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06/11/2009 - 17:00

Ecos das diretas e de Sobral Pinto

Por Neves

O vídeo abaixo mostra o Doutor Sobral Pinto em plena aula sobre Democracia, assistam:

http://www.youtube.com/watch?v=0KlLOXYnhfg

Pesquisando o doutor Sobral Pinto na rede, chego a resultado esplêndido, para começar a página do “Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – FGV”, neste endereço é possível pesquisar uma boa documentação sobre nossa história :

http://www.cpdoc.fgv.br/dhbb/htm/dhbb_apresentacao.htm

Em seguida achei: http://setarosblog.blogspot.com/2007/06/dr-sobral-pinto-um-documentrio.html

Fico sabendo da realização de um documentário censurado pela ditadura sobre ele. Com depoimentos do ensaísta-crítico, Alceu Amoroso Lima, os advogados, Heleno Fragoso, Raimundo Faoro e o historiador Hélio Silva, todos brasileiraços, gente que nos orgulha por dividir preocupações sobre o mesmo país.

Há uma Carta de Sobral Pinto ao Marechal Costa e Silva no blog, sobre o AI-5, postada por um comentarista. A carta é um primor da definição prática da democracia. Deveria fazer parte das cartilhas estudantis para definção da democracia, era isto que o advogado ousava ensinar ao general e ditador de plantão.

Eis o Texto:

Exmo. Sr. Presidente da República,

Marechal Arthur da Costa e Silva

Cumprimentos devidos à sua alta dignidade e, também, à sua ilustre pessoa.

Li, em Goiânia, o ATO INSTITUCIONAL Nº 5, que V. EXA., substituindo-se indevidamente ao povo brasileiro, que não conferiu ao Chefe de Estado Brasileiro Poder Constituinte, baixou para tirar as garantias do Poder Judiciário , proibir a concessão do habeas-corpus e tornar possível a subtração da liberdade de toda e qualquer pessoa que resida no território nacional, brasileira e estrangeira.

Através do referido Ato, V.Exa, instituiu, em nossa Pátria, a ditadura militar, contra a qual ninguém pode, no momento, lutar eficientemente.

Fui, sou e serei homem do Direito, da Lei, da Justiça e da Ordem. Jamais conspirarei. Lutarei, porém, pela palavra, verdadeira, enérgica e vibrante, contra a opressão que desceu sobre a minha Pátria. Palavra franca, leal e desinteressada, que não quer Poder, posição e qualquer Dignidade, administrativa e eletiva. Quero, apenas, Ordem jurídica decente, digna e respeitadora da dignidade da pessoa humana, da liberdade individual, e das liberdades públicas, princípios estes que estão varridos, presente, da minha e da Pátria de V. Exa. (…)

Com efeito, atende V. Exa., com serenidade e isenção de espírito, para o que fez com referido ATO INSTITUCIONAL Nº5: V. Exa., suprimiu, com a liberdade de opinião, também a garantia da Magistratura Brasileira. Pouco importa que um cidadão seja honrado, decente e leal. Se ele cair no desagrado dos governantes atuais, porque lhes disse a verdade a que estava obrigado, poderá ir imediatamente para o cárcere, sem que lhe reste meio e modo de readquirir a sua liberdade. Nenhum brasileiro, neste instante, pode revelar-se homem de caráter. Esta revelação provocará no militares, que ocupam o Governo do País, a vontade de subtrair a sua liberdade, separando-o da sua família e da sua profissão.

Por outro lado, os Magistrados perderam pelo ATO INSTITUCIONAL Nº5, todas as suas garantias, o que lhes impedirá de dar qualquer garantia aos seus concidadãos, lesados nos seus direitos fundamentais. O magistrado, que assiste à prisão de um concidadão decente e digno, ficará diante deste dilema, quando provocado por um requerimento deste cidadão, que não aceita, em silêncio as subtração injusta da sua liberdade: ou obedece às imposições de sua consciência, declarando que a prisão é injusta, mas que não a pode anular, pela suspensão da medida do habeas-corpus, e, neste caso, será demitido ou aposentado, ou para não perder o lugar que conquistou por um concurso ou por suas virtudes excepcionais de cultura e honradez, terá de cruzar os braços diante da injustiça que está assistindo.

É evidente, Sr. Presidente, que o ATO INSTITUCIONAL Nº5, com as determinações nele contidas, é um ato governamental que desmoraliza e quebra o caráter do homem brasileiro, principalmente o dos Magistrados. Se este ato permanecer no nosso Direito, ninguém nesta amargurada Pátria, ousará contrariar a deliberação e a vontade dos militares das nossas Forças Armadas e as de V. Exa. Porque estará, com a sua resistência, abrindo o caminho que o levará para o Cárcere, sem que a Magistratura possa restituir-lhe a liberdade.

Sou, Sr. Presidente, uma das vitimas do ATO INSTITUCIONAL Nº5. A Polícia Federal de Goiás, invocando o nome de V. Exa., deu-me ordem de prisão, ordem que não aceitei, declarando que nem V. Exa., nem ninguém neste País, é dono das minha pessoa e da minha liberdade. Nada fizera para esta perder. Recusava altivamente acatar ordem tão absurda e ilegal. Mas pronunciei estas palavras, quatro homens, de compleição gigantesca lançaram-se sobre mim, como vespas sobre carniça, imobilizando-me os braços e apertando-me o ventre, pelas costas. Em seguida, empurraram-me, como um autômato, do quarto ao elevador, onde me empurraram. Desde até o carro, que se encontrava à porta do Hotel, fizeram idêntica manobra. Colocado no carro, de manga de camisa, como me encontrava no quarto, conduziram-me a um Batalhão que fica nos arredores de Goiânia. Neste permaneci durante uma hora, mais ou menos, depois de um atrito com o Comandante da Unidade, que tentava desrespeitar-me, sendo levado ao Quartel da Polícia do Exercito, em Brasília, onde fiquei três dias, respeitado pela Oficialidade dessa Unidade, desde o Coronel-Comandante até o mais modesto dos Tenentes. (…)

Os afazeres profissionais não me dão lazer para prosseguir na crítica ao ATO INSTITUCIONAL Nº5. Oportunamente voltarei à presença de V. Exa., para formular novas críticas em documento que, como este, não é de natureza privada, uma vez que me reservo o direito de divulgá-lo pelos meios ao meu alcance. Tal divulgação PE uma faculdade, que me é assegurada pela Declaração Americana dos Direitos e Deveres Fundamentais do Homem, promulgada pela ONU, em Paris. Divulgando estas palavras, severas, mas respeitosas, estou unicamente a cumprir dever inerente à minha condição de membro da Família humana.

Queira receber, Sr. Presidente, as homenagens leais e sinceras dos modesto concidadão e humilde servidor.

H. sobral Pinto.

Rio, 21 de dezembro de 1968.

(SOBRAL PINTO, Heráclito Fontoura. Lições de Liberdade. 2 ed., Belo Horizonte, Editora Comunicação/Universidade Católica de Minas Gerais, 1978, PP. 130-5.)

Autor: luisnassif - Categoria(s): Brasileira, História Tags: , , ,

10 comentários para “Ecos das diretas e de Sobral Pinto”

  1. Adnan El Kadri disse:

    Caro Neves,

    Emocionante a brasilidade e a cidadania, andando juntas nas praças do Brasil!
    A Carta de Sobral Pinto, lição singela de cidadania.
    Abs.

  2. André Oliveira disse:

    Já não se fazem mais conservadores como antigamente: Sobral Pinto, Nelson Rodrigues, Roberto Campos….
    Que decadência os tempos trouxeram.

  3. Adnan El Kadri disse:

    Neves,
    Falei uma vez , por telefone, nos idos de 77 , era vice-presidente do C.A. XI de Agosto, convidadva o grande Sobral Pinto para os festejos do sesquicentenário da Faculdade de Direito do Lgo. de São Francisco. E percebi a rapidez e a perspicácia das respostas.
    Diziam que ele e o Adauto Lúcio Cardoso decoraram e falavam de improviso todos os versos da Divina Comédia de Dante Alighieri.
    São os grandes advogados de antanho.
    É só para lembrar.

  4. Petra disse:

    Momento histórico ! E que saudade, para quem o conheceu, ver o Dante de Oliveira. Esse não merecia morrer no ostracismo em que morreu, com a mulher dele, sugando-o até o fim.

  5. Nilson Fernandes disse:

    Nassif, fiquei emocionado com o FHC. Ele quer o melhor para nosso país ao modo dele, e é um direito dele, mas sem conspirar, é isto. Fhc, vai se redimir antes da morte. Quero estar vivo para ver este fato histórico. Abs.

  6. Nilson Fernandes disse:

    Eu tenho esperança no FHC.
    Pô Fernando, junte -se a nós.

  7. Andrea disse:

    Lembrança emocionante. Estava no começo da adolescência e aprendendo a importância do voto popular. Foi longo o caminho até ele, até a democracia.
    Quem diria que um Fernando Henrique alegaria, nos dias de hoje, um perigoso “autoritarismo popular”.

    • Neves disse:

      Em uma outra postagem ressaltei esta frase:

      “Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”.

      É uma síntese da democracia acatada por quem teve uma vida quase centenária dedicada a ela, defendendo sua causa nas horas mais dramáticas da história brasileira no século XX, enfrentando duas ditaduras e o autoritarismo de fato.

      FHC esteve nos comícios das Diretas, certamente aplaudiu a aula do Doutor Sobral, mas hoje, para agradar certas platéias que o adulam, gente que quer ver o povo no “seu lugar” e sente saudades da Oban, ele considera tudo isso, as consequências do Diretas-já, “autoritarismo popular”. Democracia para eles só se for estreita, particular e restrita, a não-democracia do colégio eleitoral.

      FHC está levando longe demais a recomendação de esquecerem o que escreveu, parece insistir em rasgar sua obra.

  8. glauco disse:

    Neves,

    não consegui acessar o link sobre o documentário.
    tenho muito interesse em vê-lo
    como faço?

    Obrigado,

    Glauco.

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