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05/07/2009 - 09:27

A cassação de JK

Da Folha

CARLOS HEITOR CONY

A cassação de JK

RIO DE JANEIRO – Com algum atraso, vou lembrar o 45º aniversário da cassação de Juscelino Kubitschek, em junho de 1964. Logo após o golpe daquele ano, os militares cassaram o presidente em exercício, João Goulart, e um ex-presidente, Jânio Quadros. Inicialmente, JK foi poupado.

Desde fevereiro do mesmo ano ele fora lançado e homologado pelo PSD como candidato na próxima sucessão presidencial, marcada para o ano seguinte. Seria o “JK-65″, tido como uma barbada eleitoral.

As forças no poder, tanto no setor militar como no empresarial, queriam fazer de Carlos Lacerda, o mais ostensivo propagador do golpe, não apenas um candidato, mas o presidente da República. Era necessário limpar o terreno para isso, tirando JK da jogada.

Em São Paulo, que na época gozava a fama (merecida) de ser a locomotiva do Brasil, teve início um movimento para cobrar a cassação do candidato pessedista. Castello Branco, que havia prometido manter o calendário eleitoral e o jogo democrático, foi pressionado pelo então ministro da Guerra, Costa e Silva, para ir conversar com a cúpula da conspiração. Castello reclamou que os empresários paulistas ameaçavam boicotar o plano econômico elaborado por Octavio Gouveia Bulhões e Roberto Campos, que daria régua e compasso para a economia nacional. Foi feita a exigência: que Castello cassasse JK. Todos os ministros assinariam o ato, menos Roberto Campos.

No avião de volta para Brasília, Costa e Silva convenceu Castello de que era necessária a cassação, caso contrário, a chamada revolução não se consolidaria. Em carta a JK, o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Carlos Carmelo Vasconcelos Mota, seu amigo desde os tempos de Diamantina, entregou o que sabia: “Presidente, aqui está a cabeça da hidra”.

Comentário

A versão que eu tinha era diferente. A campanha “JK 65″ ganhava corpo. Juscelino veio a São Paulo para uma missa na Catedral da Sé, oficiada por dom Motta. Depois, tinha reunião na Associação Comercial. Da Sé à ACSP são vários quarteirões. Testemunhas da época me disseram que ele foi de um lugar ao outro sem colocar os pés no chão, carregado pelo povo. O sucesso foi tão retumbante que o próprio Estadão – principal articulador do golpe anti-JK – se curvou.

COm exceção do Estadão, não me parece que o meio empresarial paulista fosse contra JK. Costa e Slva, sim.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Brasileira, História Tags: , ,

34 comentários para “A cassação de JK”

  1. Marco Antonio disse:

    Bem, Cony era bastante próximo de JK. Mas faltou explicar que JK só foi visto como favorito indiscutível às eleições de 65 depois do golpe. Até então, o candidato favorito da sociedade brasileira era Leonel Brizola _ cuja popularidade e posições à esquerda ( daí a falta de necessidade de um ” golpe de esquerda” , argumentação utilizada para justificar o assalto de direita perpetrado)foi um dos motivos da quebra constitucional pelas baionetas. Natural que, com sua cassação, JK tenha passado a ser visto como o representante espontâneo da sociedade. De qualquer forma, não é impossível que o grande empresariado da época, financiador do golpe, tenha previsto que seria duradouro e tenham tomado atitudes duplas, até uma definição mais concreta do cenário político.

  2. Jotapê disse:

    Para as eleições de l965, JK contava com a simpatia do empresariado sim, como não?
    Nonô foi o deus das empreiteiras, por extensão dos empresários. A era JK foram anos de gastança do dinheiro público , generalizada e abundante – inflação pra valer começava ali.

    Corrupção sempre existiu mas era tímida até l955,, quando os corruptos ainda tinham alguns escrúpulos, até se suicidavam…

    Grande Nonô: 50 anos em cinco – 50 anos de inflação e de corrupção, ah, isso ele fez … Justificava-se então a famigerada frase de consolo: “ROBOU, MAS FEZ”, o que também por extensão redime Maluf.

  3. daniel disse:

    Olá Nassif. Apenas para registro: curioso esse sucesso da campanha JK-65, especialmente se considerarmos a campanha contrária à Juscelino desde seu governo, levada a cabo pela imprensa, mas também o desarranjo econômico no final de seu período e, sobretudo, o fato de que ele não conseguiu fazer seu sucessor, ficando Lott bem atrás de Jânio que, diga-se de passagem, era o avesso do avesso do JK. Poderíamos pensar que o advento do golpe de estado fez com que a sociedade desse um voto de confiança a um JK que saiu combalido do poder; mas, como, se foi justamente essa mesma sociedade que, em massa, apoiou o golpe de 1964?

  4. lucifer disse:

    Estadão jamais foi ou é voz isolada.Tem historicamente uma classe a defender.Mesmo hoje, com visíveis sinais de decadência , percebe-se o esforço do antigo baluarte dos Mesquita em exibir influência que já não tem ,como interlocutor de instituições conservadoras,porém, divididas.
    Resta-lhe o caminho da legalidade,isto é ,apear do golpismo midiático, que campeia nas redações das outras famílias, assumindo com equilíbrio e razoável isenção, tradicional liderança perdida.

  5. anarquista disse:

    Marco Antonio:

    Muito boa sua colocação:

    “‘ Bem, Cony era bastante próximo de JK “”

    E Cony era uma espécie de secretário dele em todos os sentidos.Pelo menos é o que ele escreve.

    Até insinua que escreveu alguns discursos pra JK.

    Mas agora devo contesta-lo( segundo a leitura da época e principalmente de Gaspari)

    Não sabia que Leonel Brizola era favorito. E nenhum historiador escreveu isso.

    Todos os que li escreveram que JK era o favorito mesmo.

    Isto que escrevo não é no sentido de contesta-lo.

    Apenas que me sugira UM livro sequer que aponte Brizola como favorito.

    Terei prazer em le-lo.

    Abraços!!

  6. Marcos disse:

    Para mim essa foi a principal tragédia de 64.
    A justificativa dos golpistas para deposição de João Goulart é uma piada diante desse fato: o governo João Goulart acabaria com o inicio do novo governo JK.
    Em resumo, quando poucos querem decidir o destino de muitos dá nisso.
    Bom mesmo é o povão que vota egoisticamente em quem melhora o seu bolso.
    Não tenho dúvidas que hoje o Brasil seria um pais desenvolvido.
    Não por virtudes de JK, mas por virtudes da democracia.

  7. Jose de Almeida Bispo disse:

    Pela tradição da elite paulista, Nassif, fico com a versão de Cony.

  8. Marco Antonio disse:

    Anarquista,

    Anarquista,

    Embora respeite profundamente suas opiniões, não vou efetuar pesquisas no sentido de provar o que escrevi com base em diversos artigos que já li e posso nem achar hoje. Todos têm direito de duvidar, assim como de trazer novas pesquisas, se lhes aprouver. Também nunca vi indicios ou li pesquisas a respeito de que JK fosse favorito em 65. Ao contrário, ele sequer conseguiu emplacar seu sucessor, o Marechal Lott. Já Brizola, chegaram ao extremo se tornar nacional uma discussão sobre se parentes poderiam ser candidatos. Daí o famoso slogan, ” Cunhado não é parente, Brizola para Presidente”. Embora, confessemos, para o Código Civil ( mesmo o da época, que era de 1916, e durou até 2003), cunhado fosse ( e ainda é) parente por afinidade.
    De qualquer forma, pela situação da época, em que Brizola, até por seu temperamento, e após sua postura na Campanha da Legalidade, tornou-se uma figura de muito maior prestígio e autoridade que seu cunhado ( cujo governo tinha grande popularidade, o que não impediu o golpe em 64), creio que fosse mesmo favorito em uma disputa com JK.
    Mas não me sentiria ultrajado se fosse desmentido por você, de forma alguma. Afinal, nunca deixei de encontrar fatos que desmentissem meu pensamento anterior. Faz parte do aprendizado, que no meu caso ainda parece ser longo. Um grande abraço e um ótimo domingo pra você, do colega Marco.

  9. Sanzio disse:

    Concordo com a análise do Marco Antonio, e acrescento minha leitura dos acontecimentos.

    JK foi um presidente extremamente popular, tanto por seu carisma pessoal, quanto por ter elevado o salário mínimo ao seu maior valor histórico. Além disso, o pós-guerra havia trazido para a classe média brasileira o conceito do American Way of Life, com suas traquitanas eletrodomésticas, os espetáculos imitados da Broadway, a proliferação de programas radiofônicos de grande apelo popular, como humorísticos e telenovelas.

    Além disso, a vitória da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1958, juntamente com as vitórias de Eder Jofre, no boxe, e de Maria Esther Bueno, no tênis, despertaram o orgulho patriótico e a sensação de que, finalmente, o Brasil deixaria de ser uma promessa de futuro e passaria a ser uma potência.

    A transformação do país num canteiro de obras, principalmente com a construção de rodovias e a criação da indústria automotiva nacional reforçavam esse imaginário, cujo símbolo maior era a construção de Brasília. No entanto, ao mesmo tempo em que eram fatores de geração de emprego e crescimento econômico, essas mesmas obras prestavam-se à montagem de gigantescos esquemas de corrupção, envolvendo empreiteiras, industriais, banqueiros, políticos. Daí a constatação de que o empresariado paulista, o maior beneficiário desses esquemas, não se posicionasse abertamente contra JK.

    Politicamente, entretanto, a acusação de que era apoiado pelos comunistas, vocalizada principalmente por Carlos Lacerda, passou a ser amplamente difundida pela imprensa, após o golpe militar. Na imprensa, Adolpho Bloch foi o único a lhe dar algum respaldo, e Cony era praticamente a voz de Bloch. Os empresários, que tanto haviam se beneficiado em seu governo, viraram-lhe as costas pragmaticamente, pois havia que apoiar a ditadura, garantia de um futuro ainda mais lucrativo, como a História viria a demonstrar.

  10. Legal disse:

    Ue, ta estranha esta historia. O JK trouxe muitos beneficios pra Sao Paulo, entre eles duas micro-empresas: a Volks e a Mercedes. So isto.
    O homem transformou um pais agropastoril em um pais quase industrial. A economia cresceu a olhos vistos.

    E o Cony diz que os empresarios eram contra a volta deste candidato e a favor do Lacerda, que emprestou seu nome prum mosquito danado de chato?
    So se fossem loucos.

  11. Marcelo de Matos disse:

    O golpe militar não foi algo espontâneo, decidido de uma hora para outra. Foi longamente engendrado pela cúpula militar: eles tinham um projeto de poder que poderia se estender por longos anos. É claro que as lideranças políticas seriam trituradas. Lacerda quis constituir uma “frente ampla” contra a ditadura. Conversou com Juscelino e foi encontrar-se com João Goulart em Montevidéu. Os militares, porém, cortaram suas asas. Dizem que ele recebeu em casa um belo punhal dentro de um estojo de madeira. Era um recado claro. Lacerda, então, refugiou-se em Petrópolis e abandonou a política. Começou a cultivar rosas e traduzir Shakespeare. Há indícios de que o golpe já estava preparado antes mesmo do governo Jânio Quadros, que falava em “forças terríveis” e “forças ocultas”. No governo JK houve várias levantes da Aeronáutica, como em Aragarças e Jacareacanga. A guerra fria e o espectro do comunismo mantinham os militares em permanente estado de alerta. Carlos Lacerda repetiu amiúde a frase de autoria desconhecida: “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Os militares estavam, havia tempo, vigilantes, organizados e preparados para assumir o poder. O momento propício surgiu com os discursos de João Goulart a favor das “reformas de base”. Entre elas, uma reforma agrária mais tímida que a preconizada pelo Estatuto da Terra, da lavra dos militares.

  12. Figue disse:

    Concordo com o Cony e acrescento.
    -Os EE. UU. tinham qual posição sobre a eleição de 65?
    -Leonel Brizola seria o grande cabo eleitoral de JK em 65 por estar vinculado a Jango num “momento de prestígio da Redentora”.
    -A puxada de tapete do empresariado paulista faz sentido, não há o que duvidar, pois tem uma vocação golpista. Com toda a ajuda que JK deu a eles, não deixaram de impor seus interesses maiores. O que o empresariado paulista fez com JK, é o mesmo que está fazendo com Lula mesmo tendo eles prosperado muito nos últimos anos. Muitos (senão a maioria) que quebraram sob FHC, hoje apóiam Serra.
    -Não se deve confiar na Locomotiva do Atraso (a elite empresarial paulista).

    Quem disse que Brizola apoiaria JK? A relação de JK e Jango sempre foi de mútua desconfiança, inclusive depois, na Frente Ampla. Faz sentido porque tem vocação golpista, é demais. Tem que ter vocação golpista e um interesse especifico. Empresário que quebrou não é mais empresário.

  13. Cascudo disse:

    Mas pera lá.

    O Costa e Silva não era do Rio?

    O que aconteceu que o Lacerda não saiu presidente em 65 ?

    Pelo que se lê agora dos jornais e revistas daquela época, o Lacerda era extremamente simpático à mídia. Até parecia um Serra de agora (em termos midiáticos, ok?)

    E aí, fizeram um golpe, que poderia ter durado apenas 1 ano, mas resolveram estende-lo por mais um mandato. Por que? Porque estava fácil. Já tinha sido feita a ruptura institucional. Se entregassem a presidência às forças civis vencedoras, a ditadura continuaria acontecendo, mas nas mãos de civis, que certamente podariam cabeças para subjulgar o generalato.

    O que levou à prrogação do golpe foi a constatação de que JK seria imbatível nas urnas. O fenômeno Jânio e sua tristeza ébria já tinha se esgotado. O Lacerdismo era de curto alcance. O grande personagem era JK, de novo.

  14. Gilson Raslan disse:

    RESPOSTA AO JATAPÊ
    JK roubou tanto, mas tanto, que deixou os seguintes bens: um sítio de 15 algueires em Goiás, um apartamento no Rio, uma casa (de herança) em Diamantina e algumas obras de arte.
    Para seu governo, Jotapê, D. Sara, viúva de JK, para sobreviver vendeu todas as obras e o sítio deixados pelo saudoso Presidente.
    Quando já não tinha mais de onde tirar seu sustento, o então Prefeito de Belo Horizonte, Pimenta da Veiga, lhe concedeu uma pensão vitalícia.
    Portanto, Jotapê, não copie o PIG com esse assassinato de reputação de uma figura tão importante para o Brasil e para os brasileiros.
    Comparar JK a Maluf é a mesma coisa que compara vinho com urina.
    Fica aqui o meu protesto contra tão grosseiro e calunoiso comentário contra o maior estadista brasileiro de todos os tempos.

  15. Cascudo disse:

    Outra coisa que nunca entendi direito foi a morte do Castelo Branco, logo após deixar a presidência.

    Dado o caráter bastante democrático dele, comparado com a inabilidade política do costa e Silva, que teve de apelar pro AI-5, é bastante providencial aquele acidente, não?

    É incrível como a proximidade ao poder fazia as pessoas morrerem.

  16. Figue disse:

    Faltou clareza de minha parte. Brizola seria o grande cabo eleitoral estando do lado oposto a JK, deixando JK como o anti república sindicalista.

  17. Figue disse:

    Faltou clareza de minha parte. Brizola seria o grande cabo eleitoral estando do lado oposto a JK, deixando JK como o anti república sindicalista.
    Vocação, leia-se tradição.

    Ai sim.

  18. Cascudo disse:

    “O que levou à prrogação do golpe foi a constatação de que JK seria imbatível nas urnas. O fenômeno Jânio e sua tristeza ébria já tinha se esgotado. O Lacerdismo era de curto alcance. O grande personagem era JK, de novo.”

    Ou seja, JK, o conciliador, não era uma solução viável para os militares. Logo eles não queriam mesmo sair do poder.

    Concordo que Lacerda não ganharia nacionalmente, por causa da morte do Getúlio.

  19. Jairo Juruna disse:

    A versão que eu tinha era diferente: A cassação de JK e o acidente que provocou a morte do Castelo Branco teriam sido obras de FHC e José Serra.

    Se a Veja já existisse, também seria culpada.

    E a foto de capa da matéria seria o Juruna com um sorvete na testa.

  20. Orlando Varêda disse:

    Cascudo, me desculpe, o caráter bastante democrático que atribui a Castelo Branco, servia apenas às articulações golpista, pela qual, sua traição à constituição e ao govêrno que servia, lhe rendeu o cargo de primeiro ditador de plantão na ditadura de primeiro de abril de 64.
    Lembre-se que, todo direitista sempre se diz democrata.

    Abraços. Orlando

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