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28/06/2009 - 09:26

Como (não) comprovar uma falsificação

É impressionante a dificuldade da Folha em dar o braço a torcer, no caso da ficha falsa de Dilma Rousseff. O reconhecimento da fraude sai aos poucos e sempre com ressalvas. E o jornal chega a uma conclusão que revoluciona de vez o exercício do jornalismo: só se pode comprovar que um documento é falso se houver o original para ser comparado. É uma revolução newtoniana no jornalismo.

A fraude é facilmente comprovável, sem necessidade de laudo pericial nenhum, a partir do seguinte raciocínio óbvio e acessível a qualquer pessoa com um mínimo de honestidade intelectual:

1. A Folha recebeu a ficha por e-mail. Apresentou como se fosse a ficha de Dilma Rousseff no DOPS paulista. A partir daí, bastaria ir ao Arquivo Público, onde se encontra o material do DOPS e conferir se a ficha existe ou, pelo menos, se o modelo de ficha é o mesmo do spam.

2. Na carta da Ministra ao jornal (que publiquei) é mencionada a afirmação taxativa do diretor do Arquivo Público, de que aquele modelo de ficha nunca existiu no DOPS. O laudo reitera essa afirmação e menciona a inexistência de fotos no arquivo no período 1967 a 1969. Em vez de se render aos fatos, a Folha diz que “poderia” existir esse modelo, foto ou ficha, nos anos posteriores. Então mostre. Mas não vai atrás do Arquivo Público para comprovar a suspeita ou desmentir a acusação. Limita-se a desqualificar as provas em cima de bobagens inacreditáveis (os peritos se basearam na foto que saiu no Blog do Azenha, por estar mais legível, sendo que o Blog é crítico da mídia). Cáspite!

Sinceramente, não sei o que está por trás. Ou se mantém o fantasma pendente para uso posterior. Ou tenta se livrar a todo o custo a cara de quem armou essa jogada. Ninguém da redação mereceria essa solidariedade, do jornal se expor ao ridículo para salvar a cara do autor desse feito.

É evidente que o autor não frequenta a redação.

Da Folha

Com meses de atraso sai a matéria. O título é honesto.


Aí vem a matéria propriamente dita, que registra os argumentos da Ministra:

A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, encaminhou à Folha dois laudos técnicos, por ela custeados, que apontaram “manipulações tipográficas” e “fabricação digital” em uma ficha reproduzida pela Folha na edição do último dia 5 de abril.
(…) A imagem foi publicada pela Folha com a seguinte legenda: “Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu”.
O laudo produzido pelos professores do Instituto de Computação da Unicamp (Universidade de Campinas) Siome Klein Goldenstein e Anderson Rocha concluiu: “O objeto deste laudo foi digitalmente fabricado, assim como as demais imagens aqui consideradas. A foto foi recortada e colada de uma outra fonte, o texto foi posteriormente adicionado digitalmente e é improvável que qualquer objeto tenha sido escaneado no Arquivo Público de São Paulo antes das manipulações digitais”.
O laudo produzido pelo perito Antonio Nuno de Castro Santa Rosa da Finatec (Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos), ligada à UnB (Universidade de Brasília), chega às mesmas conclusões.
A ministra anexou o laudo da Unicamp em carta ao ombudsman da Folha. “Diante da prova técnica da falsidade do documento, solicito providências no sentido de que seja prestada informação clara e precisa acerca da “ficha” fraudulenta, nas mesmas condições editoriais de publicação da matéria por meio da qual ela foi amplamente divulgada, em 5 de abril de 2009″, escreveu Dilma.

Poderia ter ficado aí e resolvido definitivamente a questão. Mas o jornal insiste na mesma tolice do desmentido anterior:

Em reportagem publicada no dia 25 de abril, intitulada “Autenticidade de ficha de Dilma não é provada”, a Folha reconheceu ter cometido dois erros na reportagem original. O primeiro foi afirmar, na Primeira Página, que a origem da ficha era “o arquivo [do] Dops”. Na verdade, o jornal recebera a imagem por e-mail. O segundo foi tratar como verdadeira uma ficha cuja autenticidade não podia ser assegurada, bem como não podia ser descartada.

O jornal também publicou um Erramos com os mesmos esclarecimentos. A ministra se disse insatisfeita, questionou a nova reportagem e decidiu contratar um parecer técnico.

Ora, o que a Ministra questiona é a afirmação de de que autenticidade não pode ser descarta. É evidente que pode. Na carta remetida à Folha – que a Ministra encaminhou também para o Blog – há uma afirmação taxativa do responsável pelos arquivos do DOPS dizendo que o formato da ficha de Dilma não batia com as que eram utilizadas naquele período. Essa afirmação resolve a questão. Exibir laudos técnicos comprovando que a ficha foi feita digitalmente é mero preciosismo. Mas a Folha insiste.

Para a análise, os professores descartaram a imagem da ficha reproduzida pela Folha em sua edição impressa. Captaram na internet cinco imagens “com conteúdo similar ao utilizado pelo jornal Folha de S.Paulo”. Dentre elas, escolheram como “objeto do laudo” a imagem divulgada no blog do jornalista Luiz Carlos Azenha, que reproduz artigos que criticam o jornal e questionam a autenticidade da ficha.

O que o jornal quer insinuar para seus leitores? Que o Azenha falsificou a ficha. Tenha a santa paciência!

Para os peritos, a imagem do blog era a que tinha “a maior riqueza de detalhes”. Goldenstein disse à Folha que “todas as imagens são de uma mesma família” e que a qualidade da imagem publicada pelo jornal não é boa o suficiente para “análise nenhuma”.
Os professores compararam a imagem com documentos reais que supostamente teriam alguma semelhança (papel, caracteres) com a ficha questionada. Trata-se de cópias de fichas de presos pela ditadura, hoje abrigadas no Arquivo Público paulista. Escolheram as produzidas entre 1967 e 1969.
Contudo, no Erramos e na reportagem publicados no final de abril, a Folha havia explicado que a origem da ficha não era o Arquivo Público. A imagem não é datada -relaciona eventos ocorridos entre 1967 e 1969, mas pode ter sido produzida em data posterior.

Inacreditável! Evidente que a fonte não é o Arquivo Público, porque se trata de uma manipulação. Mas o original, se existisse, deveria estar no arquivo público. Se o diretor do Arquivo Público diz que não tinha esse tipo de ficha, está caracterizada a fraude. Em vez de ir até o Arquivo Público e tirar a dúvida, a resposta da Folha é que a ficha “pode ter sido produzida em data posterior”. Quem disse isso, o perito ou a Folha? E se há possibilidade desse modelo de ficha ter sido adotado posteriormente pelo DOPS, por que a Folha não foi atrás e comprovou?

Para concluir que a fotografia foi “recortada e colada”, os professores compararam a foto de Dilma com fotos que encontraram no mesmo arquivo. A ficha questionada não informa que a foto de Dilma foi obtida naquele arquivo.

Meu Deus! Os falsificadores apresentam a ficha como sendo do DOPS. O que é comprovação de falsificação – a ficha não existir no DOPS – a Folha usa para colocar em dúvida o laudo – não pegamos a ficha no DOPS.

Sobre a impressão digital contida na ficha, os peritos apontaram não ser possível nenhuma conclusão, devido à baixa qualidade da imagem.

Crimes negados

Ouvido pela Folha na última quinta-feira, Goldenstein disse que não leu o blog do jornalista em que captou a imagem analisada e tampouco a reportagem original da Folha. “Não estou criticando o que a Folha fez. Vou ser bem sincero, eu nem li a reportagem original da Folha. Não cabe a mim julgar absolutamente nada. Meu papel é analisar essas imagens digitais que estão circulando na internet. O que a ministra me pediu: “É possível verificar, é possível um laudo sobre a autenticidade/origem da imagem? É possível dizer se vieram ou não do Arquivo Público?”.”

Doutor em ciência da computação pela Universidade de Pennsylvania (EUA), ele diz que foi o primeiro laudo externo que produziu em sua carreira. A ficha questionada era uma das imagens que ilustrava a reportagem original cujo título foi: “Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto”.

Na carta à Folha, Dilma escreveu: “Reitero que jamais fui investigada, denunciada ou processada pelos atos mencionados nesse documento falso e de procedência inidônea, ao qual não se pode emprestar nenhuma credibilidade”.

A Folha tem procurado checar a autenticidade da ficha. Foram contatados três peritos de larga experiência na análise de documentos e um especialista em imagens digitais.

Todos disseram que teriam dificuldades em emitir um laudo, pois necessitavam do original da ficha, que nunca esteve em poder da reportagem. Disseram que a análise de uma imagem contida num e-mail não seria suficiente para identificar uma eventual fraude.

Como muitos pândegos escreveram na época, a partir dessa maluquice da Folha ficam aceitos todos os spams falsos, inclusive todas as falsificações se não se dispuser do documento original falsificado para comparar.

Do Bruno

Uai, se é falso, não existe o original.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Eleições, Mídia, Política Tags: , , ,

45 comentários para “Como (não) comprovar uma falsificação”

  1. Marcos P.B. disse:

    corrijindo .. é FALHA DE SP, o jonral que publica SPAM.

    Novo slogan: FALHA não dá pra ler.

    E aí … nnao vai rolar um processozinho por danos morais ou algo semelhante ? A ministra Dilma não pode deixar barato. Assim é muito fácil.

    A publicação desse SPAM grotesco não seria um crime contra a honra?

  2. Jorge disse:

    “A Folha tem procurado checar a autenticidade da ficha. Foram contatados três peritos de larga experiência na análise de documentos e um especialista em imagens digitais.”

    Os peritos da ministra tem nome e dá entrevisa. E os peritos da folha “de larga experiência” quem são? Tem nome? Tem experiência? É funcionário da Folha, com ‘larga experiência’? QUEM SÃO OS PERITOS DA FOLHA QUE, INDIRETAMENTE DESQUALIFICAM O LAUDO DA MINISTRA?

  3. Fr@ncisco disse:

    Que sopa, que nada, Rossi, Angeli, Ruy e Macaco Simão, que se cuidem ao pousarem na Barão de Limeira.

    Depois da inacreditável matéria de hoje, todo cuidado é pouco.

  4. L@!r M@r+3$ disse:

    Ah, Nassif! Tenha dó! Agora entendi a lógica da Folha: Dupla Negação! Acompanhe, por favor. O Azenha falsificou a ficha falsa, certo? Então! Bingo! Falsificar(Falso) = Verdadeira!!! huahuahua!!! Dãããã!!! O incrível é que muita gente não viu isso ainda! A Falha está certa!!!

  5. Plinio J. V. Lins disse:

    Isso me parece claro. A matéria da Folha deste domingo foi recomendada pelos advogados do jornal. Dilma já havia avisado que iria à Justiça. Deve ser um processo pesado contra o jornal, com provas irrefutáveis de má-fé. A matéria tenta amenizar a culpa da Folha e pretensamente funcionar como retratação. É só uma tentativa de atenuante do crime.

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