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13/10/2009 - 19:00

Histórias da Ditadura

Por Humberto

Leitores (as):

No fora de pauta “vespera de um fim de semana prolongado” deixei um comentario. Abria um parentesis do depoimento q dei ao Governo Canadense no pedido de refugio. Contei um pouco da minha adolescencia antes a Ditadura.

Hoje retomo com os dois fatos que marcaram minha vida definitivamente, em Abril de 1964, na nova capital federal;

a subita morte de meu pai, 45 anos: obito: hemorragia cerebral; causa: acidente automobilista; local: L-2 Sul, Brasilia-Df

A Ditadura. Enterro de sonhos no ano que nunca acabou.

Realidade q pode parecer muito distante para muitos brasileiros com menos de 45 anos.

Nao para aqueles que vivenciaram de perto a construcao de um sonho, q nao era somente de Dom Bosco. Parece q foi ontem.

Para mim, adolescente, 15anos, fiho de um funcionario da presidencia do Joao Goulart aquele ano é hoje.

Talvez a morte de meu pai nem tenha tido uma relacao direta (causa-efeito) com o Golpe Militar, mas a instalacao do sentimento de perdas foi comum. Reciproco até.
O rompimento da relacao afetiva famliar somada a descaracterizacao daquela cidade futurista, com suas belas e suaves linhas arquitetonicas de um horizonte enormente otimista, constuida nas alturas do cerrado, a ocupacao dos espacos livres por carros e aviacao de combates,transformaram Brasilia num labirinto com uma unica saida e entrada ao norte e sul da cidade, controlada por bestas vestidas com uniformes verde-oliva.

Sao imagens indeletaveis.

O pesadelo: familia reduzida numa mae (42 anos) com 6 filhos nos bracos (17,16,15,14,13, 12 anos), desalojados do apto. que ocupavamos no Plano Piloto, quebra dos lacos de amizades (muitos amigos da familia abandonaram brasilia). Fomos bater na porta da Igreja Catolica, paroquia do Sagrado Coracao de Jesus.

O abrigo nos concedido pelo padre Edward Van de Walle nao durou muito. Jovem, formado na nova igreja holandeza, foi preso em plena missa dominical ao terminar o sermao dedicado aos trabalhadores no 1 de maio, contra os militares. Foi expulso do pais.

E agora José ? Voltar pro Nordeste, de onde viemos? Impossivel.

A pensao recebida pela mae nao dava pra sustentar toda a familia. Fui trabalhar com 16 anos( escritorio de advogacia de José Carlos Baleeiro) durante o dia, a noite estudava, alimentando o sonho de um dia ser universitario.

Com 20 anos, estudando para o vestibular a Unb foi invadida pelos milicos, reitor e professores presos, amigos presos, torturados no PIC (policia do exercito), indo pro exilio.

Fim da inocencia, perda do gosto pela vida academica.

Casei, me separando 2 anos depois e partindo para o mundo.

Primeira escala:

Aldeia dos Indios Gavioes, Amazonia, margem direita do RioTocantins, 1973.

(continuo no proximo fora de pauta, se me permitem)

Autor: luisnassif - Categoria(s): Crônica Tags: , , ,

34 comentários para “Histórias da Ditadura”

  1. Marco Antonio disse:

    Talvez o melhor post já colocado aqui até hoje.

  2. [...] aqui para ler a primeira parte. Autor: luisnassif – Categoria(s): Sem categoria [...]

  3. [...] Histórias da Ditadura – Parte I Autor: luisnassif – Categoria(s): Sem categoria Tags: [...]

  4. Ayrom disse:

    Daria um bom livro.

  5. Ayrom disse:

    Humberto, coloquei aqui para leitura de todos, o ultimo fora de pauta e continuacao de HISTORIAS DA DITADURA, abraço e estou gostando.

    Leitores (as),
    Sem a presenca da Funai e dos misssionarios um novo tempo inicia-se na aldeia. Esperanca, perspectivas de futuro melhor toma conta daquela comunidade. Indescretivel.
    As mulheres que vinham praticando silenciosos abortos para nao oferecerem seus fillhos a escravidao, a um mundo totalmente ameacador, incerto, comemoravam agora suas enormes barrigas. A vida voltava.
    Este foi, talvez, o sintoma mais visivel da mudanca.
    Os rituais, alguns ha muito impraticados, proibidos, voltaram com uma forca singular. A retomada das tradicoes indigenas era de uma intensidade contagiante. Uma celebracao unica.
    O chefe indigena, vitorioso, reconduzia seu povo as suas origens, ao universo do qual um dia foram expulsos.
    Ciclo continuo de festas, muita caca, farta colheita, cantorias e dancas noites e dias.
    Enquanto isto nos gabinetes militares em Belem e Brasilia, os coroneis e generais proclamavam: ” É orgia “. Os relatorios “confidenciais” , sigilosos falavam em “infiltracao de elemento subversivo, agitador” que estava “incitando os indios a acoes contra a seguranca nacional”
    Estava assim, criminalizada o historico movimento indigena e econtrado um “culpado” pelo “crime”, pretextos, na verdade, para o contra-ataque.
    O verao amazonico estava terminando, o inverno, periodo das chuvas, se aproximava (epoca que as castanhas comecam a cair) os trabalhos da primeira producao da castanha, totalmente independene da Funai exigia um capital que a comunidade nao possuia.
    Uma comitiva de conselheiros do chefe foi criada para viajar para Belém, com o objetivo de conseguir um emprestimo para o financiamento da pré-safra.
    Fomos direto ao luxuoso escritorio do maior exportador e comprador da castanha indigena, com vistas para o colorido porto Ver-O-Peso. Jorge Mutran nos recebeu amistosamente, servindo cafezinhos e agua em copos de cristais.
    Depois de ouvir, atentamente, um breve relato dos acontecimentos e a solicitacao de financiamento, disse tranquilamente atras de sua majestosa mesa:
    “Primeiro vou ler um oficio que recebi do Amaury”, pegando a folha leu em voz alta o trecho especial: ” De acordo com a Lei 6001, os indios nao podem realizar sem a presenca do tutor na pessoa juridica da Funai, qualquer transacao que envolva produtos oriundos do territorio indigena, nao podendo assinar recibos, nem contratos. No caso da castanha, a venda e aplicacao dos recursos é reponsabilidade exclusiva do orgao responsavel”.
    Vendo como resposta a troca de olhares indignados e o silencio do grupo a sua frente, completou:
    “Olha, vou dizer uma coisa aqui pra voces que o Amaury nao precisa saber, estou de acordo com voces, a castanha é de voces, e estou interessado em comprar de voces toda a producao, como tenho feito quase todos os anos, nao tenho problema em emprestar a quantia que voces precisam, acertar com voces, tenho confianca, mas o que nao posso é ir contra a lei, nao quero ter problemas com os milicos em Brasilia. Voces me entendem ?”. Concluiu consolador.
    Nete momento a reuniao é interrompida pela secretaria informando que o Coronel estava na linha telefonica.
    Ele pega o telefone, fazendo sinal para esperar. Demonstrando intimidade com o interlocutor, responde somente: ” Sim, claro, nao se preocupe meu chefe”. Tinha recebido um recado: “O Amaury esta esperando voces na Funai”, disse, insatisfeito pela intromissao inesperada na reuniao.
    A respostas seca, veio do lider do grupo: ” Nos nao viemos pra Belem para encontrar o Coronel Amaury, daqui vamos voltar direto pra aldeia”. Estava encerrada aquela esclarecedora e frustrante reuniao
    Ja na porta de saida, se despedindo, o Mutran entrega um cartao para o lider dizendo baixinho, com a ponta do polegar na boca (sinal de boca fechada): ” Procura esta pessoa la em Maraba, ele vai ajudar voces”
    Quando estavamos saindo do predio, cabisbaixos, o jeep da Funai encosta na nossa frente, o motorista desce e sauda em tom de brincadeira o conhecido grupo: ” Ficaram brabos né ?
    … nem nos visita mais…vocs nao vao falar com o Delegado ?
    Se quizerem pode vir com a gente”.
    ” Nao, vamos pra aldeia!”, foi a resposta de quem nao estava para brincadeiras.
    O passageiro que ficou dentro do carro, pegou um papel que foi entregue ao lider.
    Era copia de um telegrama da 3a.DR-Belem para o chefe indigena:
    “O elemento, vulgo, Tiu-ré esta proibido a partir desta data a permanecer na Area Indigena Mae Maria, sob jurisdicao desta Delegacia Regional. O mesmo tem um prazo de 48 horas para se retirar da aldeia, na qual se encontra ilegalmente.
    Informamos que o Departamento de Policia Federal ja recebeu instrucoes para o cumprimento desta ordem”.
    Atenciosamente, Cel. Amaury, Delegado Regional.
    Estava dada a sentenca inicial. Tornaram a castanha indigena um produto ilegal.
    (Tiuré, meu “nome de guerra”)
    (continuo num proxmo fora de pauta.

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