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05/11/2009 - 09:45

Os pólos políticos pós-Lula

Do Último Segundo

Coluna Econômica 05/11/2009

Uma grande discussão, no cenário político atual, é saber de que maneira irá se articular uma oposição ao que se poderia chamar de lulismo. Grosso modo, são três grupos de temas em torno dos quais podem ser articulados os discursos políticos:

O primeiro engloba as políticas irreversíveis que considera, entre outros, as políticas sociais includentes, o pacto do desenvolvimento, a manutenção da estabilidade inflacionária e fiscal, o biocombustível, a nova política industrial, ancorada no pré-sal, e o fortalecimento da agricultura.

O segundo são as sementes que vêm sendo lançadas, mas sem muita ênfase, como a prioridade na saúde (focalizado no recurso), o avanço na tecnologia e inovação, o aprimoramento da gestão pública, a desoneração dos investimentos e a racionalização tributária e o apoio às pequenas e microempresas.

O terceiro, onde se dará o embate ideológico, refere-se ao controle do fluxo de capitais.

***

Um dos pilares do modelo econômico que se quiser desenhar pela frente definirá vitoriosos e perdedores.

Na verdade, há apenas dois modelos em discussão, já que os dois grupos anteriores cabem em qualquer esquema ideológico.

No modelo do livre fluxo de capitais, a liderança da economia cabe aos gestores de recursos, ao grande capital financeiro exportado e/ou aliado a capitais internacionais.

Nesse modelo, se mantido o livre fluxo de capitais, ocorre uma apreciação cambial e taxas de juros internas superiores às internacionais.

***

O vencedor é o grande capital financeiro, que ganha com arbitragem de preços, com a redução dos preços dos ativos nacionais (em reais, pela taxa de juros mais elevada) e comanda o processo, em geral adquirindo empresas e colocando à frente CEOs.

Sua lógica não é da perpetuação à frente do negócio. É da capitalização da empresa, de melhorias pontuais na gestão para valorizar os ativos e passar para frente.

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A grande questão é que esse modelo – câmbio apreciado, juros altos – não apenas enfraquece os industrialistas frente os financistas, mas enfraquece a competitividade da economia brasileira como um todo e – por si só – promove um intenso processo de concentração, impede o crescimento de pequenas e médias empresas, esgarça o tecido econômico, a malha de empresas que deve circundar as empresas-polo.

Mas, com o câmbio apreciado, só prosperarão empresas umbilicalmente ligadas ao mercado interno. Se quiserem vôos maiores, se capitalizarão internamente, mas com suas bases fora do país – porque sem condições fiscais, de financiamento, sem câmbio, não terão como ousar voos maiores.

Cada grupo e cada empresa poderão se beneficiar individualmente. Há avanços corporativos – na governança, na prestação de contas aos acionistas, na flexibilidade para substituir gestores incompetentes. Mas o País não se beneficia no todo, porque a contrapartida desse financismo desvairado será a de converter o país apenas como plataforma de lançamento de grupos e empresas que fincarão suas unidades produtivas em outras economias. Ou então, promover uma concentrarão que tira completamente o poder de barganha da cadeia produtiva do setor.

O grande desafio será conjugar os dois modelos. Isso foi possível nos anos 30, quando a crise cambial praticamente obrigou o governo a interromper o livre fluxo de capitais. Aí esses capitais caíram na economia real, deixaram de lado a jogatina e ajudaram fortemente o processo de industrialização brasileira.

**

Quanto aos partidos políticos, nos próximos anos, o financismo se aglutinará em torno de Aécio Neves – ganhando ou perdendo as eleições, saindo ou não candidato a presidente. O desenvolvimentismo se aglutinará em torno do herdeiro de Lula – seja quem for.

Mas, antes, Lula terá que tomar decisões que reduzam um pouco a grande frente que ele montou: controle de capitais, política cambial pró-desenvolvimento, fortalecimento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e, ao mesmo tempo, estímulo ao mercado de capitais.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Coluna Econômica, Economia Tags: , , , , , ,

44 comentários para “Os pólos políticos pós-Lula”

  1. Gunter - SP disse:

    Acho que grandes desafios para o Brasil serão o câmbio, o sistema tributário, a defasagem tecnológica.

    Não podemos esquecer que a desvalorização cambial deve ter como objetivo reindustrialização, substituição de importações ou novos mercados para exportações. Caso contrário não gerará empregos internamente e apenas se transferiria renda para o exterior (como a China sistematicamente faz.) Não deve ser um fim em si mesmo.

    Se houver reforma tributária que distribua custos do setor industrial para o setor de serviços, parte do problema cambial se resolve. Se houver maior taxação do setor agrário ou extrativista, idem, pois o Brasil têm vantagens comparativas nestes.

    Como Keynes já faleceu e Mendonça de Barros, Delfim Netto e outros já confessaram não ter a fórmula mágica, passa a ser interessante todos darem suas ideias para ver se um caminho surge.

    Desvalorizar em economia altamente produtiva não é necessário. Mas não é o caso brasileiro. Desvalorizar em economia com falta de divisas é fácil. Também não é o caso.

    Como desvalorizar a moeda, de forma desenvolvimentista, em economias com superávits na balança comercial? (Especialmente se for exportador de commodities.)

    Acho que são estes os elementos que podem eventualmente ser colocados na receita (nenhuma ordem em particular):

    a) Vontade política. Precisariam estar registrados os objetivos em algum documento, do tipo “Carta ao Povo Brasileiro 2”. O ideal, ao meu ver, seria um pacto social entre vários partidos com uma pauta mínima.
    b) Mudar de literatura: Ricardo, Friedman e Hayek podem ser boas leituras quando já se é rico. Guardar esses livros por uns 30 anos. Políticas boas para os Estados Unidos não serão boas para o Brasil antes disso. Conhecimentos novos, isso sim. Melhor importar tecnologia do que ideologia.
    c) Pesquisa. Há um grupo de países que consegue (segundo o Banco Mundial) manter o câmbio sempre desvalorizado, em pelo menos 30%, simultaneamente a renda per capita superior a US$ 5.000. Do de renda mais elevada em diante os mais importantes são: Singapura, Taiwan, Coréia do Sul, Polônia, Rússia, México, Chile, Malásia, Romênia, Turquia, África do Sul, Colômbia, Peru, Tailândia, Ucrânia, China, Egito.

    Alguns não servem de exemplo, pois sofrem de carência crônica de divisas (África do Sul, Egito, Ucrânia), mas a maioria destes países está há anos com tipo de câmbio mais baixo que o Brasil e acumulando reservas. Uma fonte de idéias pode ser destrinchar estudos ou “papers” realizados nesses países. Vários deles praticam “Capitalismo de Estado” combinado com políticas sociais e até certo exagero em educação. Deve haver alguém lendo e explorando esse conhecimento.
    d) Reforma tributária. A articulação política é difícil, ninguém falará em 2010 em mexer em interesses consolidados. Mas podem ser pensados: imposto de exportação (que em uma desvalorização impediria transferência de renda para o setor agrário-exportador e aumento interno de preços); redistribuição da base tributária (algo como aumentar ISS, IPTUs desonerando ICMS/IPI de bens industrializados); alargamento da base tributária (elevação paulatina do “simples” vis-a-vis redução de IPI); pacto entre estados para ICMS; consolidação de tributos para simplificação. São exemplos, deve haver mais alternativas. Imposto único NÃO é uma delas.
    e) Debater o arcabouço jurídico. Porque é tão difícil fechar uma empresa no Brasil?
    f) Capacitação de mão-de-obra. Pelo menos o suficiente para atuar em manufatura leve (calçados, roupas, alimentos, tecidos). Algo já está sendo feito, especialmente no Nordeste. Não poderia ser mais rápido e profundo? Importação temporária de engenheiros, se for o caso. É “incabível” que em um país pobre mão-de-obra às vezes seja gargalo.
    g) Permitir imigração de outros países (algo polêmico e revolucionário hoje em dia…)
    h) Mais e melhor infraestrutura (exemplo óbvio: se as estradas forem melhores, mercadorias chegam mais baratas aos portos ou grandes cidades, assim a desvalorização não precisa ser tão grande.) Não precisa ser estado forte, mas estado inteligente sim, então porque não planejar a longo prazo? Se for o caso, repense-se o tripé “estatais-nacionais-multis” Capital estrangeiro sozinho não investe em infra se não houver garantias de muito longo prazo.
    i) Estimular pesquisa e desenvolvimento de tecnologia. Não importa se o laboratório é privado ou estatal. Imagino a Embrapa como uma experiência de sucesso, deve haver várias possibilidades.
    j) Baixar taxa de juros. Lentamente, passo a passo. Mas não a ponto tão homeopático. Isso já deve ajudar a desvalorizar o câmbio. Também libera recursos do orçamento para várias outras coisas.
    k) Sinalizar ao mercado que excessos de divisas serão canalizados para um fundo. Se os juros internos baixarem e os externos subirem, o custo de carregamento diminui. A tão elogiada China arca com esse custo, ou não?
    l) Permitir contas em moedas estrangeiras ou tornar a moeda conversível. Teria um efeito inicial de aumento de demanda por moeda estrangeira.
    m) Monetizar (lentamente) a economia. Porque o M1 no Brasil é tão baixo? Porque esse receio de emitir moeda como substituição da dívida pública? Se o problema é câmbio valorizado, a âncora cambial subsiste. Se ela sobrevive e houver um crescimento de produtividade, a inflação não dispara. É preciso um pouco de coragem política para experimentação também. Em que laboratório foi determinado com tamanha precisão que a política monetária precisa ser tão rígida? No Japão e na Itália não é…
    n) “Risco-país”. Existe mesmo? O Brasil é risco de fato? Ou o “spread” apenas está acompanhando a taxa de juros que o Bacen deseja praticar, em uma inversão de causa-efeito?

    Bom, talvez eu não tenha conhecimento para falar com propriedade vários desses temas, mas acho que é dever cívico que todos pelo menos pensem para si. E irem repensando e mudando os conceitos, se necessário. Na hora em que os partidos – dependemos deles – resolverem sinalizar alguma coisa, ficará mais fácil entender e escolher, né não?

    (E pensar mais em “Brasil”. Eu, por exemplo, sou poupador líquido – ótimo juros elevados; gosto de viajar – ótimo câmbio apreciado; trabalho com um produto que não pode ser nem importado nem exportado. E que é quase isento de impostos. Porque deveria me preocupar? Mas penso que se o país como um todo se desenvolver mais rapidamente, econômica e socialmente, acabo sendo favorecido de vários modos. O mundo é cheio de compensações.)

    • Minha sugestão é quase simplória frente a exaustiva lista do Gunter, mas é consistente com minhas crenças e provavelmente do conhecimento de todos que lêem este blog.

      Criar 300 ZPEs (zonas de processamentos especiais) de 100 hectares cada por este Brasil afora, um lugar onde não se nasce nem se morre, mas se empreende, investe, cria, produz, distribui riquezas e conhecimentos para todos que queiram trabalhar e tenham o espírito animal do capitalismo em suas veias.

      Um curto circuito na mesmice madorrenta que emperra o pais.

  2. Jonny Basso disse:

    Nassif
    Existe algo que não fecha nesta questão do câmbio e da competitividade da indústria brasileira, apesar de não ter como discordar do fato de o real estar sobrevalorizado. A questão é como a Alemanha manteve-se por anos na liderança das exportações mundiais, e isso vendendo em euros. A solução brasileira não seria concentrar esforços em agregar valor às nossas exportações, ao invés de simplesmente brigar por um real mais baixo?

    • luisnassif disse:

      A Alemanha tem 150 anos de investimentos em tecnologia, recursos humanos. Mesmo assim, o grande salto no pós-guerra foi em cima de câmbio desvalorizado. É o câmbio competitivo que assegura às empresas o crescimento e recursos para bancar o segundo tempo: inovação, tecnologia e agregação de valor.

  3. pós-lula?…

    quando?….

    em 2023… talvez.

    hehe hehehe…

    ___

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