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24/10/2009 - 07:00

O discurso de Lula

Por Ricardo Amaral

O problema com Lula não é falar demais; é ser ouvido por milhões

Como se esperava, a boa entrevista do Lula ao Kennedy Alencar repercute na imprensa por causa de duas irrelevâncias, destacadas pela edição da Folha: uma frase descontextualizada sobre jornalismo e uma comparação exagerada com Jesus Cristo. É mais do mesmo. Esse pessoal acha que Lula fala demais e fala bobagem. Só este ano já foram 220 entrevistas e outros tantos discursos nas mais diversas circunstâncias. É natural que deixe escapar frases infelizes, comparações inadequadas, exageros e injustiças. E daí? O dado objetivo é outro: Lula fala para dezenas de milhões, com objetividade e clareza; é ouvido e assimilado como nenhum outro presidente foi antes dele. Por isso incomoda tanto; por isso tentam repercutir o acessório e escamotear o conteúdo.

Lula é um tipo raro de político, especialmente para o convencionalíssimo padrão retórico brasileiro. Ele se expressa com sinceridade, em público e no particular. Seu discurso é uma poderosa arma política, porque costuma dizer não só o que as pessoas comuns querem, mas o que elas precisam ouvir. Para arriscar uma comparação: o Winston Churchill da Batalha da Inglaterra (já ouço o espocar dos ovos). Grandes líderes percebem que a palavra sincera pode ser mobilizadora.

O comum na política é a frase evasiva; é contornar o conflito para não agravar a realidade. Só raramente grandes políticos brasileiros usaram a retórica de forma eficaz. Leonel Brizola, depois do exílio, teve grandes momentos, mas o exemplo que me vem agora é Ulysses Guimarães, na promulgação da Carta de 1988. “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo”, ele disse, na cara dos generais, lembrando ao país que a obra da redemocratização ainda não estava completa.

Fernando Collor estava certíssimo quando disse que nossa indústria automobilística só produzia “carroças”. De maneira consequente, lancetou uma ferida do orgulho nacional e obrigou a indústria a avançar. Também estava sendo sincero quando comparou a inflação a “um tigre que se abate com um tiro só”. O problema aí é que ele estava redondamente enganado, e quem pagou pelo erro foi o país.

Ser sincero não é para qualquer um. Fernando Henrique se arriscou duas vezes nesse terreno e saiu-se mal nas duas. No caso dos “caipiras”, ele se referia a uma parcela de críticos provincianos ou com uma visão colonizada do mundo. Não estava errado, mas tentou ser coloquial e pareceu preconceituoso. No caso dos “vagabundos” detentores de aposentadorias precoces, indignas e injustas, tinha toda razão, mas tropeçou na péssima retórica (FHC é um conversador cativante de inteligência excepcional, mas um orador confuso e péssimo escritor). Nos dois casos, os demagogos fizeram a festa.

Por experiência própria, Lula já deveria ter aprendido a evitar comparações de inspiração religiosa. A impressão que elas deixam costuma oscilar entre o messianismo e a blasfêmia. Futebol, agricultura e família sempre serão territórios mais seguros para a metáfora politica.

Lula disse que, para governar o Brasil, Jesus Cristo teria de entrar em acordo com o partido de Judas. A comparação é de mau gosto, mas está bem próxima da realidade politica e institucional do país. Não dá para esperar que esse sistema (do qual Lula é parte necessária) se transforme por dentro. É mais consequente expor o problema como ele é (como Lula fez) e discutir como superá-lo (de fora para dentro), do que pedir a opinião do bispo. Se for pra discutir no campo, digamos, moral, que tal perguntar aos chefes do PMDB como eles se sentem no papel de Judas? E o pessoal do DEM?

Lula disse também que, para ele, o papel da imprensa é dar notícias, sejam denúncias, sejam elogios, e não misturar preferência partidária com texto informativo. Resumiu parte desse pensamento numa frase infeliz: “Não acho que o papel da imprensa é fiscalizar. É informar.” O mancheteiro devia ser condecorado com a Ordem da Jarreteira, aquela que tem como dístico “Honni soit qui mal y pense” (numa tradução livre: a maldade está na cabeça de quem a aponta).

Desde o impeachment de Collor, faz-se praça de que a imprensa investiga, denuncia, julga, condena e pune todos os poderes instituídos, sem perder o equilíbrio, a objetividade, a imparcialidade e o senso de justiça. Ufa! Mesmo quando se presta a manipulações políticas rasteiras, a imprensa precisa acreditar que está fiscalizando a República. Podia ser apenas uma ilusão, mas virou vício. Nossa imprensa quer ser protagonista da política sem ter de pagar o preço da definição partidária. Muito a favorece, nesse desvio, a mediocridade dos atores políticos, oposição e governo. A maioria compactua com essa visão distorcida da imprensa, por oportunismo, ou se rende a ela por covardia.

Lula pode ter errado na forma, quando incorporou o autoconceito da imprensa “fiscal da República”, antes de negá-lo. Mas acertou de novo no conteúdo: nossos jornais estão misturando posição partidária com notícia, o que é notório pela pauta e pela hierarquização dos conteúdos. A demonstração cabal do que Lula diz é a repercussão da entrevista ã Folha. Ele falou sobre câmbio, juros, previsão de crescimento do PIB, os caso Vale e Oi, as relações com outros partidos, política externa, Dilma, Serra e um vasto etcétera. Mas nossa imprensa só fala de si. E de Judas. Dá mesmo a impessão de que não querem que Lula seja ouvido.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags: , , , , , ,

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69 comentários para “O discurso de Lula”

  1. mariazinha disse:

    Sobre o jornalista KA, que não leio usualmente, tive a pior das impressões:
    O Exmo. Presidente LULA, ao se ver forçado pelo jornalista com perguntas tolas, mostrou um grau elevado da inteligência. As perguntas toscas do jornalista, receberam respostas inteligentes. Deixaram à mostra um entrevistado superior em matéria de massa encefálica. Pobre, medíocre, insignificante, o jornalista ficou, literalmente, no chinelo. hahaha… De leve.

  2. Carlos disse:

    Nassif,
    Se a CNBB, os partidos de oposição e o PIG não conseguiram entender a frase do Presidente Lula, tomo a liberdade de invocar a seguinte metáfora futebolística: Se for para ganhar a Copa Libertadores da América, ou a Copa Mundial Interclubes, não há nenhum mal que o Corinthians tome emprestado alguns jogadores do Palmeiras.

    • Andre Araujo disse:

      Maravilha, tem tudo a ver, Teologia, Futebol e Lulismo, só o prezado colega blogueiro entendeu.

  3. Leonardo Xavier disse:

    Eu acho que o Kennedy Alencar vai é ser demitido!!!

  4. Clever Mendes de Oliveira disse:

    Ricardo Amaral,
    Aqui neste post de sua autoria “O discurso de Lula” de 24/10/2009 às 07:00, você diz: “O dado objetivo é outro: Lula fala para dezenas de milhões, com objetividade e clareza; é ouvido e assimilado como nenhum outro presidente foi antes dele. Por isso incomoda tanto; por isso tentam repercutir o acessório e escamotear o conteúdo”.
    É exatamente o que eu penso. Mas antes dessa frase você diz:
    “É natural que deixe escapar frases infelizes, comparações inadequadas, exageros e injustiças. E daí?”.
    Bem, hoje os erros dele são menores, mas mesmo antes não me incomodavam muito, mas não os considerava sem importância. Embora eu tenha sido brizolista, eu nunca torcia contra Lula. Pensava que eram erros ruins e os sentia como se fosse um apoiador, mas considerava os erros que ele cometia resultado de idéias que eu era contra e, portanto, culpava mais o PT por professar aquelas idéias que permitiam Lula se sentir à vontade em divulgá-las.
    Os erros de Lula a meu ver se centravam na falta de compreensão do devido processo legal que o levava a considerar culpados todos aqueles que o PT considerava culpado e todos aqueles contra qual corria um processo.
    No meu entendimento também era errada a concepção de tributo de Lula (A concepção de tributo do PT), era também errada o combate que ele faz ao fisiologismo (Que o PT faz) e por fim achava errada a concepção de Estado de Lula (A concepção de Estado do PT). Como não há Estado sem tributo, nem Democracia sem fisiologismo, nem Estado Democrático de Direito sem o devido processo legal, eu considerava essas falhas graves em Lula.
    A meu ver quando os erros que ele comete instruem a população em valores ou idéias em que eu não acredito eu tenho todo o direito de negar o seu “E daí?” Cometer esses erros em meu entendimento é ruim para a formação de uma sociedade que eu pretendo ver formada mais de acordo com o meu ponto de vista, com minha ideologia.
    É com base nisso que eu sempre que lembro e é pertinente – e eu lembrei agora e é pertinente aqui – censuro FHC quando na campanha de 1994, com a eleição garantida à custa do Plano Real, foi a televisão e prometeu reduzir os impostos. Se fosse a frase cínica de que ia reduzir o número dos impostos, eu a aceitaria mesmo achando-a hipócrita, mas dizer que vai diminuir os tributos, não aproveitando o momento para instruir a população e mostrar para ela que o imposto é o principal instrumento para acabar com a inflação e podendo resultar em benefícios para a camada mais pobre da população, é prestar um desserviço à nação.
    O Presidente pode querer atingir milhões e não meia dúzia de três ou quatro, mas ele não pode deseducar (Aqui eu tenho que conceder que o deseducar é na minha concepção do que considero deseducar, mas é com essa concepção que eu posso analisar) a população.
    Em razão disso eu fiz uma análise crítica da frase de Leandro em comentário enviado em 22/10/2009 às 13:50 para o post aqui no blog do Luis Nassif intitulado “Lula fala sobre mercado, coalizão e imprensa” 22/10/2009 às 09:07 em que o Leandro diz:
    “A fala de Lula, isenção para as notícias e ideologias e opiniões para os editoriais, me pareceu quase decorada, bastante artificial. Correta, mas artificial”
    No meu entendimento querer isenção nas notícias é errado. É idéia que conta com a defesa de Luis Nassif, mas para mim, imparcial, isento, neutro é só o cabeça oca. Como em meu entendimento Lula já evoluiu bastante ele não diz isenção para as notícias. Relendo a entrevista vi que Lula disse:
    “A única coisa que peço a Deus é que a imprensa informe da maneira mais isenta possível”.
    Quanto a sua afirmação a seguir transcrita:
    “Fernando Collor estava certíssimo quando disse que nossa indústria automobilística só produzia “carroças”. De maneira consequente, lancetou uma ferida do orgulho nacional e obrigou a indústria a avançar.”
    Eu discordo um pouco. E transcrevo sobre isso parte do meu comentário enviado em 21/10/2009 às 19:55 para Luis Nassif junto ao post “A economia e o discurso público” de 21/10/2009 às 08:41. Eis parte do que eu disse:
    - – - …. – - – …. – - – …. – - -
    “Quanto a sua referência sobre a importância da frase do Collor sobre os carros brasileiros, eu tenho opinião distinta da sua. Para expressá-la vou reproduzir parte de comentário que enviei em 04/04/2009 às 14:47 para o post aqui no seu blog intitulado “A oligopolização, sob Thatcher” de 03/02/2009 às 10:00 de autoria de Pedro. Na parte que interessa eu digo o seguinte:
    - – – – – – – – – – – — -
    “Há também sua referência, como caso clássico, à indústria automobilística para a qual houve a célebre frase de Collor: “Os carros brasileiros são uma carroça”. Bem, quando Collor disse a frase eu brincava retrucando: “Para quem cara pálida, para quem cara pálida?”. Se você pegar uma estradinha do interior não fique surpreso se você topar com uma brasília sendo carregada por (ou carregando) uma família de até cinco filhos (embora hoje não se façam famílias com cinco filhos). E o melhor. Em 1985 foi lançado o Fiat Uno. Ainda hoje, o mesmo modelinho de antanho, com alguns reforços de proteção para os passageiros e motorista, é um dos carros mais vendidos no Brasil.”
    - – – – – – – – – – -
    E aproveito para indicar a leitura do livro que lá em “A oligopolização, sob Thatcher” o comentarista West em comentário enviado em 11/02/2009 às 17:31 indicou. Trata-se de “Como a picaretagem conquistou o mundo”, de Francis Wheen, jornalista do Guardian inglês. Não conhecia o livro que é realmente muito bom. É um livro recente falando de um tempo passado, mas é extremamente atual e tenho certeza que tivesse sido escrito antes e FHC o tivesse lido antes ele não seria tão aculturado”.
    - – - …. – - – …. – - – …. – - -
    E você prosseguiu falando sobre Fernando Collor com a frase:
    “Também estava sendo sincero quando comparou a inflação a “um tigre que se abate com um tiro só”. O problema aí é que ele estava redondamente enganado, e quem pagou pelo erro foi o país.”
    Sim, creio que Fernando Collor estava enganado, mas que pagou pelo erro foi o próprio Fernando Collor. Se a inflação tivesse acabado, ele se tornaria um grande herói nacional e ai a nação iria sofrer. Como ficou, ele deixou as condições para se acabar com a inflação e não fez a dívida pública crescer desabrigadamente como na época de FHC. Sou leigo, mas tenho que reconhecer que há teóricos da economia que defendem o crescimento da dívida.
    Em relação ao seguinte parágrafo no texto de sua autoria que compõe este post “O discurso de Lula” de 24/10/2009 às 07/10/2009, e que eu o transcrevo de imediato:
    “Lula disse também que, para ele, o papel da imprensa é dar notícias, sejam denúncias, sejam elogios, e não misturar preferência partidária com texto informativo. Resumiu parte desse pensamento numa frase infeliz: “Não acho que o papel da imprensa é fiscalizar. É informar.” O mancheteiro devia ser condecorado com a Ordem da Jarreteira, aquela que tem como dístico “Honni soit qui mal y pense” (numa tradução livre: a maldade está na cabeça de quem a aponta).”
    Lembrando que embora eu também utilize essa tradução livre sua, a tradução mais ao pé da letra seria: “Maldito seja quem nisto põe malícia”, eu vou transcrever o que eu escrevi para Leandro na minha análise crítica de comentário dele enviado em 22/10/2009 às 13:50 para o post aqui no blog do Luis Nassif intitulado “Lula fala sobre mercado, coalizão e imprensa” 22/10/2009 às 09:07 e que eu fiz referência acima. Disse eu lá:
    “O papel do governo é governar. Como o governo governa, é outra história. Espero que você deseje tanto quanto eu desejo que todos os governos sejam o mais transparente possível.
    O papel da mídia é informar. Para informar direito a mídia tem de investigar a informação que ela vai passar para o público. Todo o cidadão, e a mídia em cada um dos seus repórteres, tem direito de fiscalizar o seu governo, mas não tem os direitos especiais que possuem os que têm a obrigação de fiscalizar o governo.”
    Enfim, não concordo que a frase tenha sido infeliz.
    E para terminar eu vou terminar como eu terminei meu comentário para Leandro. Sinto estar copiando, mas não copiaria se o assunto não se estendesse tanto. Assim a seguir deixo o término do comentário para Leandro que foi como eu prometi terminar meu comentário aqui para este post. (Copiar e repetir e se possível rimar, eis o meu porvir):
    “E congratulo em saber que ele [Lula] está tendo bons professores (ou professores que possuem ideologia semelhante a minha que não sou professor, diga-se de passagem, mas que, como todos, acredito ser boa a ideologia que possuo).
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 24/10/2009 (De Pedra Azul/MG)

    • Ricardo Amaral disse:

      Caro Clever,
      Você tomou meu “E daí?” ao pé da letra e alargou demais a jurisdição do termo.
      Você está certíssimo sobre a responsabilidade de quem fala para milhões, mas eu só quis apontar a implicância da imprensa com o acessório.
      Por favor, não me tome como indulgente nas questões reais.
      Um abracó e obrigado pela leitura.

      • Clever Mendes de Oliveira disse:

        Ricardo Amaral (25/10/2009 às 13:13),
        Eu que tenho de agradecer. Meu texto é maior que o seu e o seu estilo é melhor.
        E para consertar um pouco o que eu escrevi eu vou colocar um acréscimo (em letras maiúsculas) na minha referência ao crescimento da dívida no governo de Fernando Collor e no governo de FHC na seqüência transcrita a seguir:
        “Se a inflação tivesse acabado, ele [FERNANDO COLLOR] se tornaria um grande herói nacional e ai a nação iria sofrer. Como ficou (SOFRENDO O IMPEACHMENT E SAINDO DO GOVERNO), ele [FERNANDO COLLOR] deixou as condições para se acabar com a inflação e não fez a dívida pública crescer desabrigadamente como [ELA CRESCEU] na época de FHC. NESSE ASSUNTO DE DÍVIDA PÚBLICA É PRECISO QUE EU DIGA: sou leigo, mas tenho que reconhecer que há teóricos da economia que defendem o crescimento da dívida, O QUE PODE SER UMA BOA DESCULPA PARA FHC”.
        Clever Mendes de Oliveira
        BH, 27/10/2009

      • Clever Mendes de Oliveira disse:

        Ricardo Amaral (25/10/2009 às 13:13),
        Por ter muitos pontos em discordância eu analisei seu comentário apenas pelo lado crítico e usei também para mostrar que embora eu tenha feito mais elogios ao Lula no meus últimos comentários não sou um lulista empedernido. Não foi, entretanto, apenas pelo lado crítico que eu li o seu artigo. Já na primeira leitura achei-o muito bom.
        Clever Mendes de Oliveira
        27/10/2009

  5. João Guilherme Pontes disse:

    Segue o artigo do Kennedy Alencar :
    Lula e os fariseus
    Num país cristão e conservador, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou uma expressão inadequada para retratar uma realidade. Disse que seu sucessor teria de fazer alianças políticas conservadoras para governar.
    Assim falou Lula: “Quem vier para cá não montará governo fora da realidade política. Se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão”.
    Jornalisticamente, a frase é muito boa. Forte e de uma clareza ímpar em relação ao que Lula pensa. Enxergar nela ofensa religiosa é exagero. Teve até comunista mostrando inusitada indignação religiosa. Chegou a ser engraçado, farisaico até.
    É incontestável a melhora crescente de nossa política desde a redemocratização, em 1985. Mas ela ainda tem vícios graves.
    Certamente, o maior deles não é a necessidade de fazer alianças esdrúxulas. Isso é ruim. E o PT paga um preço adicional por ter rasgado princípios éticos de sua fundação em nome do realismo político. Isso merece e deve ser cobrado de Lula e do PT.
    No entanto, o maior dos males em nossa política é o financiamento das campanhas eleitorais. Foi montada uma engrenagem que dá vantagem a candidatos sem compromissos com os eleitores, mas apenas com os financiadores que cobrarão a fatura adiante.
    O atual modelo de financiamento privado caducou. O financiamento público merecia ser examinado sem preconceito. Poderia até ser permitida a continuidade de algum financiamento de origem privado, mas com limite bem baixo. Outra ideia é levar as grandes empresas a contribuir para um fundo público, que seria distribuído de acordo com o peso de cada partido na última eleição _mais ou menos como se dividem hoje os recursos do fundo partidário e o tempo de rádio e TV no horário eleitoral gratuito.
    Mas esse debate não avança. Reforma política virou palavrão por diversos motivos. É uma expressão genérica usada pelos bem e os mal-intencionados. Há muito debate sobre quais projetos deveriam compor o pacote. Definido o pacote, descer aos detalhes, onde reside o Diabo. Opinão: o país não vai melhorar o seu sistema político sem essa reforma.
    Pelo peso que tem, o presidente da República deve ser cobrado a tentar tirá-la do papel. Mas não é responsabilidade apenas de Lula. A imprensa tem sua parcela de culpa. Na maioria das vezes, ridiculariza a proposta de reforma ou sentencia que uma nova articulação para aprová-la tenderá novamente a dar em nada. A imprensa deveria fazer uma campanha pela reforma.
    Os dois principais partidos do país, PT e PSDB, estão divididos em relação a pontos cruciais, como a eventual criação de uma sistema distrital misto e a lista partidária. O grande bloco governista empurra com a barriga. A atual oposição, que já foi poder por oito anos, faz o mesmo.
    Na entrevista à Folha, publicada na quinta-feira 22/10, o presidente Lula teve o mérito de não se comportar como fariseu. Constatou uma triste realidade do sistema político e discorreu com franqueza sobre câmbio, juros, poupança, crise econômica, interferência do Estado na iniciativa privada, imprensa, futebol etc.
    A entrevista retrata um presidente maduro e explica por que ele faz um governo bem avaliado e aprovado pela maioria da população. Lula se expôs com sinceridade e clareza de pensamento, algo incomum em entrevistas desse tipo. O petista não se escondeu. O governador de São Paulo, José Serra (PSDB-SP), tem razão. A entrevista mostrou bem quem Lula é. E a fotografia saiu mais positiva do que negativa, apesar dos fariseus.
    Kennedy Alencar, 42, colunista da Folha Online.

    • Clever Mendes de Oliveira disse:

      João Guilherme Pontes (24/10/2009 às 20:10),
      O texto de Kennedy Alencar é realmente muito bom. Até ao utilizar o termo inadequado para qualificar a utilização de Lula da comparação da política feita pelos partidos e da política feita por Jesus ficou em sintonia com o que eu penso.
      Não concordei com os que consideraram equivocada a comparação, mas inadequada sim.
      Aliás, no meu comentário enviado em 24/10/2009 às 16:42 em contraponto ao comentário de Ozzy enviado em 24/10/2009 às 7:16 para o post “Avaliações sobre Jesus” de 24/10/2009 às 07:00 de autoria do Índio Tupi eu até utilizei equivocadamente o termo erro, mas procurava evidenciar mais a inadequação da expressão como se vê na transcrição a seguir de parte do meu comentário (com acréscimo entre colchetes):
      “O erro de Lula a meu ver foi trazer a aliança de Jesus com Judas para este mundo, quando o Reino dele [de Jesus] não era deste mundo”
      Clever Mendes de Oliveira
      BH, 27/10/2009

  6. Alexandre Leite disse:

    Nassif e Ricardo,
    resumindo, a crítica à metáfora do Judas é o cúmulo do politicamente correto sendo aproveitado eleitoralmente.

  7. Maurício Gil - Floripa (SC) disse:

    Perfeita análise, Ricardo.
    De tantos assuntos importantes tratados na longa entrevista, pinçaram DUAS, apenas duas frases, e estão fazendo esse carnaval todo.
    É muita má-vontade, para dizer o mínimo.

  8. Juliano Santos disse:

    para.mim.o.post.do.Ricardo.Amaral.encerra.o.assunto
    lúcido,claro.e.certeiro
    depois.desse.texto
    não.lerei.mais.nada.sobre.o.assunto

  9. Claudete disse:

    LUIS NASSIF
    QUE HISTÓRIA É ESTA DE ESTAR DIVULGANDO NOTÍCIAS QUE CAUSA DANOS MORAIS E INJÚRIA DIZENDO QUE O PRESIDENTE LULA ATACOU SEXUALMENTE UM MILITANTE? NO JORNAL O VALEPARAIBANO DE SÃO JOSÉ DOS CAMPOS? PRECISAMOS DE PROVAS.

  10. Ernesto disse:

    Quanto aos erros de pronúncias e até mesmo de comparações que o Presidente faz, temos a obrigação de dar descontos e perdoar de imediato, pois a maioria dos críticos o consideram analfabeto! o que não dá para engolir são os erros dos altamente letrados que por lá passaram e só erraram. É como disse o próprio Presidente, Os maiores corruptos são os que mais denunciam.

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