O Poder da China
Do Estadão
”Poder da China irá além da economia”
China será o primeiro caso desde a Revolução Industrial em que o poder hegemônico não terá características ocidentais
Cláudia Trevisan, PEQUIM
Autor do livro When China Rules the World (Penguin Books, 2009), o jornalista e acadêmico britânico Martin Jacques acredita que a China assumirá em breve uma posição dominante no mundo, quando exercitará o “complexo de superioridade” desenvolvido nos 2 mil anos de história dinástica. Leia a entrevista concedida ao Estado, de Londres, por telefone:
Quão distantes nós estamos do momento em que a China vai “dominar” o mundo?
O título do livro não deve ser interpretado lateralmente. When China Rules the World (”Quando a China Dominar o Mundo”, em tradução livre) refere-se ao período em que a China será o país mais influente do mundo. Os EUA estão numa clara e irreversível trajetória de decadência e há dois fenômenos por trás deste processo. O primeiro é a mudança do centro de gravidade global, com a emergência do mundo em desenvolvimento, com países como China, Brasil e Índia. O segundo são os problemas domésticos americanos: endividamento, encolhimento da capacidade industrial e crise de sua posição financeira no que diz respeito ao dólar, a moeda usada como reserva de valor pelo mundo.Teremos cerca de 20 anos nos quais os EUA vão se ajustar a uma nova ordem da qual não serão mais o arquiteto, promotor ou beneficiário. Haverá a emergência de outros países, dos quais a China será o mais poderoso.
Em que um mundo influenciado pela China será diferente?
Nós ainda não temos a resposta, em parte porque estamos falando do futuro, mas também porque é algo desconhecido. Nunca vimos uma mudança como esta. Desde a Revolução Industrial britânica, a partir de 1780, o mundo foi dominado primeiro pela Europa e depois pelos EUA. Ou seja, sempre pelo Ocidente. Agora, vemos algo absolutamente distinto, que é a mudança de poder global em direção à Ásia, especificamente em direção à China e, secundariamente, em direção à Índia. Será a primeira vez em que o poder hegemônico não será ocidental.
Até agora, a emergência da China só tem sido discutida em termos econômicos. Isso significa que a China não terá influência política, cultural e intelectual?
Não, esta é uma visão estreita da realidade. Só discute-se a questão econômica porque as pessoas ainda acreditam que a China vai se ocidentalizar. Há uma visão generalizada de que existe apenas uma modernidade, que é a ocidental. Na verdade, a modernidade chinesa será, em vários aspectos, totalmente distinta da ocidental. Ela se manterá distinta, porque a modernidade é um reflexo da história e da cultura, e não apenas da concorrência tecnológica ou de mercado. A história moderna da China foi interpretada em termos ocidentais. Nós temos uma limitação intelectual na tentativa de entender o que a emergência da China significa.
O sr. menciona no livro o “complexo de superioridade” que ao longo da história imperial – que durou até 1911- marcou a relação da China com o mundo. Como este complexo pode influenciar o comportamento de uma China influente?
Este é o ponto crucial. Não é que outros países não tenham essa noção de superioridade, mas ela é bastante peculiar na China. À diferença de outros países populosos, como Índia, EUA, Brasil e Indonésia, 92% dos chineses se veem como integrantes de uma única raça, a dos chineses han. E isso em uma população de 1,3 bilhão de pessoas. A razão é que a China e a civilização chinesa têm uma existência extremamente longa, especialmente na parte centro-leste do país – o oeste veio muito mais tarde. As diferenças, as fronteiras e as distinções entre as pessoas diminuíram a ponto de todos verem a si mesmos como chineses han. Isso é combinado com uma longa história na qual a civilização chinesa foi particularmente bem sucedida. Os chineses viam a si mesmos como detentores da maior civilização do mundo e descreviam a China como a terra dos céus, o que deu a eles um forte sentimento de identidade e superioridade cultural. A China dinástica se via como o Império do Meio, o centro do universo, e desprezava os que estavam ao redor. A China era o centro do mundo e os demais, bárbaros. O que não sabemos é como esse sentimento de superioridade cultural vai se expressar no período de globalização. Mas sei que não será uma repetição da experiência ocidental. O sentimento de superioridade dos chineses é mais profundo do que era o dos europeus durante o período colonialista.
Recentemente, a China tentou impedir líderes globais de se encontrarem com o dalai lama ou com a líder uigur Rebiya Kadeer. Essa é uma prévia da maneira como a China irá se relacionar com o restante do mundo?
Acredito que sim, mas é necessário colocar essa questão em contexto. A China considera Xinjiang (província habitada pelos uigures) e o Tibete como partes de seu território e vê o relacionamento de qualquer país com pessoas hostis a seus interesses como uma interferência em seus assuntos internos. Ainda que a China não tenha sido expansionista no sentido europeu, ela se expandiu em seu próprio continente. Durante a dinastia Qing , Tibete e Xinjiang foram incorporados à China, o que dobrou o território do país. Os chineses han têm um conceito muito frágil de diferença cultural. Quando se trata de reconhecer diferenças religiosas, culturais e linguísticas, os chineses han têm uma mentalidade de assimilação, que é exatamente como a China foi construída, em um processo extremamente longo. Historicamente, a China viu-se como a terra dos céus e não interferiu no restante do mundo. Mas como uma China poderosa vai tratar um mundo definido pela diferença cultural? Isso me preocupa ainda mais do que a questão da democracia em si.
Qual será o impacto sobre valores liberais como liberdade individual, império da lei e liberdade de imprensa?
Nós estamos entrando em um mundo cultural complicado, no qual valores ocidentais vão ser contestados de uma nova maneira, com a emergência de novas culturas. Quando seu país e sua cultura são dominantes, os outros te copiam. O mundo vai ficar muito mais exposto à cultura chinesa, que é vastíssima e pode acrescentar elementos à experiência global. Eu estou deliberadamente separando as questões culturais dos temas políticos. Não acho que a noção de império da lei vai se aplicar na China da mesma maneira que no Ocidente. Mas eu acredito que a China será uma sociedade cada vez menos arbitrária. O que enfatizo é que a China tem um conceito muito diferente da relação entre Estado e sociedade e essa não é uma característica apenas do período comunista, mas do sistema chinês. O Estado ocupa uma posição diferente da que ocupa em sociedades ocidentais, ele desfruta de autoridade e legitimidade. O Estado chinês nunca teve sérios competidores, como a Igreja foi na Europa. O Estado chinês é extremamente competente. Muita gente fala sobre o Estado no Ocidente, mas não se discute a questão de sua competência. Acredito que nesse aspecto haverá um enorme interesse tanto de países em desenvolvimento quanto dos desenvolvidos de estudar a tradição do Estado chinês e sua competência.
Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags: China, Economia, Estadão, Martins Jacques

Nassif, fiz um post no meu blog pegando carona na excelente entrevista que você enviou e tecendo alguns comentários pessoais. Estou sempre puxando coisas daqui, nessa coisa boa que é a blogosfera. Saudações fraternas!
http://direitoesubjetividade.wordpress.com/2009/10/26/o-seculo-chines/
Sei não, hein. Já vi alguns exemplos desse complexo de superioridade dos chineses em alguns forums e tenho a impressão de que nós vamos sentir falta da hegemonia ocidental. Além do que, pelo que pude entender, a previsão do entrevistado não é uma China hegemônica, mas um mundo multi-polar. Multi-polaridade, como sabemos, torna o mundo um lugar mais perigoso. Demorou para que nos armemos até os dentes de modo que qualquer agressão contra nós custe tanto que o agressor desista.
Será mesmo que a China tem essa visão de superioridade sobre o mundo? Será mesmo que eles estão ascendendo para formar um novo império?
Eu acho que não.
Acho que a análise do britânico parte de uma ideologia de poder estritamente ocidental, daquela que remonta à formação das principais civilizações ocidentais: a grega e a romana. Ele se esquece de que a China passou por uma Revolução Cultural, que visava remodelar o povo chinês sob uma nova visão de sociabilidade, em que as noções de cooperação e de solidariedade tinham papéis determinantes.
Não dá para comparar a China dinástica com a China atual. Ao que tudo indica, o PCC ainda advoga a tese da construção do socialismo num único país. Na verdade, o que eles estão fazendo é promover cada vez mais a ascensão da sociedade chinesa nos estágios do capitalismo avançado.
Fico me perguntando constantemente: será que já não estamos vivendo uma transição global para o socialismo? Isso me parece claro em algumas partes do globo. Talvez, nesse século XXI, a China, principalmente, no oriente, e o Brasil, no ocidente, podem ser os elementos irradiadores de novos paradigmas sociais. Ao invés de rezarmos a cartilha decadente dos EUA, no século XX, ou dos Europeus, no século XVI em diante, o que devemos fazer é advogar pela redução ao máximo as desiguldades regionias e globais. Isso se dará pela generalização do desenvolvimento tecnológico, de tal maneira que, pela integração global dos diversos sistemas produtivo-logísticos, a dependência técnico-econômica entre as diversas sociedades humana será reduzida a um minimum. Creio que esse é o ponto de partida para podermos imaginar a superação da dialética do senhor-escravo, pois, do contrário, estaremos apenas dando vida ao nosso futuro algoz; da mesma maneira que a URSS, os EUA, os britânicos, os romanos, etc, no passado.
Por meio deste comentário, gostaria de sugerir o texto que está no nosso blogue, a propósito de China e mando.
http://www.apocaodepanoramix.com/?p=404
Show de bola este post e seus comentários. Passo, porque não entendo nada do assunto. Mas aprendi um bocado.