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29/06/2009 - 12:00

Olhando a criança Michael Jackson

Por Villegagnon

Aparentemente as pessoas não perceberam a ligação do post com o acontecimento mais notável da semana: a morte de Michael Jackson.

A trágica vida do astro é o exemplo insuperável das consequências profundas de uma relação pai-filho degenerada.

Michael Jackson, durante toda a vida, lutou (de modo caótico, é evidente) contra o fantasma aterrorizante do pai. Esse homem de quem Michael, na infância, esperava proteção e afeto, mas que só lhe causou horror, medo e violência, foi uma sombra negra constante e determinante em sua vida.

Até mesmo a transformação física do cantor foi muito menos uma questão racial com implicações políticas (interpretação banal da maioria) do que uma profunda rejeição à figura paterna e a tudo que ele representava. A bizarra metamorfose foi fruto da imensa ojeriza que Michael Jackson sentia diante da possibilidade de se identificar ao pai. O problema não era uma rejeição à própria cor, mas uma rejeição absoluta, integral ao pai. Se o pai fosse louro, a transformação de Michael Jackson provavelmente teria sido inversa.

O evento da morte de Michael Jackson pode servir de gancho para que as pessoas façam uma reflexão mais profunda sobre a relação pais-filhos e sobre as relações adultos-criança de maneira geral. Que as pessoas entendam de que os adultos – epitomizados por pai e mãe – devem antes de tudo PROTEGER as crianças. E protegê-las não diz respeito apenas ao aspecto material, mas fundamentalmente ao aspecto afetivo, psicológico e moral.

A grande assimetria existencial entre adultos e criança traz embutido um imperativo, ao qual precisamos estar sempre atentos e com o qual devemos nos orientar: a proteção. Por isso, usar as crianças para sua própria satisfação (seja ela material, psicológica, egóica, erótica, ou qualquer outra) é uma covardia indesculpável.

Qualquer pessoa (pais e mães inclusos) incapaz de manifestar generosidade em relação às crianças ou que se relacione com elas primordialmente usando-as em benefício próprio, não têm a mínima moral para exigir um mundo melhor.

Por Ralf Rickli (pedagogo)

Acho que é NESTE contexto que devem ser lidas as palavras que Michael Jackson pronunciou na entrega do Grammy de 1993 (tradução minha de 61% do texto, contendo todas as idéias relevantes), e que – quando já se entendeu o real alcance de transformação social e história da mudança de nosso entendimento das crianças e de nosso trato com elas – talvez sejam um legado ainda mais importante que o artístico:

“… É bom ser lembrado como uma pessoa, e não uma personalidade. Como eu não leio tudo o que escrevem sobre mim, eu não tinha me dado conta de que o mundo me achava tão esquisito e bizarro. Mas se você cresce como eu cresci, na frente de cem milhões de pessoas desde os cinco anos, você é automaticamente diferente. ( … )

Minha infância foi tirada de mim por inteiro. Não havia Natal, não havia aniversários, não foi uma infância normal nem teve as alegrias de infância normais. Essas foram trocadas por trabalho duro, luta e dor – e mais tarde por sucesso material e profissional. Mas, como um preço terrível, aquela é uma parte da minha vida que eu não tenho como re-criar.

Hoje, apesar de tudo, eu me sinto como um instrumento da natureza quando crio a minha música. Fico pensando em que deleite a natureza deve sentir quando abrimos nossos corações e expressamos os talentos que Deus nos deu. Um som de aprovação rola através do universo, e o mundo inteiro se enche de magia. Maravilhamento preenche os nossos corações, pois tivemos um relance, por um instante, da ludicidade da vida.

E é por isso que eu gosto tanto de crianças e aprendo tanto de estar perto delas. Eu percebo que muitos dos problemas do nosso mundo hoje – da criminalidade urbana às guerras de grande escala e ao terrorismo, e às nossas prisões superlotadas – resultam do fato de crianças terem tido suas infâncias roubadas.

A magia, o encantamento, o mistério e a inocência de um coração de criança são as sementes da criatividade que irá curar o mundo. Eu realmente acredito nisso. O que nós precisamos aprender das crianças não é infantil. Estar com crianças nos conecta com a sabedoria mais profunda da vida, sabedoria que é onipresente e pede apenas para ser vivida. As crianças conhecem as soluções que jazem dentro dos nossos corações, esperando para serem reconhecidas.

Hoje eu quero agradecer a todas as crianças do mundo, inclusive as que estão em estado de doença e de carência – o quanto a dor de vocês me toca!”

[Seguem-se os agradecimentos convencionais no recebimento de um prêmio]

Autor: luisnassif - Categoria(s): Sem categoria Tags: , ,

95 comentários para “Olhando a criança Michael Jackson”

  1. Adior Tavares disse:

    Duvido!

  2. humberto disse:

    Fico pensando: e os outros irmaos(as)? o que aconteceu para se livrarem deste pesadelo paterno?

  3. EDU disse:

    atenção: michael, não mickael

  4. Marta Macedo disse:

    Concordo interamente com o que foi escrito.

  5. joao sal disse:

    Não se pode atribuir o problema do Mickael Jackson a um fator único, a questão da figura paterna é evidente, porém, muito possivelmente houve um somatório de fatores que interferiam no processo de desenvolvimento do cantor.
    Pessoas que chegam a este nível de auto destrição tem um histórico de vida muito mais complexo do que se possa imaginar.
    Não dá para reduzir a um único aspecto.

  6. E os outros irmãos?
    Boa pergunta esta do humberto, vou dar meu pitaco.
    Humberto, ocorre que dentro de uma infinidade de irmãos um é sempre mais sensível que outro, todos são diferentes.
    Enquanto os outros irmãos faziam sexo com as garotas o MJ fazia de conta que estava dormindo.
    Segundo ele (MJ) as garotas chegavam e perguntavam “este é o pequeno Michael?”
    Ele só de butuca, escutando tudo.

  7. Ah, vamos à fonte.
    Vi isso ontem à noite, no Domingo Espetacular/Record, num imperdível documentário de um repórter chamado Martin de tal.
    Ao assistir o documentário vi que MJ é mil vezes mais esdrúxulo e esquisito do queu imaginava.
    De fato o pai o marcou de forma irremediável e chegou a chorar ao falar da sua infância, encerrando a conversa com o gesto de tapar o rosto com as mãos, como faria qualquer criança.
    Parce que ele morreu tentando viver aquilo que não experimentou: uma infância saudável.

  8. Daniel Campos disse:

    Humberto

    O que aconteceu é que eles não tinham o mesmo talento que o Michael, era ele que puxava o grupo. Então o único que poderia de fato dar retorno financeiro para o pai era ele, e por esta razão ele era então o mais cobrado e explorado.

  9. Paulo Maurício Machado disse:

    Parece que, de fato, Jacko também conseguiu inculcar nos próprios filhos algum tipo de rejeição parecida com a que ele nutria pelo pai. Segundo o jornal inglês “The News of the World”, a ex-babá Grace Rwaramba, que trabalhou por 17 anos com Jackson, revelou que os filhos do astro pop tinham medo do pai e, obviamente, não gostavam de andar mascaradas.

  10. Por isso, que uma boa convivência familiar, vale pro resto da vida.

    O que somos hoje, como adultos, é puro reflexo do que foi a nossa relação com os nossos pais, quando éramos apenas crianças.

    Quaisquer que sejam os desvios nessa tenra idade, são fundamentais para construção de nosso caráter, do nosso comnportamento diante da sociedade. Seremos legalistas, honestos, desonestos, frágeis, grossos, cínicos, debochados, malévolos, incensíveis, corajosos, frouxos, sensatos, demagogos, deslumbrados, simples, arrogantes e por aí vai.

  11. Luiz Lima disse:

    A matéria aborda a questão de relação pais-filhos, adultos-crianças. Perfeitamente lógico e não totalmente consistente, ao não considerar os dogmas que compõem o capitalismo: tudo por dinheiro. O famigerado pai do astro, não desprezando seu lado violento e ignorante, com certeza agiu segundo os valores mais importantes para os norte americanos: dinheiro a qualquer custo. Que dizer, também, dos pais que lutaram para que seus filhos passassem agradáveis dias com o astro, e depois o processaram por assédio contra os próprios filhos? Daí, podemos considerar que a questão envolve todo o sistema. E tratar tal questão de forma restrita às relações familiares não passa de pura hipocrisia.

  12. weden disse:

    Se a fórmula fosse correta, todos os irmãos sofreriam o mesmo.

    É preciso não simplficar uma questão tão complexa, quando é esta ofertada a todos nós como o sofrimento de Michael Jackson.

    Ele é o encontro de problemas familiares, preconceito social, o turbilhão que é o show business, esvaziando e saturando egos, problemas graves de identificação, etc.

    É tudo isso, junto.

    Quanto à reflexão sobre relações familiares, concordo.

    Pelo menos em parte. Visto que corremos sempre o risco de acreditar que a família (ou os problemas de) é A causa, e nunca uma das causas das nossas aflições.

  13. Ana Dias disse:

    Salve, Villegagnon. Jamais pensei que fosse dizer isso, hehe. Muito boas suas colocações. Sobre Michael Jackson, palpitaremos a valer, pois é um prato cheio para especulações. Mas uma especulação que é provavelmente certa é justamente sobre as consequências das relações entre ele e seu pai para sua vida. Claro, como disse outro comentarista, não é o único aspecto a ter afetado sua vida. Mas é um aspecto fundamental.
    hoje vim trabalhar pensando sobre a presença/ausência da mãe de Michael em todo esse processo. Quase não se fala sobre ela. O que será que passa pela cabeça dela, além de toda a dor que deve existir em seu coração agora?
    No mesmo documentário citado pelo José Carlos Lima, Michael afirma que seu pai dizia, em tom de crítica, que ele (MJ) tinha o nariz muito largo, que havia puxado de sua mãe, pois ele (pai) não tinha aquele nariz…
    como diz o Villegagnon, precisamos com urgência refletir sobre o peso das palavras ditas aos outros, e principalmente às crianças, e principalmente sobre o peso das palavras paternas e maternas na vida de uma criança.
    Que a vida e a morte miseráveis do gênio Michael Jackson sirva, pelo menos, de alerta para essa reflexão.

  14. animal racional disse:

    é isso aí, Villegagnon. certíssimo

  15. pompeu e a visão daqui mesmo disse:

    por isso vamos salvar e proteger a Maísa do seu Sílvio e Cia antes que seja tarde demais…

  16. branco velho disse:

    O tópico é importante, aborda uma violência que é varrida para debaixo do tapete nas vidas familiares e tem suas conseqüências vida afora. No caso em questão talvez explique e justifique os possíveis erros e excentricidades.
    Mas convivo profissionalmente com uma pessoa que viveu barbaridades em sua infância sem pai nem mãe, foi escravizada inclusive. Hoje vive bem, educa muito bem seus filhos, é sensata, tem equilíbrio, é amorosa e tudo mais.
    O que quero dizer é que não devemos confiar totalmente na relação de causa e efeito que sempre se faz para justificar os erros e acertos dos outros, e nossos também. Eles explicam, justificam, mas não contém toda a verdade.
    Talvez por isto um filósofo disse que o que importa não é o que acontece a um homem, mas o que ele faz disso.

  17. Jose Villela disse:

    Mas ele tambem usava as criancinhas para satisfazer sua luxuria, não esqueçam que foram encontrados material pornografico num quarto secreto na fazendola dele. Independente de ter sido inocentado pela justiça (atraves de acordos milhionarios com as vitimas) aonde tem fumaça, tem fogo.
    Assim, num contrasenso, ele acabou virando a figura paterna, ou adulta, daqueles que se servem das crianças para as suas conveniencias, mais ou menos assim como a Rede Globo, usa as crianças do Brasil para continuar a ser a midia mais poderosa no Brasil. Na verdade, se formos desencavar fundo, poucos saem honrados nesta historia…

  18. Lima disse:

    Culpa só dele e da família. E a sociedade que criamos que tem o hábito de chupar até a última gota da laranja e depois a abandona? O sogro de MJ, Elvis Presley, também viveu seus últimos dias à base de drogas (remédios) para anestesiar-se da realidade enxergada por ele. A sociedade é quem está há muito adoecida, falindo-se e em degradação sistemática. Cabe ressaltar que a cidade de nascimento de MJ é uma das centenas de cidades estadunindenses que se encontram em fase de extinção. Laranjas já bastante chupadas pelo consumismo moderno. A parte disto, concordo que a base de ajustar este mundo é respeito e não apenas pelas crianças. Primeiro consigo mesmo. Só quem se respeita pode respeitar ao outro e ao mundo

  19. Fátima-Bahia disse:

    Acho interessante a reflexão que o Villegagnon propõe,mas também concordo com o comentário do Jorge Forbes,psicanlista lacaniano:

    Avesso do Avesso

    Michael Jackson

    Foi no momento da esperança que Michael Jackson morreu: foi quando o mundo inteiro esperava seu retorno na velha Londres. Ele quebrou as tradicionais bancas de apostas que se dividiam entre o sucesso estrondoso ou o aplauso de consolação; nem um nem outro, a cada qual agora de decidir, em seu próprio sonho, como foi o último show.
    Não perguntem a um psicanalista sobre as doenças psíquicas do menino de Ben. Primeiro porque não se diagnostica à distância, segundo, e mais importante, porque a genialidade de Michael Jackson não cabe em nenhum enquadramento psicopatológico. Michael Jackson não foi o maravilhoso artista porque sofria, mas por ter sabido em sua arte ser maior que o sofrimento que deixava transparecer e que lhe causou tantos problemas. Seria muito reducionista pedir o aval freudiano à historinha pronta a ser acreditada: filho caçula de um pai tirânico, tendo sua infância roubada por uma imposição de trabalho e sucesso, o moço não teria outra opção na vida adulta se não recuperar, em parques de diversões fora de data e em compras compulsivas, a alegria infantil um dia proibida. Por favor, não! Essa história pode explicar muita gente, mas não faz um Michael Jackson.
    Nenhum diagnóstico que colemos a Michael Jackson explicará a química de alguém que fez o mundo andar na Lua. Suportemos o silêncio de sua morte e de seu sofrimento. Sua música e seus gestos é o que ele nos deixa eternamente.

    Jorge Forbes, São Paulo, 25 de junho de 2009

  20. Ivan Moraes disse:

    “Parce que ele morreu tentando viver aquilo que não experimentou: uma infância saudável.”

    Perdoem me por nao estar disposto a sequer considerar que Michael teve a vida que teve porque queria se distanciar do pai -se bem que eu tambem quero distancia de todos os Jacksons. Nunca tive razao pra supor que eles fossem flor que se cheira. Gosto da uma musica que conheco da Rebbie ( http://www.youtube.com/watch?v=fhoJWL0Tjnk ) e de virtualmente nada de Janet.

    Michael Jackson morreu anorexico -51 quilos- com comida pra uma centena de pessoas a um passo de distancia; genial, embora so falasse tolice; de parada cardiaca, ao lado de um cardiologista; de cansaco, em uma cama; cheio de remedios, porem sao; pobre, valendo muitas centenas de milhoes de dolares; sem lar, em uma casa de 100 mil dolares por mez; cercado de parasitas, com uma carrada de parentes; sem familia, com milhoes de pessoas que pulariam aa chance de amizade; com herdeiros, porem -e agora ja o estao dizendo abertamente- sem filhos proprios; com trabalho documentadamente dedicado aa infancia, embora nao pudesse cuidar de si mesmo; adorado, embora documentadamente rejeitado a nivel universal; tentando refazer o auge de “Thriller”, porem talvez sabendo que ele so viria com sua morte.

    Pária respirando, idolo novamente com o coracao parado.

    MJ nao estava tentando tentando viver uma infancia saudavel. Tinha death wish. Nada indica outra coisa. Nao eh uma recriminacao, certamente, nao me interessaria fazer nenhuma.

    Se isso tudo comecou ha 45 anos atraz eh so uma possibilidade, talvez grande probabilidade. Mas nao me interessaria emocionalmente.

    A morte de Michael Jackson ja eh ruim o bastante, nao vai ser eu quem vai revisitar 50 anos e 10 mezes pra justificar uma parada cardiaca.

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