de inibição e pela enorme dificuldade (ou falta de disposição) em decorar textos longos.

Apesar disso, era um improvisador fantástico. Em mesas de bares e restarurantes, quando desandava a contar “causos” de sua vida e da carreira (a maioria, obviamente inventados), prendia a atenção de todos com suas narrativas. Era um autêntico “one man show”.

Um de seus pontos altos era a narrativa, aperfeiçoada e refinada a cada vez que voltava a contá-la, de como havia jogado por alguns minutos ao lado de Pelé e Garrincha num amistoso da seleção brasileira em algum pequeno país da Europa e da África.

Todo mundo sabia que aquilo era uma enorme mentira, e mesmo assim todo mundo prendia a respiração enquanto Anselmo criava pausas e suspense lembrando como convencia o técnico da seleção a colocá-lo em campo.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Cinema Tags: , , , ,

24 comentários para “Lembranças de Anselmo Duarte”

  1. luzete disse:

    Jairo arco e flexa (mas que nome, hein?!)
    bonita esta sua lembrança e importante trazê-la aqui.
    ela é importante para nos lembrar de quão mesquinho pode ser o coração dos homens.

  2. Ivan Lessa disse:

    Conheci demais o Anselmo. Desde que, em 1950, fizemos um filme na Atlântida (pode checar no IMDB e há os primeiros 20 minutos no YouTube). Tremendo moleque, engraçadíssimo, inteligente, papo sensacional. Anos 60, muita conversa no Fiorentina. Ele, como eu, morava ali no Leme. Simpaticíssima e mais do que justo seu lembrete e, eu ousaria dizer, homenagem. Abração do admirador e leitor habitual. Ivan

    • O tempo da Atlântida e Vera Cruz foi a época de ouro do cinema nacional. Infelizmente, o Cinema Novo, que só fez obras mal-feitas (simplesmente não sabiam fazer cinema, e venderam isso como grande vantagem), quase matou o cinema brasileiro. No vácuo, surgiu a TV brasileira. Manso mal. Mas o Cinema Novo é uma fraude, sustentada por intelectuais, que precisa ser desmarcarada.

    • Flics disse:

      Gip-Gip Nheco-Nheco,,, prá tu também!

    • ô ivan…

      você faz falta…

      venha pra rede tapuia…

      o bananão te ama.

      ___

  3. Pitaqueiro disse:

    “O Caso dos Irmãos Naves”, com absoluta certeza, está entre os maiores e melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

    E a atuação de Anselmo Duarte é simplesmente fantástica, assim como a de John Herbert, como o advogado defensor dos irmãos injustamente acusados, neste caso que é mundialmente famoso na história do direito penal.

    Uma grande perda para o cinema nacional.

    RIP!

  4. marcos disse:

    Se o Jabor detonou o cara era porque realmente Anselmo Duarte era talentoso, Jabor é um corvo.

  5. Marco Antonio disse:

    Pois é, essa tentativa de diminuir a grandeza nacional prova que Arnaldo Jabor continua o mesmo. Claro que agora, com uma importância ainda menor do que a pouca que tinha em nossa história cultural. Só inverteu um pouco a situação. Veja o caso de seus adversários e amigos na política. Na impossibilidade de tentar colocar água no chope do governo popular, tenta colocar chope na água de seus candidatos.

    O resultado? Desperdiça o chope e amarga a água.

    • Corretíssima sua ponderação acerca do que anima os que ganham a vida atirando pedras nos outros, quando poderiam construir alguma coisa, burilando suas próprias pedras,como parece ter feito o Anselmo Duarte.
      Viva a cultura brasileira,o Macunaíma de MárIo de Andrade
      que Joaquim Pedro apresentou ao Brasil com Grande Otelo
      e Paulo José. E o Pagador de Promessa,outra expressão da
      nossa rica cultura popular.

  6. Carlos disse:

    Tive a oportunidade (acho que como muitos aqui também tiveram), de assistir algumas entrevistas com o Anselmo Duarte, na televisão. Em todas ele fala o quanto foi menosprezado pela turma do cinema novo, quando ganhou a Palma, em Cannes. Os seus relatos eram sinceros demais; ele deixava transparecer muita mágoa com certos diretores daquele movimento. Não tinha nada de vitimismo, ele foi vítima, mesmo, de uma certa perseguição fruto de pura inveja.

  7. Fernando Trindade disse:

    Nassif, que coisa mais bonita!
    Este blog está fazendo HISTÓRIA. Que bom ler um comentário do Ivan Lessa sobre o ‘passamento’ de Anselmo Duarte. Tomara que o Ivan cojntinue a aparecer de vez em quando por aqui. E quem sabe até não nos ‘dê uma canja’.

    E o que dizer do comovente e preciso – inclusive com uma sutil e bonita mensagem política nas entrelinhas – ‘mini-artigo’ de Jairo Arco e Flexa, o que dizer?

    Para os mais novos, que talvez não saibam, Jairo Arco e Flexa, assim o Ivan Lessa, foi um dos mestres de mais de uma geração. Ivan n’O Pasquim. Jairo na Veja, uma Veja que não tinha nada a ver, mas nada mesmo, com a que hoje circula, exceto – talvez -a cor das páginas amarelas…

    Para o Ivan e o Jairo eu quero dizer muito obrigado pelo que nos deram e que de certo ainda nos darão.

    • João Vergílio G. Cuter disse:

      Se continuar assim, vou ter que começar a vestir terno e gravata para frequentar o blog…
      Faço minhas as palavras do Fernando Trindade – obrigado aos dois pela canja.

  8. Gustavo Cherubine disse:

    E tem aquela famosa história do Ansermo Dualte em Sarto.

  9. Plinio J. V. Lins disse:

    O Ivan Lessa, que passou por aqui, deve saber sobre o famoso “caso AD”, que foi divulgado pelo Pasquim e teria entrado para os anais da medicina, sobre o desempenho de Anselmo Duarte na sublime refrega do amor. O homem, pelo que se soube, não era mole.

    • Ivan Lessa disse:

      Bem lembrado. Anselmo afirmava que “em noites de excitação alcóolica chegava a dar 11″. Todos nós, conhecendo as coisas dele, achávamos exagero. Num dia, um caso célebre do bom Anselmo confirmou. Dela, discreto que sou, só sou as iniciais:SD.

  10. jairo, de sp disse:

    Aos autores dos 11 comentários sobre meu textículo:

    vocês conseguiram tocar o coração empedernido deste ex-ponta direita de meia-idade, já sem muito fôlego para grandes arrancadas, mas que insiste em ficar no campo, do qual só sairá transportado numa maca.

    Aliás, por falar em futebol, 11 é um número significatico e simpático. Num cálculo otimista, imagino que seja o número de meus leitores.

    Podem ser poucos. Mas, como dizia Sócrates (o grego, não o jogador), o que importa não é a quantidade, mas sim a qualidade. O que, obviamente, vocês têm de sobra.

    Bjs & abs a todos,

    Jairo

  11. Ricardo Viana disse:

    Caro Nassif,
    A história do “Ansermo” eu a ouvi do próprio Anselmo Duarte, numa entrevista antológica que ele deu no programa do Jô (não lembro se no SBT ouu na Globo). Mas foi engraçadíssima, cheia de detalhes (como por exemplo, lembrar que o orador era médico proctologista, e que teria caido no poço do “ponto” durante o episódio). Lembro até hoje pois rolei de rir (talvez alguma alma caridosa coloque a íntegra da entrevista no You Tube). Bela lembrança do grande (e injustiçado) Anselmo Duarte.
    Um abraço

    • E a história do raio que caiu no pararraio do hotel em Cannes, antes do anúncio da Palma de Ouro? Anselmo diz que gritava da janela do hotel:

      – C’est Iansã! C’est Iansã!

      Os franceses não entendiam nada!

  12. Carlos disse:

    Acabei de rever a entrevista que o Anselmo deu para a TV assembléia. Sensacional! Sem contar os trechos de filmes como “Tico-tico no Fubá” (a cena antológica do “Zequinha” se apresentando em um circo); e o imperdível “Absolutamente Certo”, com a cena engraçadíssima do bate-boca entre a personagem da Derci e o personagem do Anselmo.

  13. Gregório Macedo disse:

    Jairo Arco e Flexa, Ivan Lessa. Dupla supimpa.
    Viva Anselmo!
    E no que respeita ao Cinema Novo, tem aquela, atribuída ao Jaguar: “O filme é uma merda, mas o diretor é genial!”

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