A cassação de JK
Da Folha
CARLOS HEITOR CONY
A cassação de JK
RIO DE JANEIRO – Com algum atraso, vou lembrar o 45º aniversário da cassação de Juscelino Kubitschek, em junho de 1964. Logo após o golpe daquele ano, os militares cassaram o presidente em exercício, João Goulart, e um ex-presidente, Jânio Quadros. Inicialmente, JK foi poupado.
Desde fevereiro do mesmo ano ele fora lançado e homologado pelo PSD como candidato na próxima sucessão presidencial, marcada para o ano seguinte. Seria o “JK-65″, tido como uma barbada eleitoral.
As forças no poder, tanto no setor militar como no empresarial, queriam fazer de Carlos Lacerda, o mais ostensivo propagador do golpe, não apenas um candidato, mas o presidente da República. Era necessário limpar o terreno para isso, tirando JK da jogada.
Em São Paulo, que na época gozava a fama (merecida) de ser a locomotiva do Brasil, teve início um movimento para cobrar a cassação do candidato pessedista. Castello Branco, que havia prometido manter o calendário eleitoral e o jogo democrático, foi pressionado pelo então ministro da Guerra, Costa e Silva, para ir conversar com a cúpula da conspiração. Castello reclamou que os empresários paulistas ameaçavam boicotar o plano econômico elaborado por Octavio Gouveia Bulhões e Roberto Campos, que daria régua e compasso para a economia nacional. Foi feita a exigência: que Castello cassasse JK. Todos os ministros assinariam o ato, menos Roberto Campos.
No avião de volta para Brasília, Costa e Silva convenceu Castello de que era necessária a cassação, caso contrário, a chamada revolução não se consolidaria. Em carta a JK, o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Carlos Carmelo Vasconcelos Mota, seu amigo desde os tempos de Diamantina, entregou o que sabia: “Presidente, aqui está a cabeça da hidra”.
Comentário
A versão que eu tinha era diferente. A campanha “JK 65″ ganhava corpo. Juscelino veio a São Paulo para uma missa na Catedral da Sé, oficiada por dom Motta. Depois, tinha reunião na Associação Comercial. Da Sé à ACSP são vários quarteirões. Testemunhas da época me disseram que ele foi de um lugar ao outro sem colocar os pés no chão, carregado pelo povo. O sucesso foi tão retumbante que o próprio Estadão – principal articulador do golpe anti-JK – se curvou.
COm exceção do Estadão, não me parece que o meio empresarial paulista fosse contra JK. Costa e Slva, sim.
Autor: luisnassif - Categoria(s): Brasileira, História Tags: cassação, Cony, JK

Bem, Cony era bastante próximo de JK. Mas faltou explicar que JK só foi visto como favorito indiscutível às eleições de 65 depois do golpe. Até então, o candidato favorito da sociedade brasileira era Leonel Brizola _ cuja popularidade e posições à esquerda ( daí a falta de necessidade de um ” golpe de esquerda” , argumentação utilizada para justificar o assalto de direita perpetrado)foi um dos motivos da quebra constitucional pelas baionetas. Natural que, com sua cassação, JK tenha passado a ser visto como o representante espontâneo da sociedade. De qualquer forma, não é impossível que o grande empresariado da época, financiador do golpe, tenha previsto que seria duradouro e tenham tomado atitudes duplas, até uma definição mais concreta do cenário político.
Para as eleições de l965, JK contava com a simpatia do empresariado sim, como não?
Nonô foi o deus das empreiteiras, por extensão dos empresários. A era JK foram anos de gastança do dinheiro público , generalizada e abundante – inflação pra valer começava ali.
Corrupção sempre existiu mas era tímida até l955,, quando os corruptos ainda tinham alguns escrúpulos, até se suicidavam…
Grande Nonô: 50 anos em cinco – 50 anos de inflação e de corrupção, ah, isso ele fez … Justificava-se então a famigerada frase de consolo: “ROBOU, MAS FEZ”, o que também por extensão redime Maluf.
Olá Nassif. Apenas para registro: curioso esse sucesso da campanha JK-65, especialmente se considerarmos a campanha contrária à Juscelino desde seu governo, levada a cabo pela imprensa, mas também o desarranjo econômico no final de seu período e, sobretudo, o fato de que ele não conseguiu fazer seu sucessor, ficando Lott bem atrás de Jânio que, diga-se de passagem, era o avesso do avesso do JK. Poderíamos pensar que o advento do golpe de estado fez com que a sociedade desse um voto de confiança a um JK que saiu combalido do poder; mas, como, se foi justamente essa mesma sociedade que, em massa, apoiou o golpe de 1964?
Estadão jamais foi ou é voz isolada.Tem historicamente uma classe a defender.Mesmo hoje, com visíveis sinais de decadência , percebe-se o esforço do antigo baluarte dos Mesquita em exibir influência que já não tem ,como interlocutor de instituições conservadoras,porém, divididas.
Resta-lhe o caminho da legalidade,isto é ,apear do golpismo midiático, que campeia nas redações das outras famílias, assumindo com equilíbrio e razoável isenção, tradicional liderança perdida.
Marco Antonio:
Muito boa sua colocação:
“‘ Bem, Cony era bastante próximo de JK “”
E Cony era uma espécie de secretário dele em todos os sentidos.Pelo menos é o que ele escreve.
Até insinua que escreveu alguns discursos pra JK.
Mas agora devo contesta-lo( segundo a leitura da época e principalmente de Gaspari)
Não sabia que Leonel Brizola era favorito. E nenhum historiador escreveu isso.
Todos os que li escreveram que JK era o favorito mesmo.
Isto que escrevo não é no sentido de contesta-lo.
Apenas que me sugira UM livro sequer que aponte Brizola como favorito.
Terei prazer em le-lo.
Abraços!!
Para mim essa foi a principal tragédia de 64.
A justificativa dos golpistas para deposição de João Goulart é uma piada diante desse fato: o governo João Goulart acabaria com o inicio do novo governo JK.
Em resumo, quando poucos querem decidir o destino de muitos dá nisso.
Bom mesmo é o povão que vota egoisticamente em quem melhora o seu bolso.
Não tenho dúvidas que hoje o Brasil seria um pais desenvolvido.
Não por virtudes de JK, mas por virtudes da democracia.
Pela tradição da elite paulista, Nassif, fico com a versão de Cony.
Anarquista,
Anarquista,
Embora respeite profundamente suas opiniões, não vou efetuar pesquisas no sentido de provar o que escrevi com base em diversos artigos que já li e posso nem achar hoje. Todos têm direito de duvidar, assim como de trazer novas pesquisas, se lhes aprouver. Também nunca vi indicios ou li pesquisas a respeito de que JK fosse favorito em 65. Ao contrário, ele sequer conseguiu emplacar seu sucessor, o Marechal Lott. Já Brizola, chegaram ao extremo se tornar nacional uma discussão sobre se parentes poderiam ser candidatos. Daí o famoso slogan, ” Cunhado não é parente, Brizola para Presidente”. Embora, confessemos, para o Código Civil ( mesmo o da época, que era de 1916, e durou até 2003), cunhado fosse ( e ainda é) parente por afinidade.
De qualquer forma, pela situação da época, em que Brizola, até por seu temperamento, e após sua postura na Campanha da Legalidade, tornou-se uma figura de muito maior prestígio e autoridade que seu cunhado ( cujo governo tinha grande popularidade, o que não impediu o golpe em 64), creio que fosse mesmo favorito em uma disputa com JK.
Mas não me sentiria ultrajado se fosse desmentido por você, de forma alguma. Afinal, nunca deixei de encontrar fatos que desmentissem meu pensamento anterior. Faz parte do aprendizado, que no meu caso ainda parece ser longo. Um grande abraço e um ótimo domingo pra você, do colega Marco.
Concordo com a análise do Marco Antonio, e acrescento minha leitura dos acontecimentos.
JK foi um presidente extremamente popular, tanto por seu carisma pessoal, quanto por ter elevado o salário mínimo ao seu maior valor histórico. Além disso, o pós-guerra havia trazido para a classe média brasileira o conceito do American Way of Life, com suas traquitanas eletrodomésticas, os espetáculos imitados da Broadway, a proliferação de programas radiofônicos de grande apelo popular, como humorísticos e telenovelas.
Além disso, a vitória da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1958, juntamente com as vitórias de Eder Jofre, no boxe, e de Maria Esther Bueno, no tênis, despertaram o orgulho patriótico e a sensação de que, finalmente, o Brasil deixaria de ser uma promessa de futuro e passaria a ser uma potência.
A transformação do país num canteiro de obras, principalmente com a construção de rodovias e a criação da indústria automotiva nacional reforçavam esse imaginário, cujo símbolo maior era a construção de Brasília. No entanto, ao mesmo tempo em que eram fatores de geração de emprego e crescimento econômico, essas mesmas obras prestavam-se à montagem de gigantescos esquemas de corrupção, envolvendo empreiteiras, industriais, banqueiros, políticos. Daí a constatação de que o empresariado paulista, o maior beneficiário desses esquemas, não se posicionasse abertamente contra JK.
Politicamente, entretanto, a acusação de que era apoiado pelos comunistas, vocalizada principalmente por Carlos Lacerda, passou a ser amplamente difundida pela imprensa, após o golpe militar. Na imprensa, Adolpho Bloch foi o único a lhe dar algum respaldo, e Cony era praticamente a voz de Bloch. Os empresários, que tanto haviam se beneficiado em seu governo, viraram-lhe as costas pragmaticamente, pois havia que apoiar a ditadura, garantia de um futuro ainda mais lucrativo, como a História viria a demonstrar.
Ue, ta estranha esta historia. O JK trouxe muitos beneficios pra Sao Paulo, entre eles duas micro-empresas: a Volks e a Mercedes. So isto.
O homem transformou um pais agropastoril em um pais quase industrial. A economia cresceu a olhos vistos.
E o Cony diz que os empresarios eram contra a volta deste candidato e a favor do Lacerda, que emprestou seu nome prum mosquito danado de chato?
So se fossem loucos.
O golpe militar não foi algo espontâneo, decidido de uma hora para outra. Foi longamente engendrado pela cúpula militar: eles tinham um projeto de poder que poderia se estender por longos anos. É claro que as lideranças políticas seriam trituradas. Lacerda quis constituir uma “frente ampla” contra a ditadura. Conversou com Juscelino e foi encontrar-se com João Goulart em Montevidéu. Os militares, porém, cortaram suas asas. Dizem que ele recebeu em casa um belo punhal dentro de um estojo de madeira. Era um recado claro. Lacerda, então, refugiou-se em Petrópolis e abandonou a política. Começou a cultivar rosas e traduzir Shakespeare. Há indícios de que o golpe já estava preparado antes mesmo do governo Jânio Quadros, que falava em “forças terríveis” e “forças ocultas”. No governo JK houve várias levantes da Aeronáutica, como em Aragarças e Jacareacanga. A guerra fria e o espectro do comunismo mantinham os militares em permanente estado de alerta. Carlos Lacerda repetiu amiúde a frase de autoria desconhecida: “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Os militares estavam, havia tempo, vigilantes, organizados e preparados para assumir o poder. O momento propício surgiu com os discursos de João Goulart a favor das “reformas de base”. Entre elas, uma reforma agrária mais tímida que a preconizada pelo Estatuto da Terra, da lavra dos militares.
Concordo com o Cony e acrescento.
-Os EE. UU. tinham qual posição sobre a eleição de 65?
-Leonel Brizola seria o grande cabo eleitoral de JK em 65 por estar vinculado a Jango num “momento de prestígio da Redentora”.
-A puxada de tapete do empresariado paulista faz sentido, não há o que duvidar, pois tem uma vocação golpista. Com toda a ajuda que JK deu a eles, não deixaram de impor seus interesses maiores. O que o empresariado paulista fez com JK, é o mesmo que está fazendo com Lula mesmo tendo eles prosperado muito nos últimos anos. Muitos (senão a maioria) que quebraram sob FHC, hoje apóiam Serra.
-Não se deve confiar na Locomotiva do Atraso (a elite empresarial paulista).
Mas pera lá.
O Costa e Silva não era do Rio?
O que aconteceu que o Lacerda não saiu presidente em 65 ?
Pelo que se lê agora dos jornais e revistas daquela época, o Lacerda era extremamente simpático à mídia. Até parecia um Serra de agora (em termos midiáticos, ok?)
E aí, fizeram um golpe, que poderia ter durado apenas 1 ano, mas resolveram estende-lo por mais um mandato. Por que? Porque estava fácil. Já tinha sido feita a ruptura institucional. Se entregassem a presidência às forças civis vencedoras, a ditadura continuaria acontecendo, mas nas mãos de civis, que certamente podariam cabeças para subjulgar o generalato.
RESPOSTA AO JATAPÊ
JK roubou tanto, mas tanto, que deixou os seguintes bens: um sítio de 15 algueires em Goiás, um apartamento no Rio, uma casa (de herança) em Diamantina e algumas obras de arte.
Para seu governo, Jotapê, D. Sara, viúva de JK, para sobreviver vendeu todas as obras e o sítio deixados pelo saudoso Presidente.
Quando já não tinha mais de onde tirar seu sustento, o então Prefeito de Belo Horizonte, Pimenta da Veiga, lhe concedeu uma pensão vitalícia.
Portanto, Jotapê, não copie o PIG com esse assassinato de reputação de uma figura tão importante para o Brasil e para os brasileiros.
Comparar JK a Maluf é a mesma coisa que compara vinho com urina.
Fica aqui o meu protesto contra tão grosseiro e calunoiso comentário contra o maior estadista brasileiro de todos os tempos.
Outra coisa que nunca entendi direito foi a morte do Castelo Branco, logo após deixar a presidência.
Dado o caráter bastante democrático dele, comparado com a inabilidade política do costa e Silva, que teve de apelar pro AI-5, é bastante providencial aquele acidente, não?
É incrível como a proximidade ao poder fazia as pessoas morrerem.
Faltou clareza de minha parte. Brizola seria o grande cabo eleitoral estando do lado oposto a JK, deixando JK como o anti república sindicalista.
Faltou clareza de minha parte. Brizola seria o grande cabo eleitoral estando do lado oposto a JK, deixando JK como o anti república sindicalista.
Vocação, leia-se tradição.
“O que levou à prrogação do golpe foi a constatação de que JK seria imbatível nas urnas. O fenômeno Jânio e sua tristeza ébria já tinha se esgotado. O Lacerdismo era de curto alcance. O grande personagem era JK, de novo.”
Ou seja, JK, o conciliador, não era uma solução viável para os militares. Logo eles não queriam mesmo sair do poder.
Concordo que Lacerda não ganharia nacionalmente, por causa da morte do Getúlio.
A versão que eu tinha era diferente: A cassação de JK e o acidente que provocou a morte do Castelo Branco teriam sido obras de FHC e José Serra.
Se a Veja já existisse, também seria culpada.
Cascudo, me desculpe, o caráter bastante democrático que atribui a Castelo Branco, servia apenas às articulações golpista, pela qual, sua traição à constituição e ao govêrno que servia, lhe rendeu o cargo de primeiro ditador de plantão na ditadura de primeiro de abril de 64.
Lembre-se que, todo direitista sempre se diz democrata.
Abraços. Orlando
1) Parabéns pro Cony por lembrar a cassação de JK. Parabéns pro Nassif por lembrar o apoio da mídia à cassação de JK, importante ‘detalhe’ esquecido por Cony.
2) O golpe e a tragédia de 64 só poderiam ter sido evitados se a aliança PSD-PTB tivesse sido mantida. O fator fundamental para o Golpe foi o rompimento dessa aliança, com a atração do PSD pela UDN (Castelo garantira a JK a manutenção do calendário eleitoral).
3) Santiago Dantas , Tancredo sabiam disso e alguns outros poucos sabiam da importância da aliança da esquerda e do centro para a governabilidade. Desgraçadamente Jango não entendeu isso. Brizola e Prestes nem cogitavam disso, achavam que a Revolução estava logo ali à frente. Depois viram qual Revolução…
3) As linhas político-ideológicas que os golpistas tentaram acabar com a extinção dos partidos em 1966 permaneceram como resistência da política e dos políticos à ditadura, no MDB e na ARENA (Daí Arena 1, Arena 2, Arena 3 e por vezes MDB 1 MDB 2).
4) ‘Mutatis mutandis’ (sem dúvida que o País mudou muito) mas são essas linhas político-ideológicas ( e respectivas bases sociais de classe) que estão por trás dos discursos e das ações políticas doehoje (que na verdade deitam raízes profundas em nossa história).
5) Portanto, apesar de todas as diferenças o PT (gostem ou não certos petistas puristas) se encontrou sim com a tradição reformista e popular do velho PTB (não confundir com o atual PTB, que é uma só fração daquele); o PMDB, no fundo é o velho PSD fisológico e moderado transfigurado e o PSDB se encontra sim com a herança udenista do elitismo autoritário e do reformismo por cima da tradição bacharelesca (o DEM é só a fração mais à direita dessa UDN de hoje);
6) O conservadorismo elitista sabe que para manter o poder na democracia e disputar o poder com o reformismo popular pelo voto pecisa do centro político. Golbery sabia que para o conservadorismo manter o poder pelo voto era fundamental uma aliança com o centro moderado. Isso é o que estava por trás do projeto fracassado do PP, para o qual o regime autoritário atraiu Setúbal, o próprio Tancredo e tantos outros. O fracasso do PP (o regime tentou ludibriar Tancredo e se deu mal) siginificou o fim do sonho de institucionalização do regime de 64 e o fim da ditadura.
7) De 1989 para cá é só prestar atenção, são essas as forças que têm disputado o poder (percebam as similaridades entre os Governos Collor e Jânio, a UDN de porre na feliz expressão de Afonso Arinos). E, para concluir, essa é a questão que esta aí neste exato momento: a disputa pelo centro político fisiológico e moderado entre a direita (o elitismo reformista dos bacharéis) e a esquerda (o reformismo popular, ou populista para os que preferem).
O livro da biografia do GEISEL, editado pela FGV, traz algumas notícias sobre a cassação do JK.
Diz o GEISEL que durante o governo Castelo Branco foram feitas diversas comissões de inquérito, com amplos poderes de investigação e requisição de meios.
Se não me engano, o próprio GEISEL presidiu a do JK. Sendo apurado que o JK possuía inúmeros bens em nome de terceiros. Sendo prática do JK antes de construir alguma coisa comprar os terrenos em volta, em nome de terceiro, e depois faturar com a valorização do mercado.
Todos esses fatos foram apresentados ao JK sob a seguinte proposta: Você “pica a mula” do Brasil ou nós processamos e prendemos você por corrupção, sonegação fiscal e evasão de divisas.
Bom, sinceramente, concordo que Brizola seria o anti-JK em 65. Só que, com sua popularidade e capacidade de mobilização das massas, dividiria o eleitorado conservador e mesmo o de centro e venceria JK e o candidato dos militares, fosse ou não o ” corvo da UDN”. o favoritismo de JK deu-se muito mais antes do plebiscito de 63 ( e enquanto vigorava o parlamentarismo de Tancredo) do que após a volta ao Presidencialismo, quando ressurgiu de forma impressionante a força de Brizola. Esse o maior medo dos militares, tanto que Brizola foi sempre visto como o maior inimigo da ditadura. No que tange a uma eleição em 1965, após o golpe duvido que tenha sequer passado pela cabeça de qualquer militar_ incluído Castelo Branco_ realizá-la. Aumentaram o número de cassações justamente para que não surgisse um grupo opocionista de peso que insistisse na realização de um pleito direto. Quando perpetrado o golpe, o sonho de longa vida no poder já era antigo.
Finalmente, acho totalmente absurdo considerar-se golpistas democratas. E isso vale para Castelo Branco, Afonso Arinos, Milton Campos, Carlos Lacerda e muita gente_ inclusive familiares meus que participavam ativamente da política nacional da época_ reverenciada de tal forma. Devem receber louros por outras virtudes que possuíam, mas entre estas não se inclui o desrespeito_ seja por que motivo for_ a regimes legitimamente constituídos e legitimamente exercidos.
simples senhor Cony, ja que cita com propriedade vários nomes, por que não os dos empresários paulistas. Aí talvez a credibilidade da informação seria, talvez, aceita.
Gilson Raslan, em atenção:
Pode ter-lhe parecido assim, mas não comparei a competência operacional de JK à de Maluf — pobre JK… Eu apenas aludi à mais vil das frases que ainda hoje se ouve na boca do eleitor: “roubou mas fez”
Mesmo porque, como disse lá em cima, os corruptos de então seriam até éticos se comparados aos de hoje (na ocasião, o percentual oficial das negociatas era 2% ).
Cordialmente
A bronca dos milicos com JK era por causa de Brasília. Muita sacanagem rolou em na construção da nova capital, muita gente se locupletou.
Eles achavam aquilo um desperdício, além do fato de que, por serem bons funcionários públicos, ficaram putos com a idéia da transferência. Trocar as delícias do Rio pela aridez poeirenta do planalto. Imagina.
Mas se houve coisa que ajudou eles no golpe, foi Brasília. Aquele isolamento do país e da sociedade.
Dar o golpe com a presidência no Rio seria bem mais complicado. Neste cenário eu diria que o golpe não sairia.
Se saísse, diria que a ditadura não ia durar o que durou. A reação carioca às firulas da corte castrense seria implacável. No primeiro carnaval em que D. Yolanda fosse tema de marchinha de carnaval, os milicos iam se tocar na de pegar o quepe.
Brasília é imperdoável para o carioca. JK fez coisa de paulista com o Rio, se deixasse a capital onde estava, seria eleito em 65.
O movimento de 64 não foi monolitico, era dividido em alas e grupos, em certos momentos prevaleciam uns e na fase seguinte outros, era uma relação de forças cambiantes, do começo ao fim. Castelo pessoalmente nunca quis a cassação de JK, antes de sua eleição indireta pelo Congresso em 10 de abril, foi à casa do Deputado Joaquim Ramos para encontrar JK, que prometeu seu voto a ele no Senado e Castelo naquelo momento nem cogitava de qualquer ação contra JK. A pressão veio do grupo do Ministro Costa e Silva, a chamada linha dura e Castelo não conseguiu resistir.
Falar em empresariado paulista como se fosse um bloco só é irreal. Haviam grupos distintos e que as vezes se aliavam e outras vezes não.
Havia uma ala mais conservadora em torno da Associação Comercial, a FIESP era mais ao centro e dentro da FIESP haviam diretores mais conservadores (Nadir Figueiredo, De Nigris, Amato) e outros bem mais progressistas (Claudio Bardella, Luis Eulalio), isso se refletiu no apoio de um certo grupo da FIESP aos primeiros movimentos politicos do Lula lá por 79, mas esse grupo avançadinho não era uma unanimidade no empresariado.
Não podemos esquecer que o movimento de 64 teve tres grandes lideranças civis, Magalhães Pinto, Lacerda e Ademar, estes dois ultimos cassados pelo movimento que tornaram possivel. Dentro do regime vários generais de expressão foram afastados por discordarem do nucleo da linha dura, como Pery Bevilaua, Eurycledes Zerbini, o lider do primeiro momento Olimpio Mourão, encostado no STM, assim como o Brigadeiro Deoclecio de Siqueira, tambem houveram choques sucessórios que afastaram nomes fortes como os Generais Euler Monteiro, Albuquerque Lima, Hugo Abreu. Quer dizer, o movimento nunca foi monolitico, haviam facções que lutavam internamente. Geisel era dos mais democráticos, tinha visão de longo prazo, liderança efetiva, dentro dos limites do movimento era um homem civilizado, culto e afavel, tinha postura de Chefe de Estado e visão de Pais. Foi certamente o nome mais emblemático do regime, o único General Presidente que particpou de todas as fases do movimento desde o primeiro até o ultimo dia e que montou a saida do regime e em certo sentido o mais autoritário porque decidia sozinho, não era guiado por grupos ou assessores, alem disso era o que melhor sabia governar, se informava de todos os detalhes, tinha uma atuação bem organizada, métodica e racional, era um homem calmo e até frio no sentido de não agir por rompantes ou emoção. Geisel está a espera de uma biografia de peso, sua ação projetou-se fortemente desde o governo Castelo até o ultimo dos presidentes militares, General Figueiredo, escolhido por ele. Geisel foi o personagem central do regime ao arbitrar e vencer a maior ameaça à volta à democracia, que foi a operação do General Silvio Frota que representaria a volta da linha dura e obviamente uma saida muito mais traumatica do regime.
Quanto a Brizola e JK, nunca foram aliados nem antes e nem depois de abril de 64, não tinham qualquer afinidade politica, Brizola não participou da Frente Ampla, se fosse aliado de JK lá estaria. Quanto a dizer que Brizola seria eleito Presidente, não tem suporte em nada a não ser na opinião do comentarista. Brizola não tinha votos em SP e em Minas, não tinha base eleitoral para uma sucessão presidencial, a classe média tinha horror a ele, não esquecer que o Brizola de 63 era incendiário, o Brizola do retorno era muito mais moderado, o de 63 não afinava com a média do eleitorado brasileiro de então, o candidato natural era realmente JK.
Quanto às mortes de Castelo, JK, Lacerda e Jango, sem essa de teoria da conspiração, nada a ver, não tem encaixe no contexto politico, quando morreram não representavam ameaças ao regime.
Gente, cassaram até o Magalhães Pinto, golpista de origem. Nao queriam nenhum político civil de algum peso, nem mesmo de extrema direita. Cassaram o LACERDA! , o esgoto da época.
Prezada Anarquista Lucida : Magalhães Pinto nunca foi cassado. Foi Ministro das Relações Exteriores do Governo Costa e Silva, jamais teve qualquer problema no regime militar. Os outros dois apoiadores civis do Movimento, Adhemar de Barros e Carlos Lacerda, foram cassados porque contestavam a duração do regime, que pretendiam curta, com realização de eleições presidenciais aonde pudessem se candidatar.
Caro Neves, teu comentario e perfeito, e so complementando lembre-se que o material de construcao ia de aviao e em relacao ao tempo dos militares nenhuma cidade sofreu tanto como Santos ( cidade mais politizada da epoca, e berco do sindicalismo do Brasil, onde naquela epoca nem existia sindicalismo no ABC, as greves em Santos e no Rio foram o terror para a sociedade de classe media da epoca, haja visto que a cupula do Ministerio de trabalho de Jango tinha estivadores tanto do Rio como de Santos, inclusive na epoca era considerada a cidade vermelha do Brasil, se nao me engano Santos foi uma das ultimas cidades a ter de volta autonomia e eleicoes diretas), obrigado e parabens pelo seu comentario.
É difícil apresentar JK como um perdedor na eleição de 60. Ele não tinha interesse na eleição de Lott, pois julgava mais simples seu retorno a partir do fracasso de Jânio, que tinha como certo. Foi atropelado pelos fatos de 61, nos quais sua participação foi baixa. Em 62 também não tinha interesse na eleição de Tancredo para o governo de Minas, pois o via como um provável competidor. Toda sua estratégia política neste período esteve centrada na eleição de 65 e tudo o que fazia era neste sentido. Não se opôs ao golpe, pois, mais uma vez, além das garantias que lhe haviam sido dadas de manutenção do calendário eleitoral, julgava que seu caminho seria facilitado. A cassação de JK atendeu os interesses de todos os que se opuseram a seu governo. Para Lacerda, Magalhães Pinto e a UDN mineira, foi o ápice da vingança política iniciada em abril. JK, para eles, era o próprio símbolo da corrupção no país. Sua cassação é o sinal essencial que Castelo emite que há um projeto de poder em andamento. Colocar, como Cony faz, essa cassação no colo de empresários de SP é, de um lado, superestimar uma influência que naquele momento não existia. SP, naquele período, tinha poder econômico, mas não político. De outro, retirar do ato o que foi: a afirmação do poder militar e da visão moralista de passar o país a limpo, nos termos do projeto de Castelo, Golbery e da UDN. Por fim, 64 pode ser lido de diversas formas, uma delas certamente é pela covardia de JK (maior liderança política do país no momento) na defesa do regime democrático e sua aceitação do golpe como algo natural.
Caro André Araújo,
Na verdade, minhas opiniões são baseadas em várias outras que li e ouvi ao longo das décadas. Fausto Wolf, Jeferson Andrade, Tarso de Castro, e o próprio Frei Betto, em uma palestra na PUC, em 1990, disseram a mesma coisa. Em momento algum busquei fazer uma interpretação baseada em ” vontades” ou ” desejos” pessoais. Aliás, nem nascido eu era na época. Mas é curioso que Brizola tivesse toda essa rejeição. Foi eleito governador do Rio Grande do Sul e saiu com a maior popularidade do Estado em todos os tempos. Foi eleito deputado federal pela Guanabara em 1960 com 24% de TODOS os votos, o que mostra sua penetração no sudeste. Um político tão rejeitado como você diz não teria conseguido mobilizar toda a sociedade com a campanha da Legalidade, que permitiu a posse de Jango. No próprio google você pode ler sobre o fortalecimento de Brizola a partir de 1963. De toda forma, eu expus minha opinião sobre a tendência da época, que considero muito mais favorável a Brizola que a JK. Ou então, para que o golpe? Que me lembre, não houve nenhuma insurreição comunista ou de esquerda até 1965. Juscelino não causou tanta preocupação aos militares, tendo sido retirado apenas em um segundo momento. Se Brizola era tão irrelevante, e era o principal líder de esquerda do país ( muito maior e mais conhecido que Arraes e Francisco Julião, por exemplo), que mal poderia fazer que justificasse uma intervenção militar? Creio que os fatos corroboram muito mais minha tese do que a sua.
Finalmente, acho estranho você se referir a alguém que ocupou o poder em um regime de exceção, do começo ao fim, como ” democrata”, caso de Geisel. A biografia que ele merece já está escrita pela história. Vergonhosa. Inesquecível a passagem em que ele se refere ao Brasil como uma ” democracia relativa”. Indagado, Ulysses Guimarães redarguiu no mesmo dia:” quando o substantivo não existe, o adjetivo não interessa”.
E apenas para complementar duas posições que não são ” só do comentarista”, como me informou há pouco um amigo por e-mail, a Wikipédia, com farta fonte bibliográfica, fala textualmente sobre o favoritismo de Brizola em 64. E o fenomenal jornalista Ney Duclós escreveu, sobre o assunto, quando da morte do líder trabalhista: ” Eles deram o golpe para impedir tua presidência, Brizola. O regime de 64, que ainda está em vigor, tinha só esse objetivo…”
Como se vê, a tese que apresentei não tem suporte apenas na opinião deste comentarista. A menos que o seu conceito de “nada” seja tão amplo quanto o que você entende por democracia.
Meu caro Marco Antonio : Respeito sua opinião que demonstra bom conhecimento do tema. Permito-me todavia dar a minha. Jango era muito mais moderado do que Brizola, que o empurrava para a extrema esquerda contra a vontade do proprio Jango. Isso era de conhecimento publico à época. De fato, Brizola foi o gatilho do movimento ao instigar Jango a praticar atos radicais, como o comicio dos marinheiros de 13 de março, desapropriação de terras marginais às estradas, das refinarias privadas, etc. Jango tentava se equilibrar e Brizola não deixava, era um incendiario. Mas Brizola não seria candidato mesmo se não houvesse o golpe, seu nome não permitiria uma coligação do PTB com partidos mais ao centro, condição indispensavel para viabilidade de uma candidatura. A aliança tradicional seria do PTB com o PSD mas este ja tinha Juscelino e mesmo sem JK jamais iria se coligar com Brizola, o PSD era conservador. Portanto era uma candidatura eleitoralmente inviavel dentro das regras do jogo em 64. Por outro lado, Brizola era muito popular no Rio Grande e no Rio de Janeiro, mas é só. Não tinha votos em SP e Minas. Não tinha massa eleitoral para ganhar uma eleição presidencial.
Eu vivi intensamente aqueles tempos, trabalhava no BEG-Banco do Estado da Guanabara, que era uma fortaleza lacerdista, participava muito da politica daquela epoca agitada, vi o comicio de 13 de março, o movimento das tropas em 31 de março, a tensão toda daquele mês, a tropa do Mourão chegando ao Palacio Duque de Caxias na madrugada, a Avenida Brasil ladeada por tanques e caminhões com tropas.
Brizola não seria jamais pareo para JK, que estava no auge da popularidade. Portanto, nao tinha como haver favortisimo sem candidatura e essa candidatura simplesmente não existia, não tinha sustentação politico-partidaria, não poderia existir, alem do problema legal discutivel (cunhado é ou não é parente?)
Os grandes comentaristas politicos daqueles tempos tumultuados, o Castelinho, Villas Boas, Helio Silva, Cony, Tarcisio, Murilo Melo Filho, poderão confirmar o que eu digo, pesquise nos arquivos das colunas deles. O afavel Brizola que retornou do exilio era uma pessoa muito mais calma do que o Brizola de 64, que era realmente um radical que queria tocar fogo no circo. Quanto aos nomes que vc citou, eu adorava o Fausto Wolff, tenho os livros dele, era uma grande figura, humano como poucos, mas não era um bom comentarista politico, não tinha frieza para analise, o Frei Betto nem era nascido naquele tempo, Tarso de Castro tb não era analitico, aliás nem é preciso muita analise, Brizola simplesmente não conseguiria ser candidato por uma coligação de centro-esquerda, sem a qual não teria nem como saber se ele era favorito.
Tem uma prova dos nove: o Movimento de 64 teve amplo apoio popular e Jango caiu sem ter quem o defendesse nas ruas, como então supor que o voto majoritario do Brasil naquela época seria da esquerda radical, que era o que Brizola representava?