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23/10/2009 - 09:35

Estadão: a arte de ser conduzido

O governador José Serra tem seu passado de grande homem público, economista influente, intelectual sólido. E de ampla indecisão, ainda mais em temas que exijam definições políticas.

A indecisão deixou o campo aberto para os novos ideólogos da oposição: a Mídia, isso, o Kamel, Otavinho, o Civita com toda aquela sofisticação política e analítica já conhecida. E o Estadão correndo atrás.

Aí eles descobrem a grande sacada: a menção de Lula a Judas e ao papel da imprensa. Manipula-se a declaração de Lula, para servir de bandeira oposicionista. Eureka! Genial! Descoberta a pedra filosofal a orientar daqui para frente a oposição. A ordem unida ecoa por todos os cantos. Ouve-se CNBB aqui, deputados ali, Fenaj acolá, repercutamos, repercutamos.

E o Serra – que pode ter muitos defeitos, mas morre de medo do ridículo – é obrigado a ir atrás.

Daí o Estadão – que vive correndo atrás do eixo Veja-Globo-Folha invertendo a frase símbolo de São Paulo (não conduzo, sou conduzido)-, chega resfolegante para a repercussão, cerca Serra daqui, cerca dali e arranca uma declaração bombástica:

‘A entrevista mostra bem o que é o Lula. De ponta a ponta, na forma e no conteúdo’, disse o governador de SP

Bela frase, que não quer dizer absolutamente nada.

Aí o repórter insiste sobre o tema Judas:

Questionado se concordava que uma aliança entre Jesus e Judas seria necessária para 2010, Serra respondeu: “Não sei. Quem fala com Cristo pode perguntar a ele”.

Ou seja, para uma pergunta tola, uma resposta que não quer dizer nada.

Não falou nada, nada disse. Mas o Estadão solta a manchete exultante:

Serra ironiza presidente Lula sobre aliança entre Jesus e Judas

Por Jotavê

De um ponto de vista discursivo, a situação está insustentável. O Josias claramente baixou a guarda, apesar de ter mantido o tom moralizante (ou talvez exatamente em função dos limites que esse tom impõe a quem o adota). O editorial da Folha tenta equilibrar-se em distinções bizantinas – insinua que FHC era “pragmático”, ao passo que Lula é “conivente”. Como dizia minha tia: “hã hã…” O editorial do Estadão critica Lula por não ter dado nenhum passo no sentido de fazer a reforma política, esquecendo-se que a tal reforma depende exatamente dos votos no Congresso que obrigam o governo Lula (como obrigaram o de Fernando Henrique) a entregar parte do Estado brasileiro à pilhagem do PMDB. Os mais virulentos foram se refugiar na teologia, em busca de uma tábua de salvação. Por trás da retórica espalhafatosa, fica nítida a falta de opções argumentativas minimamente viáveis. Para amanhã, Dora Kramer promete um castelo de areia de própria lavra. Se ela, por qualquer motivo, não puder escrever seu arrazoado, o leitor não perderá coisa alguma. A previsibilidade é total. Roberto da Matta concorda e não concorda, mas, por via das dúvidas, não diz, nem desdiz. Para não dizerem que não disse o que deveria ser dito, aproveita para xingar Lula de ignorante.

Que ninguém se iluda com a verborragia dominante. Game over. A fonte secou.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Eleições, Política Tags: , ,

126 comentários para “Estadão: a arte de ser conduzido”

  1. Jose DF disse:

    Nassif , o serra é economista desde quando?

  2. Elvys disse:

    Essa história do diploma de graduação do Serra me chamou a atenção em 2002. Em toda propaganda se via (ou lia) interrompeu seus estudos na Poli/USP. E depois acrescentava titulação de mestre e doutor. Afinal de contas, o governador de SP realmente tem curso superior? Outro ponto que chamou a atenção: o comentário de internauta neste post de que no exterior não é necessário graduação completa para obter titulação de mestre ou doutor. Em quais paises isso ocorre? Os títulos obtidos nesses países são equivalente aos obtidos no Brasil?Tem o mesmo peso? É algo que acabou por me chamar minha atenção. Aliás, Nassif, não seria interessante iniciar uma discussão comparando os programas de pós graduação do Brasil países do chamado Primeiro Mundo? Ou então com os outros do BRIC?

  3. Wilson Ruivo disse:

    Se Jesus Cristo voltasse à terra e se candidatasse à presidência pelo PT (esquerda) e o Demônio fizesse o mesmo pelo PSDB (direita), podem estar certos: o Estadão iria fazer uma campanha violenta contra Jesus (esquerda)em favor do Satanás (direita).

  4. Leonardo Favetti disse:

    E continuo aguardando propostas deste sr que pretende ser presidente!

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