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03/07/2009 - 10:02

Da cândida inocência dos analistas

Continuo não entendendo o raciocínio que se esconde por trás do sempre excelente texto de Dora Kramer.
Vamos à sua análise de hoje:

Sob custódia do Planalto

Dora Kramer,

Muito bem: o presidente Luiz Inácio da Silva intervém no Senado, faz de José Sarney um presidente tutelado pelo Palácio do Planalto, assume a custódia das lixeiras do Parlamento, submete o PT a um vexame ímpar e o que isso influi no processo da sucessão presidencial?

Ou, antes, o que a eleição de um presidente da República e a boa governança de um País têm a ver com a sustentação de um esquema político obsoleto e moralmente apodrecido?

A rigor, nada. Bem como a manobra não acrescenta um voto – podendo tirar muitos – a candidaturas governistas nem tampouco serve como garantia da adesão do PMDB à chapa com patrocínio oficial.

De que país Dora está falando? Deve ser da Inglaterra. Levando seu raciocínio ao extremo, FHC se apoiava em ACM, Luiz Eduardo Magalhães, Jader Barbalho por afinidade. E Lula se apoia em Sarney, Geddel e outros porque participam das partidas de futebol na Granja do Torto. Senado, CPIs, nunca foram fator de instabilidade política por aqui? O jogo acabou. Qual a intenção de Dora com esses argumentos que nada têm a ver com a realidade política do Brasil?

Não obstante, o argumento por trás dos movimentos do presidente Lula em defesa do presidente do Senado é o de que Lula age em prol da governabilidade e do êxito eleitoral de seus aliados em 2010.

Alega-se que o presidente da República atua no propósito de preservar a estabilidade política e de evitar uma “crise sem precedentes” no Senado que poderia “comprometer o restante do seu mandato”.

Crise sem precedentes o Senado vive há pelo menos oito anos, período em que assiste ao permanente questionamento público dos presidentes escolhidos pelo colegiado, já se vê, por critérios que não levam em conta normas de boa conduta.

Que é isso? Seria apenas uma marolinha. E se o Senado vive essa crise há 14 anos, porque Dora se apegou à demissão do atual presidente do Senado como saída e não à cobrança da implementação do projeto da FGV?

A intervenção explícita – de maneira nunca vista – do Poder Executivo, se influência tiver sobre a crise, será no seu agravamento. Quanto ao comprometimento do mandato de Lula, não é visível o motivo do receio.

Nunca vista? FHC se valeu de ACM, quando precisou. Quando o aliado exorbitou, defenestrou-se em dois tempos – em prol da governabilidade, sim – de uma maneira nunca vista.

São três as possibilidades de solução até agora apresentadas: a licença do presidente Sarney até a conclusão da investigação e desmonte das atividades da rede de ilicitudes montada ao longo dos últimos 14 anos; renúncia e realização de novas eleições; formação de um grupo suprapartidário para encaminhar as soluções, independentemente de Sarney sair ou ficar.

Objetiva e friamente nenhuma delas configura um problema.

Nem o Lobo Mau foi tão convincente assim, ao convencer Chapeuzinho a mudar o caminho (perdão pela comparação, já que nessa história só existem lobos e raposas).

Se Sarney pedir licença, assume o primeiro vice, Marconi Perillo, do PSDB. Alega-se que o governo “não aceita” entregar a presidência do Senado ao partido que será seu maior adversário em 2010 e que, ademais, Lula “detesta” Perillo.

Questão de gosto. Muita gente no Parlamento também deve “detestar” algum ministro do Executivo e nem por isso a nomeação de todos eles deixa de ser prerrogativa do presidente. No tocante à “entrega” do Senado à oposição, é de se perguntar por quê. Descontada a hipótese de o PSDB fazer a revolução, de que loucuras seria capaz o partido?

Não acredito! Por que razão FHC juntou todas suas forças contra a CPI do Fim do Mundo? Porque o poder desestabilizador de uma CPI é imenso. É óbvio até para os leitores da Dora que o Senado, sob controle da oposição, se transformaria em uma máquina de gerar uma CPI por semana, paralisando o país até as eleições.

(…) Se Sarney renunciar, realizam-se novas eleições. E daí? Realizaram-se várias. Em quantidade maior que as regulamentares de dois em dois anos, em função de vacâncias anteriores no curso do mandato. Seria apenas mais uma. Com a mesma dificuldade de sempre: ausência de nomes de consenso.

Desta vez só seria preciso cuidado redobrado no quesito folha corrida.

Que cuidado? Dora precisou escolher um campeão apenas e escolheu errado.

A terceira possibilidade – recusada, mas até agora a mais ponderada – é a do grupo suprapartidário. O PSDB apresentou a sugestão, o PT encampou, mas a Mesa Diretora recusou, também suprapartidariamente, com receio de perder poder.

Não teria, é verdade, o controle absoluto sobre as investigações e eventuais reformulações, mas manteria suas funções habituais. O grupo administraria a crise e a Mesa continuaria no comando do Senado.

Falar em perda de poder pontual, deste ou daquele, nessa altura é irrelevante, pois o nome do jogo é a recuperação de um poder já perdido coletivamente.

Ou o Senado percebe que trata da sua sobrevivência ou os grupos dominantes continuarão a reboque das conveniências do Palácio do Planalto. Hoje ou amanhã, seja Lula ou outro o presidente da República.

Ou o Senado continuará à reboque da mídia e da Dora. A transparência que virá tornará o Senado mais limpo – e também menos vulnerável aos jogos de manipulação da mídia.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Eleições, Política Tags: , ,

111 comentários para “Da cândida inocência dos analistas”

  1. Orlando Varêda disse:

    QUANDO ACM, JADER E RENAN, SÃO BONS PARA BOA GOVERNANÇA

    A senhora Dora Kramer desde algum tempo, vive dilema que, via de regra, acomete adolescentes. Não sei se decorrente do papel que desempenha como“menina do Jô,” onde com outras jovens jornalistas(?) protagonizam semanalmente, sob a batuta do engraçado Clown, momentos deploráveis de mau gosto e de preconceito explícito à guisa de fazer humor.

    Tenho notado que a antiga analista política, está a se bandear do ativismo polítco partidário de suas cronicas, para um formato mais humorístico,suponho, respeitando contratos. Devemos reconhecer, que se trata de decisão corajosa, não conheço seus motivos, mas, os respeito.

    O Nassif, não deixa por menos,quando admirado, pergunta “De que país Dora está falando? Deve ser da Inglaterra.” Realmente, é engraçado como agem em uníssono a equipe tucana. Mesmo em pensamento, a afinação é quase perfeita, o diabo é o repertório repetitivo e de tamática insossa.

    Enquanto isso, a banda do metalúRgico, apresenta um som mais colorido, matizado com muita diversidade criativa. Tudo bem que o refinamento europeu não esta habituado ao que chamam de ruídos. O quê fazer? Nada, é bom que assim seja, toquemos o barco.

    Abraços. Orlando

  2. H. A. S. disse:

    Nassif, acompanho seu blog e me identifico muito com seu pensamento. Até concordo com você no que diz respeito à governabilidade do país. Mas acho que há um bom tempo ela praticamente inexiste no sentido mais amplo da palavra. Seja isso pelos partidos políticos brasileiros que não possuem um projeto definido para o país, seja pela dinâmica da política brasileira que infelizmente funciona à base da troca de favores ou MPs. Também, fundamentalmente, pela política econômica que vem desde o real. Tudo se torna subordinado à estabilidade monetária, ficando todas as decisões, em última instância, sob o crivo de um BC extremamente conservador.

  3. chris disse:

    ” Defendo com unhas e dentes a estabilidade política que, infelizmente, depende dos nefastos e aproveitadores aliados do governo.”

    Com esta frase você sintetiza muito bem o que o que norteia (ou parece nortear) o comportamento deplorável do Lula quanto ao apoio ao Sarney. É de dar nojo! Esta “complacência” está mais para promiscuidade, conveniência! Como encarar alguém que nos disse para não ter medo “da mudança” e logo em seguida começa agir em consonância com tudo (e todos) que criticava anteriormente? É mesmo “tudo em nome da governabilidade” ou “não sei como fazer diferente para melhorar”?

    Não consigo concordar com a tese de que os fins justificam os meios. Pelo menos, gostaria de vislumbrar uma luz no fim do túnel, do tipo: está muito ruim agora, mas estamos caminhando através de tais e tais medidas para construir uma sociedade cujos representantes sejam gente descente, de palavra. Cujos representantes representem de fato o povo, respeitem as leis, paguem seus impostos. Seria cômico se não fosse trágico ter que mostrar o óbvio.

    Essa nossa “democracia” está parecendo um magnífico monumento cujas estruturas estão apoiadas num pântano. O Povo apóia Lula por causa dos programas sociais? Ora, vamos então adotar uma ditadura que “distribua” ainda mais renda pelos programas sociais e feche aquele circo do congresso que só dá prejuízo à nação. É só botar um ditador simpático, que fale bobagens para se identificar como o povão e não entre em conflito com os interesses de banqueiros, os donos de empreiteiras, ou qualquer um desses grupos que ficam bancando os nossos “representantes” para, no final das contas, eles fazerem o que o patrão manda. Quanto dinheiro nós não iríamos economizar em eleições inúteis. Afinal, os caras se elegem para depois fazer o que quiser, não tem que dar satisfação ao eleitor. E a desculpa da tal “fiscalização” da oposição? Ahh, no final, tudo vira conchavo…ou, quem sabe, eles ficam jogando m. no ventilador, puxando o tapete um do outro.

    Que se dane se a Dora Kramer foi ingênua ou dissimulada! Será que EU é que sou a ingênua aqui por fazer questão de as autoridades (de qualquer partido) tenham um comportamento ético? Ainda prefiro a clareza da honestidade à esperteza dos manipuladores de plantão. Será que vamos eternamente ter que nos conformar de que caminhar do modo correto é uma utopia, que a democracia é apenas um engodo?

  4. orlando disse:

    É uma vergonha o que vemos,ouvimos e sabemos a cada dia sobra o que acontece nos corredores do senado Brasileiro.A começar pelo presidente da casa,Sr.Sarney,que reperesenta o que de pior tivemos no Brasil nos ultimos 30 anos.O que fez esse homem para o Brasil,o que fez para o seu estado.Escritor? de que? presidente? de que? estadista? de que?.
    Ele simboliza o atraso,o coronelismo,aquele que manda bater,como aconteceu com o reporter do CQC,e acima de tudo um certo nojo de saber que ainda temos gente como esse homem na política,e no comando de alguma coisa.Fora com ele.

  5. Zé da Silva Brasileiro disse:

    A impressão que fica da cobertura da mídia brasileira é que o senado é um templo onde moram uma prostituta e oitenta vestais. Os “demos” não sabiam que José Sarney era José Sarney, o Joseph Fouché brasileiro, quando o apoiaram para a presidência do senado. O Belzebú enganou os inocentes “demos”. Agora eles estão se sentindo como “donzelas” enganadas por um sedutor. Expulsa a prostituta de Babilônia a moralidade voltará a reinar e seremos todos felizes…

  6. João Batista disse:

    O estilo da Dona Dora é assim meio cipoal… no entanto dá pra descortinar pelo que ela torce.

  7. Igor disse:

    Nassif, você devia parar de defender o indefensável…. acaba perdendo sua credibilidade assim…. a intervenção do Lula neste episódio, e em vários outros envolvendo corrupção no Brasil, é vergonhoso e deveria ser o suficiente para fazer com que Lula sumisse da vida pública se vivêssemos em uma país sério (… o que implicaria que fôssemos tabém um povo sério…)

  8. Nanaco disse:

    Esquece essa mulher, Nassif.

    Ela só fala besteira. Ela e o comparsa interlocutor, o Casoy. O Senhor das Abóboras.

  9. jb disse:

    Nassif,

    Pelo seu raciocínio, pela estabilidade política, VALE TUDO. Seu principal argumento não resiste a qualquer teste moral. Não Nassif, pouca me importa quem vá assumir a presidência do Senado. Se o próximo presidente tiver pobres, o senado pode colocá-lo para fora também. É interessante o PT pensar em estabilidade política e cobrar os tucanos por isso. Quando FHC era presidente eles não deram um minuto de trégua. Seus tentáculos nos mais diversos órgãos pediram 1001 CPIs, etc e ninguém nunca se preocupou com isso. Então, acho muito suspeita essa preocupação geral pela estabilidade política.
    JB.

  10. Cafu disse:

    “A raiz da crise reside no fundo do poço que separa o que já morreu do que não nasceu ainda” assim escreveu Gramsci. Se a mudança for pra valer, e para melhor, bem-vinda, Dona Crise! Até que enfim, a senhora chegou.
    O Senado brasileiro parece certos casais em estado terminal do relacionamento, paralisados pelo medo da mudança e suas conseqüências (inclusive, sem desejo de mudança verdadeira, pois ela implica em assumir responsabilidades, perder vantagens e regalias e transformar valores e atitudes), mas também incapazes de impedir a imensa insatisfação gerada pelo acúmulo de erros e desajustes do presente e do passado. Estopins de intermináveis “barracos” e troca de acusações. Constrangedor. Horrível de se ver.
    “Não consigo viver com você, não consigo viver sem você” é o lema. Isso divide, imobiliza, obseda e gera ressentimentos cada vez maiores porque a tendência é culpar o outro para livrar a própria cara ou justificar o injustificável. Um poço sem fundo onde cada um projeta as mazelas no outro ou no casamento, e , dessa forma, a estrutura e a dinâmica de funcionamento seguem inalteradas.
    Todos sabemos que não há vítimas, só sujeitos responsáveis por motivações, atos e omissões.
    Tomara que o desagradável espetáculo que estamos testemunhando empurre, nem que seja na marra,a Casa para uma faxina profunda, e não os “banhos de gato” com perfume francês de sempre (griffe ACM, Arruda, Luiz Estevão, Renan, Sarney, Agaciel…). É hora de tirar os esqueletos do armário, enterrá-los de vez, levantar o tapete, varrer o lixo, sacudir a poeira, desentupir as privadas (afinal a coisa é pública!), descartar o anacrônico, consertar os vazamentos e os curtos circuitos, abrir as janelas, arejar, deixar o sol entrar neste mundo cheios de sótãos e porões entulhados de atos secretos e de recalques intocáveis. Não existe faxina sem caos ou bagunça momentânea. Qualquer dona de casa sabe disso.
    Melhor enfrentar as catacumbas do que fazer o jogo de aparências, maquilar os problemas para manter tudo igual, empurrar com a barriga porque é um vespeiro perigoso, prosseguir na hipocrisia cínica de fazer vista grossa pros malfeitos dos amigos e descer o cacete nos mesmos malfeitos dos inimigos.
    A República tem maturidade suficiente para encarar de frente esse espinhoso desafio e a democracia brasileira sairá muito mais fortalecida e renovada se pegar o touro pelos chifres.
    Bacana essa idéia do projeto da FGV. Não se pode deixar os ovos aos cuidados das raposas.

  11. O LULA salvou o mandato do CHAVES E DO EVO MORALES.
    POR QUE NÃO PODE SALVAR O MANDATO DO ALIADO SARNEY???
    ESSA “JORNALISTA” E O FHC ACHAM QUE O BRASIL É A HONDURAS !!!
    QUEREM GANHAR NO TAPETÃO, POIS ESTÃO COM MEDO DA VITÓRIA DA DILMA.

  12. João Motta disse:

    Sarney é indefensável, sempre. O resto é lero lero. A posição do PT é vergonhosa, um governo que depende de Sarney para existir…não dá.

  13. José Ribeiro Jr disse:

    O senador Alvaro Dias disse que Lula “interviu” no Senado… E olha que ele, Alvaro Dias, se diz professor, imagine se não fosse. Talvez tenha aprendido a conjugar verbos pelos livros do governo de São Paulo. Deve ser isso.

  14. Marcelo de Matos disse:

    O Ricardo Kotscho, em seu Balaio, faz uma ótima análise do que está acontecendono Senado. Vale a pena conferir.

  15. Gustavo disse:

    Defendo com unhas e dentes a estabilidade política que, infelizmente, depende dos nefastos e aproveitadores aliados do governo.

    Fins não justificam os meios.

    Será que é tão difícil conseguir unir estabilidade política sem corruptos e aproveitadores?

    Acho que é possível.

  16. Marcia disse:

    LN,

    A direita, em qualquer lugar do mundo tem o mesmo comportamento.

    Parte para a desqualificação de todos que não toquem na mesma banda.

    É uma grande falta de caráter, inclusive.

  17. Antonio Carlos Silva disse:

    Põ Nassif, aqui neste espaço (como em todos outros blog’s) tem uma galera envenenadíssimo pelo PIG, será que é difícil entender que é impossível a governabilidade sem o apoio dos PMDBestas, especialmente no senado ? .

    Será que este pessoal acha que nós temos uma maioria de políticos (em todos os parlamentos) com um nível de polidez e honestidade do parlamendo sueco ? .

    Sds.

  18. Juliano Guilherme disse:

    O Lula recebe o Corinthias, e o pig o acusa de não estar nem aí para a crise. O Lula reune-se com o PT e determina apoio ao Sarney, e então, ele entreveio indevidamente no Senado. O que quer a mídia? Respondo, que o Lula faça o que ela, mídia, quer que ele faça. Ou seja, encampar seu discurso moralista seletivo. Romper com Sarney, perdendo o apoio do PMDB e entregando o Senado de lambuja para a oposição. Querias, Dora, querias. Se tem um político no páis que não é refem da mídia, este é o Lula. PS: Realmente, como notaram outros comentaristas, ela se entregou ao dizer que a crise tem 8 anos. Escancarou, né?

  19. Michel disse:

    Em rigor, aconselha-se aos operadores da língua portuguesa que evitem a expressão “a rigor”.

  20. Este relativismo de opinião é que me faz feliz. Sem isto , me respondam, como os espertalhões iriam tapear os trouxas ?

    Falando sério, o dinheiro é nosso verdadeiro amor, traí-lo é pecado capital.

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