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23/06/2009 - 08:50

Escândalos de prateleira

Já escrevi algumas vezes sobre o modelo político-midiático brasileiro. Esse episódio do Senado vem apenas comprovar.

Tem-se um escândalo de 14 anos. Nesse período todo, o Senado foi coberto diariamente por jornalistas especializados dos principais jornais. Segundo o Estadão de hoje, os atos secretos beneficiaram 37 senadores, entre os quais o Pedro Simon, Demóstenes Torres, além de Renan, Sarney e companheiros, Delcídio e Augusto Botelho, do PT.

Esses episódios, além dos esquemas de terceirizações da casa (a propósito, investiguem como são as terceirizações em todos os grandes órgãos públicos federais e estaduais) são velhos conhecidos dos jornalistas.

Mas ficam pendentes, não são usados enquanto não têm utilidade. Quando interessa ao jogo político da mídia, vai-se na gôndola do Supermercado de Escândalos e saca-se aquele que melhor se adequa ao momento. Neste caso específico, o objetivo evidente não é o de moralizar a casa, caso contrário não teriam deixado passar em branco 14 anos de irregularidades: é desestabilizar politicamente o país.

Significa que Sarney deve ser poupado? Longe disso. Mas ele foi atacado pela Polícia Federal ligada a José Serra na Operação que flagrou os recursos de campanha de Roseana Sarney – porque interessava à candidatura  Serra. Depois, poupado do escândalo Cemar, porque na outra ponta os beneficiários eram grandes fundos de investimento. Foi inicialmente poupado no caso Gautama, porque naquele momento atirar nele não interessava a ninguém. Está sendo atacado de todas as formas agora, inclusive pelo caso Gautama, porque interessa à candidatura Serra.

Não interessa discutir mudanças radicais que eliminem de vez essas aberrações e essa falta de controle.Esses escândalos reiterados são a pulguinha no umbigo do fazendeiro (lembrando a história do médico que formou o filho graças à pulguinha que atormentava o fazendeiro, seu cliente e que, por isso mesmo, não poderia ser morta).

São características que fortalecem a mídia, que lhes dá poder. Essas aberrações institucionais permitem ao editor escolher o caso que quiser, escândalo grande, pequeno ou factóide, e dar-lhe o tratamento que desejar. E, como disse o diretor de redação do Estadão, a edição é um dos pressupostos da liberdade de imprensa.

Se submetida à mesma lente, por exemplo, não escaparia a Assembeia Legislativa de São Paulo, a Câmara de Vereadores, os serviços terceirizados. E, provavelmente, de nenhum outro estado. Mas são escândalos potenciais, que ficam na gôndola aguardando o momento que mais interessar ao jornal. Ou, como uma espada de Dâmocles sobre os governantes, tornando-os mais permeáveis, por exemplo, à venda de publicações pagas com as verbas da Educação – o novo grande veio descoberto pelos grandes grupos de mídia.

Evidentemente não tem santo nessa história. Mas, se tivesse que colocar alguma hierarquia, não incluiria os senadores no início da fila.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Mídia, Política Tags: , ,

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57 comentários para “Escândalos de prateleira”

  1. carlos roberto vieira disse:

    Por que vc só citou o PT. E não diz que Pedro Simon (PMDB), Demonstenes Torres (DEM)?
    Carlos

  2. WALDIR disse:

    Denuncismo só existe quando tem algo a ser denunciado e alguem que denuncie. Nesse caso como existem as duas pontas da noticia, teremos um longo período de denuncias de todos os tipos. As instituições democráticas existem e são necessárias, elas não cometem desvios, quem os comete são pessoas que podem e devem ser púnidas. Depois que a imprensa divulgou os “atos secretos”, (que diga-se de passagem deveríam sim serem divulgados), espanta-me a surpresa dos senadores ao desconhecerem os fatos que ocorreram dentro do senado. Se eles que são pagos pelo erário publico para fiscalizarem o executivo, não conseguem fiscalizar o próprio senado o que dirá de suas atribuições?
    Sempre vai existir uma ou duas denuncias desta ou dáquela instituição publica, a questão é que enquanto não houver punição para os culpados, os fatos se repetem. São bilhões de reais administrados só para a manutenção do senado, milhares de funcionários, uma estrutura maior que muitos municipios, e para quê? Para a sociedade discutir “atos secretos”?
    Os mais exaltados talvez pensem: “melhor fechar e botar tudo na cadeia”, e depois? Não é matando o boi que se livra dos carrapatos, tem que tratar o bicho, e limpar o lugar onde ele vive para não aconteçer de novo. Tem que se usar um remédio forte e eficaz. Quem vai julgar os atos dos senadores? O STF? E quem vai julgar os atos do STF?
    Que bom que ainda penso e por isso ainda existo.

  3. Ari disse:

    O cruel de tudo isso é que as instituições não são melhoradas, mas os produtos nas gôndolas são trocados ao longo do tempo por novos produtos, velhos com novas embalagens, tudo sem nenhuma lei do consumidor para regulamentar.

    Quero a lei do consumidor para os escândalos sem fim !

  4. tarcisio disse:

    Pessoal, se nem o mensalão antigiu o Lula não vair ser essa crise do senado que vai pegar.

    Podem ficam tranquilos daremos a Serra o que é de Serra no momento oportuno e não a 16 meses da eleição.

    O povão sabe que a malandragem impera desde o império ( ou da colônia), estão mais preocupados é com emprego, salário mínimo, bolsa família, saúde e educação… a vitória de Dilma é inexorável

  5. José Nivaldo Gonçalves Filho disse:

    Seria um bom momento para acabar-se com os cargos comissionados como forma de acesso aos cargos públicos. O comissionado é uma das grandes fontes de promiscuidade da coisa pública ao lado dos financiamentos de campanha eleitoral. Que aprofunde-se o concurso público e o mérito.

  6. Gustavo Garcia disse:

    Falou e disse! Nossa mídia é muito ruim mesmo.

  7. Edmar C. Lima disse:

    Faando sério: Pergunte a cada um dos Senadores quem vai tentar nova eleição em 2010. Verão que os falsos moralistas de hoje já sabem que não adianta ser candidato ano que vem. Assim, vamos posar de salvador do Parlamento.: Acabar comos verbas indenizatórias, as verbas de gabinete, os assessores fatasma (viu luciana), as passagens e jatinhos, etc. Não lhe farão falta pois em dezembro de 2010 voltarão em definivo pra casa (Deus permita!) e só os futuros parlamentares serão privados das beneses atuais. Cuidado com os arrependimentos tardios da turma do “tô indo embora” né Tasso? né Artur?

  8. nilo walter disse:

    Qual a credibilidade deste “cenado” (cenado,mesmo ), com raríssimas excessões para criar CPI ? Hoje estavam se defendendo do alto do Púlpito da Tribuna que é usada pró CULTO da PERSONALIDADE. Em suma parece que os únicos culpados foram os funcionários, que fizeram de tudo sem os “cenadores” saberem de nadinha . O engraçado é que certa mídia veio descobrir agora o que ocorre há décadas, me deixando desconfiadíssimo .

  9. O mais engraçado é que esses paladinos convivem com tudo isso há 200 anos e de repente sobem ao púlpito do senado, todos arrepiados, escandalizados, enojados com tanta corrupção, com uma cara de pau. E a midia cobre tudo como se estivesse mostrando um incêndio que acabou de acontecer, e as labaredas estão subindo às paredes e o JN mostra sempre os mesmos indignados de sempre: Arthur Virgilio, José Gripado Maia, Tasso Jereissate, Sergio Guerra, vestais cujo passado ilibado podem jogar pedras nos telhados de vidro dos vizinhos. Chega a ser comovente se não fosse cômico.

  10. Luiz Oliveira disse:

    É o PIG colocando na parede o Senado Federal….O recado é claro….Ou se curvam a nós, ou (como diria Bento Carneiro) “a vingança será maligna”…..E onde está a responsabilidade da grande imprensa ???…….Quem aguente mais o lixo da imprensa brasileira ???

  11. Stella disse:

    Grande imprensa chantagista, oportunista e hipócrita!

  12. João Piçarra disse:

    Perfeito Nassif!!!

    Indignação seletiva e escandalos de prateleira.

  13. Nassif: o Serra assinou pra todas as escolas as revistas Veja e IstoÈ e os jornais Folha e Estadão!!!!!! Pensei q vc falaria sobre isso no seu blog. Sei disso pois sou professor do estado.

  14. Eduardo disse:

    Padecemos de uma mídia covarde. Fosse um país sério teria uma manifestação nas ruas de toda população igual ao Iran. Não é para tanto, mas se tivesse um Anjos Rebeldes passando na televisão todo mundo pintava a cara.

  15. Gilson disse:

    “Evidentemente não tem santo nessa história. Mas, se tivesse que colocar alguma hierarquia, não incluiria os senadores no início da fila.”

    Não acredito no que estou lendo….

  16. Carlos Botelho Filho disse:

    Nassif

    O jornalismo de araque é um fenômeno mundial; lembrei de você ao ler essa reportagem no Rebéllion – trata da falta de credbilidade da mídia corporativa e a suposta fraude eleitoral no Irã. Abraço

    http://www.counterpunch.org/bratich06252009.html

  17. fernando disse:

    Rapaz vc é antipatico, ninguem te suporta, só fala de Sarney

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