iG
iBest BrTurbo

Publicidade

Publicidade
03/11/2009 - 14:01

Os mistérios do Instituto Butantan

Sempre fui fã do Isaias Raw e do Instituto Butantã. Com o escândalo ocorrido, muita informação nova está no ar, não apenas sobre a administração do Instituto, mas sobre os resultados de suas pesquisas e da produção de vacinas.

Quem tiver informações, favor enviar.

Abaixo, a matéria da Carta Capital desta semana sobre o tema.

Da Carta Capital

O vírus da corrupção

Gilberto Nascimento

O cientista Isaias Raw construiu uma sólida imagem no Brasil e no Exterior. Desenvolveu projetos em universidades norte-americanas e em Israel. Passou por instituições como o Massachusetts Institute of Technology (MIT) e a Escola de Saúde Pública de Harvard.

No País, criou a Fundação Carlos Chagas e o curso experimental da Faculdade de Medicina da USP, além de dirigir a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ciências (Funbec). É o inventor dos kits de química, eletricidade e biologia capazes de permitir a qualquer estudante a realização de pesquisas em casa.

Rotulado de subversivo, foi preso após o golpe de 1964. Doze renomados pesquisadores estrangeiros – entre eles sete ganhadores do Prêmio Nobel – enviaram um telegrama de protesto ao governo brasileiro e conseguiram a sua libertação. Em 1969, foi cassado pelo AI-5. Depois do retorno ao Brasil, passou a comandar a Fundação Butantan.

Aos 82 anos, Raw está agora no epicentro de um escândalo. A fundação que presidia desde 1985 é alvo de investigações do Ministério Público de São Paulo. Promotores comprovaram a má gestão e o desvio de recursos na entidade. Ao menos 35 milhões de reais foram retirados de uma conta desativada da fundação, transferidos para empresas e, daí, para funcionários. Somente uma companhia responsável pela manutenção de equipamentos eletrônicos recebeu 24 milhões de reais. A quadrilha envolvida fez depósitos bancários à revelia, sem o conhecimento dos proprietários da empresa.

A fundação é responsável pela administração do renomado Instituto Butantan, fabricante de soro e de cerca de 90% das vacinas consumidas no País, compradas pelo Ministério da Saúde. O instituto é um centro de pesquisa biomédica vinculado à Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. Seu orçamento é de 300 milhões de reais e, no próximo ano, deve chegar a 500 milhões por causa da comercialização de novas vacinas contra a gripe suína.

Depois das primeiras denúncias, servidores estaduais afirmam agora que os desvios podem chegar a 100 milhões de reais. Outras empresas beneficiadas com grande volume de recursos passaram a ser investigadas pelo Ministério Público. Até o momento, são suspeitos de envolvimento oito funcionários e, no mínimo, cinco empresas.

O mentor do esquema seria o ex-gerente-financeiro da fundação Adalberto da Silva Bezerra, demitido por justa causa em dezembro do ano passado. Foram encontrados na conta do ex-funcionário 4,6 milhões de reais. O salário dele era de 10 mil reais ao mês.

Promotores admitiram a possibilidade de o rombo nos cofres públicos ser bem maior. “Há comentários, mas não dá para dizer que sim nem que não. A documentação constatada até o momento comprova a soma de 35 milhões de reais”, afirmou o promotor Airton Grazzioli, da Curadoria de Fundações do Ministério Público de São Paulo.

Não há nenhuma suspeita de que Raw tenha envolvimento com as falcatruas. Para Grazzioli, o cientista e outros dirigentes da fundação foram convincentes ao abrir espontaneamente seus sigilos bancários. “Tudo indica que o presidente não sabia dos desvios”, disse o promotor.

Ainda assim, o conceituado cientista foi afastado pelo conselho curador da entidade. Essa providência foi solicitada pelo governador José Serra (PSDB) e pelo Ministério Público. Seu substituto na presidência é o médico José Luiz Guedes, ex-secretário estadual de Saúde no governo Mário Covas. Raw, entretanto, foi mantido como presidente do conselho técnico e científico da instituição, com o consentimento do MP.

“Nossa recomendação para o afastamento foi motivada pela gestão temerária de recursos”, explicou Grazzioli. O cientista havia repassado senhas pessoais de contas bancárias para os funcionários acusados.

O MP deve mover ações civis públicas de reparação dos prejuízos contra Raw e Hisako Gondo Higashi, ex-superintendente da fundação, que também foi afastada. Os funcionários acusados vão responder na Justiça por crimes contra a ordem tributária, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, estelionato, falsificação de documentos e furto mediante fraude.

Procurado por CartaCapital, Raw evitou declarações. “Não há mais o que falar. Houve um crime cometido por um funcionário e a questão está na polícia e no Ministério Público”, respondeu o ex-presidente. Em carta enviada à Folha de S.Paulo, ele se defendeu. “Fui posto numa posição, usual no sistema público, em que me cabia assinar mais do que seria possível ler ou analisar. Confiei num funcionário com quinze anos de casa que participou de um sistema complexo, organizado para desviar recursos.” O esclarecimento final do caso ainda deve levar tempo, segundo o promotor Grazzioli, por causa dos pedidos de quebra de sigilo bancário e da demora dos bancos para o fornecimento desses dados.

A pista para descobrir os criminosos foi detectada numa operação bancária. O alerta sobre os desvios de recursos foi dado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão ligado ao Ministério da Fazenda. O Coaf identificou uma movimentação suspeita ao registrar uma transferência de 2,6 milhões de reais a uma microempresa chamada Sunstec.

Uma das novas empresas investigadas, de acordo com servidores, seria de propriedade de um ex-diretor do instituto. A companhia tem sede fora de São Paulo e colabora na produção de vacinas.

No momento, o governo estadual veicula propagandas que mostram a fábrica de vacinas contra a gripe “a todo vapor”. Mas funcionários do instituto – que pedem para não ter o nome revelado, por medo de represálias – dizem que a fábrica, inaugurada em 2007, não funciona e apenas o trabalho de distribuição seria mantido pelo instituto. As vacinas, garantem, têm sido produzidas na França.

As recentes promessas de produção de vacinas contra a gripe suína também não foram cumpridas. No período crítico da epidemia, em junho e julho, tinham sido anunciadas para outubro. Funcionários designados para a fábrica vêm sendo removidos para outros setores, conforme denúncias. Produtos adquiridos para a fabricação de vacinas, como ovos com embriões, também estariam desperdiçados. Por meio de uma nota, a fundação afirmou que os projetos continuam dentro do cronograma previsto “e deverão transcorrer normalmente”.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Corrupção Tags: , ,

26 comentários para “Os mistérios do Instituto Butantan”

  1. joão luiz costa cardoso disse:

    Trabalho no Butantan há 36 anos.Históricamente as crises do IB ocorrem em episódios que no fundo, refletiam o que acontecia na politica geral do país. Afranio do Amaral nos anos 1930 é um subproduto dos embates do Estado Novo com a elite paulista/paulistana, e assim por diante.A atual crise, a meu ver resulta da aventura neoliberal em que o pais se meteu nos anos 1990. A “Fundação”, redentora, viria para resolver todos os problemas que o velho mastodonte estatal nõa conseguia.
    O Instituto se dividi u entre “funcionários publicos vagabundos’, como disse o diretor Raw numa das reuniões gerais do IB e “os da fundação”- estes sim produtivos, modernos, que poderiam ser mandados embora etc e tal.
    Dividido o botim, a sanha foi facilitada.Deu no que deu.
    Apesar dos pesares, precisamos confiar na Justiça que, de maneira soberana, apure toda essa história:1. Por que os convenios com Aventis Pasteur para repasse de tecnologia da vacina da gripe comum em 5 anos não foram cumpridos?
    2. Qual a situação da investigação (policial) sobre a morte de 2 funcionarios em um tanque de ácido acético?Foi crime de inspiração ‘espionagem industrial”?
    3. É a Fundação um segmento do Instituto Butantan? se for, como tem sido por ele controlada/administrada?
    As questões são muitas e precisam, resposta para que a tranquilidade volte ao serpentário.

    Atenciosamente

    João Luiz Cardoso- médico do IB

  2. Silvio disse:

    Parece que alguem resolveu fazer alguma coisa:
    Diario Oficial de 12.11.2009, Poder Legislativo
    REQUERIMENTO DE INFORMAÇÃO
    Nº 396, DE 2009
    Nos termos do artigo 20, inciso XVI da Constituição do
    Estado de São Paulo, combinado com o artigo 166 da XIII
    Consolidação do Regimento Interno, requeiro seja oficiado ao
    Secretário de Estado da Saúde, Dr. Luiz Roberto Barradas Barata,
    para que preste as seguintes informações:
    1. Quais as providências que o Governo do Estado de São
    Paulo está tomando em relação às denúncias de corrupção no
    Instituto Butantan?
    2. Qual o cronograma previsto para a produção de vacinas
    contra a H1N1 pelo Instituto Butantan?
    3. Quais são as vacinas produzidas pelo Instituto Butantan
    e qual quantidade?
    4. Quais são as vacinas adquiridas, embaladas e distribuídas
    pelo Instituto Butantan e qual quantidade?
    JUSTIFICATIVA
    Um dos mais sérios e renomados cientistas brasileiros,
    o Dr. Isaias Raw, teve sua sólida reputação ofuscada por um
    triste episódio de corrupção que envolve a instituição que
    dirigiu durante décadas, o Instituto Butantan, o que levou a
    seu afastamento pelo Governador José Serra. Esse episódio foi
    amplamente divulgado na mídia escrita e pela internet, mas há
    outro aspecto que chama atenção e que deve ser investigado.
    Segundo a reportagem de Gilberto Nascimento, da revista
    Carta Capital: o governo estadual veicula propagandas que
    mostram a fábrica de vacinas contra a gripe a todo vapor. Mas
    funcionários do instituto – que pedem para não ter o nome
    revelado, por medo de represálias – dizem que a fábrica, inaugurada
    em 2007, não funciona e apenas o trabalho de distribuição
    seria mantido pelo instituto. As vacinas, garantem, têm sido
    produzidas na França.
    Ainda de acordo com a mesma reportagem da Carta Capital:
    As recentes promessas de produção de vacinas contra a
    gripe suína também não foram cumpridas. No período crítico
    da epidemia, em junho e julho, tinham sido anunciadas para
    outubro. Funcionários designados para a fábrica vêm sendo
    removidos para outros setores, conforme denúncias. Produtos
    adquiridos para a fabricação de vacinas, como ovos com embriões,
    também estariam desperdiçados. Por meio de uma nota, a
    fundação afirmou que os projetos continuam dentro do cronograma
    previsto e deverão transcorrer normalmente.
    Mas o próprio Governador José Serra em seu programa
    semanal – Conversa com o Governador – de 04 de novembro
    afirmou que a produção do Butantan só estará disponível no
    próximo ano. Portanto, é urgente que o órgão competente do
    Governo do Estado de São Paulo preste as informações necessárias
    para esclarecer a população paulista.
    Sala das Sessões, em 10/11/2009
    a) Fausto Figueira

  3. Marlui Miranda disse:

    Prezado Deputado o Sr. é um alento, nos faz crer que na politica ainda se pode contar com pessoas honestas e firmes.
    Escrevi a outros parlamentares na esperanca de que possam ampliar a acão, mas como sempre, duvidando que possamos ter toda verdade esclarecida e os culpados exemplarmente punidos.
    Grata,
    Marlui Miranda

Deixe um comentário:

Antes de escrever seu comentário, lembre-se: o iG não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!

Os campos com * são de preenchimento obrigatório






Voltar ao topo