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25/06/2009 - 09:23

Lula, modernidade e atraso

Do Valor

A política tradicional e Lula, o pragmático

Maria Inês Nassif

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem grande senso prático, como registrou essa semana o presidente americano, Barack Obama. O excesso de pragmatismo, no entanto, incorporou como normalidade ceder (e muito) em negociações – públicas, legislativas – que incluem claros e notórios interesses privados e expor-se constante e publicamente para manter o status quo de setores e personagens ligadas à política tradicional. O senso prático do governo petista acabou resultando numa soma de movimentos contraditórios que em algum momento forçarão Lula a escolhas que tenta evitar.

O resultado dos programas de distribuição de renda foi a surpresa do primeiro mandato. A injeção de recursos em comunidades muito pobres, que tradicionalmente mantiveram as oligarquias regionais com seus votos, provocou uma mudança estrutural. Os ganhos de cidadania nessas regiões, em especial nas de fraca urbanização, minaram o poder da política tradicional. Está se formando uma geração de políticos apartada das lideranças locais e com forte apoio comunitário, ligada a partidos com maior preocupação social. Essa mudança começa a se delinear e se firma numa relação político-eleitoral da qual foi eliminada a mediação dos chefes políticos locais.

O movimento é outro na política institucional. O pragmatismo de Lula evita o confronto direto com os políticos de sua base de apoio. Assim, o mesmo presidente que viabiliza uma revitalização política nas regiões antes dominadas pela política tradicional, retirando o poder de intermediação do seus chefes, reinventa esses políticos quando eles são parceiros na política nacional. Uma vez acomodados na base de apoio parlamentar do governo, os políticos em declínio nas suas bases voltam a elas pelas mãos do presidente.

Cria-se, então, uma realidade em que a política eleitoral é desintermediada pelos programas sociais e enfraquece os chefes locais; eles, no entanto, voltam aos seus antigos redutos, se aliados do governo, como sócios da popularidade do presidente, e disputam os votos de Lula com as novas lideranças que apenas conseguiram espaço, no momento anterior, quando a política tradicional entrou em declínio.

O apoio explícito de Lula ao presidente do Senado, José Sarney, é parte desse pragmatismo político. Os programas sociais do governo são parte muito importante da economia do miserável Maranhão. A popularidade de Lula no Estado, em função disso, foi para as alturas, ao mesmo tempo em que a família Sarney, que domina a política regional há meio século, entrou em declínio político. Em 2006, Roseana Sarney (PMDB) perdeu as eleições para o oposicionista Jackson Lago (PDT) – retomou o poder recentemente não pelo voto, mas com a ajuda de uma Justiça que quase nunca falha para o grupo político, nem no Maranhão, nem no Amapá, o “puxadinho” oligárquico da família. Quando o brilho do patriarca José Sarney começou a se apagar nacionalmente, devido a sucessivos escândalos, o presidente passou a sustentá-lo. “Sarney tem história no Brasil suficiente para não ser tratado como se fosse uma pessoa comum”, afirmou Lula, perigosamente, separando o mundo entre aqueles que podem ser responsabilizados por seus erros e os que ganham o direito de não o serem. O presidente tratou da mesma forma perigosa as denúncias contra Sarney e os desmandos das direções do Senado como “coisas secundárias”.

Assim, o mesmo governo petista que balançou politicamente o grupo Sarney no Maranhão, quando desintermediou a relação da população pobre com a administração federal, permite que, num segundo momento, o mesmo grupo retome o controle sobre seus antigos redutos, oferecendo uma “sociedade” nos votos destinados a Lula devido aos programas sociais.

Outro exemplo é a relação de Lula com a bancada ruralista, que é muito forte no PMDB. O governo petista tem cedido reiteradamente à bancada. É um outro lado do pragmatismo presidencial. O governo que redefine estruturalmente o jogo de forças na base social, via programas de transferência de renda, jamais comprou uma briga com a grande propriedade. Independente dos vetos que Lula venha a fazer na MP da Grilagem, a desenvoltura com que agiu a bancada ruralista, no plenário da Câmara e do Senado, para impor alterações muito favoráveis ao agronegócio que prosperou em terras públicas da Amazônia Legal apenas encontrou espaço porque o governo manteve uma posição em regra omissa em relação à questão fundiária. As mudanças feitas na MP 458, no Congresso, teriam o poder de legalizar enormes propriedades como se fossem simples posses. De acordo com as alterações feitas, a ocupação de uma propriedade de 15 quilômetros de terras públicas, ou 1,5 mil hectares – o correspondente a 1.389 campos de futebol – seria enquadrável na definição que a lei dá à posse de terra, ou seja, o uso da terra pública por uma pessoa que vive da propriedade para prover a sua sobrevivência e de sua família – e portanto passível de legalização. Da mesma forma, a bancada incluiu na MP a possibilidade de legalização de terras de proprietários que não moram na região, tem mais de uma propriedade ou que mantiveram terras nas mãos de laranjas.

Nesses movimentos contraditórios, Lula tem o poder de dar uma contribuição à modernização da política brasileira com uma mão e tirar esses avanços com a outra. O resultado final disso será conhecido no final de seu segundo mandato, com grande risco de sair do governo sem ter alterado de forma substancial os arcaismos políticos que sobrevivem nos rincões do país. Na política não há milagres: não existem mudanças efetivas se o governante não correr alguns riscos.

Maria Inês Nassif é editora de Opinião. Escreve às quintas-feiras

Autor: luisnassif - Categoria(s): Política Tags: , , , ,

105 comentários para “Lula, modernidade e atraso”

  1. Túlio Carvalho disse:

    Houve dois vetos à MP da Amazônia.

    Concordo que dizer “Sarney não é pessoa comum” foi um deslize. Fernando Henrique disse de Dantas: “não o conheço, mas dizem que é genial.”

    Repercussões proporcionais à estatura histórica de cada um.

    Sobre o Irã, tá tudo na entrevista à Zero Hora. E tem também o Álvaro Uribe, na Colômbia, que deve ser reeleito. Ele pode. Chavez não pode. Por quê?

    Esta história do Sarney eu consegui ter uma luz finalmente: é uma demonstração de força da “opinião pública” (leia-se pig).

  2. Alexandre Leite disse:

    Curioso foi a Folha que publicou ontem uma matéria de capa anunciando que, segundo um ministro que deve ter “pedido para não se identificado” (desconfie sempre desse enunciado), Lula vetaria apenas o inciso 2 da MP 458. E com argumentos sólidos. Ele vetaria a venda para empresas, mas manteria os prepostos segundo Alencar pq “alguns posseiros não moram na área apesar de trabalhar nelas”.

    Ora, quem mora na vila mais próxima, mas trabalha na área não é preposto. Uma barriga e tanto. Este foi o argumento usado pelo presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB) no Roda Viva.

    Mas hoje ela orgulhosa afirma que antecipou corretamente o veto.

    ontem:
    “Um ministro diz que a exigência dos ambientalistas era regularizar apenas áreas de quem realmente morava na terra e não prepostos. Segundo esse auxiliar do presidente, que participou da reunião de ontem sobre a MP 458, muitos produtores rurais não vivem nas suas terras. Ou seja, o fato de não morar não significaria que o proprietário seja desmerecedor da posse regular da terra, argumenta esse ministro.”

    hoje:
    Veto do presidente ao artigo 7º, adiantado pela Folha, descontentou os ruralistas, mas foi considerado insuficiente por ecologistas.

  3. arkx disse:

    Alexandre Leite

    ->.”Que bobagem. o fato dele não ter a assessoria dos seus sonhos não significa que ele não a tenha. Lula não só tem uma ótima assessoria, como a lapidou ao longo do tempo.”"

    de fato, prezado!

    a assessoria de Lula foi lapidada ao extremo: Delúbio, Silvinho, Gushihen, Dirceu, Genoíno, João Cunha, Palocci..

    Lula não mediu esforços em cortar da própria carne, com todo cuidado, é claro, de poupar a si mesmo.

    do PT anterior a 2002, pouco restou. para preservar-se no poder, Lula destroçou o partido, traiu seus compromissos históricos e sacrificou a cúpula do partido.

    mais curioso, porém, foi como Lula se apoderou das políticas tradicionais do PSDB/Dem, a começar pela ortodoxia do BC, deixando a oposição conservadora sem bandeiras.

    com seu apoio a Sarney e a entrega da Amazônia aos grileiros, Lula deixar ruir os derradeiros vestígios de sua máscara. entretanto, para alguns prossegue animado o Baile da Ilha Fiscal…

    .

  4. Sr. Alexandre Leite:

    O senhor diz:
    “basta nos sentirmos incomodados com uma decisão para defendermos o rompimentos dos acordos e atacarmos o poder legislativo.
    A MP 458 é uma obra criada pelos representantes eleitos. Gostemos ou não. Um acordo com todos os partidos.”

    Eu não estou “incomodado”, meu senhor. Eu estou perplexo, ao ver como esses políticos se sentem tão poderosos a ponto de doarem uma parte significativa do território publico para grileiros. É um escândalo. Uma medida de tamanha envergadura só poderia ser tomada depois de um plebiscito e uma ampla discussão nacional.

    Talvez o senhor não esteja percebendo, mas a cada dia se abre um fosso maior entre o povo e esses “representantes eleitos”. Não precisa ninguem “atacar o poder legislativo”, porque ele ja esta caindo de podre. Esses partidos, que o senhor cita, não representam mais nada, são apenas agências de negócios e empregos. Houve sim um acordo, sr. Alexandre Leite, mas apenas entre eles, o pais não foi consultado. Ate os meus tataranetos foram lesados.

  5. José Nivaldo Gonçalves Filho disse:

    Vejo certos comentários de alguns internautas, que gostariam que as coisas fossem diferentes, para melhor evidentemente. Eaí criticam o presidente Lula, por não fazer isso, não fazer aquilo.
    Então deixo uma frase de Abrahan Lincoln: Para você que está chegando agora, criticando o que está feito, deveria estar aqui na hora de fazer. Não sejas um especialista em usar a crítica ao que está feito como pretexto para nada fazer. Assina, aquele que fez, quando no momento de fazer, não sabia-se como.

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