O que Ciro disse. E o que quis dizer
A entrevista de Ciro Gomes, no Valor de hoje, mostra, primeiro, os ciúmes do político que julga não estar recebendo a devida atenção dos aliados. O que não impede de ser uma entrevista interessante – pelo que Ciro diz e pelo que suas declarações não dizem, mas sugerem.
1. O risco de Dilma concorrer aliada ao PMDB e, principalmente, governar com o PMDB. É um risco real, pelas razões que ele aponta.
2. Tenta comprovar que não há transferência de votos de presidente popular para seu candidato, dando como exemplo JK e Lott. Nada a ver com Lula e Dilma. JK terminou o governo impopular, devido ao aumento expressivo da inflação e às denúncias de corrupção na construção de Brasília. Sua imagem era a do tocador de obras: a de Lott, a de legalista sem jogo de cintura. Foi colocado para perder. Lula está atrelando a imagem de Dilma às obras de seu governo. Se vai ser bem sucedido ou não na transferência, são outros quinhentos. Mas a comparação com JK-Lott não se sustenta.
3. Sua avaliação sobre o pragmatismo de Lula é correta: “Primeiro, o presidente conciliou, na minha opinião de forma muito frouxa, o segundo mandato, para esconjurar essa escalada golpista que o ameaçou no primeiro mandato, e não conseguiu institucionalizar nenhum dos grandes avanços que promoveu”. Pode-se discutir se conseguiria resistir ao golpismo sem pragmatismo. Mas o preço pago foi esse mesmo.
4. A retórica de elogiar Lula e condenar o continuísmo faz parte do repertório de Aécio Neves também: vamos manter o que Lula fez de bom e melhorar. A retórica de Ciro é: como Dilma é continuísmo, ela só vai manter, não vai melhorar. Uma ginástica retórica forçada, a não ser na constatação de que, mantido o arco de alianças, Dilma será manietada. Aí o argumento ganha mais consistência.
5. A afirmação de que a candidatura Marina implode a de Dilma faz parte da estratégia muito adotada por economistas de traçar o mapa do caos se… Se não me ouvirem. É um óbvio exagero retórico.
6. Diz que a eleição de Dilma estará perdida se Serra se candidatar à reeleição em São Paulo e apoiar Aécio Neves para a presidência. De fato, é a hipótese mais temida em Brasília.
7. O elogio que faz a Serra, chamando-o de “grande governador” tem três objetivos. O primeiro, o de não confrontar a mídia que, em geral, o tem poupado. O segundo, sinalizar a Serra de que, se sair candidato, Ciro não o atrapalhará. Terceiro, o de tirar Lula do estado de soberba atual e abrir espaço para a capacidade de barganha política do PSB.
Do Valor Econômico
“Marina implode candidatura Dilma”
(…) Nossa avaliação unânime no PSB é que, da forma como as coisas estão postas, hoje a tendência é que esse projeto que defendemos está ameaçado de perder as eleições.
Valor: De que coisas o senhor fala?
Ciro: A se dar crédito à notícia média dominante de que o presidente Lula resolveu escolher a Dilma candidata, compor a chapa com o PMDB e convocar os correligionários, parceiros e aliados para um plebiscito contra o candidato do PSDB, que hoje seria o governador José Serra, achamos que o risco de perder a eleição hoje é muito maior do que a possibilidade de ganhar.
Valor: Por que?
Ciro: Há um conjunto de fatores. Primeiro, fadiga de material. Segundo, as contradições, que não são pequenas, desta coalizão PT-PMDB. Essa crise do Senado é só uma caricatura disso. Só quem suporta isso é o Lula, porque tem um capital político único. O risco de perder a eleição é real nessas bases, como de ingovernabilidade para qualquer um de nós, sem o capital político e a interação que o presidente Lula tem com a população. Isso guarda coerência com a história do Brasil. Juscelino não fez o Lott [marechal Henrique Lott, ministro da Guerra no governo Juscelino Kubitschek e candidato a presidente derrotado, em 1960, por Jânio Quadros, candidato da oposição]. Não fez o sucessor, tendo sido o presidente mais popular do país. E as pesquisas são eloquentes na indicação do que estou querendo dizer.
Valor: Mostrando dificuldades da candidatura da ministra?
Ciro: Claramente, porque há um limite para essa coisa da transferência de voto. A eficiência da transferência dos 70% de apoio ao Lula a ela está pela metade. Então, ela pode ir a 35%. Tudo bem, é muita coisa. A Dilma tem grandes virtudes, vai agregar outros atributos além do apoio do Lula. Não tem nenhuma crítica a Dilma. Pelo contrário. Ela é uma pessoa maravilhosa, perfeitamente votável para qualquer tarefa. A questão é que o Brasil mudou. É uma questão delicada, porque somos parceiros. Mas queremos que o presidente nos ouça e pense no que vamos dizer para ele. Eu, especialmente, falarei com a maior clareza e franqueza, porque acho que é um momento crítico para o Brasil. Está marcada uma grave crise política em 2010.
Valor: O senhor pode explicar?
Ciro: É uma maioria amorfa a que temos na base aliada do Congresso e na coalizão partidária, cujo cimento é fisiologia, clientelismo e, infelizmente, muita corrupção. Isto é compensado pela exuberância do Lula, da liderança legítima que ele tem. Qualquer outro vai viver essa crise, se começar em cima de uma estrutura esclerosada como essa, sem renovação, sem nova utopia, sem novos projetos, sem uma nova agenda. O PMDB tem cinco ministros, tem o presidente da Câmara e do Senado e está com Lula. Se o Serra ganhar, no dia seguinte essa gente vai aderir a ele contra seis ministérios, presidência do Senado, da Câmara, do Supremo, da CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil]. A governabilidade será garantida, mas mediante a manutenção desta hegemonia moral e intelectual fisiológica e clientelista.
Valor: Como é que a crise do Senado, que atinge o senador José Sarney (PMDB-AP) e divide a base, pode ser interpretada nesse contexto?
Ciro: Revela com grande força caricatural o que estou tentando dizer. Este segundo semestre será tumultuado para nós. Hoje tem essa novela em cima do Senado e do Sarney. Acabando essa novela, tendo acumulado um desgaste, vem a novela da Petrobras, que será muito quente. Depois virão outros. Vai estourar em 2010. O Lula já precificou isso e aguenta. Está provado. Ele defende o Sarney e aguenta. Defende o Renan e aguenta. Confraterniza com Collor e aguenta. Quero saber se eu aguento, se o Serra aguenta, se a Dilma aguenta. Ninguém mais aguenta.
Valor: O PSB liberou seus senadores para tomar a posição que considerar conveniente na crise do Senado. O senhor acha que o senador Sarney deve ser defendido?
Ciro: Não me sinto obrigado a isso. Apenas lembro que Sarney não é o problema. Pode ser parte dele. O problema é a hegemonia moral e intelectual frouxa que preside hoje o Congresso brasileiro. Não é só o Senado não.
Valor: Essa avaliação sobre os problemas da coalizão será feita ao presidente na reunião desta semana, da qual o PT vai participar?
Ciro: Algumas coisas direi a ele só pessoalmente. Essa questão é a pragmática. Mas tem uma outra, não menos grave, ou mais grave ainda, que deriva de uma constatação que eu tenho de que a presença do Lula no governo brasileiro melhorou o Brasil em todos os aspectos, sem exceção de nenhum. Porém, essa é uma constatação que se faz olhando para o retrovisor. Ou seja, comparado com o que era, tudo melhorou. Porém, o que vai estar em discussão em 2010 não é o Lula, não é a avaliação do Lula, é o futuro do país. E aí você tem graves problemas. Primeiro, o presidente conciliou, na minha opinião de forma muito frouxa, o segundo mandato, para esconjurar essa escalada golpista que o ameaçou no primeiro mandato, e não conseguiu institucionalizar nenhum dos grandes avanços que promoveu.
Valor: Quais foram?
Ciro: Só para citar os mais importantes para a vida do povo: a política de salário mínimo, a estratégia da Petrobras, as políticas compensatórias, a política de crédito (saiu de 13% para 43% a proporção de crédito no PIB brasileiro). Mas era o Lula contra o governo. Nada disso é institucional. A segunda questão é o avanço. É natural um governante, tanto mais do principal partido da esquerda brasileira que está no governo há oito anos, perder um pouco a energia de propor reformas e mudanças. É quase uma contradição em termos. Como é que a Dilma vai falar em mudança, se ela é a continuação? E a questão é: o Brasil pode parar? A educação pública está boa? A saúde pública está boa? A segurança do povo está boa? A mobilidade urbana nas cidades está boa? As essencialidades da vida do povo estão boas? A proporção de manufaturados na plataforma de exportação, a velocidade com que o Brasil supera seu hiato tecnológico-científico está correta? São essencialidades. E aí você pode correr o risco – provavelmente estamos já correndo o risco – de a turma que quer voltar ao passado, a turma do Fernando Henrique, assumir esse discurso. Mais do que o pós-Lula: a reforma, a ética, a eficiência do serviço público, as mudanças que o país precisa… Não é uma mudança para negar nada do Lula. É uma mudança que só se viabilizará porque o Lula avançou extraordinariamente.
Valor: O senhor acha que a ministra Dilma não teria condições de conduzir esses avanços?
Ciro: A Dilma pode. Qualquer um de nós pode. A questão é que tipo de coalizão política, que tipo de debate será feito. Nossa preocupação no PSB é que ela terá grandes dificuldades. Veja como seria, de forma caricata, esse debate: a Dilma, que tem todos os dotes para isso, pode dizer que o Brasil precisa manter o que está bom e avançar em tais e tais mudanças. O Serra, de lá, diz: ´vocês tiveram oito anos, por que não fizeram?´ Aí ela responde de cá: ´e porque vocês em oito anos não fizeram?´.
Valor: O senhor acha, então, que o presidente está errando na estratégia da sucessão?
Ciro: Vou refletir sobre a notícia média. Acho que ele está fazendo de forma genial certo. Por que? Ponto número 1: na contramão da tradição de todo governante, que quer postergar sua sucessão, o Lula antecipou ineditamente. Porque ele, mais do que ninguém, conhece o PT. Se ele não põe a mão numa pessoa que pode dispor politicamente como aliada, para ficar ou para sair, para compor ou descompor, para brigar ou para conciliar, uma hora dessa os diversos grupos em que se reparte o PT estariam tentando, com dossiês e caneladas por baixo da mesa, impor ao Lula nomes. Segundo: naquela data, quando ele fez isso, havia uma cogitação de terceiro mandato. Ele nunca quis, nunca pediu, mas imaginou a possibilidade. Ele era obrigado a imaginar isso. Tinha que ter uma candidatura que poderia, amanhã, dizer que houve uma mudança constitucional e que tenho dever com o país de continuar.
Valor: Com o senhor sendo vice da ministra, mudando o perfil da chapa, seria mais fácil assumir o discurso da mudança?
Ciro: Eu acho temerário. Não há razão, do meu ponto de vista, para que se ponha o país no risco de um mano a mano para deslindar essas coisas no primeiro turno.
Valor: Qual seria o efeito da entrada da senadora Marina Silva (PT-AC) na disputa?
Ciro: Esta variável nova mostra as dificuldades (da candidatura governista) com precocidade. Está na mão da Marina. Se ela aceitar a convocação do PV, ela implode a candidatura da Dilma. Implode. Então, tem muitas variáveis por acontecer. O Serra recua ou não recua? A Marina é candidata ou não?
Valor: É por isso que o senhor diz que a decisão do PSB sobre a candidatura presidencial ou o governo do Estado não deve ser tomada agora?
Ciro: Essa é a posição do PSB. Nós nos reunimos ontem à noite (quarta-feira), fizemos uma avaliação e há uma convergência de percepção do momento. Todos nós achamos que o tempo é essencial para que a gente deslinde essa vontade que nós temos de convergir com o Lula nesta ou naquela direção. Há um ano eu disse que a tendência era a gente perder a eleição. E essa tendência está se consolidando. Há um passo que está na mão do PSDB, que é o Serra resolver ser candidato à reeleição em São Paulo e apoiar o Aécio. Nesse caso, a eleição está perdida, na minha opinião. É simples entender. Não é profecia. O Serra apoiar o Aécio significa que recuou voluntariamente. Dá vitória para Aécio em São Paulo. O Aécio sai com 80% em Minas – que o Serra não tira nem com apoio do Aécio – e entra mais fácil no Rio de Janeiro, no Norte e no Nordeste. E no Sul os níveis de aprovação do governo Lula estão bem mais baixo.
Valor: Em que condições o senhor disputaria o governo de São Paulo?
Ciro: Eu estou com a vida ganha. Não preciso ser candidato a nada. Posso ser candidato a presidente ou cumprir uma tarefa como candidato a governador do Rio ou São Paulo – mas desde que seja dentro de uma estratégia que consulte o melhor interesse do povo brasileiro. Senão eu não topo. A prioridade do partido é a Presidência. Eu não sou candidato a governador de São Paulo. Nunca pretendi. Considero extremamente honroso a lembrança do meu nome, um desafio que não sei sequer se estou à altura, e cumpro tarefas.
Valor: Como, por exemplo, disputar em São Paulo para minar a candidatura de Serra a presidente?
Ciro: Quero dizer isso formalmente: se engana redondamente quem imagina que eu, eventualmente aceitando o desafio de ser candidato a governador de São Paulo, vou cumprir uma tarefa mesquinha de atacar o Serra. Ao contrário: acho ele um grande governador. Já estou adiantando aqui: acho ele um grande governador. E acho que deveria continuar governador. Acho que seria um péssimo presidente da República, não porque tenho animosidade pessoal, mas porque foi ministro do Planejamento por quatro anos do governo FHC, data na qual o país quebrou, a divida pública quase dobrou, a carga tributária explodiu. Depois foi ministro da Saúde e não fez rigorosamente nenhuma transformação institucional, como, a rigor, nós também não fizemos.
Valor: O senhor tem até o fim de setembro para trocar o domicílio eleitoral do Ceará para São Paulo, se quiser disputar a eleição lá. Pode disputar governo, Presidência ou qualquer outro mandato. O senhor admite como opção candidatar-se novamente a deputado federal para puxar uma grande bancada?
Ciro: Não serei. E ponto final.
Valor: Qual a chance de sua candidatura a governador do São Paulo ser definida na reunião desta semana?
Ciro: Nenhuma chance. Pode botar isso com exclamação. E a remota chance de eu ser candidato a governador de São Paulo exige que eu entenda de que grande projeto nós estamos falando.
Autor: luisnassif - Categoria(s): Eleições, Política Tags: 2010, Ciro Gomes, Dilma, eleições, Marina, Serra

QUEM NÃO É FISIOLÓGICO QUE ATIRE A PRIMEIRA PEDRA
Engraçado, em recente passado, o partido ARENA PFL era o partido fisiológico. O MDB PMDB era um partido ético. Com o passar do tempo o PMDB dá à luz a um novo partido, PSDB, fruto de experiência genética bem sucedida. Justificavam seus idealizadores, ser providência necessária, pois, já havia surgido sinais de deterioração, a entropia era evidente no velho PMDB.
Pois bem, este transgênico devidamente purificado pela engenharia genética, obra de conceituados geneticistas. Inicialmente, não apresenta o menor resquício de jaça, no entanto, logo após a fase laboratorial ao partir para teste de campo, para o dia a dia entreolham-se como se endagasse, quem vai meter a mão na merda? Não vacilam, que fazem os professores e teóricos da pura entidade? Convoque-se os biologistas, foi a ordem ecoada ao longo dos corredores da Academia.
Ai, entra em cena a fina flor do fisiologismo. Convocado da antiga escola arenista, o famoso fisiológico nato ACM Phd em política, gênio do trambique. Perfeito, casamento que resiste a 4 anos regulamentares de governo e, mais 4 anos arrancados à procedimentos de investigações das funções orgânicas e fisiológicas, um sucesso de operação. Até hoje o puro PSDB e PFL, digo, DEMO mantém confraria azeitada.
O que me causa certa curioside é quando o PT que, a despeito de nascido de parto natural, se bem que a origem proletária o prejudique um pouco, sabe como é né? A origem. Não é estudado, não teve berso, essas coisas, pesam né? Mas, vamos em frente. Quando o PT repetindo o que fisera o partido dos brancos lá atras, resolve arrumar um PMDB pra meter a mão na dita cuja e, poder tocar a navegação, bum! o mundo desaba em cima. Que zorra de democracia é essa?
Abraços. Orlando
Prezado Luis Nassif,
fiz este comentário no Conversa Afiada e mando aqui também para, quem sabe, merecer sua opinião. Aquele abraço!
quanto à candidatura da Marina pelo PV, acho que foi uma das melhores movimentações no tabuleiro político dos últimos tempos. Chegou para botar uma água na fervura da “Eleição Plebicitária” que se estava desenhando. Com a Marina no jogo, o Ciro ganha muito mais corpo, pois se ficar negligenciado pelo PT, pode montar uma chapa com a Marina, para servir de comtraponto à candidatura de uma mulher (Dilma). E convenhamos, não ficaria uma chapa fraca não. O Ciro por si só, já tem muito voto, muito apoio e muito tramite político. A Marina chegaria para ser um válvula de escape para aqueles que não suportam a idéia da candidatura Serra (PSDB) e para aqueles desiludidos com o governo Lula (PT). São 2 ex-ministraos do governo Lula, o que é uma boa credencial, mas que foram vozes dissonantes. Sei que a candidatura da Marina sozinha não é páreo, mas nesta configuração, quem sabe? Qual a sua avaliação?
Aquele abraço,
Cristiano Fialho
Adeus, Dilma !
Bem-vinda, Marina !
“Cessa tudo quanto a antiga musa canta,
Que outro valor mais alto se alevanta”.
Luís, Vaz de Camões? Concordas com a
resposta abaixo?
“Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte”.