Retrato de Eleazar de Carvalho
Por Celso Mercaldi
Oi!
Sou o Celso Mercaldi, vivo hoje na Alemanha, em Detmold, onde toco viola em uma Orquestra, no Landestheater Detmold.
Meu trabalho com música, depois da Orquestra Sinfônica Jovem Municipal, da qual fui membro fundador em 1969, e do quarteto de estudantes da USP, começou em 1973 na Orquestra Sinfônica Estadual, sob a regência do maestro Eleazar, que muito me incentivou, até 1976, quando deixei a OSESP, para estudar viola em Colônia.
Escrever não é o meu forte, mas aqui algumas impressões das minhas lembranças.
O maestro Eleazar tinha uma personalidade muito marcante, uma formação musical rara, pois além de seu talento natural, um alicerce teórico gigantesco, uma capacidade de trabalho homérica, em parceria com uma memória fotográfica para partituras, bem como um controle e coordenação de seus movimentos, que não vi novamente em 33 anos de trabalho na Europa e USA.
Me lembro por exemplo em Petruska de Stravinsky uma passagem em que o clarim toca uma melodia em “staccato” em compasso binário, ao mesmo tempo que as cordas tocam um ritmo ternário “legato”, o trompete em piano as cordas em forte, além de acordes dos sopros ainda tenho em o filme em minha mente como ele regeu o clarim com o braço esquerdo com todos os detalhes de tempo articulação e dinâmica as cordas com o braço direito, as entradas de acordes com a cabeça, além de, com uma certa ironia reclamar do que não estava como ele queria, pois como dono de uma descomunal disciplina ele não podia entender, que os músicos, que só tinham uma das muitas linhas para tocar não as conhecessem tão bem como ele, que conhecia todas.
Alguns problemas inerentes ao seu sistema causavam grandes problemas: ele dentro de sua formação “estruturalista” quando regia (principalmente seu repertório básico) conhecia em detalhe cada nuance da música em sua cabeça, e era capaz de mostrar o que ele queria com seus gestos e expressões faciais, mas dava pouca margem de liberdade para os músicos, que em parte como solistas, queriam também dar vazão à interpretação que estava em suas imaginações. E diplomacia, não constava do seu repertório para com seus a seu ver não sempre colegas, mas subalternos.
Sua grande autoridade musical era por momentos ofuscada por uma visão hierárquica quase militar da profissão, mas que tem a ver com sua história de vida.
Além disso um músico que para pagar seu aluguel, e alimentar a família, gravava um “Jingle” na Eldorado, nos intervalos do ensaio da OSESP pela manhã no “Copam”, de tarde tocava no Theatro Municipal, e a noite passava tocando bailes, ou gravando com o Júlio Medalha, (só para citar um dos muitos extras, necessários para chegar próximo ao salário inicial de um engenheiro) não podia chegar ao ensaio tão bem preparado como um músico bem remunerado por seu trabalho.
Nesses três anos de OSESP toquei grande parte do repertório sinfônico clássico e moderno, bem como concertos com os melhores solistas internacionais da época, sejam André Navarra, Antonio Janigro, Janos Starker, Pierre Fournier, Maurice Gendron, Uto Ughi, Salvatore Accardo, Ruggiero Ricci, só para citar uns poucos, que sem a influência de Eleazar de Carvalho junto às secretarias (”Cultura”, “Educação e Cultura” “Ciência Tecnologia e Cultura”que toda hora mudavam seu pessoal, seu nome e sua política, uma forma de dificultar qualquer trabalho, que necessite continuidade ), talvez não tivessem encontrado o caminho a São Paulo, pelo menos não com a freqüência em que o faziam naquela época.
Por Carlos Henrique Machado
Uma das minhas constantes críticas nesses últimos tempos, recaem sobre o exagerado militarismo que assolou as escolas de música brasileiras. É indiscutível que o ganho de qualidade técnica, em muitos casos, nos faz refletir sobre a necessidade de um grau de disciplina pra quem quer essa excelência.
No entanto, há um campo tênue entre a mecanização e a técnica, entre o som e o papel que podem tanto auxiliar quanto matar a criatividade do músico.
Outra questão interessante é que alguns músicos que traçaram um estudo profundo na música erudita reclamam é que a rigidez e a observação excessiva da escola européia impede que muitos músicos brasileiros consigam dar a exata interpretação à músicas de compositores brasileiros, como Villa Lobos, Mignone, Guarnieri e etc.
Incomoda bastante uma certa arrogância, por exemplo, do Maestro Roberto Minczuck, quando no programa “Conexão Roberto D’Avila” diz textualmente que não aceitava alunos de escolas brasileiras, a não ser que tivesse aperfeiçoamento fora do país. Acho isso uma calamidade.
Outra excelente entrevista sobre estas divisões e ditaduras estéticas, foi a de Sergio Assad na revista Violão Pró. Em sua narrativa, ele revela o que mais ou menos já sabíamos, que no período em que estudava na Escola Nacional de Música (UFRJ), seu projeto de compositor foi praticamente abortado, pior, ele e o irmão, Odair Assad tinham que aturar galhofas de alguns fundamentalistas do violão clássico que diziam, “lá vem os irmão que gostam de tocar Radamés Gnatalli, um claro preconceito com o compositor brasileiro. Hoje, conclui ele, após o nosso reconhecimento internacional, muitos do que nos criticavam, hoje estão aí tocando não só Radamés, mas Pixinguinha, Guerra Peixe e etc.
Aliás Nassif, o trabalho do Duo Assad é uma das coisas mais preciosas que aconteceram na música brasileira nestes últimos anos. Os dois construiram uma comunhão entre o erudito e o popular que, sinceramente ainda não vi alguém costurar esses dois ambientes com tanta delicadeza e perfeição. Estes dois são um caso de excepcionalidade que dão ao Brasil um traço cada vez maior de coexistência cultural, a principal força da nossa música. Isto feito de maneira absolutamente natural, sem excessos de pedagia ou formas prontas.
O que sinto falta hoje no ambiente das grandes orquestras é a criação contemporânea que fez o Brasil ferver no final do século XIX até a metado do século XX.
Observando o livro “O Tempo e a Música”, organizado por Flavio Silva, que fala da vida e obra de Camargo Guarnieri, fica evidente nas cartas trocadas entre Mário de Andrade e Guarnieri e algumas de Francisco Mignone, é que o tecido do assunto era marcado pela criação, pela composição. Não me lembro de preocupações excessivas em técnicas orquestrais. Outro detalhe que não me sai da cabeça, é o que disse Guarnieri, que o que mais lhe estimulava na composição era lembrar que, quando garoto, já estudante de piano, abria a janela do seu quarto para ouvir do coreto da praça, de frente para a sua casa, a apresentação da banda de música de sua cidade. Enfim, uma das suas atuações não só como músico, mas também como intelectual foi: “Carta Aberta aos Músicos e Críticos do Brasil”, em 1950 contra o dodecafonismo.
Por isso me alegro em ver todas essas considerações narradas por Celso Mercaldi que faz da música, além de sua tarefa de desenhar em sons a alma humana, nos oferece uma deliciosa leitura de alguns excitantes detalhes deste universo.
Por Eugenio Hansen, OFS
Paz e bem!


Celso,
Lembrei-me de Ensaio de Orquestra, de Fellini, em que o regente é tirado e depois restaurado ao seu pódio. Você viu? É fantastico. E também da minha própria experiência em tocar, cantar e ensaiar com outras pessoas, arranjos meus ou de outros. Outra lembrança é o filme ‘The Wonders’, em que uma banda tem um sucesso instantâneo, fica conhecida nacionalmente e depois se dissolve com as rusgas entre seus músicos (adorei o filme, pois lembrou-me vividamente dos grupos em que passei).
Grande retrato do maestro e muito humano o seu depoimento. Obrigado por compartilhá-lo.
Abraços
Uma das minhas constantes críticas nesses últimos tempos, recaem sobre o exagerado militarismo que assolou as escolas de música brasileiras. É indiscutível que o ganho de qualidade técnica, em muitos casos, nos faz refletir sobre a necessidade de um grau de disciplina pra quem quer essa excelência.
No entanto, há um campo tênue entre a mecanização e a técnica, entre o som e o papel que podem tanto auxiliar quanto matar a criatividade do músico.
Outra questão interessante é que alguns músicos que traçaram um estudo profundo na música erudita reclamam é que a rigidez e a observação excessiva da escola européia impede que muitos músicos brasileiros consigam dar a exata interpretação à músicas de compositores brasileiros, como Villa Lobos, Mignone, Guarnieri e etc.
Incomoda bastante uma certa arrogância, por exemplo, do Maestro Roberto Minczuck, quando no programa “Conexão Roberto D’Avila” diz textualmente que não aceitava alunos de escolas brasileiras, a não ser que tivesse aperfeiçoamento fora do país. Acho isso uma calamidade.
Outra excelente entrevista sobre estas divisões e ditaduras estéticas, foi a de Sergio Assad na revista Violão Pró. Em sua narrativa, ele revela o que mais ou menos já sabíamos, que no período em que estudava na Escola Nacional de Música (UFRJ), seu projeto de compositor foi praticamente abortado, pior, ele e o irmão, Odair Assad tinham que aturar galhofas de alguns fundamentalistas do violão clássico que diziam, “lá vem os irmão que gostam de tocar Radamés Gnatalli, um claro preconceito com o compositor brasileiro. Hoje, conclui ele, após o nosso reconhecimento internacional, muitos do que nos criticavam, hoje estão aí tocando não só Radamés, mas Pixinguinha, Guerra Peixe e etc.
Aliás Nassif, o trabalho do Duo Assad é uma das coisas mais preciosas que aconteceram na música brasileira nestes últimos anos. Os dois construiram uma comunhão entre o erudito e o popular que, sinceramente ainda não vi alguém costurar esses dois ambientes com tanta delicadeza e perfeição. Estes dois são um caso de excepcionalidade que dão ao Brasil um traço cada vez maior de coexistência cultural, a principal força da nossa música. Isto feito de maneira absolutamente natural, sem excessos de pedagia ou formas prontas.
O que sinto falta hoje no ambiente das grandes orquestras é a criação contemporânea que fez o Brasil ferver no final do século XIX até a metado do século XX.
Observando o livro “O Tempo e a Música”, organizado por Flavio Silva, que fala da vida e obra de Camargo Guarnieri, fica evidente nas cartas trocadas entre Mário de Andrade e Guarnieri e algumas de Francisco Mignone, é que o tecido do assunto era marcado pela criação, pela composição. Não me lembro de preocupações excessivas em técnicas orquestrais. Outro detalhe que não me sai da cabeça, é o que disse Guarnieri, que o que mais lhe estimulava na composição era lembrar que, quando garoto, já estudante de piano, abria a janela do seu quarto para ouvir do coreto da praça, de frente para a sua casa, a apresentação da banda de música de sua cidade. Enfim, uma das suas atuações não só como músico, mas também como intelectual foi: “Carta Aberta aos Músicos e Críticos do Brasil”, em 1950 contra o dodecafonismo.
Por isso me alegro em ver todas essas considerações narradas por Celso Mercaldi que faz da música, além de sua tarefa de desenhar em sons a alma humana, nos oferece uma deliciosa leitura de alguns excitantes detalhes deste universo.
O blog do Nassif, alem das extenuantes economia e política, tem também cultura, arte. Estas para que possamos “sobreviver” à verdade!
Parabéns, para um musico. Aquele que desfruta do sete sonoro, como desfrutamos do arco-íris, no cotidiano da semana de 7 dias. Meu neto, Gabriel está aprendendo tocar violino. Quem não saber matemática e musica não pode ser humano pleno.
Nassif,
Celso Mercaldi traça um perfil, ou retrato, bastante fiel de Eleazar de Carvalho. O humilde músico de banda militar no Ceará -acho que tocava tuba- venceu pela pertinácia e pela aplicação no estudo. Não negava a influência do mestre, o grande Serge Koussevitsky.
Regência vibrante, de gestual único, era temperamental sem dúvida. Já vi Eleazar partir ao meio a batuta e jogar longe os dois pedaços no final de uma Nona Sinfonia de Beethoven, com raiva do tenor que desafinara e atravessara os andamentos no solo do último movimento, o famoso “Coral”.
Pouca gente sabe que Eleazar de Carvalho fez brilhante carreira no exterior, dirigindo a Sinfônica de São Francisco, nos EUA, onde também lecionou. Entre seus alunos estão dois grandes regentes da atualidade: Zubin Metha e Seigi Osawa. Foi o primeiro maestro brasileiro a se projetar internacionalmente. Não duvido que seja mais lembrado e respeitado lá fora do que aqui.
abraço
Henrique Marques Porto
O Neojibá / Orquestra Jovem Dois de Julho não é feito com severidade.
Ricardo Castro viajou com os meninos pelo Nordeste. Tinha dias de dizer “chega de ensaio! praia pra cambada toda!”. E ele ia tambem. De sunga, batia picula com 90 crianças e adolescentes em Tambaba, Joao Pessoa.
E é a excelência que é. Uma das graças do Neojibá é eles “dançarem” enquanto tocam. As vezes largarem o instrumento e irem sambar no pagodão duro enquanto o resto da orquestra executa Tico Tico No Fubá.
E fazem versoes de puro improviso coletivo com Asa Branca, Açum Preto, e outros.
Com a OSBA Ricardo é um pouco mais sisudo. Mas não é nenhum carrasco como Neschling foi na OSESP. E a OSBA deu um incrivel salto de qualidade nestes últimos três anos. As melhores interpretações que ouvi de Beethoven, Mozart, e Carlos Gomes são da OSBA. E algumas das melhores de Villa Lobos e Guarnieri.
Paz e bem!
http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Eleazar_de_Carvalho_Estatua3.JPG