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12/06/2009 - 09:39

Um discussão sobre a Universidade pública

Vamos pegar a deixa do João Vergílio e começar a discutir seriamente a USP. Colocarei algumas premissas, para tentar organizar um pouco a pauta.

Elemento 1 – a missão da Universidade.

Nos anos 90 houve grande discussão. De um lado, os que achavam que a Universidade deveria atender o mercado; do outro, os que consideravam que o único compromisso era com a ciência. E, para cumprir essa missão, o pesquisador deveria ficar solto, sem se amarrar a metas e avaliações.

Em um estudo clássico, o então reitor da UNICAMP, Britto Cruz, colocou a discussão nos devidos termos. O papel da Universidade é formar alunos e fazer ciência, prospectar as fronteiras do conhecimento. Aqueles alunos com vocação empreendedora, com tendência a desenvolver tecnologia, deveriam ser estimulados a montar sua empresa (as incubadoras), registrar suas patentes e ser colocado em contato com empresas. Escritórios de patentes foram criados na UNICAMP e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Uma das maiores asneiras propagadas nos anos 90 – especialmente pelo ex-Ministro Paulo Renato – é que os governos deveriam se preocupar apenas com o ensino básico, deixando Universidades para segundo plano. Cometeu um crime contra a educação, a ciência e a tecnologia nacionais.

Elemento 2 – os agentes da Universidade.

Definidos os fins (formar alunos e fazer ciência), há que se trabalhar os meios. Todas as análises de meio deverão ter como foco central os fins.

Os professores – Quem produz conhecimento e forma alunos são os professores. Eles devem trabalhar em um local que, numa ponta, forneça as melhores condições de trabalho. Na outra, modelos de avaliação que meçam sua produtividade e grau de excelência. Publicação de papers é um modo, mas não apenas isso. Geração de patentes é outro, mas não pode ser o foco. Análise do que aconteceu com seus ex-alunos, um terceiro indicador, mas não exclusivo. A reputação acadêmica do departamento, outro. A avaliação dos alunos e funcionários, outro.

Os alunos – são os receptadores do conhecimento transmitido pelos professores. Por isso mesmo, devem ser um agente ativo de avaliação dos mestres e das condições oferecidas pela Universidade. Tempos atrás, fui convidado para ser ombudsman de um jornal da ECA/USP, muito bem feito, por sinal. Havia reportagens acachapantes sobre as más condições de funcionamento da USP, falta de manutenção, restaurantes caindo aos pedaços etc. Obviamente, há limites para a atuação dos alunos. O caminho é a definição de fóruns adequados de manifestação mas, principalmente, de clareza sobre a busca permanente da excelência universitária.

Os funcionários – o papel dos funcionários é fornecer a retaguarda administrativa e de serviços para os professores. Sua estrutura, tamanho, custo deve seguir estritamente o que for necessário para o bom funcionamento da Universidade. Mas, em fóruns adequados, deve opinar sobre temas a que estão ligados, como as condições de trabalho, as sugestões para melhorias, os compromissos de melhorias contínuas.

A direção – há três instâncias de poder na Universidade: os departamentos, o Conselho Universitário e a Reitoria.

Vamos, primeiro, discutir o modelo de gestão na Universidade, antes de retomar essa questão da governança.

Elemento 3 – a governança na Universidade.

Gerir uma Universidade é tarefa muitíssimo mais complexa do que administrar uma grande corporação. Na empresa, há objetivos definidos (produzir, gerar lucros), cadeia de comando verticalizada (a ordem vem de cima e se impõe sobre os departamentos), e formas conhecidas de articulação dos departamentos. A lógica da Universidade é outra e exige um modelo de governança diferente.

Mas o que existe hoje em dia é o caos.

A primeira instância de poder são os departamentos.

Em geral, são caixas pretas. Alguns buscam a excelência, outros são arenas de disputas entre os professores. A politização começa por ali.
Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência, com a contratação de professores que tragam mais reputação para os departamentos. Em outros campos, a marmelada começa nos próprios concursos para professores, em um sistema de compadrio que compromete a missão da Universidade.

A indicação de acadêmicos para cargos departamentais é uma excrescência que impõe duas perdas: mata-se o acadêmico e cria-se um mau gestor.

Por outro lado, as regras do MEC – especialmente para as federais – não estimula nenhuma forma de aprimoramento de gestão. Se um departamento conseguir economizar em atividades-meio, não terá como utilizar os recursos para atividades-fim. No ano seguinte, esses recursos serão retirados por serem considerados excedentes.

A segunda instância é o Conselho Universitário.

A implantação de eleição direta nas Universidades gerou, em muitas delas, o populismo acadêmico, de atendimento das demandas de professores e funcionários, deixando de lado a busca da excelência. No fundo, me parece ser um arquipélago de ilhas isoladas, cada qual buscando apenas o que interessa a si.

A terceira instância é a reitoria.

Veja bem, estamos falando em um desafio que o melhor CEO do país teria dificuldades em conduzir. Definir missão, enquadrar os departamentos em objetivos claros, criar modelos gerenciais (para as atividades-meio) que desobriguem os professores de serem atropelados pelas pequenas demandas do dia-a-dia, criar instâncias para as manifestações dos alunos e funcionários, ser o representante do contribuinte perante a comunidade universitária, cumprindo contratos de gestão, com objetivos claros.
Longe de mim criticar a reitora Suely – que foi orientadora da Ruiva e de quem ela tem a melhor das impressões. Mas não há a menor lógica de colocar uma boa pesquisadora, uma mestra exemplar, uma acadêmica premiada para um desafio de tal ordem, que nada tem a ver com sua formação.

Sem fóruns adequados, sem canais de comunicação, funcionários se organizam em torno do Sindicato, alunos em torno das Assembléias – legitimando seu ativismo com a barbeiragem dos gestores.

Vou parando por aqui para começarmos o debate.

Temas sugeridos:

1. Modelo de governança.

No modelo atual – Universidade com autonomia total (inclusive sem a obrigação de prestar contas), departamentos com autonomia total, professores que, depois de empossados, não são obrigados a manter o ritmo anterior de produção – é impossível romper esse círculo vicioso.

Minha proposta é que as Universidades passem a ser administradas por gestores acadêmicos – não um CEO de empresa, mas pessoas do meio, com conhecimento sobre a lógica da Universidade e que saibam manejar ferramentas de gestão. Não se trata de gerir a Universidade como uma empresa privada, isso é bobagem. O gestor tem que entender todas as especificidades, as necessidades operacionais, as características da produção acadêmica e prover os meios necessários. Mas tem que responder ao contribuinte com resultados.

Dizer isso é fácil. Difícil é definir um modelo de governça que permita a discussão da missão, da implementação de planos por sobre a estrutura de poder interno.

2. Modelo de departamentos.

Na era da interdepartamentalidade, é necessário pensar um novo modelo que acabe com as caixas pretas dos departamentos. De certo modo, eles estratificam o poder, como as velhas cátedras, impedem a renovação, o dinamismo, as novas ideias, os novos valores.

3. Modelo de financiamento.

A USP está presa, há anos, à questão dos aposentados, comendo cada vez mais seu orçamento, sem que o governo do Estado se proponha a agir. As Federais estão amarradas a procedimentos burocráticos que impedem a busca da eficiência na alocação de recursos.

Há que se aproveitar o momento para amarrar a questão do financiamento a novas formas de gestão acadêmica.

É muita coisa a discutir. Lanço aí as primeiras provocações.

Autor: luisnassif - Categoria(s): Novo Modelo, Universidade Tags: , ,

65 comentários para “Um discussão sobre a Universidade pública”

  1. Luiz Alberto Vieira disse:

    Nassif,

    A mensuração da produtividade é algo bastante controverso, especialmente nas ciências sociais.
    Atualmente, a produção dos acadêmicos e dos departamentos é feita principalmente através da publicação dos papers.
    Como a distribuição de verbas públicas, através das avaliações da CAPES, é em grande medida dependente das publicações em periódicos, muitos departamentos tem se esforçado em elevar a quantidade de publicações.
    No entanto, grande parte dessas publicações não possuem relevância alguma e existe uma enorme diferença nas dificuldades de publicação.
    Nos departamentos de economia, tem ocorrido um corrida em direção à econometria em detrimento das pesquisas históricas, estas muito mais demoradas. Um econometristas com um bom banco de dados é capaz de reaplicar técnicas em moda nos EUA aos números brasileiros, os famosos “brazilian cases”, com grande velocidade e produtividade. Mas infelizmente, a maior parte desses trabalhos não leva em conta as condições instituicionais brasileiras e nem possuem algum verniz teórico.
    Na economia, os critérios da publicações tem levada à uma ditadura dos cabeças de planilha.
    Um caso interessantes foi o do IE-UFRJ, que para elevar a nota na Capes, decidiu que em sua pós apenas professores com publicação no exterior nos últimos anos dariam aulas. Mas esse critério excluía Fernando Cardim e Mario Possas, dois dos maiores economistas brasileiros. Felizmente, na UFRJ o bom senso venceu e o desistiram do absurdo critério, mas não é o que ocorre na maioria dos departamentos de economia do Brasil.

    Abraços,

    Luiz Alberto

  2. Marcio Gaspar disse:

    “Os professores – Quem produz conhecimento e forma alunos são os professores. Eles devem trabalhar em um local que, numa ponta, forneça as melhores condições de trabalho. Na outra, modelos de avaliação que meçam sua produtividade e grau de excelência. Publicação de papers é um modo, mas não apenas isso. Geração de patentes é outro, mas não pode ser o foco. Análise do que aconteceu com seus ex-alunos, um terceiro indicador, mas não exclusivo. A reputação acadêmica do departamento, outro. A avaliação dos alunos e funcionários, outro.”

    Ou o professor daa aula ou faz pesquisa. Fazer pesquisa e ainda ter que elaborar aula, orientar trabalhos de graduacao, mestrado e doutorado. Isso ira acabar por relegar o ensino da graduacao, pois o professor estaraa mais interessado em sua pesquisa, ja que tera que apresentar produtividade, palavra muito usada no mundo corporativo. Ja ouvi de muitos professores queixas sobre esta produtividade que a universidade cobra dos professores, aonde nao ee possivel elaborar uma boa aula.

  3. Anarquista Lúcida disse:

    Nassif, além da gravidade dessa sua divisao entre Exatas e Humanas, e do preconceito contra as Humanas — o que aliás mostra bem o que aconteceria numa possível gestao “profissional” das Universidades — o que você diz sobre a estrutura da Universidade está errado, pelo menos em relação às federais, e às estaduais do Rio de Janeiro, em que trabalhei. Chefia de Departamento nao tem poder nenhum, só aborrecimento. E há vários tipos de órgaos intermediários, tanto executivos quanto “legislativos”, entre o Departamento e o Conselho Universitário/Reitoria. As regras de eleição para os conselhos superiores (nao há só o Universitário, há tb o de Ensino e Pesquisa, e outros, conforme a Universidade) sao complexas: entre os membros docentes, há membros por categoria e por unidade, no mínimo; nao sei como sao decididos os representantes dos funcionários e dos docentes (que sao pouquíssimos em relação aos dos docentes; na maioria das universidades, os diretores de unidade e de centros têm cadeira cativa nos Conselhos, o que envieza a representação). E que preconceito contra eleição direta, hem? E o país? Tb deve ser governado por “gestores profissionais”?

    Quanto ao Joao Vergílio, é engraçadíssimo (para nao dizer triste…) ele dizer que há uma discussão a respeito na Faculdade dele, mas que 80% das pessoas que falam têm opiniões parecidas, o que cria uma “falsa” impressão de hegemonia. Interessante! Só seria verdadeira essa impressão se as posições coincidissem com as dele?

    Muito importantes sao as questoes levantadas pela Ana Dias. Ao contrário de nao haver avaliação de produtividade nas universidades, há sim, mas uma avaliação idiota, quantitativista e/ou com critérios qualitativos deslocados (seria o caso, mutatis mutandis, daquilo que Paulo Freire chamava de educação bancária). É exatamente a lógica dessa avaliação (a da cenoura e do bastao) que deturpa tudo, fazendo com que o ensino de graduação seja a última prioridade da maioria dos professores, porque nao rende nada em termos de avaliação. Até a orientação de teses de mestrado e doutorado, que dá um trabalho danado, acaba de ser “downgradada” na última mudança de critérios de avaliação da minha Universidade. E a orientação de monografias de graduação e de especialização passou a nao valer nada.
    No caso de uma Faculdade de Letras, e outras de “Humanas”, isso é particularmente grave, porque leva ao desprezo daquilo que seria mais importante para formar futuros professores, em proveito de conteúdos melhores para “render papers”.

  4. Rogério do Nascimento disse:

    Caro Nassif,
    Grande discussão esta aberta, a questão da universidade pública. Difícil não corroborar com pelo menos uma parte das opiniões, colocadas pelos leitores; em quase todas há um pouco de verdade e sonho de uma educação de qualidade no país.
    No entanto, deixo apenas algo aqui para que seja pensando. Muito se falou em USP, UNICAMP, etc. Mais no interior do país há universidades públicas onde pesquisa e desenvolvimento são feitos, e muitas vezes sem o apoio recebido pelas grandes dos órgãos financiadores da pesquisa no país. Vale, ao menos por um momento, refletir sobre nossos jovens que na busca do conhecimento ingressam nestas universidades, seja na gradução, no mestrado ou no doutorado.

  5. André disse:

    Nassif, concordo com muitas das suas colocações, e principalmente sua capacidade de síntese de vários problemas da universidade, em destaque o lance dos departamentos.
    Discordo quando você fala que o problema de contratação de “compadres” está nas Humanas, pois na verdade está em todas áreas, pelo menos é o que vejo na Unicamp e em outras universidades.
    Falta também a discussão ética das fundações e das pesquisas voltadas para o mercado, que representam uma parcela cada vez maior das pesquisas nas públicas…

  6. Laud Roces disse:

    Vi que um dos comentários reproduziu um outro erro – dentre as dezenas – sobre o ensino e a pesquisa Unvesitária: a de que a Universidade é para todos”. Não, ela É DE TODOS, mas não é para todos estarem em Universidades como a Unicamp ou USP.
    Esse erro é cometido correntemente no Brasil e é fruto de um sistema social baseado na crença de que a ascenção social só é possível através da graduação na Univerisade pública. É assim que pensam milhoes de pais ao pagar o ensino médio aos seus filhos. É assim que pensam muitos “gestores” que lêm este blog do Nassif. É assim que pensam muitos moradores da USP_LESTE, que imaginam que os cursos lá oferecidos são pra a demanda local, etc.
    Pensar assim é errado, é ficar a mercê de uma pressão por vaga e por mais cursos que nda ajuda as pesquisas.
    A sociedade deve exigir que se ensine nas escolas vias altermativas de ascenção social que não coloquem como obrigatoriedade um curso numa USP ou UNICAMP. Deve-se incentivar o setor privado a oferecer qualidade e não só quantidade.
    A sociedade deve valorizar as pesquisas feitas na Universidade e utilizá-las. Não ver a Universidade Pública apenas pelos seus diplomas. Devemos formar empreendedores, valorizar os cursos técnicos e uma série de outros recursos para que não se onere socialmente a universidade pública da forma como se está fazendo!
    Nassif e demais “gestores”, outra questão pertinente é a dos Hospitais Universitários. Eles representam um gasto enorme para a Unviversidade. Eles serviços relevantes à população, que, de outra forma, ficariam sem atendimentos básicos, como aqui em Campinas. No entanto, ao criticar o valor gasto pelo Estado para formar um aluno (crítica clássica), computam o dinheiro destinado aos hospitais Universitários e o valor vai lá pras alturas.

  7. Wu Ming disse:

    1. “Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência, com a contratação de professores que tragam mais reputação para os departamentos.”

    Não são os professores que trazem reputação aos departamentos de exatas. São os departamentos de exatas “da USP” que dão reputação aos professores.
    Ser professor da USP em departamentos de profissões liberais é o melhor cartão de visitas que eles podem ter.
    É por isso, aliás, que esses professores nunca estão nas greves. Pra que? Eles ganham rios de dinheiro na iniciativa privada e ainda podem posar de bacanas com seus cartões de visita uspianos! O salário da USP para eles é o dinheiro da pinga…

    2. Enviado por: hugo
    “Aqueles alunos com vocação empreendedora, com tendência a desenvolver tecnologia, deveriam ser estimulados a montar sua empresa (as incubadoras), registrar suas patentes e ser colocado em contato com empresas.”
    Ok, e as empresas vão pagar royalties a USP pelo desenvolvimetno e pesquisa?Ou vai continuar a patifaria da univesrersidade gastar tempo e dinheiro em pesquisa e desnvolvimento para entregar o “produto” pronto para as empresas apenas conabilizarem os lucros?

    Nassif:
    Na Unicamp e na UFMG a universidade participa. De qualquer modo, é um ganho para o país.”

    Qua, qua, qua… Depois vc fica bravo porque virou verbete do Diccionário de Bolso do Almanaque Philosophico Zero à Esquerda…

  8. nassif:
    o documento da unesco de que falei acima :
    “tendências da educação superior para o século XXI”
    (anais da conferência mundial sobre o ensino superior,paris,5 a 9 de outubro
    de 1998).
    o calhamaço, com 720 páginas ,foi editado no brasil pela unesco/crub,com o apoio da capes.
    romério

  9. Formiga disse:

    O MEC está propondo a criação de gestores nas IFES para substituir, em parte, o papel da fundações. Estes gestores seriam responsáveis pela administração dos convênios e projetos das universidades. Talves seja uma porta para a profissionalização dos gestores locais. Acho difícil mudar a figura do Chefes de Unidades, Reitores e Pro-Reitores dos professores (eles equivaleriam a cargos de ministros que ditariam diretrizes gerais). Porém a parte executiva poderia passar para os administradores, inclusive as coordenações de cursos, tanto de graduação quanto de pós. Uma vez que demanda um tempo muito grande que poderia ser gasto com atividades fins.

    O problema hoje da IFES está nos salários. O dos professores melhorou, e também está-se exigindo mais, o que é bom, porém o nível de exigencia poderia ser maior. Já os técnicos-administrativos têm um dos salários mais baixos da administração federal (Engenheiro novo ganha em torno de R$ 1500,00, o mercado paga R$ 4000,00). E não tem segredo só teremos bons servidores com bons salários, pois caso contrário eles irão prestar outro concurso de outra carreira mais promi$$ora.

  10. Carlos Morais disse:

    Caro Nassif:

    A respeito deste trecho de seu texto: “Diria que nas Exatas há maior compromisso com a busca de excelência, com a contratação de professores que tragam mais reputação para os departamentos. Em outros campos, a marmelada começa nos próprios concursos para professores, em um sistema de compadrio que compromete a missão da Universidade”, informo que, nos próximos dias, lhe encaminharei relato detalhado do que aconteceu no recente concurso para Professor Adjunto de Literatura Portuguesa da UNIFESP (Campus de Guarulhos).
    Deixo aqui apenas uma pitada: docente universitário há 10 anos, docente em programa de mestrado há três, com um número razoável de publicações, orientações e participações em bancas de doutorado, mestrado e lato sensu, fui eliminado na primeira rodada do exame (a prova escrita), sendo que uma das selecionadas para o cargo nunca foi professora universitária, tem apenas experiência como professora de cursinho e ensino médio, baixíssima produção em termos de publicação, nenhuma em orientação.
    Logo lhe escreverei contando o milagre por inteiro… e os nomes e sobrenomes dos santos também, incluindo os que são professores da USP ou se formaram lá (o que foi meu caso também).
    Um abraço,

    Carlos

  11. Leandro disse:

    Ao Hugo e ao Eduardo Gigante:

    Colegas, na verdade o que temos na UNICAMP e UFMG, em relação à gestão da propriedade intelectual e transferência de tecnologia é a instituição de um NIT, para coordenar tais procedimentos.
    O que vem a ser isto? Núcleo de Inovação Tecnológica, estabelecido pela Lei da Inovação (art. 16, da Lei 10.973/04).
    Embora estas universidades já tivessem tradição nessa área, somente com o novo marco legal da inovação os NIT’s adquiriram a estrutura atual.
    E o mais animador é que várias instituições públicas de pesquisa e ensino (ICT’s, nos termos da Lei) implantaram o mesmo formato. A rede já é vasta em todo país, com destaque para o sudeste e o sul. E várias instituições privadas tem seguido o mesmo modelo, como exemplo posso citar a PUC/RS, referência nacional.
    Sendo assim, posso lhes assegurar que no atual contexto, na maior parte das universidades públicas não existe mais transferência de tecnologia sem contrapartida à instituição, nem tampouco descuido em relação à proteção intelectual.
    Ainda existem falhas, resistências de departamentos, de próprios pesquisadores, mas o cenário é positivo.
    Trabalho em um NIT, e se quiserem, posso fornecer mais detalhes, pois acho o tema apaixonante!
    Saudações!

  12. eufrasio disse:

    É uma tristeza ver o quanto se desperdiça de tempo na USP.
    Os caras tão discutindo relação…. Putz grila…

  13. Fabiano disse:

    Leigo nestes temas, mas profundamente consternado pelo espetáculo no campus da USP, que tem a virtude de fazer aflorar as contradições do modelo educacional brasileiro, registro minha surpresa em ler análise do nível de Edmar Roberto Prandini.

    Falhas na propositura dos temas, bem assinaladas por um professor por aí acima, não importa, trata-se de levar a experiência do blog aos seus limites.

    De resto, uma direção de direita (embora discreta, nem tanto) não vai prevalecer, mérito do formato do blog (reconheça-se a abertura, pontilhada, aqui e ali, por rasgos ditatoriais).

    Que volte Prandini, desenvolvendo o que esboçou.

    fabiano

  14. Heron disse:

    rogerio nacai, Lima e rita,
    Suponhamos que já fossem professores doutores orientadores de algum programa de mestrado/doutorado. Supostamente, seriam especialistas em alguma linha de pesquisa. Não conheço doutores especialistas no universo do conhecimento.
    Vocês orientariam alguém em uma linha de pesquisa na qual não são especialistas ?
    Não seria um CEGO guiando outro CEGO ?
    Como orientandos, o que achariam de um orientador que não é especialista no assunto no qual irão pesquisar ?
    Pq será que já temos algumas gerações de doutores formados e hoje orientadores e estes insistem em formar mestres e doutores nas áreas em que são especialistas ? Isso não é normal ?
    Sugestão a vocês:
    1. Ao decidir ingressar em uma pós-graduação, pesquisem pontenciais orientadores nas universidades em todo o Brasil (dependendo da área, talvez no exterior);
    2. Leia um pouco sobre os trabalhos de possíveis orientadores. Entre em contato com eles e fale sobre seu interesse em sua linha de pesquisa.
    3. Se necessário, e caso seja na sua mesma cidade, procure integrar-se ao grupo de pesquisa antes de submeter-se ao ingresso no programa.

    Certamente, com isso, suas chances seriam maiores. Especialmente em um doutorado.

  15. Waldyr Kopezky disse:

    Caro Nassif,

    Talvez uma pequena digressão sobre a USP ajude:

    De como as coisas nascem tortas, mas ficam direitas: a USP foi criada em 1934, na junção de várias faculdades paulistas. Até aí, nada demais – ela nasceu do conceito latino-americano de “universidade”, que é um conjunto de escolas, institutos e faculdades autônomas, cada um deles responsável por uma área do conhecimento – ela sendo gerada a partir de seu “embrião”, a FFCL (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras). Mas as verdadeiras razões de seu nascimento poucos sabem: a USP nasceu fruto do desejo da então elite paulista (os “Barões do Café”) de construir uma instituição de ensino superior com nível internacional, para que seus filhos não precisassem mais atravessar o oceano para estudar na Europa (eles haviam sido grandemente afetados pela crise de 1929, e já não possuíam mais os recursos frutos da exportação de uma commoditie valorizada). Só por isso.
    Por pressão desta elite, o governo do estado de SP assumiu a tarefa, trazendo da Europa várias missões de professores estrangeiros (principalmente franceses, italianos e alemães), que vieram dar aulas na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, cuja posterior divisão gerou boa parte das faculdades e institutos da Universidade.
    Incrivelmente, o que nasceu torto (voltado para as elites, que sabiam que conhecimento é poder) acabou por se endireitar com o tempo, tornando esta instituição pública uma potência, acessível a todas as classes. Senão, vejamos: é a universidade com o maior número de vagas de graduação e de pós-graduação no Brasil, sendo responsável também pela formação do maior número de mestres e doutores do mundo, bem como responsável por metade de toda a produção científica do estado de São Paulo e mais de 25% da brasileira. Como o Brasil é responsável por cerca de 2% da produção mundial, pode-se dizer que a USP é responsável por 0,5% das pesquisas do mundo.
    Da Wiki:
    “…Em 2008, foi classificada pela revista The Times”(The Times Higher Education Supplement) como a melhor universidade da América Latina e a 196ª do mundo…No Brasil, a USP tem assumido sistematicamente esse papel de destaque, atuando na criação de infra-estrutura científica e tecnológica e na formação da elite intelectual do país. A contribuição da USP para a história brasileira é evidente mesmo nos detalhes mais superficiais: mais de uma dezena de presidentes brasileiros se formaram na universidade,…que também formou 53 ministros na história do Supremo Tribunal Federal e cuja fundação precede em 108 anos a da própria Universidade….”.
    Agora, um pensamento: Por que o interesse em “matar” a USP, alijando-a de seu potencial humano (que é, afinal de contas, o seu maior patrimônio)? Porque informação e conhecimento são Poder (assim com maiúsculas). Matando a principal instituição de ensino do País, só poderão ter acesso a eles os filhos da elite, que terão condição de voltar a estudar no exterior, fazendo com que esta elite se perpetue pela mediocridade. Porque o dinheiro eles já recuperaram…Faltam apenas as posições na sociedade, perdidas para mentes mais brilhantes e menos favorecidas na escala social.

  16. Martins disse:

    Vale a pena lembrar que uma das grandes lutas do movimento estudantil de 1968 (com forte base na USP) era combater o famigerado acordo MEC USAID.
    Este acordo tinha como objetivo tirar de nossas Universidades o seu caráter de pesquisa transformando-a, em somente, reprodutora do conhecimento ( na época e até hoje em grande parte trazida do EUA).
    A Ditadura Militar mancumunada com os altos investimentos dos EUA no Brasil tratou de reprimir, prender e assassinar estudante que participavam das passeatas.
    A necessidade de transformar nosso ensino em mero reprodutor de conhecimento e formador de técnicos para atender as Industrias nascentes (principalmente a automobilistica) era revoltante.

    A USP como a principal Universidade do Pais, atraves de alunos e professores faziam barricadas de resistencia.
    A Ditadura Militar,usando a força das baionetas conseguiu calar esse movimento, venceu o acordo Mec Usaid.

    Encontrando um aluno de Economia da USP perguntei a ele se sabia o que eram os Juros e ele me respondeu:
    -é a remuneração justa do Capital.

    aí eu me calei e me convenci que o acordo MEC USAID venceu e vinga até hoje- A econometrização das Ciências Economicas foi feita.

  17. Mario Abramo disse:

    Caro Nassif,
    Tenho acompanhado com muito interesse este post. Aliás, parabéns pela excelente colocação inicial, embora eu discorde de pelo menos uns 70% ;-)
    Mas tou sentindo falta de uma coisa. Muito se falou da carreira do professor universitário, dos centros tecnológicos, da produção de conhecimento etc. e coisa e tal. Existe uma função (para mim, uma das mais sociais e importantes) precípua da Universidade que é a de formar professores para o ensino básico. São eles que irão dar o letramento científico (e aqui eu uso ciência em seu sentido mais amplo, não apenas nas exatas e biológicas, mas principalmente nas humanas) para os próximos alunos do ensino superior e para aqueles que ingressam de forma técnica no mercado de trabalho.
    Esta formação de professores vem sendo, há muito tempo, deteriorada. Bem antes do Paulo Renato, embora este tenha prestado um auxílio luxuoso para a deterioração, com a abertura das Uniesquinas e faculdades de pedagogia de fim de semana.
    Agora existe uma proposta da UNIVEST de “formar” professores em EaD. Eu não tenho nada contra EaD. Não vejo problema em formar engenheiros, nem economistas, nem cientistas de computação por meio de EaD. Mas professores ou médicos?
    Um professor não pode ser um “despejador de conteúdo”. Ainda mais quando existe uma tendência de privilegiar competências e habilidades. É necessária uma prática didática que só se conseguem em ambientes reais, interagindo com alunos reais.
    Abraços
    Mario Abramo
    PS: A Ruiva com certeza tem razão quanto à competência acadêmica da Suely. Já a Rainha tem uma visão da competência administrativa da Suely completamente oposta.

  18. fanon disse:

    Caro Nassif:
    Voce diz: “Na Unicamp e na UFMG a universidade participa. De qualquer modo, é um ganho para o país”.

    Já estamos cansados de ver discursos e “raciocínios” que insistem em chegar a maravilhosa conclusão de “QUEM GANHA É O PAÍS”.

    Só neste exemplo da educação, veja:

    Escola Pública > Universidade Pública = deve ser da e para a “sociedade” (aqui já cabe perguntar, quem da sociedade? A maioria – trabalhadores e pobres, “todos” indefinidamente, ou os de sempre, a minoria?)

    Vagas na universidade pública = o que existe hoje não faz nem cócegas na demanda da maioria da população, dos jovens, etc, que estão 85% pagando caro nas particulares (caça-níqueis), inclusive com Pró-uni, que ajuda à “todos” (300 mil vagas nas particulares) mas na verdade dá um dinheiro enorme para as privadas que daria para aumentar em 1 milhão o número de vagas nas públicas!!!.

    O que é ensinado na Universidade Pública: O que vem sendo ensinado na universidade pública no Brasil, pode citar “a melhor” ou “a mais eficiente”, tem cumprido qual papel? Está a seviço de quem? Tem transformado, ajudado, resgatado, criado, uma “sociedade” melhor? A universidade pública tem servido ao povo brasileiro? Ou ela tem ajudado a “todos” (leia-se a uma minoria)?

    Estamos cansados de ver expressões do tipo “Isso vai ser bom para o ‘país’”, “Aquilo é bom pra ’sociedade como um todo’”, “Este projeto, esta obra, esta reforma, etc, vai ser bom pro ‘Brasil”, etc, etc….

    E o que vemos? Que é bom para “todos” uma ova, que é bom para o ‘Brasil” uma ova. è bom pra minoria de sempre, os ricos, “da elite”, etc.

    Em todos estes discursos, é só voce substituir as palavras:
    “Brasil”, “todos”, “sociedade como um todo”,
    por:
    Ricos, Burguesia, ou minoria de sempre, privilegiados, “elite”, empresários, banqueiros, indústriais, etc, que daí sim dará o sentido correto de tudo que é feito e planejado pelo “nosso” Estado brasileiro.

    Pois seria ridículo discurirmos, ou acreditarmos, que algo feito, planejado, ou administrado pelo Estado está errado, ou que não serve à toda população etc, sem antes termos claro a quem serve este ESTADO, quais os atores hegemônicos deste mesmo ESTADO, que detém de fato o poder e controle do Estado.
    Esta discussão tem que ser feita, senão fica parecendo que o Estado é algo transcendente, acima das classes socais, imparcial, sem controle e sem interesses.
    O ESTADO brasileiro está na mão de quem? Então, sendo assim, obviamente servirá a esta minoria, à “elite” (empresários, banqueiros, agronegócio, etc).

    Discutirmos os projetos de educação pública, de universidade, os planejamentos ou obras do estado (desde a Sudene, Sudam, Avança Brasil, PAC, etc) xingarmos, criticarmos, só estaríamos nos atendo aos instrumentos utilizados pelo Estado, mas não o cerne da questão: quem manda no Estado?
    Pois se considerarmos (lembrarmos!) na mão de quem está o Estado, de quem realmente manda nesse país, aí sim poderemos discuitir em melhores condições certas coisas. Por exemplo, chegaríamos a conclusão de que muitos (pra não falar todos) dos planejamentos e obras feitas pelo estado brasileiro, não deram “errado” ou foram “ruins” como muita gente (eu mesmo) fala. Em vista do real interresse por trás do estado, era isso mesmo que esperavam (aqueles que mandam nas coisas). O planejamneto (e administarção do estado) é apenas o instrumento pelo qual a classe dominante (do estado, da política, das leis, etc) mantém seu poder, riqueza, seu estatus ‘quo’.
    Achar que o Estado vai (ou iria) fazer um projeto, um plano, um investimento, para ajudar a maioria do povo brasileiro, é de uma inocência repugnante para um “intelectual” minimamente instruído. Ou é achar que a burguesia é trouxa, que ela vai deixar, debaixo da sua barba, acontecer do Estado ajudar os pobres, os trabalhadores, enfim, dar educação boa e gratuita, terra, trabalho, a maioria do povo brasileiro. Mas num vai mesmo.

    Se não for os “de baixo”, os trabalhadores(as), o povo pobre, sem terra, sem escola, etc, que lutarmos para conseguirmos as coisas, não vai ser meia dúzia de especialistas, intelectuais, jornalistas, professores cátedras, ou políticos de plantão, que irão convencer ‘os verdadeiros mandantes no país” a abrir a mão e dar algo.
    O Bolsa Família do Lula é o máximo que conseguem dar!!! Até o Bush gastava mais com assistencialismo, e ninguém lá era louco de falar que isso era uma política de “esquerda”, como já ouvi aqui sobre o Bolsa família.

    Nassif, “De qualquer modo, é um ganho para o país” já está batido.

    Abraço aos lutadores, até.

  19. rita disse:

    para Heron:
    eu não sei… mas a minha profesora fazia justamente o que voce condena..

  20. Uiran Gebara da Silva disse:

    Uma contribuição muito importante de Maurício Tratemberg para uma discussão como esta.

    http://www.espacoacademico.com.br/014/14mtrag1990.htm

    A Delinqüência Acadêmica*

    Maurício Tragtenberg

    O tema é amplo: a relação entre a dominação e o saber, a relação entre o intelectual e a universidade como instituição dominante ligada à dominação, a universidade antipovo.

    A universidade está em crise. Isto ocorre porque a sociedade está em crise; através da crise da universidade é que os jovens funcionam detectando as contradições profundas do social, refletidas na universidade. A universidade não é algo tão essencial como a linguagem; ela é simplesmente uma instituição dominante ligada à dominação. Não é uma instituição neutra; é uma instituição de classe, onde as contradições de classe aparecem. Para obscurecer esses fatores ela desenvolve uma ideologia do saber neutro, científico, a neutralidade cultural e o mito de um saber “objetivo”, acima das contradições sociais.

    No século passado, período do capitalismo liberal, ela procurava formar um tipo de “homem” que se caracterizava por um comportamento autônomo, exigido por suas funções sociais: era a universidade liberal humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma a mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito forma os aplicadores da legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de um doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for.

    Na instância das faculdades de educação, forma-se o planejador tecnocrata a quem importa discutir os meios sem discutir os fins da educação, confeccionar reformas estruturais que na realidade são verdadeiras “restaurações”. Formando o professor-policial, aquele que supervaloriza o sistema de exames, a avaliação rígida do aluno, o conformismo ante o saber professoral. A pretensa criação do conhecimento é substituída pelo controle sobre o parco conhecimento produzido pelas nossas universidades, o controle do meio transforma-se em fim, e o “campus” universitário cada vez mais parece um universo concentracionário que reúne aqueles que se originam da classe alta e média, enquanto professores, e os alunos da mesma extração social, como “herdeiros” potenciais do poder através de um saber minguado, atestado por um diploma.

    A universidade classista se mantém através do poder exercido pela seleção dos estudantes e pelos mecanismos de nomeação de professores. Na universidade mandarinal do século passado o professor cumpria a função de “cão de guarda” do sistema: produtor e reprodutor da ideologia dominante, chefe de disciplina do estudante. Cabia à sua função professoral, acima de tudo, inculcar as normas de passividade, subserviência e docilidade, através da repressão pedagógica, formando a mão-de-obra para um sistema fundado na desigualdade social, a qual acreditava legitimar-se através da desigualdade de rendimento escolar; enfim, onde a escola “escolhia” pedagogicamente os “escolhidos” socialmente.

    A transformação do professor de “cão de guarda” em “cão pastor” acompanha a passagem da universidade pretensamente humanista e mandarinesca à universidade tecnocrática, onde os critérios lucrativos da empresa privada, funcionarão para a formação das fornadas de “colarinhos brancos” rumo às usinas, escritórios e dependências ministeriais. É o mito da assessoria, do posto público, que mobiliza o diplomado universitário.

    A universidade dominante reproduz-se mesmo através dos “cursos críticos”, em que o juízo professoral aparece hegemônico ante os dominados: os estudantes. Isso se realiza através de um processo que chamarei de “contaminação”. O curso catedrático e dogmático transforma-se num curso magisterial e crítico; a crítica ideológica é feita nos chamados “cursos críticos”, que desempenham a função de um tranqüilizante no meio universitário. Essa apropriação da crítica pelo mandarinato universitário, mantido o sistema de exames, a conformidade ao programa e o controle da docilidade do estudante como alvos básicos, constitui-se numa farsa, numa fábrica de boa consciência e delinqüência acadêmica, daqueles que trocam o poder da razão pela razão do poder. Por isso é necessário realizar a crítica da crítica-crítica, destruir a apropriação da crítica pelo mandarinato acadêmico. Watson demonstrou como, nas ciências humanas, as pesquisas em química molecular estão impregnadas de ideologia. Não se trata de discutir a apropriação burguesa do saber ou não-burguesa do saber, mas sim a destruição do “saber institucionalizado”, do “saber burocratizado” como único “legítimo”. A apropriação universitária (atual) do conhecimento é a concepção capitalista de saber, onde ele se constitui em capital e toma a forma nos hábitos universitários.

    A universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante não apenas pela ideologia que transmite, mas pelos servos que ela forma. Esse modo de produção determina o tipo de formação através das transformações introduzidas na escola, que coloca em relação mestres e estudantes. O mestre possui um saber inacabado e o aluno uma ignorância transitória, não há saber absoluto nem ignorância absoluta. A relação de saber não institui a diferença entre aluno e professor, a separação entre aluno e professor opera-se através de uma relação de poder simbolizada pelo sistema de exames – “esse batismo burocrático do saber”. O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui a empresa em relação ao futuro empregado. Informalmente, docilmente, ela “exclui” o candidato. Para o professor, há o currículo visível, publicações, conferências, traduções e atividade didática, e há o currículo invisível – esse de posse da chamada “informação” que possui espaço na universidade, onde o destino está em aberto e tudo é possível acontecer. É através da nomeação, da cooptação dos mais conformistas (nem sempre os mais produtivos) que a burocracia universitária reproduz o canil de professores. Os valores de submissão e conformismo, a cada instante exibidos pelos comportamentos dos professores, já constituem um sistema ideológico. Mas, em que consiste a delinqüência acadêmica?

    A “delinqüência acadêmica” aparece em nossa época longe de seguir os ditames de Kant: “Ouse conhecer.” Se os estudantes procuram conhecer os espíritos audazes de nossa época é fora da universidade que irão encontrá-los. A bem da verdade, raramente a audácia caracterizou a profissão acadêmica. Os filósofos da revolução francesa se autodenominavam de “intelectuais” e não de “acadêmicos”. Isso ocorria porque a universidade mostrara-se hostil ao pensamento crítico avançado. Pela mesma razão, o projeto de Jefferson para a Universidade de Virgínia, concebida para produção de um pensamento independente da Igreja e do Estado (de caráter crítico), fora substituído por uma “universidade que mascarava a usurpação e monopólio da riqueza, do poder”. Isso levou os estudantes da época a realizarem programas extracurriculares, onde Emerson fazia-se ouvir, já que o obscurantismo da época impedia a entrada nos prédios universitários, pois contrariavam a Igreja, o Estado e as grandes “corporações”, a que alguns intelectuais cooptados pretendem que tenham uma “alma”. [1]

    Em nome do “atendimento à comunidade”, “serviço público”, a universidade tende cada vez mais à adaptação indiscriminada a quaisquer pesquisas a serviço dos interesses econômicos hegemônicos; nesse andar, a universidade brasileira oferecerá disciplinas como as existentes na metrópole (EUA): cursos de escotismo, defesa contra incêndios, economia doméstica e datilografia em nível de secretariado, pois já existe isso em Cornell, Wisconson e outros estabelecimentos legitimados. O conflito entre o técnico e o humanismo acaba em compromisso, a universidade brasileira se prepara para ser uma “multiversidade”, isto é, ensina tudo aquilo que o aluno possa pagar. A universidade, vista como prestadora de serviços, corre o risco de enquadrar-se numa “agência de poder”, especialmente após 68, com a Operação Rondon e sua aparente democratização, só nas vagas; funciona como tranqüilidade social. O assistencialismo universitário não resolve o problema da maioria da população brasileira: o problema da terra.

    A universidade brasileira, nos últimos 15 anos, preparou técnicos que funcionaram como juízes e promotores, aplicando a Lei de Segurança Nacional, médicos que assinavam atestados de óbito mentirosos, zelosos professores de Educação Moral e Cívica garantindo a hegemonia da ideologia da “segurança nacional” codificada no Pentágono.

    O problema significativo a ser colocado é o nível de responsabilidade social dos professores e pesquisadores universitários. A não preocupação com as finalidades sociais do conhecimento produzido se constitui em fator de “delinqüência acadêmica” ou da “traição do intelectual”. Em nome do “serviço à comunidade”, a intelectualidade universitária se tornou cúmplice do genocídio, espionagem, engano e todo tipo de corrupção dominante, quando domina a “razão do Estado” em detrimento do povo. Isso vale para aqueles que aperfeiçoam secretamente armas nucleares (M.I.T.), armas químico-biológicas (Universidade da Califórnia, Berkeley), pensadores inseridos na Rand Corporation, como aqueles que, na qualidade de intelectuais com diploma acreditativo, funcionam na censura, na aplicação da computação com fins repressivos em nosso país. Uma universidade que produz pesquisas ou cursos a quem é apto a pagá-los perde o senso da discriminação ética e da finalidade social de sua produção – é uma multiversidade que se vende no mercado ao primeiro comprador, sem averiguar o fim da encomenda, isso coberto pela ideologia da neutralidade do conhecimento e seu produto.

    Já na década de 30, Frederic Lilge [2] acusava a tradição universitária alemã da neutralidade acadêmica de permitir aos universitários alemães a felicidade de um emprego permanente, escondendo a si próprios a futilidade de suas vidas e seu trabalho. Em nome da “segurança nacional”, o intelectual acadêmico despe-se de qualquer responsabilidade social quanto ao seu papel profissional, a política de “panelas” acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituem no metro para medir o sucesso universitário. Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o conhecimento a quem e para que serve? Enquanto este encontro de educadores, sob o signo de Paulo Freire, enfatiza a responsabilidade social do educador, da educação não confundida com inculcação, a maioria dos congressos acadêmicos serve de “mercado humano”, onde entram em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais.

    Estritamente, o mundo da realidade concreta e sempre muito generoso com o acadêmico, pois o título acadêmico torna-se o passaporte que permite o ingresso nos escalões superiores da sociedade: a grande empresa, o grupo militar e a burocracia estatal. O problema da responsabilidade social é escamoteado, a ideologia do acadêmico é não ter nenhuma ideologia, faz fé de apolítico, isto é, serve à política do poder.

    Diferentemente, constitui, um legado da filosofia racionalista do século XVIII, uma característica do “verdadeiro” conhecimento o exercício da cidadania do soberano direito de crítica questionando a autoridade, os privilégios e a tradição. O “serviço público” prestado por estes filósofos não consistia na aceitação indiscriminada de qualquer projeto, fosse destinado à melhora de colheitas, ao aperfeiçoamento do genocídio de grupos indígenas a pretexto de “emancipação” ou política de arrocho salarial que converteram o Brasil no detentor do triste “record” de primeiro país no mundo em acidentes de trabalho. Eis que a propaganda pela segurança no trabalho emitida pelas agências oficiais não substitui o aumento salarial.

    O pensamento está fundamentalmente ligado à ação. Bergson sublinhava no início do século a necessidade do homem agir como homem de pensamento e pensar como homem de ação. A separação entre “fazer” e “pensar” se constitui numa das doenças que caracterizam a delinqüência acadêmica – a análise e discussão dos problemas relevantes do país constitui um ato político, constitui uma forma de ação, inerente à responsabilidade social do intelectual. A valorização do que seja um homem culto está estritamente vinculada ao seu valor na defesa de valores essenciais de cidadania, ao seu exemplo revelado não pelo seu discurso, mas por sua existência, por sua ação.

    Ao analisar a “crise de consciência” dos intelectuais norte-americanos que deram o aval da “escalada” no Vietnã, Horowitz notara que a disposição que eles revelaram no planejamento do genocídio estava vinculada à sua formação, à sua capacidade de discutir meios sem nunca questionar os fins, a transformar os problemas políticos em problemas técnicos, a desprezar a consulta política, preferindo as soluções de gabinete, consumando o que definiríamos como a traição dos intelectuais. É aqui onde a indignidade do intelectual substitui a dignidade da inteligência.

    Nenhum preceito ético pode substituir a prática social, a prática pedagógica.

    A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se tornam os fins, os fins formativos são esquecidos; a criação do conhecimento e sua reprodução cede lugar ao controle burocrático de sua produção como suprema virtude, onde “administrar” aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”.

    A alternativa é a criação de canais de participação real de professores, estudantes e funcionários no meio universitário, que oponham-se à esclerose burocrática da instituição.

    A autogestão pedagógica teria o mérito de devolver à universidade um sentido de existência, qual seja: a definição de um aprendizado fundado numa motivação participativa e não no decorar determinados “clichês”, repetidos semestralmente nas provas que nada provam, nos exames que nada examina, mesmo porque o aluno sai da universidade com a sensação de estar mais velho, com um dado a mais: o diploma acreditativo que em si perde valor na medida em que perde sua raridade.

    A participação discente não constitui um remédio mágico aos males acima apontados, porém a experiência demonstrou que a simples presença discente em colegiados é fator de sua moralização.

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