O “coronel” é mais sofisticado que a mídia
Atualizado com o discurso do Sarney
Comentário pós-post
Receita para ler o discurso:
1. Repita comigo: os Sarney representam o que de mais atrasado existe na política regional brasileira.
2. Desde a Presidência, a biografia política de Sarney está recheada de episódios obscuros, de ligações com empresários polêmicos a operações escandalosas com grupos de mídia.
Cumprido o ritual, leia o comentário abaixo e, depois, o discurso de José Sarney. É uma apologia da democracia grega aos dias atuais – com a volta da democracia direta proporcionada pelas novas tecnologias. Diz que foi a política quem moldou o Brasil (digo eu, para o bem e para o mal) e tenta entender, sociologicamente, as raízes dos conflitos entre mídia e instituições.
E analisa a reforma política sob o prisma dessa revolução nas comunicações, ângulo ainda não abordado em nenhuma dessas discussões sobre reforma política. É um enfoque fundamental para nortear qualquer reforma política contemporânea.
O único trecho que os jornais extraíram do discurso:
A tecnologia levou os instrumentos de comunicação a tal nível que, hoje, a grande discussão que se trava é justamente esta: quem representa o povo? Diz a mídia: somos nós; e dizemos nós, representantes do povo: somos nós. É por essa contradição que existe hoje, um contra o outro, que, de certo modo, a mídia passou a ser uma inimiga do Congresso, uma inimiga das instituições representativas. Isso não se discute aqui, não estou dizendo isso aqui, estou repetindo aquilo que, no mundo inteiro, hoje, se discute.
Compare, agora, com as matérias escritas sobre o discurso.
Feito isso, repita comigo: Sarney é representante do atraso político; é o homem que protegeu Edemar Cid Ferreira, que articulou a venda da Cemar.
Cumprido o ritual, admita: foi um belo discurso.
De volta ao post
Clique aqui para um conjunto de matérias mostrando José Sarney como inimigo da imprensa
As análises dos jornalões costumam ser primárias por má-fé ou refletem um padrão que já se consolidou até o limite da estratificação?
Embora não se descarte o direcionamento permanente das matérias, o pano de fundo da cobertura midiática tem sido cada vez maior o primarismo exasperante nas análises. Não é que os jornais escrevem para a “dona de casa de Botucatu” (com todo respeito às senhoras botucatuenses). O padrão atual do jornalismo é igual ao da dona de casa de Botucatu. Lembra a piada do português que foi ensinar um peixe a falar e saiu de frente do aquário falando “glub-glub”.
A incapacidade da mídia de aprofundar as discussões até de temas diretamente ligados ao seu destino – como o aparecimento das novas mídias, o florescimento das redes de trabalho e de informação – mostra porque, tanto na natureza quanto na economia, dinossauros desaparecem.
Lembro-me, tempos atrás, do artigo clássico do Ali Kamel me atacando – e voltando a me atacar na resposta à carta que enviei a O Globo – em que apresentava conceitos de trabalho em rede desenvolvidos pelo espanhol Manuel Castels (sociólogo tão relevante que foi convidado para a palestra de abertura do Instituto Fernando Henrique Cardoso), como evidência da influência socializante nos livros didáticos brasileiros. Cáspite! Com uma oposição assim, Lula se torna gênio político.
Agora, a mídia inteira – liderada pelo neo-Estadão – desancando Sarney por ter colocado em dúvida a isenção dos jornais.
Nem se pegue no pé da cobertura pela falsa indignação quanto à mera suposição de que a imprensa não seja isenta. O Estadão conseguiu até o sociólogo Renato Lessa afirmando que a imprensa apenas se limita a informar. Duvide-o-dó que esta tenha sido a essência de sua análise.
A questão é que Sarney tem sido dos poucos políticos a entender de forma mais sofisticada as mudanças tremendas trazidas pela disseminação da Internet e das novas mídias.
Em sua análise ele mostra como a ampliação do direito de opinião, pela Internet, inviabiliza a representatividade na democracia convencional, coloca em xeque especialmente o Legislativo e abre espaço para uma futura democracia direta.
Mostra como a imprensa se prevalece dessa balbúrdia para investir contra todos os poderes constituídos – justamente porque a disseminação das novas mídia leva a um questionamento da legitimidade institucional. E (a mídia) não se dá conta desse paradoxo, dela explorando a catarse popular, trazida pela ampliação da informação, para questionar as instituições, sem se dar conta de que esse processo está desmascarando a própria imprensa, como representante da vontade popular.
Tem-se aí a discussão política mais importante do momentos. E nossa comunidade pode se dar o mérito de ter sido uma das que mais ajudaram a aprofundar esse tema.
A que é reduzido esse tema crucial, exposto com brilhantismo por Sarney?
Confira o que o Estadão aprontou com a pobre Maria Celina D’Araujo, do CPDOC:
A cientista política da Fundação Getúlio Vargas Maria Celina D”Araújo lamenta que o Brasil esteja discutindo a liberdade de imprensa. “Parece que nós e nossos vizinhos estamos com nostalgia do tempo em que o governo dizia o que a mídia podia fazer”, diz. “Alguns políticos preferem a imprensa bajuladora, que só faz mal a quem governa e ao País.”
Apresentaram para ela a análise de Sarney como se fosse um atentado à liberdade de imprensa. E a Celina embarcou porque jamais poderia supor que o jornalista iria manipular as declarações de Sarney para dar a impressão de ameaça à liberdade de imprensa. Afinal, como diz Renato Lessa, a imprensa apenas se limita a informar.
Segundo o Estadão:
“Mídia é inimiga das instituições”, diz Sarney
”Ataque” não ajuda democracia
Segundo a Folha:
Mídia é inimiga das instituições, diz Sarney
Segundo O Globo
Sarney: “mídia não representa o povo“
Como diria Belchior, o mais duro é que depois de tudo o que fizemos, depois das diretas, da redemocratização, da internacionalização, de termos derrubado um presidente, temos que encarar a dura realidade: o “ coronel atrasado do nordeste” tem pensamento mais contemporâneo que a imprensa “civilizada e internacionalista” do sudeste.
Deu para entender quando FHC fala em “administrar o atraso”. Não se trata apenas de tourear coronéis políticos, mas de saber levar no bico um dos setores menos atualizados da vida do país: os jornalões. Ele aprendeu a administrar os dois.
Por m.m.
Nassif, achei o discurso sofisticado (up-to-date) do Sarney, é sobre a ´democracia´, sua formação e desenvolvimento através da história – no Dia da Democracia; muito bom – e, perfeita, sua análise.
Leia abaixo a íntegra do pronunciamento de José Sarney:
SR. JOSÉ SARNEY (PMDB – AP. Pronuncia o seguinte discurso. Sem revisão do orador.) – Sr. Presidente, Srs. membros da Mesa, Senador Presidente Collor, Senador Marco Maciel, Senador Efraim Morais, Srs. Senadores e Senadoras, a democracia, sem dúvida, tem sido, ao longo dos milênios, uma busca que só recentemente encontrou a sua plenitude. Tanto que o cientista político Fukuyama, Francis Fukuyama, que escreveu um livro célebre sobre o fim da história,. diz que chegamos, neste momento, a esse fim da história, porque a humanidade encontrou duas formas definitivas para o resto da sua vida. Primeiro, foi a democracia liberal. Quer dizer, depois dessa procura, ao longo dos milênios, por um sistema de governo que pudesse representar o alto governo, hoje, nós sabemos que não há regime que possa substituir o sistema da democracia liberal. A isso ele chamou “o fim da história”.
Sem dúvida alguma, Churchill já dizia, um pouco cético – cético não -, um pouco crítico, sobre o regime democrático, que ele era, sem dúvida alguma, o pior de todos os regimes; mas que, infelizmente, nós não tínhamos encontrado um melhor.
As definições sobre democracia são realmente… Não tem quantidade.
Têm-se escrito tanto ao longo não só dos séculos, mas dos milênios… E Lincoln talvez tenha feito a mais profunda e a mais concisa definição da democracia, como o regime do povo, pelo povo e para o povo.
O nosso Otávio Mangabeira – o grande Otávio Mangabeira -, que teve uma passagem extraordinária e que era um democrata, desses que lutavam não somente pela democracia prática, mas também pela democracia teórica, teve a oportunidade de chamar a democracia… Que sempre ela era uma planta tenra que precisava ser regada para que pudesse crescer e ter alimentos.
E os gregos – talvez ele tenha se inspirado nesse pensamento grego – diziam que a democracia era uma planta antiga que precisava – também diziam eles – ser regada para florescer. Os dois conceitos são quase o mesmo.
Trata-se de forma adotada, de fato, nominalmente, pela quase totalidade dos países do mundo. Mesmo os regimes totalitários dizem ser e pretendem ser democráticos. Lembremos das ditaduras do proletariado que se diziam democracias populares.
E eu sempre dizia que a democracia, quando é adjetivada já passa a não ser democracia.
O pensamento político e a prática do poder evoluíram e evoluem sempre, sem parar, inexoravelmente, no caminho de ampliar a relação entre o usuário do Estado e o administrador do Estado.
No primeiro milênio antes de Cristo, surgiu a ideia de um governo do povo. Talvez o documento mais antigo que se conhece, no ocidente, sobre o regime democrático seja o discurso de Péricles aos mortos na Guerra do Peloponeso, em que ele fala no governo da cidade, na necessidade do cidadão de construir o seu governo e de participar do seu governo. E aquilo era uma ideia revolucionária naquele tempo, porque o governo, o poder, era constituído sempre pela força.
Criou-se, como embrião desse sistema de governo, o conselho dos anciões, que fazia parte das organizações sociais, urbanas ou nômades mesmo, sob diversas formas – ligado às estruturas familiares, às aristocráticas e mesmo às religiosas. Os conselhos de anciões estão no centro da própria concepção da democracia. Talvez a mais antiga manifestação que se tem da organização para a eleição de alguém tenha sido feita nos conventos, nos monastérios, para que se escolhesse o abade. Então, essa é, talvez, a mais antiga forma de concretamente se descobrir uma maneira da escolha de um governante em nome de todos.
Entre os antecedentes mais notáveis, no século V a.C. convive em Esparta o que era chamado a gerúsia, um conselho de 28 velhos, que se constituía numa assembleia geral de todo o povo. Mas, desde 598 a.C., em Atenas, Solon criou a Boulé, conselho de 400 representantes – aí já era mais ampliado – das tribos que, com a reforma de Clisténe em 508 a.C., passa a ser o Conselho dos Quinhentos, a conviver com a Eclésia, Assembleia Geral de Atenas, decisão direta do cidadão e não de representantes. E aí essa palavra “eclésia”, que hoje nos é tão familiar, quando aparece com a Igreja. “Eclésia” vem justamente como herança desse nome “assembléia”. Quando se chamou, então, no Cristianismo a eclesia, era realmente a assembleia constituída antigamente, no início da procura da união de pessoas que pudessem representar e constituir um governo.
Paralelamente, Roma, ao entrar na República, em 509 a.C., já possui o senatus, realmente a instituição mais antiga, que se conhece, a respeito de organização sob uma forma representativa de autogoverno. Quer dizer, literalmente, era também o conselho de anciãos, conselho de velhos, convivendo com outros órgãos representativos. O autogoverno era associado à ideia da experiência, à ideia da velhice, em que se formavam, dentro da sociedade, os representantes que eram os mais autorizados, convivendo com outros órgãos representativos.
Aí, então, já não se fazia um órgão só, mas muitos órgãos, como a comitia tributa, comitia centuriata, concilium, conventio, que eram formas de se constituírem organizações que formavam representação. Daí as famosas letras SPQR, Senatus Populusque Romanus (o Senado e o Povo de Roma), em nome de quem é exercida toda a autoridade executiva, posta nos cônsules ou nos encarregados de manter a cidade e a administração, como os pretores. Então o Senado é o promotor da lei, e a Assembleia, quem sobre ela dá a última palavra. Esse sistema, no decorrer dos séculos, vai inverter-se.
No Brasil o parlamento surge com a Independência. Ao contrário da imagem fixa de um rompante de “Independência ou Morte”, a construção da independência vinha-se fazendo já sob a coordenação de José Bonifácio, em passos regulares, como o de 6 de agosto, do Manifesto às Nações Amigas, já antes da Independência, em que o Brasil lhes comunicava sua independência de Portugal – o desejo da independência de Portugal. Já, então, ele mandava para a Europa o Marquês de Barbacena, o Brandt, que percorria as cortes europeias em busca do reconhecimento de uma futura separação do Brasil de Portugal.
No tempo da antiga aliança, naquele tempo, o que se pensava era justamente que a Antiga Aliança era para preservação da monarquia, quer dizer, dos reis. Então, predominava, sobretudo, na Áustria, sob o comando de Francisco I, a vontade da conservação dos Burbões e dos Habsburgos.
Então, ele o mandava àquelas cortes e, para simular o desejo da independência, dizia que D. João VI estava prisioneiro em Portugal das ideias liberais, porque as monarquias eram contra as ideias liberais, a Santa Aliança era feita contra elas. Então, ele mandava o argumento de que ia fazer o Brasil independente, para que pudesse governar os dois reinos, o de Portugal, que estava caminhando para uma república liberal, e o reino do Brasil.
Nos Anais sobre essas viagens do Marquês de Barbacena, elas são muito interessantes, até quando a gente hoje procura ler – já faz algum tempo que passei os olhos nisso. Ele conta muito as conversas que tinha com Maeterlinck, as conversas que ele passava; e até conseguiu, sem ser representante do Brasil, porque ele não tinha delegação diplomática, o Brasil não existia. Mas ele fez um bom trabalho de preparação. E o certo é que a construção da independência pôde ser feita.
Já em 3 de junho de 1922, atendendo à proposta do Conselho dos Procuradores Gerais das Províncias do Brasil, o Príncipe Regente convocava a Assembleia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil. Antes da convocação da Constituinte, ele tinha convocado a eleição dos Procuradores das Províncias, que antecedeu justamente a convocação da Constituinte, tanto que, entre esses Procuradores da Província, há um representante da Província Cisplatina, porque, naquele tempo, julgava-se que a parte oriental do Uruguai, que era a Cisplatina, pertencia ao Império do Brasil.
Começaríamos abrindo, com a Constituinte, o Parlamento, que tem a mesma origem da palavra e que carrega consigo a ideia do diálogo. Então, o Parlamento não é, realmente, em si… a ideia de falar não é a ideia de constituir um confronto, mas, sim, a ideia de homens que se reúnem, para encontrar um consenso que seja o melhor para o bem público. Então, o Parlamento é justamente o lugar onde se devem harmonizar todos os conflitos, quer dizer, não é feito para uma luta frontal, mas para uma maior harmonização de conflitos.
E o discurso é, sem dúvida, a mais primária forma de fiscalização do Governo. Como o Parlamento é feito para controlar o Poder Executivo, tem muitos instrumentos de controle. O primeiro dele, o mais primário, vamos dizer assim, o menor, é o discurso, porque, por meio do discurso, estamos fazendo um controle não só do Governo, como também da sociedade e um questionamento até do próprio Parlamento.
Então, nós temos outros instrumentos, como os Requerimentos de Informação, nós temos as Comissões, nós temos as Comissões de Inquérito. Enfim, toda a estrutura que tem o Parlamento se destina, justamente, a essa forma de controle do Governo, no sistema que Montesquieu formulou, que era o dos Três Poderes: Judiciário, Legislativo e Executivo – um controlando o outro. Aquilo que os americanos chegaram com a expressão: checks and balances.
Formalizada a Independência, instala-se a Assembleia Constituinte e Legislativa no dia 3 de maio de 1823.
Eu sempre digo que, no Brasil, o poder, a estrutura do País, este País foi feito graças aos políticos. A diferença que há entre o Brasil e a América espanhola é justamente esta: a América espanhola foi feita através de batalhas; a América espanhola foi constituída através de lutas, de sangue, de batalhas – Bolívar teve de ir fazer as grandes batalhas da Gran Colômbia, depois que a Gran Colômbia se separa; antigamente se constituía em Venezuela mais grande parte da América Central. O Brasil, ao contrário.
Nós não tivemos as batalhas que eles tiveram, as grandes batalhas de Ayacucho, de Carabobo. Nós, ao contrário, fizemos a nossa Independência numa fórmula que já nascia o jeitinho brasileiro: pegamos um rei português, transformamos em brasileiro, fizemos a Independência e começamos a constituir o País. Começamos a constituir o País com uma Assembleia Constituinte. Quer dizer, a primeira visão que se tem é feita pelos políticos.
Naquele tempo, nós não podíamos pensar, jamais, que qualquer homem daqueles tinha qualquer formação para saber o que era um Parlamento. José Bonifácio sabia, porque tinha passado na Europa tantos anos. Ele chegou ao Brasil em 1819, ele chegou já bem depois de D. João VI. Mas, por outro lado, alguns dos auxiliares de D. João VI tinham uma noção do que era realmente um Parlamento.
E nessa Assembleia Constituinte podemos verificar as raízes, a formação do nosso País, porque a Assembleia Constituinte discutia, por exemplo, a figura do habeas corpus, quando na realidade nós tínhamos um rei absoluto que tinha total direito sobre qualquer cidadão, direito de ir e vir, e à vontade.
Então, a Assembleia Constituinte discute o habeas corpus, o direito de ir e vir. Discute os predicamentos da magistratura, quando nós não tínhamos magistratura. Discute, inclusive, universidade, quando nós não tínhamos nem escola primária, nem a organização do ensino; já se discutia o lugar onde se ia fazer a universidade. Discutia-se que uma devia ser feita em Pernambuco, outra devia ser feita em São Paulo e até houve um Deputado do Maranhão, naquela época, que queria uma no Maranhão, porque a partir daí todo mundo começou, como nós conhecemos as Casas Legislativas, a querer trazer para o seu Estado.
Mas a Assembleia Constituinte avançou tanto nessas ideias liberais que D. Pedro, que era um liberal e que tinha feito toda sua campanha pela independência, em busca da liberdade das cortes portuguesas e de acordo com as ideias europeias daquele tempo, na Espanha, com a Constituição de Cádiz, ele também queria fazer; mas, por outro lado, ele era dividido. Ele era também muito reacionário porque o seu irmão, Dom Miguel, tinha feito uma Revolta em Portugal para implantar o poder total absoluto, e ele também concordou com os poderes absolutos que Dom João VI passava a ter. E ele, aqui no Brasil, fecha a Constituinte e, em seguida, promulga uma Constituição; uma Constituição que, na realidade, foi uma boa Constituição porque, até hoje, foi a que mais durou no Brasil e a ela nós debitamos a capacidade de manter a unidade nacional durante aquele tempo e de promover um Governo que funcionou, admiravelmente, durante aqueles 50 anos do II Reinado e uma parte do I Reinado.
Apesar de um ou outro foco de resistência na Independência e, mais tarde, de revoltas e revoluções – e, aí, eu estou repetindo aqui – esta Nação foi feita sob a égide do poder político que é a síntese de todos os poderes. Em uma nação realmente se fala no poder civil, no poder militar. Não. É no poder político, porque o poder político engloba o poder militar, o poder econômico, o poder civil, enfim, todos os poderes. Todos esses estão englobados dentro do poder político.
Capistrano de Abreu, um dos nossos grandes historiadores, teve a oportunidade de fixar bem isso quando disse que as duas instituições, o Senado do Império e o Conselho de Estado, tinham mantido a unidade. O Conselho de Estado com o Poder Moderador do Imperador tinham dado condições de se manter a unidade nacional, porque o Senado vitalício dava uma noção de perpetuidade, ao mesmo tempo em que o poder moderador se obrigava a ir constituindo o País. Ambos tinham como base o pensamento de Benjamim Constant, que dizia que o Senado era a Casa da duração, onde existia a idéia de perenidade e de estabilidade. Foram justamente o Senado e o Poder Moderador que conseguiram, ao longo do Império, construir a unidade nacional. Foram esses dois instrumentos, que identificamos hoje e ao longo de nossa história, como tão importantes.
Num dia em que se comemora a democracia, em que se fala da democracia, devemos dizer que o Brasil nasceu sob o sonho da democracia, e foi justamente pelo poder civil, com o sonho da democracia do alto governo, mesmo dentro de um regime monárquico, que se pensava e se constituiu o governo do povo, para o povo e pelo povo, na expressão de Lincoln. Assim, a maturidade da Instituição corresponde à véspera das transformações que hoje nós podemos prever.
Hoje, o mundo inteiro já questiona também a democracia representativa, essa na qual todos nós elegemos os nossos representantes. Esses representantes, então, fazem a nação, fazem as leis, e as leis, então, constituem o pacto que mantém o Estado, a sociedade e a Nação. Contudo, esse modelo da democracia representativa, a que nós todos somos instrumentos dela como Senadores, está sujeito, no mundo inteiro, a muitas críticas hoje, críticas decorrentes da mudança sob o ponto de vista quase que tecnológico.
A tecnologia levou os instrumentos de comunicação a tal nível que, hoje, a grande discussão que se trava é justamente esta: quem representa o povo? Diz a mídia: somos nós; e dizemos nós, representantes do povo: somos nós. É por essa contradição que existe hoje, um contra o outro, que, de certo modo, a mídia passou a ser uma inimiga do Congresso, uma inimiga das instituições representativas. Isso não se discute aqui, não estou dizendo isso aqui, estou repetindo aquilo que, no mundo inteiro, hoje, se discute. Eu mesmo tive, há alguns anos, oportunidade de escrever um artigo, um estudo para a revista francesa Commentaire, que é uma revista de política muito prestigiada no mundo inteiro, a esse respeito da crise da democracia representativa.
No nosso modelo de Estado, a grande diferença entre os três Poderes é que, enquanto os Poderes Executivo e Judiciário tomam decisões solitárias, o Legislativo o faz às claras. Isso é uma das fontes pelas quais somos sujeitos a essa crítica diária, porque nós tomamos as decisões todas aqui, à luz do dia. Quer dizer, ela começa e termina com o povo assistindo, a Nação assistindo, e isso serve de uma crítica permanente. Ao mesmo tempo, essa crítica debilita, porque, sempre no fim de uma lei, há os que perdem e há os que ganham. Não digo aqui dentro, mas do ponto de vista da opinião pública. E os que não são sempre atendidos por esse ponto de vista das leis, muitas vezes, em vez de ficarem contra aquilo que foi aprovado, eles ficam contra o Parlamento que votou esse ponto de vista. Então, esse é um ponto de fricção.
Então, na democracia representativa, o povo, através do voto, constitui representante que durante certo período, considerado mandato, representa o povo e é intermediário de suas relações com o governo. Esse processo é a matéria de que é feito o pacto da sociedade, como tive oportunidade de dizer.
Sem Parlamento – a reunião vocativa dos representantes do povo – não há democracia; sem democracia, não há liberdade e, sem liberdade, o homem é apenas uma aspiração de engordar. Para indícios de que vivemos uma época de transição, há sintomas de restauração.
Então, falar em democracia é falar no Parlamento. Esse é o coração da democracia; é aqui que ele pulsa, é aqui que ele vive e, se ele para, para evidentemente o que é a democracia, a vida do corpo democrático.
Há a evidência de que tudo está sob suspeita; não os valores da instituição congressual, mas a realização imperfeita desses valores. Disso é que é preciso se ter consciência, quer dizer, que não são os valores democráticos. Às vezes, no Parlamento, eles são colocados em xeque; mas a realização imperfeita desses valores.
A democracia representativa é – repetimos sem cansar – não o sistema perfeito, mas o único que foi encontrado até hoje no mundo inteiro, e nós chegamos a esse ponto, em que Fukuyama diz que chegamos ao fim da história. Não é por acaso que, em frente a esta Casa, se realizam os protestos, as demandas, os apelos e as pressões. Por isso mesmo, diz-se que é melhor o pior Parlamento do que Parlamento nenhum, da mesma maneira que Jefferson, quando perguntado sobre o que era melhor, se um governo sem imprensa ou uma imprensa sem governo, dizia que era uma imprensa sem governo. Essa era uma frase de Jefferson.
O partido político foi o caminho pelo qual a democracia pôde organizar-se e ser melhor sistema de autogoverno. Sem partidos políticos fortes, não há autogoverno; sem partidos políticos fortes, não há Parlamentos fortes, e sem esses, a democracia descamba para a demagogia e a política pessoal, com todos os descaminhos que levaram, no Brasil, à decomposição dos costumes políticos. O atual sistema eleitoral-partidário, nosso, chegou ao fim.
Esse é o grande problema do Brasil, é o problema da reforma política, que nós ainda não conseguimos fazer. Sem ela, realmente nós continuaremos neste patamar em que todas essas coisas que acontecem são jogadas nas costas dos homens, quando, na realidade, nós esquecemos que as instituições são importantes dentro do sistema democrático. Governo das leis e não dos homens. Isso já dizia Montesquieu a respeito do sistema democrático.
Mas não pode sobreviver, e não temos o direito de deixar que sobreviva. Sua mudança é um passo necessário.
Nos próximos anos, precisamos atualizar o sistema representativo, o Parlamento, o sistema partidário, o sistema de governo, sempre na busca – o Senador Marco Maciel é um grande estudioso disso, de longos tempos – da legitimidade e de acompanhar os avanços da humanidade. Mas abramos os olhos para mais adiante, para um futuro que talvez não esteja muito longe.
Com as transformações da informática, vislumbramos já a possibilidade de um voto virtual. Com a mesma segurança com que movimentamos nossas contas bancárias, poderemos, no futuro, votar. Será um grande passo. E será apenas o prenúncio de uma nova democracia, não mais inteiramente representativa, mas feita em parte de representantes, em parte da decisão direta do cidadão.
Aí há uma certa volta. A humanidade tem esses ciclos. É uma certa volta ao passado. Começamos com a democracia direta, justamente essa democracia que existia em Atenas, que existia em Roma e que até hoje sobrevive nos cantões da Suíça.
Será o prenúncio de uma nova democracia, um pouco como começamos a contar essa história de como começou a democracia, com uma Boulé, um conselho de sábios, e uma Eclésia, o conjunto dos cidadãos. Novas Atenas, reunidas na prática da democracia direta, exercendo, de direito mas também de fato, o autogoverno.
Sempre, e inexoravelmente, contando com a democracia como o cerne da existência dos Estados, como o caminho para evitar e justificar nossa submissão ao coletivo, concentrado não na vontade individual, mas na possibilidade de, através do Estado, cada um exercer a liberdade, receber justiça social e fazer aquilo que Jefferson agregou na Declaração da Independência: que ela também era a liberdade humana; o direito dos homens constituía na busca da felicidade. É justamente aquilo que completa a teoria do governo democrático, porque, no fim, todo governo se destina a fazer a felicidade do seu povo.
Muito obrigado.
Autor: luisnassif - Categoria(s): Mídia, Novo Modelo Tags: democracia, Mídia, novas mídias, Sarney

o problema é que Sarney foi infeliz em afirmar que a imprensa era INIMIGA do Congresso. Se tivesse falado que estas instituições rivalizam no papel de representante do povo…Nossa imprensa é sensacionalista e rasa por natureza. Sempre levam as afirmações ao pé da letra (Lula que o diga !!), ao menos quando lhe interessa…
Uma coisa é democracia e parlamento mutuamente não-exclusivos; outra, é improbidade parlamentar.
Duvido que a mídia injuriasse o Senado ou um de seus membros, se não houvesse motivo.
E Sarney, todos sabemos, não é probo – muito pelo contrário.(sem demérito dos demais)..
Sua retórica é aviltante, um acinte à nossa inteligência.
E, decerto, ele sabe muito bem disso, mas sabe também, político velho e manhoso, que é preciso “rezar o terço” no picadeiro e tentar manter o espetáculo.
Enquanto isso, conscientes das obrigações circenses, alguns palhaços segurando cartões vermelhos brincam à sua volta,
“.. é a primeira sistematização dessas preocupações e de um esboço de proposta.”
Perfeito. Pode até ser considerado como um texto clássico-básico, para expandir as discussões.
O q eu mais gostei, foi a construção do argumento que ele
queria defender – partiu, assim, das diversas visões de
democracia, evoluindo e ´amarrando´ as consiiderações
até chegar ao ´gran finale´ – o cerne da questão – que vc
captou, resumiu e nos deu ´de bandeja´. Tks!
“José Sarney questiona interpretação sobre discurso no Senado
Para senador “atualmente existe um conflito sobre quem é o representante do povo: o parlamento ou a mídia”
(tem mais)
Leia abaixo a íntegra da nota:
Ao contrário do que alguns veículos da imprensa repercutiram, o discurso do presidente se restringiu à apresentação teórica sobre o antagonismo do imediatismo da mídia eletrônica ao prazo dos mandatos parlamentares.
No Dia da Democracia (15 de setembro), o presidente do Senado, senador José Sarney, subiu à tribuna para prestar uma homenagem ao regime que voltou a vigorar no país desde 1985 e fazer um alerta: o sistema político-eleitoral brasileiro está exaurido, assim como acontece em democracias mais antigas mundo afora. É preciso que o Congresso Nacional assuma suas responsabilidades e promova a tão aguardada reforma política, introduzindo o Parlamento brasileiro no debate iniciado nos principais países da Europa desde a última década do século passado.
A raiz da discussão sobre os rumos que a democracia tomará no mundo é a internet, a nova sociedade da comunicação, que, segundo estudiosos do tema, contrapõe o imediatismo da mídia eletrônica ao prazo dos mandatos parlamentares, tornando-os defasados, envelhecendo as bandeiras pelas quais foram eleitos. Era a este conflito que o senador José Sarney se referia, reportando a tese que se alastrou no mundo.
Ao contrário do que alguns veículos de imprensa reproduziram, não havia no discurso do presidente nada além de uma apresentação teórica, nenhum desejo de contextualização ou dirigismo, mas o pressuposto de que a mídia brasileira vinha acompanhando o vigoroso debate internacional.
Secretaria de Imprensa da Presidência do Senado
http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,jose-sarney-questiona-interpretacao-sobre-discurso-no-senado,436071,0.htm
ps: Nassif, acho q o Estadão se arrependeu de ter colocado
o discurso na íntegra…
Nassif , meus comentários , não est ão indo ou você está deletando ? se estivem deletando entendo .
Ah!! essas falsas contradições! a grande mídia contra os “representantes do povo”!
Qual a relação entre a grande mídia e a forma como se elegem os representantes do povo?
Quantos senadores e deputados “não” tem emissoras de rádio e tv? ou ligações com elas?
Digamos assim: só haverá a possibilidade de uma democracia representativa quando houver uma mídia democrática. Isto é: pública.
Se o coração da “nossa” democracia é o parlamento, como quer Sarney, ela está esclerosada. Também diria que os valores democráticos, no parlamento, estão mais em cheque do que em xeque. Mas no fim o ex-presidente acerta, vislumbrando a democracia virtual. A história corre, a tecnologia avança, a democracia direta é novamente possível, graças à informática e à internet. A reforma política deve já contemplá-la, em vez de ficar se espelhando em fórmulas alemãs, francesas, americanas etc. Nossos partidos nunca funcionaram; é de se perguntar: precisamos deles? Vamos inventar partidos “realmente” representativos? O único que mais perto disso chegou, o PT, se dissolveu ao chegar ao poder. As pessoas se organizam hoje em ongs, associações diversas, ideais, movimentos. Por que não basear nisso a reforma política? E no voto direto, via internet. De que leis o governo precisa? As grandes questões podem ser discutidas em foruns virtuais, na tevê e no rádio, e depois votados por todos. Os governos devem se elegar com propostas concretas, objetivas, e depois prestarem contas, cabendo ao povo, novamente pela internet, aprovar ou não sua prestação de contas, sujeitando o governante inclusive a impeachment. O Estado deve contar com um corpo técnico qualificado e permanente, não sujeito a mudanças de governo, e as grandes linhas de governo devem ser duradouras. O ponto mais difícil de reforma política é talvez o judiciário, tão cheito de vícios e politizado.
O irônico é que a reforma política vai acontecer por razões instrumentais: equipar a elite política parlamentar para a disputa de poder com outra fração, a elite (política) midiática.
Nassif,
A internet coloca em xeque tanto o legislativo como a imprensa tradicional. É o futuro campo de batalha. E já começou a guerra para organizá-lo: a tentativa de restrição da manifestação dos sites das grandes empresas de comunicação durante as eleições é um capítulo desta história.
Boa Noite! Blogueiros e Luis Nassif!!!!
RESISTÊNCIA contra A DITADURA do congressinho (senadinho e camarinha).
TANTO a INTERNET quanto as ELEIÇÕES foram e estão sendo sabotadas por esse congressinho ridículo, irresponsável e que prima por uma CELERIDADE incompetente irresponsável e medíocre.
São DITADORES, NAZISTAS E FASCISTAS os PARTIDOS POLÍTICOS E SEUS MEMBROS.
Lamentável, que tenhamos que conviver com essas PORCARIAS DITADURA PURA.
A ELEIÇÃO NO BRASIL É INDIRETA e ESTÃO votando O DESAPARECIMENTO E MORTE do ELEITOR BRASILEIRO.
SÃO TRAIDORES DO BRASIL E DO POVO BRASILEIRO.
QUEREM SABER. DEPUTADOS E SENADORES VÃO SE DANAR!
OU meu VOTO SERÁ NULO, ANULADO ou NÃO VOU VOTAR E PAGO A MULTA. VÃO SE DANAR. DITADURA NUNCA MAIS. TRAIDORES, do BRASIL e do POVO BRASILEIRO.
Tchau!!!!!
Caro Nassif,
o texto lido pelo Senador Sarney é mesmo muito bom. O que não me impressiona, pois conheço a qualidade dos assessores parlamentares do Senado. São mesmo excelentes, sem ironia.
Quando ao que eu teria dito ao Estadão, quero dizer que jamais proferiria uma frase simplória do tipo “a imprensa quer apenas informar”, ou coisa do gênero. Nem mesmo meus mais miltantes desafetos seria capaz de reconhecer nesta parvoíce o meu estilo pessoal. O que disse foi que, a meu juízo, a imprensa não está se apresentando com a prentensão de representar o país. Acescentei que ela, não sendo vilã, não é a inocente absoluta da trama. Disse mais: que temos pouca imprensa e que’ainda é ridícula a quantidade de leitores dos diários de maior densidade informativa. A mim parecia que Sarney falava para os não leitores, já que os leitores contumazes estão um tanto desapontados – to say the least – com o desempenho das sacrossantas instituições representativas. Será que são todos imbecis?
Não disse também que o Legislativo é inimigo da democratização. Disse, sim, que o dia da democracia poderia ter ensejado uma reflexão autocrítica, por parte dos próceres do Senado, voltada para avaliar em que medida o Legislativo tem contribuído para a democratização do país.
O que disse daria para encher meia página. A edição mostrou o que mostrou e eu devo dizer que não me reconheço em algumas frases que ali estão.
Um abraço,
Renato Lessa
Licença, Nassif e comentaristas, mas vou destacar o cerne da da questão – identificado tão inteligentemente na análise do discurso (nada a ver com ser ´contra´ ou a ´favor´ de Sarney ou da imprensa/mídia):
“Em sua análise ele mostra como a ampliação do direito de opinião, pela Internet, inviabiliza a representatividade na democracia convencional, coloca em xeque especialmente o Legislativo e abre espaço para uma futura democracia direta.”
“Mostra como a imprensa se prevalece dessa balbúrdia [direito de todos opinarem] para investir contra todos os poderes constituídos – justamente porque a disseminação das novas mídia leva a um questionamento da legitimidade institucional. E (a mídia) não se dá conta desse paradoxo, dela explorando a catarse popular, trazida pela ampliação da informação, para questionar as instituições,.”
Sensacional! Parabéns, Nassif! Presentão, para a mídia
preguiçosa de pensar.
ops, desculpa, cortou o final da última frase – prestenção!
“Em sua análise ele mostra como a ampliação do direito de opinião, pela Internet, inviabiliza a representatividade na democracia convencional, coloca em xeque especialmente o Legislativo e abre espaço para uma futura democracia direta.
Mostra como a imprensa se prevalece dessa balbúrdia para investir contra todos os poderes constituídos – justamente porque a disseminação das novas mídia leva a um questionamento da legitimidade institucional. E (a mídia) não se dá conta desse paradoxo, dela explorando a catarse popular, trazida pela ampliação da informação, para questionar as instituições, SEM se dar conta de que esse processo está desmascarando a própria imprensa, como representante da vontade popular.”
Tem-se aí a discussão política mais importante do momentos. E nossa comunidade pode se dar o mérito de ter sido uma das que mais ajudaram a aprofundar esse tema. “